
Mendonça de Barros elogia Rafael Fonteles e Alckmin como opções para a Fazenda de Lula
O economista José Roberto Mendonça de Barros, ex-secretário de Política Econômica e sócio-fundador da consultoria MB Associados, avalia positivamente os nomes do governador reeleito do Piauí, Rafael Fonteles (PT), e do vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) para comandar o Ministério da Fazenda no quarto mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Segundo ele, ambos reúnem condições políticas para conduzir uma agenda de reorganização das contas públicas e recuperar a confiança dos agentes econômicos. Com informações do Brasil 247.

Mendonça de Barros destacou especialmente a formação técnica e a experiência administrativa de Fonteles, além do prestígio político conquistado pelo governador junto a Lula. O economista também advertiu que as primeiras decisões do novo governo serão determinantes para a trajetória dos juros, da inflação e da dívida pública.
Questionado sobre a possibilidade de Alckmin ou Fonteles assumirem a Fazenda, Mendonça de Barros respondeu positivamente e ressaltou a capacidade dos dois de estabelecer uma relação de confiança com o presidente.
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“Acho que sim. O vice-presidente Alckmin, pelo nome que tem e pelo respeito que ele comanda, precisaria ter uma equipe muito mais ampla do que a que tem hoje na área em que atua, mas ele comandaria isso com certeza”, afirmou.
Rafael Fonteles recebe elogios por formação e experiência
Ao analisar o perfil do governador piauiense, o economista destacou sua trajetória acadêmica, a experiência na administração das finanças estaduais e a atuação política durante a campanha presidencial.
“O nome do governador Fonteles apareceu de repente. Porém, ele causou e vem causando uma impressão muito boa”, declarou.
Mendonça de Barros observou que Fonteles ganhou relevância política ao participar da campanha que assegurou a reeleição de Lula, especialmente na disputa do segundo turno contra Flávio Bolsonaro (PL).
“Primeiro, porque, assim como Alckmin, conquistou um espaço de respeito com o presidente. Não sei quanto eles já eram próximos, mas, durante o segundo turno, que é um daqueles períodos condensados que marcam o resto da vida, ele seguramente foi uma das pessoas mais importantes do conjunto para dar suporte à campanha”, afirmou.
O economista também ressaltou o mestrado de Fonteles no Instituto de Matemática Pura e Aplicada (Impa), sua passagem pela Secretaria da Fazenda do Piauí e a presidência do Comitê Nacional de Secretários de Fazenda dos Estados (Comsefaz).
“Ele tem preparo profissional e traquejo político na prática. E é uma pessoa nova, uma cara nova, claramente com aquele gás da juventude”, disse.
Embora tenha afirmado que não conhece pessoalmente o governador, Mendonça de Barros relatou ter recebido avaliações favoráveis de pessoas que tiveram contato com ele.
Para o economista, a escolha de um dos dois nomes representaria uma sinalização relevante sobre as prioridades econômicas do próximo governo. Ao ser perguntado se a indicação de Alckmin ou Fonteles constituiria um bom início de mandato, respondeu: “Esse seria um sinal poderoso.”
Economista defende ajuste fiscal sem acabar com programas sociais
Mendonça de Barros considera que a principal tarefa econômica de Lula será estabelecer uma trajetória sustentável para a dívida pública. Na avaliação dele, o governo precisa apresentar um programa consistente de controle das despesas, capaz de abrir espaço para a redução dos juros ao longo dos próximos anos.
O economista reconhece, entretanto, que não seria viável promover um ajuste completo em apenas um ano. Segundo ele, o objetivo deve ser construir condições para alterar a relação entre dívida pública e Produto Interno Bruto (PIB) em um horizonte de dois ou três anos.
“O sistema não espera um ajuste que se dê em um ano, porque sabe que é impossível. O que ele espera é o compromisso com o ajuste e com uma qualidade mínima, para que, no devido tempo, em dois ou três anos, seja possível mudar a trajetória da relação dívida/PIB”, explicou.
Ele também rejeitou a ideia de que a reorganização fiscal precise resultar necessariamente no desmonte das políticas de inclusão social.
“Não é acabar com os programas sociais”, afirmou, ao defender que o governo concilie a continuidade dessas iniciativas com medidas destinadas a assegurar a sustentabilidade das contas públicas.
Congresso e Judiciário também devem participar do ajuste
Uma das principais críticas do economista está relacionada à concentração dos esforços fiscais no Poder Executivo. Mendonça de Barros defendeu que o Congresso Nacional e o Judiciário também assumam responsabilidades na contenção de despesas e na revisão de privilégios.
Na avaliação dele, não seria razoável exigir mudanças no Orçamento federal sem discutir o volume de recursos controlados pelos parlamentares por meio das emendas.
“Não é crível que haja um ajuste fiscal enquanto se mantiver essa farra inacreditável de emendas”, declarou.
O economista também questionou a estrutura remuneratória do Judiciário, defendendo uma revisão dos mecanismos que permitem pagamentos elevados no sistema de Justiça.
