Conto "Reminiscência", de Yêssa Cavalcante
No encontro das ruas 6 e 7 tem um senhorzinho que se senta em uma cadeira dobrável todas as noites. Ele fica lá, parado, encarando o nada como se realmente pudesse ver o tempo passar. Certo dia, quando voltava da faculdade após uma aula e um ônibus estressantes, resolvi parar por alguns segundos ao seu lado e perguntar se ele precisava de algo.
— Não, estou bem, obrigado. — ele disse.
Permaneci alguns segundos em silêncio. Eu realmente não estava com a cabeça boa naquele momento, tudo que queria era chegar em casa e tomar um banho gelado para ver se isso me afastava da rotina, mas quando me dei conta de que ir para casa era exatamente o que rotina significava, e quando vi o contraste do brilho com a pálpebra caída nos olhos daquele senhor, decidi insistir mais um pouco.
— O senhor está esperando alguém? — perguntei.
Ele olhou para mim de maneira que me fez parecer nu. Seu rosto enrugado era manchado por sinais e pelo sol. Ele não tinha a imagem da simpatia, mas também não parecia que estava me expulsando, para variar.
— Todos nós estamos, não é mesmo? — ele disse — Todos nós esperamos por algo ou alguém.
Ele não desviou os olhos, e isso me intimidou um pouco. Coloquei as mãos nos bolsos da calça e concordei levemente com a cabeça.
— O que você está esperando? — ele perguntou quando eu não disse nada.
Virei levemente a cabeça e o observei me olhar com expectativa. O que eu esperava? Bem, eu esperava chegar em casa e conseguir ler toda a terceira apostila da semana e terminar a resenha do livro da professora de ética, ao passo que queria ficar ali, comprar um lanche para aquele senhor e me certificar de que as coisas iriam ficar bem. Respirei profundamente e respondi:
— Acho que tempo.
Ele continuou me encarando, agora com um leve sorriso no rosto que me fazia sentir como se eu não soubesse de nada. Como ele não falou, continuei:
— E o senhor? O que o senhor espera?
Ele olhou para a parede do outro lado da rua.
— Tempo… — ele disse, claramente ignorando a minha pergunta — Cronos… acho que a cronologia nos mata. — ele voltou a encarar meus olhos, dessa vez com um brilho diferente — Sabe o que eu quero? Pois bem, quero que o tempo chegue ao fim.
Franzi o cenho. Não sei que resposta esperava, mas acreditava que teria mais a ver com família ou algo do tipo. Passei algum tempo analisando o velho antes de voltar a falar.
— O senhor quer morrer? — perguntei com cuidado.
Ele sorriu. Me intriguei com o som áspero de sua gargalhada.
— Longe disso. — ele disse — Eu quero viver, mas sem ter que ficar preso ao tempo.
Relaxei um pouco mais minha postura.
— Ah, mas isso todos nós queremos. — falei.
— Não. — ele afirmou — Vocês não sabem o que querem. Vocês abrem a boca para dizerem que querem mais tempo porque não sabem administrar o que tem, e tudo sempre acaba sendo insuficiente.
— Então o que eu deveria querer? — perguntei.
— Bom, que nunca tivesse existido o tempo, para início de conversa.
— Desculpa, mas não estou compreendendo.
— Ninguém compreende. — ele disse — Porque só é possível compreender o tempo quando compreendemos sua história, e isso é algo que a maioria das pessoas fogem.
— Eu estou bem aqui. — falei.
O velho me analisou como se procurasse descobrir se eu era alguém que valia o esforço. Permaneci no meu lugar indo para frente e para trás sobre meus calcanhares. Estar ali não fazia parte dos meus planos, mas já que estava, precisava chegar à completude do momento. O senhor estava na minha frente. Uma vida que esbarrou na minha. Mais uma história para me constituir. Sentei-me no chão e esperei.
— Então… você gosta de histórias. — ele comentou.
— Um pouco. — falei.
— Tudo bem, mas, só para deixar claro, isso não é uma história, é uma verdade.
*
Quando o mundo era um bebê, lá no início da sua respiração, havia o Kairós com toda a sua peculiaridade que envergonhava a perfeição. Cobria a existência como um rio que aos olhos dos homens aparentava desconexo, mas sua profundeza abrigava águas tranquilas que seguiam o fluxo na maneira que deveria seguir.
