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Os fantasmas no palanque de Joel Rodrigues

Talvez Flávio Nunes de Sousa, autor de “Casca de Bala”, não imaginasse que uma música sobre amizade e vaquejada terminaria convertida em estratégia eleitoral. Ele escreveu sobre companheirismo. Os marqueteiros ouviram um programa de governo.

Foi assim que Joel Rodrigues e Ciro Nogueira atravessaram a pré-campanha: um apresentando o outro como seu “casca de bala”. Joel, candidato ao Governo do Piauí. Ciro, tentando o terceiro mandato no Senado. Dois amigos, duas candidaturas e uma fidelidade anunciada como indissolúvel.

Foto: Reprodução

O problema é que a transferência de imagem funciona nos dois sentidos. Na política, não se recebem apenas os votos e as virtudes do aliado. Recebem-se também suas perguntas incômodas.

No primeiro debate entre os candidatos ao governo, realizado pela Band Piauí, surgiu um terceiro personagem nessa amizade: Daniel Vorcaro. Formou-se um curioso triângulo entre Joel, Ciro e o dono do Banco Master.

Foto: reproduçãoCiro Nogueira reduziu participação em empresa que, segundo a PF, recebeu mesadas de Vorcaro

Triângulos costumam ser afetivos. Aquele era político.

Toda vez que Gustavo Henrique “mordia” Joel sobre sua relação com Ciro, Vorcaro aparecia. Era como o velho Bubbaloo, sucesso das décadas de 1980 e 1990: apertava-se Joel por fora e o Banco Master surgia por dentro.

“Vamos discutir ética na política”, insistia Gustavo Henrique.

Joel preferiu não mastigar o assunto. Não respondeu sobre as investigações envolvendo Ciro -  que nega qualquer irregularidade - nem explicou até onde iria sua fidelidade ao senador num eventual governo. 

A questão não era criminal. Investigação não é condenação. A pergunta era estritamente política: Joel governaria com Ciro ou para Ciro?

Há uma diferença considerável entre as duas preposições.

Em 2012, num debate contra Elmano Férrer, o saudoso Firmino Filho resumiu uma das acusações mais devastadoras que podem ser dirigidas a um candidato: “Você é gente boa. O problema é que você não manda, é mandado”.

Gustavo Henrique chegou perto, mas não fez a pergunta decisiva: se Joel vencer, quem realmente mandará?

Joel não é um desconhecido fabricado em laboratório. Foi quatro vezes prefeito de Floriano, tem trajetória própria e recebeu votação expressiva na disputa pelo Senado em 2022. É justamente por possuir biografia que precisa evitar a imagem de apêndice.

O piauiense pode até aceitar alianças, composições e compromissos partidários. O que não deseja é um mandato por procuração: votar num candidato e descobrir, depois, que elegeu outro.

É nesse ponto que Ciro começa a aparecer como um fantasma na campanha de Joel. Mesmo quando não está no estúdio, entra no debate. Quando Joel tenta falar de si, a sombra do senador chega primeiro.

Mas fantasmas precisam de um lugar para assombrar. Precisam de uma casa ou, no caso da política, de um palanque. A candidatura de Joel oferece a Ciro um endereço seguro para suas aparições.

Se Joel vencer o governo, Ciro traria para o Piauí fantasmas como Vorcaro para assombrar o Karnak? Se não vencer, o projeto ainda poderá concentrar os votos da oposição, proteger a candidatura de Ciro ao Senado e impedir que uma nova liderança ocupe esse espaço político. Não é necessariamente conspiração. É apenas a velha gramática do poder.

Joel não precisa romper com Ciro. Precisa provar que consegue contrariá-lo. Não precisa condená-lo antecipadamente. Precisa demonstrar que não carregará para dentro do Palácio de Karnak todos os compromissos e fantasmas do aliado.

Quem não conhece a política piauiense pode até se assustar. Quem conhece sabe que os fantasmas locais costumam ter nome, sobrenome, partido e excelente trânsito em Brasília.

E, convenhamos, há alguma diversão nisso tudo.

Mas Joel deveria ter cuidado com o Bubbaloo. O velho chiclete era ótimo para produzir bolhas, fazer barulho e chamar atenção. O problema é que perdia rapidamente o sabor.

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