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A facada contra Bolsonaro em 2026

A neutralidade do Centrão raramente é neutra. É, quase sempre, uma preferência adiada, ou uma prudente recusa em embarcar num projeto cujo destino ainda não está claro.

A decisão da União Progressista, federação formada por PP e União Brasil, de não aderir nacionalmente à candidatura de Flávio Bolsonaro representa mais do que a perda de dois partidos. Flávio perdeu a ponte que tentava construir entre o bolsonarismo e o centro político.

Ciro Nogueira era um dos principais engenheiros dessa aproximação. Recuou. A cúpula da federação preferiu liberar os diretórios estaduais e concentrar recursos na eleição de deputados e senadores. O objetivo é conhecido: ampliar a bancada e chegar forte ao próximo governo, seja qual for o vencedor.

A primeira vítima desse cálculo foi Tereza Cristina. A senadora reunia atributos que faltavam à chapa de Flávio: prestígio no agronegócio, trânsito no centro e uma imagem menos ideológica. Era a vice capaz de ampliar a candidatura sem constranger sua base. A neutralidade do PP fechou essa porta.

Foto: Reprodução

Flávio terminou escolhendo Alfredo Gaspar, deputado do próprio PL. Gaspar tem biografia e discurso próprios, mas sua escolha não amplia a coligação. Organiza o campo já conquistado. É uma solução defensiva para uma candidatura que precisava de expansão.

O segundo prejuízo é material. Sem PP e União Brasil, Flávio terá menos tempo de propaganda no rádio e na televisão do que Lula. Com a adesão dos grandes partidos do centro, poderia ter construído a maior vitrine eleitoral da disputa. Isolado no PL, perde alcance justamente entre os eleitores que não vivem permanentemente nas redes sociais. [As projeções indicavam que uma aliança ampla poderia quase dobrar sua presença no horário eleitoral.

Também perde capilaridade. A neutralidade nacional permite que os diretórios façam suas próprias escolhas. No Nordeste, onde Lula conserva força, candidatos do PP e do União Brasil poderão evitar o bolsonarismo para proteger seus mandatos. Nos estados, cada liderança apoiará o presidenciável que lhe oferecer menor risco e maior conveniência.

O centro político não rompeu com Flávio por razões doutrinárias. O Centrão não costuma sofrer crises ideológicas. Sofre crises de expectativa.

A relação entre Flávio e Ciro já vinha desgastada. Quando Ciro foi atingido pelas investigações relacionadas ao Banco Master, Flávio adotou distância pública. O presidente do PP interpretou o gesto como abandono. Depois disso, a antiga disposição de apoiar o candidato do PL foi substituída pela neutralidade.

Flávio respondeu no terreno em que também possui poder: a disputa pelo Senado. Na relação de candidatos apoiados, incluiu Arthur Lira, mas deixou Ciro de fora. No Piauí, priorizou Tiago Junqueira, candidato do PL e adversário direto do presidente do PP.

A mensagem foi entregue. Mas retaliação não substitui aliança.

Apoiar um adversário de Ciro no Piauí pode aumentar as dificuldades do senador em sua reeleição. Não devolve a Flávio o tempo de televisão perdido, a vice desejada ou os palanques regionais que deixou de controlar.

Ciro tampouco se tornou aliado de Lula. Apenas deixou de ser o garantidor de Flávio junto ao centro. Pretende eleger uma bancada numerosa e preservar liberdade para negociar com o governo que nascer das urnas. É a prática habitual de um grupo político que prefere participar do poder a testemunhá-lo de longe.

Flávio ainda conserva o eleitorado bolsonarista e pode chegar competitivo ao segundo turno. Seu problema está além dessa fronteira. Eleições presidenciais não são vencidas apenas pela fidelidade dos convertidos, mas pela capacidade de reduzir resistências e atrair os eleitores que ainda hesitam.

Era para isso que serviriam Ciro, Tereza Cristina e a União Progressista.

Ao perder os três, Flávio não perdeu somente uma coligação. Perdeu o instrumento que poderia apresentar sua candidatura como algo maior do que o próprio bolsonarismo.

Na política, o isolamento raramente começa quando os adversários se unem. Começa quando os antigos aliados descobrem que podem sobreviver sem você. 

Metaforicamente, foi mais uma facada. Desta fez no filho de Bolsonaro.  Desta vez, política. Novamente pela frente. Agora Por um aliado: Ciro Nogueira.

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