Política

Camocim: prefeito foi citado · 23/03/2016 - 09h43 | Última atualização em 23/03/2016 - 10h33

EXCLUSIVO: James Bell fala pela 1ª vez sobre assassinato de radialista

Prefeito havia dito que desconhecia qualquer citação do seu nome no depoimento de pistoleiro preso


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Por Rômulo Rocha
Enviado a Martinópole (CE)

O 180 esteve em Martinópole quando de sua incursão em alguns municípios do Ceará para levantar informações sobre o caso envolvendo a morte do radialista Gleydson Carvalho, ocorrida no município litorâneo de Camocim, dentro da Rádio Liberdade FM, no dia 6 de agosto de 2015. O caso teve repercussão nacional e internacional.

Ao se procurar o prefeito James Bell - citado em depoimento de um dos pistoleiros, em sua residência, primeiramente a equipe de jornalistas que se dirigiu ao município foi atendida por uma mulher, que contatou a mãe do prefeito, e essa, por sua vez, sem qualquer contato com a reportagem, o chamou em seu quarto.

Cordial, James Bell disse que falaria sobre o caso, mas não em sua residência e sim na prefeitura.

Indicou à equipe de jornalistas um lugar para almoçar e marcou o encontro em 30 minutos.

GABINETE ESCURO
Quando a equipe chegou à sede do Executivo municipal, o prefeito já se encontrava em seu gabinete.

O 180 estava acompanhado da jornalista alemã Grit Eggrichs, que ano passado já havia marcado com o titular do Blog Bastidores uma viagem para Camocim.

- Foto retirada quando da luz acesa (Foto: Grit Eggrichs)

Apresentadora e jornalista da Rádio Nacional, da Alemanha, ela se interessou pelo caso e prepara um programa especial de 1 hora sobre a violência contra jornalistas no Brasil, tendo como principal caso o envolvendo o radialista Gleydson Carvalho.

Ao se adentrar o recinto, num dia chuvoso, o gabinete do prefeito estava escuro, com a luz apagada.

Atrás da mesa encontravam-se, como mostra a foto, James Bell e o advogado do Município, Mauro Mourão. Eles dialogavam entre si.

A conversa então se iniciou, mas James não quis gravar. Parecia já ter sido orientado. Insistiu-se então na necessidade da entrevista, e se argumentou que seria bom para o prefeito quebrar o silêncio, já que como afirmava, não tinha envolvimento com o caso.

A ideia não foi aceita. James então levantou da mesa e acendeu a luz. Durante a conversa, autorizou anotações.

O 180, para não quebrar a palavra, resolveu não fazer o uso da gravação escondida. Mas fez várias anotações sobre as perguntas que eram feitas para James Bell.

Abaixo, as respostas do prefeito para algumas das indagações. E também aquelas proferidas pelo advogado do município.

É válido lembrar que membros da família de James Bell foram denunciados por envolvimento no assassinato de Gleydson Carvalho, assim como integrantes da prefeitura de Martinópole.
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O QUE DISSE JAMES BELL...____________________-

- Quando se queria gravar sobre caso. Isso inicialmente:

“Falo aqui com vocês, numa boa. Mas gravar não vejo o por quê. (...) Não sou envolvido. Posso até ter sido investigado [no início], mas... Para você ter uma ideia, não tenho advogado constituído”.

- Sobre se tinha conhecimento de que foi citado como suposto mandante em algum depoimento dos já presos e denunciados e sobre se as denúncias podiam ainda chegar a ele:

“Gente, se tivesse [algo], já teriam me envolvido. (...) A pessoa certa para você falar é com o Herbert (delegado) e com o promotor (Evânio)”.

- Sobre se torce para Batista Dentista [tio do prefeito, apontado como contratante dos pistoleiros, que está foragido] ser preso para que o caso seja elucidado de vez:

“Torcer, eu não torço. Isso eu não vou fazer. Mas se for para prender, que prendam. Não tem problema”.

