
Assuma sua responsabilidade, senador
O demônio não chegou ao Brasil com chifres, fumaça e cheiro de enxofre.
Chegou pelo celular.
Vestiu a camisa do time, contratou influenciadores, apareceu no intervalo do futebol e prometeu dinheiro fácil. Chamaram-no de entretenimento. Deram-lhe um nome moderno, curto, simpático: bet.
Agora ele está solto.
As apostas invadiram o orçamento das famílias, disputam dinheiro com o supermercado, o aluguel, a farmácia e a prestação atrasada. Segundo estudo da CNC, cerca de R$ 143 bilhões deixaram de circular no comércio varejista em pouco mais de três anos. É como apagar dois Natais das lojas brasileiras.
O dinheiro não desapareceu. Mudou de bolso.
Saiu do pequeno comércio, da mesa das famílias e da economia real para alimentar plataformas construídas sobre uma certeza matemática: no fim, a casa sempre ganha.
O estrago não é apenas financeiro. O jogo problemático produz depressão, separações, endividamento, perda de emprego e desespero. O IEPS estima em R$ 38,8 bilhões anuais os danos sociais associados às apostas. Até as igrejas começaram a perceber que o novo demônio não precisa mais entrar pela porta do templo. Ele já está no bolso dos fiéis.
E como esse mal ganhou espaço político?
Não apareceu por geração espontânea.
Em 2014, Ciro Nogueira apresentou um projeto para legalizar jogos de azar presenciais e on-line em todo o território nacional. Defendeu que a proibição era ineficaz, que a regulamentação produziria empregos e que o Estado arrecadaria bilhões.

O projeto foi arquivado e não se tornou a lei atual. Outros congressistas, outros governos e outros interesses abriram as portas seguintes. A legalização das apostas esportivas veio em 2018. A ampliação para os jogos on-line, em 2023.
A responsabilidade, portanto, é coletiva.
Mas Ciro não pode posar de estranho diante da criatura.
Quem foi pioneiro na defesa de uma ideia não pode reivindicar apenas os empregos prometidos, os impostos arrecadados e as fotografias ao lado dos empresários. Precisa também olhar para o endividamento, para o comércio esvaziado e para as famílias destruídas.








