Eleições 2026 -

A matemática de Ciro Nogueira

Ciro Nogueira foi a Pernambuco defender uma equação eleitoral aparentemente simples. Ao comentar a força política da governadora Raquel Lyra e demonstrar confiança na eleição dos candidatos apoiados por ela ao Senado, afirmou:

“Eu nunca vi na minha vida política uma governadora com 68% de aprovação não ganhar a eleição e não eleger seus senadores,” disse o senador

Foto: Reprodução

A declaração foi feita para reforçar a candidatura de Eduardo da Fonte e sustentar a tese de que uma governadora bem avaliada possui força suficiente para conduzir seus aliados até o Senado. Em Pernambuco, portanto, a matemática de Ciro funciona assim: aprovação elevada do governo, reeleição da governadora e vitória dos dois candidatos de sua chapa. Uma espécie de efeito gravitacional do Palácio do Campo das Princesas sobre as urnas.

O problema das fórmulas políticas é que elas não respeitam fronteiras estaduais.

Se a matemática vale em Pernambuco, deveria valer também no Piauí. E, quando a equação formulada por Ciro atravessa a divisa, o resultado deixa de ser confortável para seu autor.

No Piauí, Rafael Fonteles aparece com indicadores ainda mais expressivos. Levantamento do Real Time Big Data mostrou que 79% dos piauienses aprovavam sua administração, enquanto 19% desaprovavam. Na mesma pesquisa, o governador alcançava 64% das intenções de voto e venceria no primeiro turno.

Outra pesquisa, do AtlasIntel, apontou aprovação de 66% para Rafael e intenção de voto de 64,2%. Os percentuais variam conforme a metodologia, como é natural, mas convergem no essencial: o governador lidera com ampla vantagem e possui uma base de aprovação elevada.

E quem são os candidatos ao Senado integrados à chapa de Rafael Fonteles?

Marcelo Castro e Júlio César.

As duas candidaturas foram homologadas e registradas como parte da coligação liderada pelo governador. Não se trata, portanto, de uma aproximação eventual ou de uma fotografia circunstancial. Marcelo e Júlio constituem formalmente a dupla governista para as duas vagas em disputa.

Aplicada ao Piauí, a lógica apresentada por Ciro em Pernambuco produziria uma conclusão bastante objetiva: se uma governadora com 68% de aprovação tende a eleger seus dois senadores, o que dizer de um governador que aparece com até 79% de aprovação e lidera a disputa pela reeleição com mais de 60% dos votos?

Pela matemática de Ciro, Rafael deveria eleger Marcelo Castro e Júlio César.

Nesse cálculo, o próprio Ciro ficaria fora.

É evidente que eleições não obedecem a operações matemáticas tão lineares. Aprovação de governo não se transfere automaticamente para candidatos ao Senado. O eleitor pode votar no governador e escolher senadores de grupos adversários. Pode dividir o voto, combinar alianças improváveis ou decidir com base em relações municipais, lideranças locais e avaliações pessoais.

Mas foi precisamente Ciro quem transformou a aprovação de uma governadora em argumento quase determinístico.

Se a transferência de votos não é automática, sua afirmação em Pernambuco foi mais entusiasmo partidário do que ciência eleitoral. Se é automática, ele acaba de elaborar a teoria de sua própria derrota no Piauí.

É aí que a frase se torna politicamente interessante.

Ciro é um dos mais experientes operadores da política brasileira. Conhece partidos, coligações, fundos eleitorais, estruturas municipais e correlações de forças como poucos. Não costuma desperdiçar palavras. Quando estabelece publicamente uma regra, sabe que ela poderá ser submetida ao teste da coerência.

Talvez imagine que a matemática pernambucana possua uma cláusula territorial: vale para Raquel Lyra, Eduardo da Fonte e Túlio Gadelha, mas perde validade quando chega ao Piauí. Seria uma curiosa inovação na ciência política: a transferência eleitoral com DDD.

Em Pernambuco, 68% de aprovação seriam suficientes para eleger dois senadores governistas. No Piauí, nem 79% garantiriam a eleição dos candidatos de Rafael. Lá, a popularidade do governo produziria uma onda. Aqui, inexplicavelmente, a onda pararia antes de atingir o Senado.

É possível, naturalmente, que Ciro confie em seu capital eleitoral próprio. Ele possui mandato, estrutura partidária, presença nacional e uma rede consolidada de aliados. Pesquisas recentes mostram uma disputa competitiva, e não uma eleição resolvida. O Real Time Big Data apontou Marcelo Castro com 28% e um empate numérico entre Ciro e Júlio César, ambos com 21%. Já o AtlasIntel colocou Marcelo, Ciro e Júlio em situação de empate técnico.

Portanto, a declaração de Ciro não prova que ele será derrotado. Mas revela que ele próprio reconhece o principal risco de sua candidatura: enfrentar uma chapa com dois candidatos ao Senado apoiados por um governador amplamente aprovado e favorito à reeleição.

A frase dita em Pernambuco talvez tenha sido pensada para fortalecer Eduardo da Fonte. Acabou oferecendo a Júlio César e Marcelo Castro um argumento que dificilmente poderia ser formulado com tanta precisão por um adversário.

Não é necessário acusar Ciro de incoerência. Basta fazer a pergunta:

Se uma governadora com 68% de aprovação elege seus dois senadores em Pernambuco, por que um governador com aprovação ainda maior não elegeria Marcelo Castro e Júlio César no Piauí?

Ciro pode responder que cada estado possui sua própria realidade. E estará correto. Pode afirmar que sua trajetória o torna uma exceção à regra. É uma hipótese legítima. Pode sustentar que o voto para o Senado possui autonomia em relação ao voto para governador. Também é verdade.

Mas, ao admitir qualquer uma dessas ressalvas, terá de reconhecer que a certeza apresentada em Pernambuco era menos matemática e mais conveniência.

No fundo, Ciro criou um dilema para si mesmo.

Ou sua teoria está certa, e Rafael Fonteles tem força para eleger Marcelo e Júlio.

Ou sua teoria está errada, e a declaração em Pernambuco não passou de retórica eleitoral.

As duas alternativas são desconfortáveis.

Há políticos que fazem previsões sobre os adversários. Ciro Nogueira conseguiu algo mais raro: formulou, longe de casa, uma previsão que pode alcançá-lo quando voltar.

Ele disse que nunca viu uma governadora com 68% de aprovação deixar de eleger seus senadores.

Talvez nunca tenha visto.

Mas, pela matemática que ele próprio apresentou, poderá ver no Piauí exatamente o contrário do que gostaria: um governador amplamente aprovado elegendo seus dois senadores, e deixando de fora o autor da fórmula.

Fonte: Por Fábio Sérvio

Instagram

Comentários

Canal Zap