Sobre se realmente não haveria nenhum problema se Batista Dentista contasse o que realmente sabe numa suposta delação:

“(...) Não tem nenhum problema. Em momento algum”.

- Sobre se possui contato com Batista Dentista:

“Eu não tenho contato com ele”.

- Sobre quando foi a última vez que viu Batista Dentista:

“Não lembro”..

O prefeito James Bell com o outro tio, Chico Batista, que foi preso. (Foto: Divulgação)

- Sobre se ouvia a Rádio em que trabalhava Gleydson Carvalho, a Liberdade FM:

“Não tenho interesse”.

- Sobre se achava que o caso Gleydson Carvalho havia chegado ao fim:

“Não sei se chegou ao fim”.

- Sobre sua ligação com Batista Dentista.

“Não. Não tenho. Ele não morava nem aqui no município. Ele morava em Marco”.

- Sobre o assassinato de jornalistas e radialistas:

“A gente abomina. Em hipótese nenhuma se justifica”.

- Quando da insistência nas perguntas sobre o caso Gleydson...

“Deviam destacar Martinópole nesses casos que eu estou dizendo [em relação a algumas boas ações que sua administração teria feito]”. – Aqui o prefeito pediu imparcialidade da imprensa, e até elogiou o fato de estar sendo ouvido. Também protestou sobre o fato de sempre se por expressões como “tio do prefeito James Bell” e não somente o nome da pessoa acusada, quando se fazia referência aos tios Batistas. A reclamação foi interpretada como que uma forma de tentar se livrar da ligação com os familiares.

- Sobre se já tinha dado alguma entrevista como esta ou recebido jornalistas:

“Nunca. Falei uma vez com uma TV de Fortaleza. (...) Por telefone. Mas eu não tinha nada a dizer. Eu não sou envolvido”.

- Sobre as prisões e denúncias do Ministério Público contra membros da família, incluindo dois tios, e de várias pessoas ligadas à prefeitura de Martinópole:

“Não tenho nada a ver com o caso. Não tenho interesse nenhum em violência. Tanto que a população... se você andar no município, quem tem coerência... [vê isso]”. – A equipe de jornalistas andou por mais de uma hora no carro do prefeito, depois da entrevista, enquanto ele mostrava as realizações já feitas na cidade. Muitos populares o cumprimentavam. No carro também estava Mauro Monção.
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O QUE DISSE MAURO MOÇÃO – ADVOGADO DO MUNICÍPIO...

- Quando questionado sobre as denúncias de Gleydson contra a administração de James Bell, feitas na Liberdade FM:

“Não conheço que o Gleydson tenha denunciado qualquer má conduta [do prefeito]. Ele [James Bell] nunca recebeu [contra ele] qualquer conduta de improbidade administrativa”

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O 180 localizou na Vara Única de Martinópole esse processo contra Gleydson Carvalho, cujo autor era o prefeito James Bell, oriundo de um inquérito policial. O processo não foi para frente. Mas a entrada da ação na justiça é datada do dia 20 de julho de 2015, poucos dias antes da morte do radialista, no dia 6 de agosto daquele ano.

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- Sobre se havia nos autos do processo envolvendo o Caso Gleydson Carvalho alguma citação ao nome de James Bell, supostamente feita por parte de algum dos já presos, como a citação mencionada pelo pistoleiro:

“Que ele [James Bell] tenha conhecimento e eu como advogado do município, não”.

MUNICÍPIO "PACATO"
James Bell disse que governa um município pacato, e que em seu tempo de mandato só ocorreu 1 homicídio na cidade. O prefeito é pré-candidato à reeleição.

EM QUEM JAMES BELL VOTOU ÚLTIMA ELEIÇÃO
Também revelou que na última eleição majoritária votou no deputado estadual Sérgio Aguiar (PDT) e no deputado federal Danilo Fortes (PSB).

Sérgio Aguiar é marido da prefeita de Camocim, Mônica Aguiar, acusada por abuso de poder econômico.

O trio de políticos em evento público (Foto: Divulgação)

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