Artigo especial -

Da UFPI ao doutorado nos Estados Unidos: pesquisador piauiense desenvolve estudo que pode transformar o melhoramento genético de ovinos

Por Sebastian Eugênio

Artur Oliveira Rocha concluiu o doutorado na Purdue University, em Indiana, com pesquisa voltada à genética quantitativa e genômica aplicada à produção animal; trabalho busca tornar mais precisa a seleção de rebanhos nos Estados Unidos.

A trajetória do médico-veterinário Artur Oliveira Rocha começou nos corredores da Universidade Federal do Piauí (UFPI) e alcançou um dos mais tradicionais centros de pesquisa em ciência animal dos Estados Unidos. Doutor em Ciência Animal pela Purdue University, localizada em West Lafayette, no estado de Indiana, o pesquisador dedicou sua tese ao desenvolvimento de estratégias capazes de tornar mais precisa a avaliação genética de ovinos, contribuindo para a formação de rebanhos mais produtivos, saudáveis e adaptados às diferentes condições de criação.

Foto: Cedida ao 180graus Foto tirada um ano antes da formatura em Medicina Veterinária no departmento de zootecnia da UFPI
Foto tirada um ano antes da formatura em Medicina Veterinária, no Departamento de Zootecnia da UFPI.

Intitulada “Estratégias de genotipagem, métodos estatísticos e modelos para estimação de parâmetros genéticos, avaliação genética e validação de predições genômicas em populações de ovinos nos Estados Unidos”, a pesquisa reúne genética, estatística, ciência de dados e biologia molecular para aprimorar as decisões tomadas por produtores na seleção de reprodutores e matrizes.

Da infância em Teresina ao despertar para a pesquisa

Nascido em São Luís (MA), Artur mudou-se ainda criança para Teresina, onde construiu praticamente toda a sua formação acadêmica. Filho de servidores públicos e neto de uma família com forte ligação ao setor agropecuário, cresceu cercado pelo ambiente rural, fator que despertou seu interesse pelos animais e pela produção agropecuária.

Foto: Cedida ao 180graus Artur com 4 anos de idade. Onde a paixão por computadores começou jogando video games
Artur, aos 4 anos de idade. Foi nessa época que nasceu sua paixão por computadores, inicialmente por meio dos videogames.

Ao ingressar no curso de Medicina Veterinária da UFPI, imaginava seguir uma carreira ligada às ciências animais. Foi durante a graduação, porém, que descobriu sua verdadeira vocação ao perceber que poderia unir sua afinidade com matemática, estatística e análise de dados ao melhoramento genético animal.

O primeiro contato mais intenso com a pesquisa aconteceu durante a disciplina de Genética Animal, quando recebeu incentivo da então doutoranda Débora Carvalho, atualmente pesquisadora da Embrapa, para conhecer o Laboratório de Genética e Melhoramento Animal (GEMA). A partir daquele momento, passou a integrar projetos coordenados pelos professores José Elivalto Guimarães Campelo e José Lindenberg Rocha Sarmento, iniciando uma trajetória que mudaria sua carreira.

Foto: Cedida ao 180graus Artur extraindo DNA durante iniciação cientifica na UFPI
Artur extraindo DNA durante a iniciação científica na UFPI.

Formação construída entre o campo e o laboratório

Ainda na graduação, Artur atuou inicialmente como voluntário em pesquisas com caprinos Anglo-Nubianos, investigando resistência a parasitas gastrointestinais, um dos principais desafios sanitários enfrentados por pequenos ruminantes. Os finais de semana eram dedicados à coleta de dados no aprisco da UFPI e às análises laboratoriais. Paralelamente, participou de estudos com galinhas da raça brasileira Canela-Preta, realizando coleta de sangue, extração de DNA e análises genéticas.

Posteriormente, tornou-se bolsista de iniciação científica pelo PIBIC/CNPq, aprofundando pesquisas com ovinos Santa Inês, genética molecular, crescimento, características de carcaça, resistência a parasitas e métodos estatísticos aplicados ao melhoramento animal. Além da pesquisa, participou de atividades de extensão junto a produtores rurais, experiência que, segundo ele, mostrou que a ciência precisa responder às demandas reais do campo.

Foto: Cedida ao 180graus Pesagem de femea Santa Inês 2020
Pesagem de uma fêmea da raça Santa Inês, em 2020.

Durante esse período, também atuou como monitor das disciplinas de Genética Animal, Melhoramento Animal e Clínica de Pequenos Ruminantes, cursou disciplinas de pós-graduação como ouvinte e recebeu premiações por trabalhos apresentados em eventos científicos.

A pandemia adiou o sonho, mas não interrompeu a trajetória

O interesse em realizar pesquisas nos Estados Unidos surgiu ainda durante a graduação, quando conheceu o trabalho do professor Luiz Fernando Brito, docente da Purdue University e referência internacional em genética quantitativa e genômica. O plano era realizar parte do estágio obrigatório na universidade americana em 2020, mas a pandemia de Covid-19 alterou completamente os planos.

