
Ciro Nogueira, pare de envergonhar o Piauí
O Piauí tem muita coisa para mostrar ao Brasil. Tem gente trabalhando, produzindo, inovando, fazendo política séria e tentando construir uma imagem diferente de um estado que durante décadas precisou lutar contra estereótipos.
O que o Piauí não precisa é continuar aparecendo no noticiário nacional pelas páginas policiais por causa de um de seus principais representantes políticos.
Ciro Nogueira, pare de envergonhar o Piauí.
A frase é dura. Mas também é difícil ignorar a sucessão de episódios que, ao longo dos últimos anos, transformaram o senador piauiense em personagem recorrente de manchetes nacionais relacionadas a investigações, denúncias e operações policiais.
O episódio mais recente talvez seja também o mais simbólico.
A Polícia Federal encontrou na churrasqueira da residência de Ciro, em Brasília, um rascunho intitulado “Câmara”, com nomes que os investigadores associaram a deputados e números que podem representar valores. Segundo relato registrado pela PF, uma funcionária afirmou que os documentos haviam sido entregues pelo senador para serem queimados porque seriam antigos ou sem serventia. Os papéis não foram queimados e agora fazem parte da investigação. A própria PF ressalta que o significado das anotações ainda precisa ser esclarecido.
Era para virar cinza.
Virou manchete.
E não em um pequeno veículo do interior. O assunto atravessou o país e chegou às páginas de alguns dos maiores jornais, revistas, portais e emissoras do Brasil.
Mas esta não é a primeira vez.
Em 2018, Ciro Nogueira apareceu no noticiário nacional no contexto da Lava Jato. A Procuradoria-Geral da República o acusou de solicitar e receber R$ 2 milhões da UTC Engenharia em troca de atuação política favorável à empreiteira. É necessário registrar: a Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal rejeitou posteriormente a denúncia por maioria de votos.
Naquele mesmo período, outro episódio colocou novamente seu nome no centro das atenções. A PGR apresentou denúncia envolvendo suspeita de embaraço a investigação, em um caso no qual se apurava uma suposta tentativa de interferir no depoimento de um ex-assessor. Em 2021, o STF também rejeitou essa denúncia, por três votos a dois, ao considerar insuficientes os elementos apresentados contra Ciro e os demais acusados.
Em 2020, outra denúncia ganhou repercussão nacional. A Procuradoria-Geral da República acusou Ciro de receber R$ 7,3 milhões em supostas propinas da Odebrecht, relacionadas, segundo a acusação, à atuação em pautas de interesse da Braskem. Anos depois, o caso também não prosperou: a própria PGR passou a sustentar ausência de justa causa e o STF rejeitou a denúncia.
Esse histórico precisa ser contado por inteiro. Acusação não é condenação. Investigação não é sentença. E denúncias rejeitadas pelo Supremo precisam ser registradas como tal.
Mas existe também uma dimensão política que nenhuma decisão judicial apaga: a repetição das manchetes.
Agora, em 2026, Ciro voltou ao centro de uma investigação de alcance nacional no caso Banco Master. A quinta fase da Operação Compliance Zero foi autorizada pelo ministro André Mendonça, do STF, a partir de pedido da Polícia Federal com aval do Ministério Público Federal. A investigação apura uma suposta atuação do senador em benefício de interesses privados de Daniel Vorcaro em troca de vantagens indevidas.
A Polícia Federal afirmou ter encontrado indícios de que Ciro teria recebido pagamentos mensais entre R$ 300 mil e R$ 500 mil, além de benefícios como viagens internacionais, hospedagens, restaurantes, voos privados e utilização de imóveis de alto padrão vinculados a Vorcaro. São alegações sob investigação, contestadas pela defesa do senador, e não fatos definitivamente julgados.
Durante as buscas, celular, tablet, documentos, veículos e outros materiais foram apreendidos. A defesa de Ciro afirmou que ele não participou de atividades ilícitas e criticou as medidas adotadas na investigação.
E então apareceu a churrasqueira.
Uma churrasqueira dentro da casa de um senador do Piauí. Papéis que, segundo uma funcionária ouvida pelos investigadores, deveriam ser queimados. Uma lista intitulada “Câmara”. Nomes. Números. Possíveis valores.
É uma cena que dificilmente desaparece da memória coletiva.
Ciro Nogueira tem direito à defesa. Tem direito ao devido processo legal. Tem direito a responder às acusações e apresentar sua versão.
Mas o Piauí também tem direito de cobrar de quem o representa nacionalmente uma coisa elementar: que o nome do estado não seja continuamente arrastado para manchetes dessa natureza.
Ciro não é um político desconhecido. Foi ministro da Casa Civil, comanda uma das maiores estruturas partidárias do país e representa o Piauí no Senado. Quanto maior o poder, maior precisa ser a responsabilidade pública.
Por isso, a cobrança não é pela condenação antecipada de ninguém.
É pela sucessão de constrangimentos.
Em quase uma década, mudam os inquéritos, mudam as operações, mudam os investigadores e mudam os personagens ao redor. Mas um nome do Piauí insiste em reaparecer no centro das manchetes nacionais.
Desta vez, a história envolve uma churrasqueira.
E talvez seja justamente essa imagem que torne tudo ainda mais incômodo.
O Piauí merece ser manchete pelo que constrói. Não por documentos que alguém teria mandado queimar.

















