
Silas critica 180graus por antecipar suposta operação, mas Encarando já vazou diversas informações da PF
A crítica feita pelo jornalista Silas Freire, do portal Encarando, ao 180graus por publicar informações sobre uma possível operação da Polícia Federal esbarra no próprio histórico editorial do veículo.
Nesta terça-feira (1º/09), Silas publicou o texto “Reportagem do 180graus sobre suposta operação causa estranheza e levanta dúvidas em plena campanha”. A coluna questiona uma reportagem publicada pelo 180graus na noite anterior sobre uma possível operação da Polícia Federal no Piauí.
O texto do Encarando pergunta qual seria o objetivo de divulgar antecipadamente informações sobre uma operação que ainda estaria no campo das possibilidades e questiona a ausência de documentação oficial que comprovasse naquele momento a existência da ação.
O problema é que uma pesquisa no próprio portal Encarando mostra que Silas Freire já adotou procedimento jornalístico semelhante em diferentes momentos: publicou informações antecipadas sobre possíveis desdobramentos de investigações da Polícia Federal amparado em fontes, interlocutores, servidores e informações de bastidores.
Não se trata de interpretação. As publicações continuam disponíveis no próprio Encarando.
15 DE DEZEMBRO DE 2025: “FONTES LIGADAS À INVESTIGAÇÃO”
Um dos exemplos mais objetivos foi publicado em 15 de dezembro de 2025.
O título da matéria era: “Operação Mãos Limpas: empresária do setor de terceirização entra no radar da Polícia Federal.”
Naquela ocasião, Silas Freire informou que uma empresária do setor de terceirização estaria despertando a atenção dos investigadores.
Qual era a origem da informação?
O próprio texto responde: “fontes ligadas à investigação”.
Segundo o Encarando, essas fontes afirmavam que a Polícia Federal havia passado a concentrar atenção na empresária depois da análise de depoimentos, documentos e material eletrônico apreendido.
A matéria foi publicada sem que existisse denúncia formal contra a pessoa mencionada. O próprio Encarando registrou essa ressalva e informou que novos depoimentos e perícias poderiam determinar a extensão futura das investigações.
Ou seja: tratava-se de uma investigação em andamento e de uma informação sobre quem poderia passar a ocupar o radar da PF, divulgada com base em fontes ligadas ao caso.
13 DE JANEIRO DE 2026: ENCARANDO ANUNCIOU POSSÍVEIS NOVOS ALVOS
O precedente mais semelhante à situação agora criticada por Silas ocorreu em 13 de janeiro de 2026.
Em sua coluna, o jornalista publicou uma nota com o título: “Operação Mãos Limpas avança e mira novos alvos em Teresina.”
O Encarando escreveu que a investigação estaria avançando silenciosamente e que, segundo informações colhidas pela coluna nos bastidores, os investigadores não descartavam novos desdobramentos.
A publicação foi além.
Informou que, em conversas reservadas, surgiam como possíveis futuros atingidos pela investigação:
- um empresário da área de comunicação;
- uma empresária do ramo de terceirização;
- e um figurão da Prefeitura de Teresina.
E há um detalhe fundamental.
O próprio texto reconhecia que não havia medidas ostensivas anunciadas contra esses possíveis alvos.
Ainda assim, o Encarando decidiu publicar a informação.
A coluna também afirmou que a investigação poderia avançar sobre contratos, relações empresariais e fluxos financeiros e concluiu que a Operação Mãos Limpas poderia produzir novas surpresas.
Portanto, naquele momento, o portal divulgou para seus leitores informações sobre possíveis futuros alvos de uma operação da Polícia Federal antes da existência de uma ação ostensiva contra eles, fundamentando-se em bastidores e conversas reservadas.
29 DE JUNHO DE 2026: ENCARANDO ANTECIPOU POSSÍVEL NOVA FASE DA PF
Outro exemplo aconteceu há pouco mais de dois meses.
