
Silvio Mendes e o seu jeitinho de culpar o trabalhador que trocou o ônibus por carro ou moto
O transporte público de Teresina é ruim. Quem admite isso é o próprio prefeito Silvio Mendes. Mas, ao explicar a crise enfrentada pelo sistema, o gestor encontrou uma justificativa curiosa: parte do problema estaria justamente nos teresinenses que, ao longo dos anos, compraram motos e carros e deixaram de andar de ônibus.
Na avaliação apresentada pelo prefeito, o transporte coletivo foi perdendo passageiros e, consequentemente, receita. Segundo Silvio, quem conseguiu comprar uma moto ou um carro deixou de utilizar os ônibus, provocando um esvaziamento do sistema e contribuindo para a redução da arrecadação.
A explicação, porém, deixa de fora uma pergunta fundamental: por que tantos teresinenses desistiram do ônibus?
É difícil tratar a compra de um veículo próprio apenas como causa da crise sem considerar que ela também pode ser consequência de um sistema que já vinha perdendo qualidade. Para muita gente, financiar uma motocicleta ou fazer esforço para comprar um carro não significou simplesmente abandonar o transporte coletivo por conforto. Significou procurar uma alternativa diante da demora, da frota insuficiente e das dificuldades para chegar ao trabalho ou voltar para casa.
Ou seja: o passageiro pode não ter abandonado um sistema que funcionava. Pode ter procurado uma saída justamente porque o sistema deixou de funcionar para ele.
É aí que a explicação de Silvio Mendes parece inverter a ordem dos acontecimentos. O transporte público perde qualidade, o passageiro se cansa, procura outra alternativa e, no final, a saída encontrada pelo cidadão aparece no discurso como um dos fatores responsáveis pelo enfraquecimento do próprio transporte coletivo.
Quem conseguiu comprar uma moto resolveu individualmente um problema que o poder público não conseguiu resolver coletivamente.
E quem não conseguiu?
Esse continua na parada.
O cenário ganha ainda mais peso porque resolver o transporte público foi uma das principais bandeiras apresentadas por Silvio Mendes durante a campanha eleitoral de 2024. A promessa de reorganizar o sistema ajudou a alimentar a expectativa de que sua volta à Prefeitura representaria uma mudança rápida em uma das áreas mais problemáticas da capital.
Mas 2024 ficou para trás. Já estamos em 2026 e, para usuários ouvidos pela coluna, a mudança prometida ainda não chegou às paradas. Alguns relatam, inclusive, a percepção de que o serviço piorou, em vez de avançar na velocidade esperada.
A frustração chegou a produzir uma provocação entre passageiros ouvidos pela coluna: afinal, mudou mesmo o prefeito ou Dr. Pessoa continua administrando Teresina?
A comparação é carregada de ironia, mas revela um sentimento que merece atenção. Silvio Mendes foi eleito justamente apresentando-se como alternativa à administração anterior e prometendo enfrentar problemas que marcaram a gestão de Dr. Pessoa. Quando o cidadão olha para a parada e continua encontrando dificuldades semelhantes, é natural que passe a comparar a promessa de mudança com aquilo que efetivamente encontra nas ruas.
Agora, Silvio afirma que o “sofrimento” de quem espera pelo ônibus está com os dias contados.
O prefeito anunciou que a Prefeitura pretende adquirir 100 ônibus novos por meio de uma operação de aproximadamente R$ 100 milhões, além de complementar a frota com recursos municipais. Segundo ele, o planejamento trabalha com algo entre 150 e 169 veículos, todos climatizados.
Silvio também reconheceu que somente colocar ônibus novos nas ruas não será suficiente. A Prefeitura terá de investir em paradas, terminais e na reformulação do próprio sistema.
E marcou uma data: 14 de setembro.
É quando promete apresentar à população como será o novo transporte coletivo de Teresina.
A promessa é importante e, se concretizada, poderá representar uma mudança para milhares de pessoas. Mas, depois de quase dois anos desde a campanha de 2024, a população tem o direito de cobrar mais do que novos anúncios.
Também é preciso tomar cuidado para não colocar sobre o passageiro uma responsabilidade que pertence, antes de tudo, ao poder público e aos responsáveis pela operação do sistema.
O trabalhador que comprou uma moto porque cansou de esperar ônibus não criou a crise do transporte.
O trabalhador que financiou um carro para conseguir chegar no horário ao emprego não desmontou o sistema.
E o passageiro que deixou de utilizar um serviço que considerava ruim não pode ser transformado em explicação conveniente para o enfraquecimento desse mesmo serviço.
Se o transporte coletivo perdeu passageiros, talvez seja necessário perguntar menos por que as pessoas compraram motos e carros e mais por que elas deixaram de acreditar no ônibus.
Silvio Mendes prometeu enfrentar esse problema em 2024. Estamos em 2026 e ele agora diz que o sofrimento está com os dias contados.
Que venha a solução.
Porque o trabalhador teresinense já esperou tempo demais — na promessa e na parada de ônibus.









