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Nome da direita, Eduardo Girão assina denúncia contra Ciro Nogueira no Conselho de Ética

A denúncia que leva o caso Banco Master ao Conselho de Ética do Senado contém um componente político que amplia o peso do episódio: o documento contra o senador Ciro Nogueira (PP-PI) está assinado por Eduardo Girão (Novo-CE), um dos parlamentares mais identificados com a direita conservadora no Congresso Nacional.

A iniciativa não parte, portanto, de um adversário da esquerda, mas de um senador situado no mesmo campo ideológico mais amplo de Ciro Nogueira. Girão construiu o mandato em torno de pautas conservadoras e se apresenta como defensor da família, da vida desde a concepção e do combate às regalias parlamentares. Ciro, por sua vez, preside nacionalmente o Progressistas, foi ministro-chefe da Casa Civil de Jair Bolsonaro e se tornou um dos principais articuladores políticos da direita brasileira.

Foto: Reprodução

A origem da denúncia não comprova as acusações, mas altera sua dimensão política. Ao nascer dentro da própria direita, a iniciativa reduz o espaço para que o caso seja interpretado exclusivamente como uma ofensiva ideológica de grupos adversários.

A denúncia ético-disciplinar, datada de 7 de agosto de 2026, é apresentada conjuntamente por Girão e pelo advogado Sebastião Coelho da Silva. A última página contém a assinatura digital do senador cearense.

Em 21 páginas, os autores pedem a abertura de um processo disciplinar contra Ciro Nogueira por possíveis violações ao Código de Ética e Decoro Parlamentar. Caso os indícios sejam confirmados, a peça requer a aplicação das sanções cabíveis, inclusive a perda do mandato.

Emenda atribuída ao Banco Master é o núcleo da denúncia

O principal núcleo da acusação envolve a Emenda nº 11 à Proposta de Emenda à Constituição nº 65, de 2023. Apresentado por Ciro Nogueira em agosto de 2024, o texto propunha elevar de R$ 250 mil para R$ 1 milhão, por depositante, o limite de cobertura do Fundo Garantidor de Créditos, o FGC.

O registro oficial do Senado confirma que a emenda foi apresentada por Ciro em 13 de agosto de 2024. O texto não prosperou: recebeu manifestação contrária do relator no dia seguinte e atualmente consta como prejudicado.
A suspeita apresentada na denúncia não está apenas no conteúdo da proposta, mas em sua suposta origem.
Com base em trechos de uma decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, os denunciantes sustentam que o texto teria sido produzido pela assessoria do Banco Master, encaminhado ao então controlador da instituição, Daniel Vorcaro, e posteriormente entregue em um envelope endereçado a “Ciro” na residência do senador.
Segundo a investigação da Polícia Federal reproduzida na decisão, a versão entregue pelo banco teria sido apresentada de forma integral no Senado. Depois da publicação, Vorcaro teria afirmado que o texto havia saído “exatamente como” fora encaminhado.

A denúncia reconhece que parlamentares podem manter interlocução com empresas, entidades econômicas e representantes da sociedade. O possível problema ético estaria na utilização de uma prerrogativa legislativa para atender a um interesse privado específico, especialmente se essa atuação estiver associada ao recebimento de vantagens econômicas.

Para os autores, o episódio pode representar uma possível captura da atividade parlamentar por interesses particulares. O documento pede que o Conselho de Ética esclareça se a emenda foi resultado de uma decisão legislativa independente ou se teria sido apresentada para favorecer o Banco Master.

Segundo a PF, Ciro Nogueira teria recebido outras minutas

A denúncia sustenta que a chamada “Emenda Master” poderia não ter sido um episódio isolado.
Segundo os elementos atribuídos à Polícia Federal, outros envelopes contendo minutas legislativas de interesse privado teriam circulado pela residência de Ciro Nogueira. Em um dos episódios, Daniel Vorcaro teria determinado que documentos fossem retirados do imóvel do senador e levados a um escritório para revisão.

A investigação também teria identificado uma orientação para que o transporte dos documentos não pudesse ser relacionado ao parlamentar e para que o envelope utilizado não fizesse referência ao Banco Master.

Esses fatos ainda precisam ser comprovados. Para os autores da denúncia, porém, os indícios justificam a apuração sobre a possível existência de um canal reservado para a produção e circulação de propostas legislativas de interesse do banco.
Repasses mensais e benefícios

O segundo eixo da denúncia trata das supostas vantagens econômicas e patrimoniais que teriam sido concedidas a Ciro Nogueira ou a pessoas ligadas ao senador.

O documento menciona indícios de repasses mensais inicialmente estimados em R$ 300 mil, com referências posteriores a pagamentos de R$ 500 mil. Também são citados o custeio de viagens internacionais, hospedagens, restaurantes e voos privados, além da utilização de imóvel pertencente a Daniel Vorcaro.

Outro ponto envolve a compra de 30% da Green Investimentos por uma empresa formalmente administrada pelo irmão de Ciro. A participação teria sido adquirida por R$ 1 milhão, embora estivesse avaliada, segundo a denúncia, em aproximadamente R$ 13 milhões.

A peça também aborda a distribuição de dividendos da Trinity Energias Renováveis. Pelos cálculos reproduzidos no documento, a participação societária poderia ter gerado cerca de R$ 720 mil em dividendos em um único exercício — valor próximo ao montante desembolsado para a aquisição da participação.