No dia 29 de junho de 2026, Silas Freire publicou: “Nova fase da Operação Mãos Limpas pode influenciar cenário político para 2026.”
A própria manchete já tratava de uma fase futura e ainda não deflagrada.
Segundo o texto, havia nos bastidores da política de Teresina expectativa de uma nova etapa da Operação Mãos Limpas.
Mais uma vez, a informação era atribuída a terceiros.
O Encarando informou que interlocutores avaliavam que o aprofundamento das investigações poderia alcançar “figurões da atual administração”, caso fossem encontrados elementos nesse sentido.
A coluna chegou inclusive a projetar as consequências eleitorais que uma futura operação poderia produzir e recomendou cautela nas articulações políticas porque novos desdobramentos da Mãos Limpas poderiam alterar o cenário.
Era, portanto, uma notícia baseada na possibilidade de uma nova fase futura da Polícia Federal, sustentada por informações de interlocutores e bastidores — exatamente o tipo de abordagem que agora provoca questionamentos do próprio portal.
17 DE OUTUBRO DE 2025: SERVIDORES INFORMARAM MOVIMENTAÇÃO DA PF
Há ainda outro precedente.
Em 17 de outubro de 2025, Silas publicou na coluna uma nota intitulada: “Polícia Federal volta a circular pela Fundação Municipal de Saúde.”
Nesse caso, a informação foi atribuída a servidores da Fundação Municipal de Saúde, que teriam relatado à coluna a presença de policiais federais descaracterizados no órgão.
O próprio Encarando reconhecia não saber exatamente a razão da movimentação.
Mesmo assim, levantou publicamente a possibilidade de se tratar de continuidade de investigação anterior ou de novas frentes de investigação sobre a gestão da FMS.
Não havia naquele texto anúncio oficial de uma nova operação. Havia relatos de servidores, movimentações observadas e hipóteses sobre o que a Polícia Federal poderia estar investigando.
O QUE O 180GRAUS PUBLICOU
A reportagem que motivou a crítica de Silas foi publicada pelo 180graus em 31 de agosto de 2026, às 22h16, com o título: “Exclusivo! PF programa operação contra fornecedores do governo, alvos podem ser Felipinho e João Costa da Jurema.”
O portal afirmou ter recebido informações de que a Polícia Federal prepararia uma grande operação no Piauí para os primeiros dias de setembro.
A reportagem citou os empresários conhecidos como Felipinho e João Costa entre os nomes mencionados nas informações preliminares.

Mas o próprio 180graus fez uma ressalva expressa: informou que não havia conseguido confirmar oficialmente que os dois estivessem formalmente entre os alvos e que também não havia confirmação sobre possíveis mandados de prisão.
O veículo registrou ainda que continuaria buscando confirmação junto às autoridades e atualização à medida que surgissem informações oficiais.
FONTES SÃO PARTE DO JORNALISMO — PARA TODOS
O uso de fontes reservadas faz parte da atividade jornalística. Informações de bastidores frequentemente antecedem anúncios oficiais e permitem que veículos revelem acontecimentos de interesse público antes de sua confirmação institucional.
O próprio histórico do Encarando demonstra isso.
Silas Freire utilizou fontes, servidores, interlocutores e informações de bastidores para publicar notícias sobre investigações e possíveis movimentos futuros da Polícia Federal.
Por isso, a discussão legítima não parece estar simplesmente em publicar antes de uma operação acontecer.
A discussão pode estar na qualidade da apuração, no grau de confirmação, na identificação ou não de possíveis alvos, na oportunidade da publicação e nas salvaguardas adotadas para não transformar informação preliminar em acusação.
Nesse terreno, todos os veículos podem e devem ser cobrados pelo mesmo padrão.
Porque, se informação de fonte e antecipação de bastidor são instrumentos legítimos quando utilizados pelo Encarando, o simples uso desses mesmos instrumentos por outro veículo não pode, isoladamente, ser apresentado como algo estranho ao jornalismo.
O arquivo do próprio portal mostra isso.