Foto: Cedida ao 180graus Artur e seu orientador Luiz Brito, recebendo o premio da Associação Americana da Ciência Animal
Artur e seu orientador, Luiz Brito, recebendo o prêmio da Associação Americana de Ciência Animal.

Com fronteiras fechadas e sucessivos adiamentos para obtenção do visto, Artur chegou a remarcar entrevistas em consulados norte-americanos no Panamá e no Chile. Mesmo diante das incertezas, iniciou as atividades do estágio de forma remota enquanto concluía a graduação na UFPI. Em 2021, formou-se em Medicina Veterinária, casou-se com Rita Filgueira e, meses depois, finalmente embarcou para os Estados Unidos.

Foto: cedida ao 180graus Foto tirada na formatura de Medicina Veterinária. A esquerda do Artur estão seus pais e a direita sua esposa Rita e sua irmã Aline
Foto tirada na formatura de Medicina Veterinária. À esquerda de Artur estão seus pais; à direita, sua esposa, Rita, e sua irmã, Aline.

Entre setembro de 2021 e agosto de 2022, atuou como pesquisador visitante na Purdue University, desenvolvendo estudos sobre estratégias de genotipagem e métodos estatísticos aplicados à avaliação genética de ovinos. O período serviu como preparação para ingressar diretamente no doutorado, sem necessidade de cursar mestrado.

Adaptação a uma nova realidade

A chegada aos Estados Unidos representou desafios que iam muito além da pesquisa. Artur precisou adaptar-se ao idioma, ao clima, à cultura, à alimentação e ao sistema acadêmico norte-americano. A decisão do orientador, professor Luiz Fernando Brito, de manter toda a comunicação do grupo em inglês acelerou sua adaptação, embora tenha tornado os primeiros meses especialmente exigentes.

Foto: Cedida ao 180graus Rita Filgueira (esquerda), Avós maternos de Artur. Foto tirada na despedida do casal antes de ir para os EUA
Rita Filgueira (à esquerda), avó materna de Artur. Foto tirada na despedida antes da viagem de Artur para os Estados Unidos.

Em agosto de 2022, iniciou oficialmente o doutorado em Ciência Animal, com concentração em genética quantitativa e genômica, sob orientação de Luiz Fernando Brito e coorientação do professor Ronald Lewis, da Universidade de Nebraska–Lincoln. Durante toda essa etapa, contou com o apoio constante da esposa, Rita Filgueira, apontada por ele como uma das principais responsáveis por ajudá-lo a enfrentar os desafios da vida acadêmica no exterior.

O que investigou a tese

O foco da pesquisa foi estudar como informações de DNA podem ser combinadas com registros genealógicos e dados produtivos para tornar mais confiável a escolha dos melhores animais para reprodução. A proposta é identificar indivíduos com maior potencial para transmitir características desejáveis, como crescimento, fertilidade, qualidade de carcaça e resistência a doenças e parasitas.

Foto: Cedida ao 180graus Artur apresentando seu projeto no estado de Iowa EUA em 2024
Artur apresentando seu projeto no estado de Iowa, nos Estados Unidos, em 2024.

Um dos principais resultados demonstrou que não basta genotipar apenas os melhores animais do rebanho. Para que as previsões genômicas sejam confiáveis, é necessário que os animais analisados representem diferentes famílias, propriedades e níveis de desempenho. Caso contrário, as avaliações podem gerar estimativas distorcidas e comprometer a seleção genética.

Outro aspecto relevante foi a identificação do impacto causado por erros de parentesco. A pesquisa mostrou que registros incorretos de paternidade podem reduzir significativamente a qualidade das avaliações genéticas, reforçando que a tecnologia não substitui a necessidade de registros precisos realizados nas propriedades rurais.

Foto: Cedida ao 180graus Artur durante a graduação trabalhando com biologia molecular e fazendo PCR do DNA
Artur durante a graduação, trabalhando com Biologia Molecular e realizando PCR de DNA.

Ao longo do doutorado, Artur trabalhou com grandes bancos de dados de ovinos provenientes de diferentes regiões dos Estados Unidos, desenvolvendo modelos estatísticos voltados à transformação dessas informações em ferramentas capazes de apoiar decisões de seleção genética.

Pesquisa conectada à realidade do produtor

O doutorado foi financiado pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos e desenvolvido em colaboração com pesquisadores de universidades americanas, cientistas do governo, representantes do Programa Nacional de Melhoramento de Ovinos dos Estados Unidos e criadores de diversas regiões do país.