As informações integram uma investigação ainda em andamento. Não existe, até o momento, condenação contra Ciro Nogueira relacionada a esses fatos.

Ciro foi alvo de busca e apreensão em maio de 2026, em uma fase da Operação Compliance Zero. Segundo a decisão citada pela imprensa, a investigação apura se o parlamentar teria atuado em favor de Daniel Vorcaro em troca de vantagens econômicas indevidas.

A denúncia afirma ainda que o STF proibiu Ciro de manter contato com pessoas investigadas na operação. Os autores reconhecem que a medida cautelar não representa condenação, mas argumentam que ela demonstra a existência de elementos considerados suficientemente relevantes para justificar uma restrição judicial.

Direita questiona liderança da própria direita

A assinatura de Eduardo Girão é o elemento que confere maior significado político à denúncia.
Girão e Ciro não pertencem ao mesmo partido e mantêm perfis distintos. O senador cearense procura construir uma imagem associada ao conservadorismo de valores, à fiscalização das instituições e ao combate a privilégios. Ciro representa uma direita de maior capacidade de articulação partidária, com forte presença no Congresso e experiência no comando político do governo Bolsonaro.
Ainda assim, os dois integram o mesmo campo político mais amplo. A denúncia expõe, portanto, uma fissura dentro da direita e transforma o caso em um teste de coerência para o discurso conservador de defesa da ética e da responsabilidade pública.

Ao assinar o documento, Girão sustenta que o julgamento ético do Senado não precisa esperar uma eventual condenação criminal. A tese é que a responsabilidade parlamentar possui natureza própria e pode ser analisada independentemente das esferas penal, civil, administrativa ou eleitoral.

“Apurar não é condenar”, afirma a peça. A frase sintetiza a argumentação dos denunciantes: a presunção de inocência impede a aplicação antecipada de uma punição, mas não deve bloquear a investigação de fatos considerados graves.
O que a denúncia pede

Além da abertura do processo disciplinar, Girão e Sebastião Coelho solicitam que Ciro seja notificado para apresentar defesa prévia.

Os denunciantes também querem que o Conselho de Ética requisite ao STF, à Polícia Federal e ao Ministério Público Federal os documentos relacionados às investigações, incluindo relatórios de inteligência financeira e análises de dados telemáticos.

Ao Senado, a denúncia pede a íntegra da tramitação da Emenda nº 11, com data e hora de apresentação, eventuais metadados e documentos administrativos. Solicita ainda acesso às declarações de bens, fontes de renda e atividades econômicas entregues por Ciro Nogueira à Casa.

Caso os indícios sejam confirmados, os autores apontam três possíveis violações ao Código de Ética: abuso das prerrogativas parlamentares, percepção de vantagens indevidas e prática de irregularidade grave no exercício do mandato.
A perda do mandato aparece como a sanção máxima requerida. A própria denúncia admite, entretanto, que o Conselho poderá aplicar uma punição proporcional de menor gravidade caso entenda que os fatos não justificam a cassação.

Conselho estava sem funcionar

Quando a denúncia foi protocolada, o Conselho de Ética ainda não havia sido instalado na atual fase da legislatura. A falta de funcionamento do colegiado vinha impedindo a análise de diferentes representações contra senadores.
A situação levou o Partido Novo a recorrer ao STF para tentar obrigar o Senado a regularizar o órgão. A ministra Cármen Lúcia solicitou informações à Mesa Diretora antes de analisar o pedido.

Segundo informações divulgadas à época do protocolo, pelo menos 19 representações aguardavam análise. O impasse fazia com que pedidos envolvendo parlamentares da base governista e da oposição permanecessem sem uma decisão preliminar.

A denúncia contra Ciro, assim, também funciona como uma pressão sobre o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), de quem dependem as providências políticas e administrativas necessárias ao funcionamento regular do colegiado.

Defesa nega irregularidades

Ciro Nogueira não respondeu especificamente à solicitação feita pela Gazeta do Povo sobre a denúncia apresentada por Girão.

Em manifestações anteriores, o senador negou ter recebido pagamentos ilícitos ou praticado qualquer irregularidade. Sua defesa afirmou que ele não participou de atividades ilegais e que está à disposição das autoridades para prestar esclarecimentos.

Ciro também defendeu a legitimidade da proposta de ampliação da cobertura do FGC e chegou a anunciar que voltaria a apresentá-la ao Congresso. Sobre as acusações, declarou: “Nunca recebi nenhum valor ilícito ou cometi qualquer irregularidade”.

O senador vinculou a divulgação das investigações à proximidade das eleições e afirmou ser alvo de tentativas para prejudicar sua candidatura.

A assinatura de Eduardo Girão não comprova as acusações contra Ciro Nogueira. Torna, entretanto, mais difícil reduzir o caso a uma disputa convencional entre direita e esquerda.

A denúncia coloca a controvérsia dentro do próprio campo conservador e transfere ao Senado uma questão institucional: se um dos nomes da direita considera que os indícios são graves o suficiente para pedir uma apuração por quebra de decoro, caberá ao Conselho de Ética decidir se o caso será efetivamente investigado.

A responsabilidade de provar as acusações pertence a quem denuncia. O direito de contestá-las pertence a Ciro Nogueira. Mas a responsabilidade de não esconder o processo em uma gaveta pertence ao Senado.

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