Coluna -

Ciro na corda-bamba

“A esperança dança na corda-bamba de sombrinha”, diz a canção de João Bosco e Aldir Blanc. Em 2026, quem atravessa a corda-bamba da política piauiense é Ciro Nogueira.

A travessia é difícil.

Para construir uma candidatura competitiva contra Rafael Fonteles, Ciro precisa reunir Progressistas, União Brasil e PL em torno de Joel Rodrigues. O tempo de televisão das três legendas daria à oposição uma presença relevante na campanha. O problema é que essa soma depende da retirada de Toni Rodrigues da disputa pelo governo.

Oficialmente, o PL nega qualquer desistência. Nos bastidores, porém, circula a informação de que Toni estaria sendo pressionado a abrir caminho para Joel. Se aceitar, fortalece a candidatura majoritária. Mas também pode deixar a impressão de que o PL foi reduzido a fornecedor de tempo de propaganda.

Foto: Reprodução

A primeira dificuldade está aí: unir aliados sem humilhá-los.

A segunda vem de Brasília. A federação formada por Progressistas e União Brasil enfrenta resistências internas a um apoio nacional a Flávio Bolsonaro. Em vários estados, sobretudo no Nordeste, dirigentes temem que uma vinculação direta ao bolsonarismo prejudique candidaturas locais.

Ciro conhece esse risco. Sabe que o Piauí mantém forte ligação eleitoral e afetiva com Lula. Por isso, chamou atenção o elogio feito recentemente ao presidente em São João do Piauí. O ex-ministro de Jair Bolsonaro falou em “admiração enorme” por Lula.

Pode ter sido cortesia. Mas, em política, cortesia também calcula votos.

Ciro precisa manter o PL ao seu lado sem transformar a eleição estadual em uma guerra contra Lula. Precisa continuar na oposição ao PT, mas sem afrontar um eleitorado majoritariamente simpático ao presidente. Precisa apoiar Joel contra Rafael Fonteles e, ao mesmo tempo, proteger a própria candidatura ao Senado.

É um equilíbrio delicado.

A pesquisa do Instituto Amostragem acrescentou outro problema. Ciro apareceu com rejeição de 18,21%, quase três vezes superior à registrada por Júlio César e Marcelo Castro. Rejeição não elimina uma candidatura, mas limita seu crescimento. Antes de conquistar novos eleitores, Ciro terá de convencer quem já decidiu não votar nele.

Não se deve subestimá-lo. Ciro continua sendo um dos políticos mais articulados do Piauí, com força partidária, influência nacional e relações espalhadas pelos municípios. Mas a mesma trajetória que lhe deu poder também produziu desgaste.

Quem atravessa muitos governos precisa explicar muitas alianças.

O desafio de 2026 não será apenas juntar partidos. Será dar sentido à união. Joel Rodrigues poderá ter estrutura, palanques municipais e tempo de televisão. Ainda assim, precisará apresentar um projeto de governo que vá além da oposição a Rafael Fonteles.

Enquanto os adversários discutem a composição da chapa, Rafael governa e transforma ações administrativas em imagens eleitorais. Obras, investimentos e inaugurações ocupam o espaço que a oposição ainda tenta preencher com negociação partidária.

É nesse ponto que a corda-bamba se estreita.

Ciro precisa acomodar o PL, preservar Joel, administrar a federação, evitar o confronto direto com Lula, reduzir a própria rejeição e convencer o eleitor de que tudo isso representa um projeto para o Piauí, não apenas uma operação de sobrevivência política pessoal.

Ele tem experiência para atravessar.

Mas está levando peso demais.

E, na corda-bamba, um único passo em falso pode decidir a eleição.

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