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Toni, cuidado com a selva

Em eleição, todos falam em lealdade até a hora de contar votos, partidos e segundos de televisão.

Toni Rodrigues está descobrindo isso da pior maneira.

Participar de uma eleição é entrar numa guerra. Há o combate contra o adversário, a violência da exposição pública, o desgaste financeiro e a pressão psicológica. O candidato entrega seu nome, sua família, sua reputação e parte da própria vida. Quando tudo termina, eleito ou derrotado, ninguém volta igual.

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Mas existe algo pior do que perder para o adversário: ser retirado da batalha pelo próprio exército.

Durante meses, Toni percorreu o Piauí, ajudou a organizar o PL, defendeu a candidatura própria e colocou o rosto na rua. Assumiu críticas e riscos que muitos preferiram observar do conforto do gabinete. Agora, quando a eleição se aproxima e o tempo de televisão passa a valer mais do que discursos sobre renovação, ele pode ser informado de que seu projeto deixou de ser conveniente.

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Na política, a gratidão costuma durar até a próxima pesquisa.

O que está em jogo não é apenas o destino eleitoral de Toni. É a lógica de um sistema que usa pessoas como andaimes: servem durante a construção, mas precisam desaparecer antes da fotografia da obra pronta.

A política piauiense tem uma cadeia alimentar bem definida. No topo está Ciro Nogueira, empenhado em montar a composição mais útil à própria reeleição. Depois vêm os candidatos, dirigentes e aliados que dependem do poder partidário, das alianças e dos restos deixados à mesa.

Todos comem depois de Ciro.

Toni acreditou que estava ajudando a construir uma alternativa. Pode descobrir que, para os grandes operadores, ele nunca foi tratado como dono do projeto. Era uma peça provisória. Útil para organizar o partido, percorrer municípios, ocupar espaços e sustentar uma candidatura enquanto as negociações maiores não eram concluídas.

Agora surgiu Joel Rodrigues.

Joel tem o Progressistas, a confiança de Ciro e a conveniência de uma aliança que pode reunir partidos e ampliar o tempo de televisão. Toni tem uma pré-candidatura, uma história construída e o incômodo hábito de acreditar que compromissos devem valer alguma coisa.

Na selva política, o papel assinado vale menos do que a fome do predador.

Ciro nem precisa atacar Toni diretamente. O poder raramente suja as próprias mãos. Para isso existem os que vivem alguns degraus abaixo, sempre dispostos a provar fidelidade ao chefe. Se Toni resistir, serão eles que o chamarão de individualista, vaidoso, desagregador ou despreparado para compreender a “realidade política”.

É assim que funciona o descarte: primeiro retiram o espaço; depois culpam o descartado por não aceitar sorrindo.

Toni é jornalista e intelectual. Seu instinto será argumentar. Lembrará o esforço feito, as conversas mantidas, os compromissos assumidos e a importância de oferecer uma candidatura diferente ao eleitor.

Mas argumentos têm pouca serventia numa cadeia alimentar.

Quanto mais Toni explicar, mais será atacado. Não necessariamente por Ciro, mas pelos animais menores que esperam pelos ossos deixados depois da refeição. Gente que ontem o aplaudia poderá amanhã explicar, com a solenidade dos convertidos, por que sua retirada é indispensável para salvar o Piauí.

A primeira ligação será para pedir compreensão.

A segunda, de solidariedade, talvez nunca venha.

Toni corre o risco de ficar sozinho porque a política se aproxima dos fortes e se afasta rapidamente dos feridos. Os mesmos que o procuravam quando ele tinha candidatura, audiência e utilidade poderão descobrir compromissos urgentes quando ele precisar de apoio.

Ainda assim, existe algo que não pode ser retirado numa reunião partidária: a dignidade de dizer não.

Toni tem o direito de defender sua candidatura. Não por vaidade, mas porque um partido que se apresentou ao eleitor como alternativa não pode trocar suas convicções por minutos de televisão sem sequer explicar a mudança. Não se constrói renovação repetindo os métodos mais antigos da política.

O PL pode decidir apoiar Joel. Partidos fazem alianças. Isso é legítimo. O que não é legítimo é usar um homem durante meses e depois tratá-lo como um inconveniente administrativo.

A maneira como uma organização se desfaz de alguém revela mais sobre ela do que todos os seus discursos.

Toni talvez não tivesse estrutura para vencer. Talvez sua candidatura fosse difícil. Mas o eleitor é quem deveria decidir isso. A urna existe justamente para separar projetos viáveis de sonhos pessoais.

Impedir um candidato de chegar à urna não é derrotá-lo.

É silenciá-lo.

A selva não reconhece carinho, dedicação ou lealdade. Reconhece força. Toni fez um afago na fera e agora percebe os dentes.

Resta saber se aceitará a mordida em silêncio.

Ou se, pela primeira vez, alguém decidirá lembrar aos donos da selva que até os animais feridos podem reagir.

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