
O futuro da televisão regional depende de muito mais do que audiência
Em um mercado cada vez mais multiplataforma, emissoras regionais precisam integrar programação, gestão comercial, tecnologia e relacionamento com anunciantes para construir operações sustentáveis.
Durante décadas, a audiência foi um dos principais indicadores de sucesso de uma emissora de televisão. Quanto maior a capacidade de atrair telespectadores, maior, em princípio, seu potencial de comercialização de espaços publicitários.
Esse modelo continua tendo relevância. Entretanto, as transformações no comportamento do público, a expansão das plataformas digitais e as novas expectativas dos anunciantes estão exigindo uma revisão das estratégias empresariais dos veículos de comunicação.
A televisão regional enfrenta um desafio que vai além de produzir conteúdo de qualidade e conquistar audiência: precisa desenvolver modelos de negócios capazes de transformar sua relevância em resultados financeiros sustentáveis.
Acredito que o futuro das emissoras regionais dependerá, cada vez mais, da capacidade de integrar conteúdo, estratégia comercial, tecnologia e gestão.
A audiência continua importante, mas já não explica todo o negócio
A televisão possui características que permanecem valiosas para o mercado publicitário: alcance, capacidade de mobilização, reconhecimento de marca e conexão com o público.
Nas emissoras regionais, essas características ganham uma dimensão adicional. A proximidade com a comunidade permite acompanhar acontecimentos locais, valorizar a identidade regional e estabelecer relacionamentos com empresas e instituições.
Entretanto, o anunciante também está mudando.
Hoje, muitas empresas procuram soluções que ultrapassem a exposição de uma marca em determinado horário da programação. Elas querem compreender o público alcançado, integrar campanhas em diferentes canais e avaliar os resultados de seus investimentos.
Isso exige uma mudança de mentalidade.
A emissora precisa deixar de pensar exclusivamente na venda de espaços publicitários e ampliar sua capacidade de desenvolver soluções de comunicação.
Não se trata de abandonar o modelo tradicional, mas de complementá-lo com novas possibilidades comerciais.
O departamento comercial precisa evoluir
Minha trajetória profissional no mercado de comunicação, especialmente nas áreas de publicidade, gestão comercial e desenvolvimento de negócios, ensinou-me que vender mídia exige muito mais do que apresentar tabelas de preços.
É necessário compreender o negócio do anunciante.
Uma empresa pode buscar reconhecimento de marca, aumento de vendas, fortalecimento institucional, lançamento de produtos ou expansão para novos mercados. Cada objetivo exige uma abordagem diferente.
Nesse cenário, o profissional comercial precisa atuar de maneira mais consultiva.
Em vez de oferecer apenas inserções publicitárias, deve ser capaz de construir propostas que integrem televisão, plataformas digitais, projetos especiais, ações promocionais e outras possibilidades de relacionamento com o público.
Essa transformação também exige investimento no desenvolvimento das equipes comerciais.
Conhecimento de mercado, capacidade de negociação, leitura de indicadores e compreensão dos diferentes formatos de mídia tornam-se competências essenciais.
O desafio não é apenas vender mais. É aumentar a capacidade de gerar valor para os anunciantes e construir relacionamentos comerciais duradouros.
Programação, comercial e operação precisam trabalhar juntos
Um dos problemas que podem comprometer os resultados de uma empresa de comunicação é a falta de integração entre suas áreas.
A programação trabalha para conquistar e manter o público. O comercial busca transformar essa relevância em oportunidades de receita. A operação precisa assegurar que os projetos sejam executados com qualidade, eficiência e previsibilidade.
Quando esses setores atuam isoladamente, surgem dificuldades.
O departamento comercial pode assumir compromissos que não foram adequadamente alinhados com a operação. A programação pode desenvolver projetos sem explorar todo o seu potencial comercial. E a gestão pode encontrar obstáculos para acompanhar resultados de maneira integrada.
Por isso, considero fundamental que as emissoras desenvolvam uma cultura de planejamento compartilhado.
Reuniões estratégicas, indicadores comuns, processos definidos e comunicação entre as equipes ajudam a reduzir desperdícios e melhorar a execução.
Uma emissora eficiente não é apenas aquela que produz boa programação ou possui uma equipe comercial competente. É aquela que consegue integrar essas capacidades em uma estratégia empresarial consistente.
