
Teresina tem política climática no papel, mas falhas já resultam em morte, enxurradas e colapso urbano
AUSÊNCIA DE GESTÃO
A política climática de Teresina existe. Está formalizada no Plano de Ação Climática do município, elaborado no âmbito da Agenda Teresina 2030 e alinhado a diretrizes nacionais e internacionais. No entanto, não funciona. E os efeitos já se impõem de forma concreta na cidade.
Em menos de 48 horas, três episódios distintos revelaram o mesmo problema. Um homem de 51 anos morreu após ser arrastado pela enxurrada e sugado por um bueiro. Uma cratera se abriu ao lado do Riverside Shopping depois de uma falha na drenagem subterrânea. Em diferentes pontos da cidade, ruas voltaram a alagar, repetindo um padrão já conhecido pela população. Não se trata de coincidência. Trata-se de estrutura, falta de prevenção.
O diagnóstico já havia sido feito pelo Tribunal de Contas do Estado do Piauí. Um levantamento elaborado pela Corte administrativa apontou que Teresina dispõe de arcabouço institucional para enfrentar as mudanças climáticas, mas não consegue transformar o planejamento em ação.
A governança alcança nível intermediário, enquanto as políticas públicas e o financiamento permanecem em patamar baixo. O próprio relatório registra a existência de uma dissonância entre o que se projeta e o que efetivamente chega à sociedade
A morte registrada durante as chuvas expõe essa lacuna. O episódio ocorreu em área com histórico de alagamentos e ausência de sinalização adequada. O sistema de drenagem falhou. A água ocupou a rua. O risco era visível. A tragédia, previsível.
“A ausência de implementação adequada das ações de mitigação, adaptação e financiamento climático representa riscos institucionais e operacionais significativos”, alerta o diagnóstico feito pela Corte de Contas.
No plano técnico, o relatório aponta que não há políticas efetivas de adaptação em áreas críticas. Também não existem mecanismos consolidados de monitoramento ou transparência das ações climáticas
O colapso não se limita à superfície. A abertura da cratera na zona Leste revela a fragilidade do sistema subterrâneo. O rompimento da rede de drenagem comprometeu a estrutura da via e interrompeu o tráfego. O problema não era novo. Já havia registros anteriores no mesmo ponto. A recorrência indica ausência de correção estrutural.
O levantamento do TCE registra que o planejamento urbano não incorpora de forma consistente os riscos climáticos. A integração entre setores é limitada e não há articulação eficaz entre as áreas responsáveis
Quando essas falhas se somam, o resultado aparece no limite. A cidade não apenas alaga ou cede. Ela expõe seus habitantes ao risco extremo. A morte do homem arrastado pela enxurrada é a expressão mais grave desse processo.
O relatório também aponta a inexistência de políticas voltadas a grupos vulneráveis e a ausência de sua participação nas decisões relacionadas ao clima
A consequência é direta. A população permanece desprotegida diante de eventos nem tanto imprevisíveis. O problema foi identificado. A estrutura permanece.
Em Teresina, a política climática cumpre seu papel no papel. Na cidade real, a sequência se repete. O subterrâneo cede. A superfície alaga. No extremo, a cidade parece matar. Mas, na verdade, é falta de gestão.