Além das análises estatísticas, Artur participou de ações de extensão, produziu materiais técnicos, apresentou resultados em encontros da indústria ovina e colaborou na organização de uma conferência nacional voltada à aplicação da genética e da genômica na criação de ovinos. Também coordenou discussões com criadores da raça Suffolk e participou de reuniões técnicas em diferentes estados americanos.

Foto: Cedida ao 180graus Foto oficial do grupo tirada dentro do departmento
Foto oficial do grupo, tirada no Departamento de Zootecnia da Purdue University.

Segundo o pesquisador, uma pergunta feita por um produtor durante um encontro em Iowa marcou profundamente sua visão sobre a ciência: por que investir em testes de DNA se a avaliação tradicional já funcionava havia décadas? A partir desse questionamento, reforçou a convicção de que novas tecnologias precisam demonstrar benefícios concretos para quem as utilizará no dia a dia das propriedades.

Ao longo da formação, apresentou pesquisas e ministrou palestras em estados como Idaho, Iowa, Colorado, Arizona, Flórida, Wisconsin e Indiana, além de presidir uma sessão científica nacional sobre pequenos ruminantes durante a reunião anual da Sociedade Americana de Ciência Animal.

Foto: Cedida ao 180graus Artur na direita, seu co-orientador Ronald Lewis no Centro. Foto tirada em 2023 no Congresso Nacional de Ciência animals no estado do Novo Mexico nos EUA
Artur (à direita) e seu coorientador, Ronald Lewis (ao centro). Foto tirada em 2023, durante o Congresso Nacional de Ciência Animal, realizado no estado do Novo México, nos Estados Unidos.

Produção científica e reconhecimento internacional

Embora o doutorado tenha sido centrado nos ovinos, Artur também participou de pesquisas envolvendo caprinos, bovinos, suínos, aves e plantas. Na área de ciência de dados da Purdue University, colaborou com uma empresa farmacêutica em análises relacionadas à dispersão da Covid-19 nos Estados Unidos e com uma empresa de tecnologia agrícola no desenvolvimento de simulações e algoritmos voltados ao melhoramento de plantas.

Foto: Cedida ao 180graus Foto informal do grupo
Foto informal do grupo.

Sua formação incluiu cursos avançados na Universidade de Washington, Instituto de Tecnologia da Geórgia, Universidade da Nova Inglaterra, na Austrália, e Universidade da Geórgia. Até julho de 2026, acumulava 27 artigos científicos publicados, 14 trabalhos apresentados em congressos, quatro capítulos de livros e cinco publicações técnicas e de extensão, além de participar da orientação de estudantes de pós-graduação de diferentes países.

Durante o doutorado, conquistou o segundo lugar em uma competição científica promovida pela Sociedade Americana de Ciência Animal e foi convidado para ministrar palestras em universidades, empresas e eventos nacionais da indústria agropecuária norte-americana.

Foto: Cedida ao 180graus Artur (Centro), Luiz Brito (orientador na direita), Allan Shinckel (Integrante da banca de Doutorado na esquerda). Foto tirada no dia da defesa do doutorado
Artur (ao centro), Luiz Brito (orientador, à direita) e Allan Schinckel (integrante da banca de doutorado, à esquerda). Foto tirada no dia da defesa do doutorado.

Próxima etapa

Após concluir o doutorado, Artur foi selecionado para realizar um pós-doutorado na Universidade da Geórgia, onde dará continuidade aos estudos em genética quantitativa e genômica, aprofundando pesquisas em métodos estatísticos e computacionais voltados à avaliação genética de grandes populações animais.

Apesar da carreira internacional, afirma que pretende ampliar as colaborações com pesquisadores brasileiros. Atualmente, já mantém parcerias com a Embrapa, Universidade Federal do Piauí, Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, Universidade Federal da Bahia e Universidade de São Paulo, defendendo que o conhecimento adquirido no exterior pode fortalecer a pesquisa, formar novos cientistas e contribuir para o avanço da ovinocultura e da caprinocultura no Brasil, especialmente no Nordeste.

Foto: Cedida ao 180graus Foto tirada a pouca semanas do grupo de genetica e melhoramento da Purdue University
Foto tirada há poucas semanas do grupo de Genética e Melhoramento da Purdue University.

Ao relembrar sua trajetória, Artur destaca que tudo começou com uma oportunidade simples durante a graduação na UFPI. Para ele, o caminho até um doutorado em uma universidade de referência internacional foi construído passo a passo, sustentado pelo apoio da família, de professores, colegas, produtores rurais e da esposa, Rita Filgueira, além da disposição permanente para aprender.

Foto: Cedida ao 180graus Foto tirada na Ultima semana de Artur na Purdue University em 2026. Ao fundo o departmento de zootecnia da universidade que ele passou os últimos anos
Foto tirada na última semana de Artur na Purdue University, em 2026. Ao fundo, o Departamento de Zootecnia da universidade, onde ele passou os últimos anos.

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