A força regional pode ser uma vantagem competitiva
Em um ambiente dominado por plataformas globais e grandes operações nacionais de comunicação, pode parecer que os veículos regionais estão em desvantagem.
Mas existe um aspecto que merece atenção: o conhecimento do mercado local.
As emissoras regionais conhecem a dinâmica econômica de suas cidades, acompanham os acontecimentos que afetam diretamente a população e mantêm relacionamentos próximos com empresários, anunciantes e instituições.
Essa proximidade representa um ativo estratégico.
Uma emissora regional pode desenvolver projetos voltados a setores específicos da economia, valorizar iniciativas locais, promover debates relevantes e oferecer soluções publicitárias conectadas à realidade de seu mercado.
A oportunidade está em transformar esse conhecimento regional em diferenciação competitiva.
Para isso, é necessário combinar a credibilidade construída ao longo dos anos com inovação comercial e capacidade de execução.
A transformação digital exige uma nova visão de gestão
A expansão das plataformas digitais modificou profundamente a maneira como as pessoas consomem informação e entretenimento.
O público transita entre televisão, redes sociais, portais de notícias, vídeos sob demanda e diferentes dispositivos.
Diante dessa realidade, a emissora regional precisa compreender que sua relação com a audiência não termina quando determinado programa sai do ar.
O conteúdo pode alcançar novos públicos, gerar conversas, fortalecer marcas e criar oportunidades comerciais em diferentes ambientes.
Entretanto, estar presente nas plataformas digitais não é suficiente.
É necessário definir estratégias, compreender indicadores, organizar processos e desenvolver modelos de monetização compatíveis com cada canal.
A transformação digital, portanto, não deve ser tratada apenas como uma responsabilidade da equipe de tecnologia ou de redes sociais.
Ela precisa fazer parte do planejamento empresarial.
O papel da liderança nesse novo cenário
Toda transformação de modelo de negócios depende de pessoas.
Não basta investir em equipamentos, plataformas ou novos produtos comerciais se a organização não desenvolve lideranças capazes de conduzir mudanças.
Os gestores precisam compreender o mercado, estabelecer prioridades, desenvolver equipes e acompanhar resultados.
Também precisam construir uma cultura organizacional que estimule a colaboração entre áreas e a adaptação às novas demandas.
Na minha experiência, resultados sustentáveis são consequência de uma combinação entre estratégia, processos e pessoas comprometidas.
Essa lógica vale para diferentes setores empresariais, mas ganha especial importância na comunicação, onde a velocidade das mudanças exige decisões cada vez mais integradas.
O futuro da televisão regional será construído pela gestão
Não considero que a transformação digital represente necessariamente o enfraquecimento da televisão regional.
Vejo, sobretudo, a necessidade de evolução de seu modelo empresarial.
As emissoras que conseguirem fortalecer suas marcas, compreender seus anunciantes, diversificar receitas, integrar plataformas e desenvolver equipes estarão mais preparadas para enfrentar as mudanças do mercado.
A audiência continuará sendo um ativo importante. A qualidade do conteúdo permanecerá indispensável. A credibilidade seguirá como um dos maiores patrimônios de qualquer veículo de comunicação.
Mas esses elementos precisarão estar conectados a uma gestão capaz de transformá-los em oportunidades de crescimento.
O futuro da televisão regional não será definido apenas por quem conquistar mais audiência, mas também por quem souber administrar melhor seus recursos, desenvolver negócios e gerar valor para o mercado.
E essa é, essencialmente, uma questão de gestão.
Sobre o autor
Marcos Mazullo é executivo de Comunicação, Mídia e Negócios, com mais de duas décadas de experiência em gestão comercial, publicidade, televisão, liderança e desenvolvimento empresarial.
Construiu parte de sua trajetória no Grupo Meio Norte, onde ocupou posições de gerência comercial e direção, e posteriormente fundou a M3 Publicidade.
Na televisão, criou e apresentou o programa Marketing na TV, na TV Meio Norte; foi apresentador do Líder Piauí, a convite da TV Antena 10; e esteve à frente da criação, direção executiva e apresentação do reality show O Grande Líder, com edições no Piauí e no Maranhão.
Atualmente, é CEO do Instituto Consciência e Prosperidade (ICP).