O Kairós não podia ser considerado tempo, uma vez que não havia início, meio ou fim, só havia o Existir, em sua plenitude.
O homem, aqui na Terra, pertencia ao Kairós, uma vez que era puro e inocente, e, da mesma forma, era agraciado pela ausência do fim, sendo assim, seus dias eram apenas caminhos que levavam à perfeição.
Até que a inocência foi corrompida pela ambição do saber, e o homem antes puro e inocente, passou a ser dominado pela ciência dos caminhos perigosos a serem explorados.
Um homem que conhece o mal tem o risco de cometê-lo, e essa mancha em sua essência o tornou inapto para viver submerso em uma realidade na qual o fim era desconhecido, pois enquanto há vida em um homem, há a chance do mal existir. E foi exatamente por isso que as águas tranquilas de Kairós deram lugar para que as águas passageiras de Cronos tivessem a chance de no final do dia sempre levar o lixo consigo.
O defeito é que ninguém pode controlar a correnteza. Cronos é indomável, não tem limite no que toma, arrasta tudo que encontra pela frente para um fim desgastante, até não haver mais esperanças. E assim continua, dia após dia, com a terrível certeza de que tudo que abriga um momento terá um fim.
E assim seguirá até que Kairós retome seu lugar de direito, quando toda sujeira for aniquilada a ponto de ninguém mais conhecer o sofrimento. Até que Cronos seja dominado pela inutilidade.
*
O senhor respirou fundo quando terminou a história. Era um relato interessante, elaborado. Seus olhos sempre brilhantes desenhavam cada palavra como se fizessem parte de si. Ele não parecia cansado, muito menos abalado pela idade, parecia alguém firme, como se conhecesse mistérios.
— Seria um sonho viver em um mundo assim, com o Kairós. — falei para instigá-lo, quando percebi que ele não continuaria a falar.
— Nenhum sonho consegue alcançar a grandiosidade do que se é viver a plenitude. — ele disse.
O encarei novamente, dessa vez por mais tempo. Ele parecia tão firme e ao mesmo tempo tão frágil. Se você observasse direitinho, poderia até dizer que ele tinha as marcas de Cronos em seu corpo e a marca de Kairós em seus olhos. Ele era tão convicto que parecia até que a narrativa fazia parte da sua realidade.
— E como o senhor sabe dessa história? — perguntei, intrigado pela origem de algo tão fantástico e ao mesmo tempo tão real na voz grossa daquele senhor.
— A memória também é uma sabedoria. A maior delas. — ele disse, apenas.
— O que o senhor quer dizer com isso? — perguntei.
Ele respirou fundo, pensativo, antes de responder.
— A memória é uma das duas únicas coisas que possuem o poder de desafiar o tempo. Repare, quando o Cronos exerce o seu domínio, quando ele decide limitar a vida dividindo-a em períodos de tempo que são denominados dias, quando ele faz com que cada ciclo tenha um fim, é a memória que faz com que o que passou permaneça vivo, mesmo que não exista mais.
Permaneço um tempo em silêncio, refletindo sobre suas palavras.
— O quê mais? — pergunto.
Ele franziu o cenho, levemente confuso.
— O senhor disse que a memória é uma das duas únicas coisas que podem desafiar o tempo. Qual é a segunda coisa.
— Você quer dizer a primeira. — ele disse.
Dei de ombros, sem compreender o que ele queria dizer.
— A primeira coisa que pode desafiar o tempo é quem a criou, é claro. — ele disse com convicção — quem tem Cronos e Kairós nas palmas das mãos.
Estava prestes a perguntar algo que me ajudasse a compreender melhor o que ele queria dizer quando o velho se levantou, pegou a pequena cadeira e dobrou-a. Atordoado com a rápida mudança, fiquei sem saber o que falar, pelo que acabei perguntando:
— Qual é mesmo o seu nome?
Ele sorriu levemente para mim sem dizer nada e seguiu seu caminho, ainda em silêncio.
Depois dessa noite, nunca mais o vi, ele se fora para sempre, me deixando com nada mais além dessa memória.










