Negociações para a filiação · 28/11/2021 - 12h14

Filiação de Bolsonaro ao PL passa por apoio à reeleição de Arthur Lira


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JULIA CHAIB, CAMILA MATTOSO E MARIANNA HOLANDA
BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS)

As negociações para a filiação de Jair Bolsonaro (sem partido) ao PL, marcada para a próxima terça-feira (30), passaram também pela promessa de apoio do presidente e do seu novo partido à reeleição de Arthur Lira (PP-AL) ao comando da Câmara dos Deputados em 2023.

Segundo líderes do centrão envolvidos nas conversas, Valdemar Costa Neto, presidente do PL, deu a palavra a Lira que dará respaldo a uma nova candidatura para ele tentar se manter por mais dois anos na presidência da Casa.

Os cálculos feitos por ambas as siglas preveem que o PL poderá eleger a maior bancada da Câmara em 2022 tendo Bolsonaro como filiado. Hoje com 43 deputados, a legenda é a terceira maior e pode aumentar para cerca de 65 parlamentares, dizem dirigentes.

Dessa forma, o apoio do partido deve ser decisivo para a escolha do próximo presidente da Câmara.

Antes do PL, o PP também buscou atrair Bolsonaro para seus quadros. O objetivo era o mesmo de Valdemar: aumentar a quantidade de congressistas, embora a entrada do mandatário sofresse resistências de diretórios do Nordeste e até mesmo de Arthur Lira.

Embora o presidente da Câmara tenha concordado ao final, na época, com a entrada do presidente da República, ele avaliava que o movimento poderia prejudicar seus planos.

A principal preocupação era a de que Bolsonaro perdesse a eleição para uma eventual candidatura de Lula (PT). Nessa leitura política, se isso ocorresse, a nova bancada governista poderia resistir a apoiar Lira por ser do mesmo partido do principal inimigo político do petista.

Em entrevista à Folha, Lira afirmou que a reeleição dele não depende da de Bolsonaro.

Agora, porém, sem Bolsonaro no partido, o PP poderá fazer palanque ao ex-presidente em alguns estados, em especial no Nordeste, mantendo pontes do comandante da Câmara fora do bolsonarismo.

PP e PL são os dois maiores partidos do centrão, que hoje dão sustentação ao governo no Congresso. Além disso, ocupam dois dos principais assentos no Palácio do Planalto: Casa Civil, com Ciro Nogueira (PP), e Secretaria de Governo, com Flávia Arruda (PL).

Os dois atuam de forma conjunta. Tanto que, quando Bolsonaro adiou a filiação ao PL, que ocorreria em 22 de novembro, dirigentes do PP foram cautelosos ao se reaproximar do chefe do Executivo.

Segundo relatos, caciques deixaram claro ao presidente que as portas continuariam abertas, mas evitaram movimentações que pudessem parecer de traição com o PL, já que a aliança com o partido de Valdemar é considerada essencial.

O adiamento da filiação ocorreu devido a divergências entre Bolsonaro e Valdemar em relação a alianças regionais. Enquanto uma parte do PP ficou animada com a possibilidade de retomar as negociações com o presidente, outra ala ficou assustada.

Arthur Lira, que estava em viagem à Europa quando a notícia de que Bolsonaro poderia não ir mais para o PL saiu, telefonou tanto para Valdemar como para Bolsonaro para tentar acertar os ponteiros entre as partes.

As negociações da escolha do partido envolveram outros combinados entre as duas legendas e vantagens para cada uma separadamente.

Como a Folha mostrou, o acordo leva em conta que o posto de vice deverá ser de um nome do PP, cabendo a Bolsonaro escolher. Não necessariamente será um nome de alguém já filiado à legenda, segundo envolvidos no processo.

As articulações sobre o apoio à reeleição de Lira também envolvem outras siglas, como o Republicanos, por exemplo (terceira legenda do centrão da base do governo no Congresso), que tem interesse em amarrar um acordo para ficar com o comando da Câmara no biênio 2025-2026.

Segundo integrantes do Republicanos, Arthur Lira teria se comprometido com o deputado Marcos Pereira (SP) a respaldá-lo como candidato à sua sucessão. O dirigente ocupa hoje a 4ª secretaria da Câmara.

Já Valdemar Costa Neto também trabalha com a possibilidade de o partido disputar o comando da Casa em 2025. Ele teria acenado com a possibilidade de lançar o deputado Marcelo Ramos (PL-AM), hoje vice-presidente da Câmara, caso ele parasse de criticar Bolsonaro e continuasse no partido. A tendência, porém, é o parlamentar deixar a sigla.

Ramos é o principal nome de oposição ao chefe do Executivo no partido. Há resistência, também, em outros estados do Nordeste, como Ceará e Piauí, que apoiam governos de oposição a Bolsonaro.

O presidente disse, na quinta-feira (25), que o PL não vai se aliar a nenhum partido de esquerda.

"Foi acertado aqui [com Valdemar], não haverá qualquer coligação com partido de esquerda nos estados, isso está definitivamente acertado", disse Bolsonaro em entrevista à rádio Sociedade da Bahia.

O mandatário disse ainda que o discurso entre ele e Valdemar está "bastante afinado".

Ainda que o PP e o PL tenham disputado pela filiação de Bolsonaro, Valdemar foi mais incisivo na empreitada. Ele cedeu e deve rever acordos em diversos estados, como em São Paulo, e no Nordeste.

Em São Paulo, Bolsonaro quer lançar uma chapa com Tarcísio de Freitas (Infraestrutura) como candidato a governador e Ricardo Salles, ex-ministro do Meio Ambiente, concorrendo a uma vaga no Senado.

Para que isso ocorra, primeiro Tarcísio precisa concordar com a ideia. Nos últimos dias, com quem conversou, o ministro demonstrou resistência à proposta de Bolsonaro.

O ministro hoje prefere ser candidato ao Senado por Mato Grosso ou Goiás, onde ele tem mais viabilidade eleitoral.

Caso ele não aceite, integrantes do PL avaliam que Bolsonaro pode construir uma chapa com Paulo Skaf, presidente da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), disputando o governo ou o Senado.

Em Goiás, outro estado considerado prioritário pelo presidente, Bolsonaro quer lançar o deputado major Vitor Hugo (PSL-GO) ao governo.

Essa hipótese enfrenta forte resistência no PL já que o deputado é visto como alguém com baixa capilaridade eleitoral, principalmente diante do governador Ronaldo Caiado (DEM-GO), que vai disputar a reeleição.

Raio-x dos partidos
Fundo eleitoral PP: R$ 141 mi PL: R$ 118 mi
Fundo partidário PP: R$ 47 mi PL: R$ 45 mi
Bancada na Câmara
PP: 42
PL: 43

Bancada no Senado
PP: 7
PL: 4

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