“Não tem como escapar do Judiciário. E vai ser muito bom para o Brasil, porque é uma vergonha o que acontece com a remuneração do Judiciário”, afirmou.
Mendonça de Barros considera que uma estratégia de reorganização fiscal precisa envolver negociações institucionais, em vez de transferir exclusivamente ao governo federal o custo político das medidas.
“O programa de ajuste fiscal tem de ser feito com os outros Poderes, e não a despeito dos outros Poderes”, acrescentou.
Revisão de despesas e continuidade da reforma tributária
Entre as medidas apontadas como necessárias, Mendonça de Barros mencionou a revisão de cadastros de benefícios, o aperfeiçoamento das regras relacionadas aos precatórios e mudanças nos mecanismos de correção das principais despesas obrigatórias.
O economista também defendeu a adoção de uma regra fiscal capaz de impedir que os gastos públicos cresçam continuamente em ritmo superior ao da economia. Para ele, será necessário avaliar alternativas ao atual arcabouço fiscal.
Outra prioridade seria a continuidade da reforma tributária sobre o consumo, cuja implementação exigirá decisões do governo ainda neste ano.
“A minha visão, que acredito ser a da maioria dos economistas, é que a reforma tributária é indispensável”, afirmou.
Segundo Mendonça de Barros, a mudança representa uma oportunidade para diminuir custos operacionais das empresas, simplificar o sistema de tributação e elevar a produtividade brasileira, embora sua implementação envolva dificuldades e incertezas.
O economista também avaliou que a estratégia fiscal do novo mandato precisará dar maior peso à revisão das despesas do que ao aumento da arrecadação, diferentemente da orientação predominante durante a gestão de Fernando Haddad no Ministério da Fazenda.
Mercado financeiro sofreu perdas após vitória de Lula
A entrevista também abordou a reação dos investidores à reeleição do presidente Lula, que contrariou as projeções predominantes no mercado financeiro antes do segundo turno.
Segundo Mendonça de Barros, muitos investidores haviam organizado suas posições considerando uma provável vitória de Flávio Bolsonaro. O resultado eleitoral provocou uma reprecificação de ativos e perdas expressivas em diferentes fundos de investimento.
O economista afirmou que as expectativas de vitória do candidato do PL levaram operadores a apostar em movimentos de valorização da Bolsa, queda dos juros futuros e determinadas posições no mercado cambial.
Com a confirmação da vitória de Lula, essas estratégias precisaram ser revistas rapidamente, ampliando a volatilidade financeira.
“Portanto, foi um banho de sangue no mercado financeiro, com prejuízos significativos em praticamente todos os tipos de fundos”, declarou.
Para Mendonça de Barros, o episódio contribuiu para aumentar o pessimismo de parte dos investidores em relação ao cenário econômico, embora essa reação também esteja associada às expectativas fiscais para o próximo mandato.
Economista alerta para crescimento fraco em 2027
Mendonça de Barros estima que a economia brasileira poderá crescer aproximadamente 1% em 2027, independentemente da orientação inicial do novo governo. A diferença, segundo ele, estará principalmente nas perspectivas para os anos seguintes.
Caso Lula apresente um programa fiscal considerado consistente, o economista acredita que a melhora das expectativas poderá favorecer a recuperação do crédito, dos investimentos e da atividade empresarial, criando condições para um desempenho mais favorável em 2028.
Por outro lado, a ausência de medidas capazes de conter a expansão da dívida pública poderia manter os juros elevados e ampliar as dificuldades financeiras das empresas.
“Se houver uma resposta razoável, ainda que o crescimento não seja muito maior do que 1%, a ponta da asa estará olhando para cima. Do ponto de vista dos negócios, isso faz toda a diferença”, afirmou.
Ele também apontou riscos internacionais, como a possibilidade de elevação dos juros nos Estados Unidos, a valorização do dólar e os efeitos de eventuais choques climáticos sobre a inflação brasileira.
Início do quarto mandato será decisivo, diz Mendonça de Barros
O economista considera que Lula terá de demonstrar, logo na formação de sua equipe, capacidade de ampliar a composição política do governo e de responder às preocupações econômicas manifestadas durante a eleição.
Na avaliação de Mendonça de Barros, o presidente não deveria restringir a escolha de seus auxiliares ao núcleo político mais próximo, mas buscar profissionais com experiência técnica, capacidade de negociação e autonomia operacional para executar as diretrizes estabelecidas pela Presidência.
Ele também argumentou que a composição do novo governo poderá indicar se Lula pretende ampliar a coalizão administrativa ou repetir o modelo adotado no início do mandato anterior.
A advertência mais enfática do economista, porém, está relacionada à necessidade de estabelecer desde o começo uma orientação clara para a política econômica.
“O que está em jogo agora é esse começo. Se errar aqui, será muito complicado conseguir consertar, porque a mensagem terá sido ruim”, concluiu.
Fonte: Brasil 247











