
Batata-doce roxa e grão-de-bico brasileiros viajam ao espaço em projeto de agricultura espacial
O chef brasileiro Jefferson Rueda, conhecido por seus restaurantes premiados em São Paulo, criou uma receita inusitada: sonho de batata-doce roxa com recheio de grão-de-bico. Mas essa não é apenas uma criação gastronômica — ela faz parte de um projeto científico que levou essas plantas ao espaço em um voo suborbital da Blue Origin, empresa do bilionário Jeff Bezos.
A iniciativa integra a Rede Space Farming Brazil, composta por 56 pesquisadores de 22 instituições. Trata-se de uma parceria entre a Agência Espacial Brasileira (AEB) e a Embrapa, dentro do escopo do Acordo Artemis, um programa da NASA que reúne 54 países, incluindo o Brasil, com o objetivo de desenvolver missões espaciais sustentáveis, com bases permanentes fora da Terra.
Nas redes sociais, Jefferson Rueda celebrou a participação no projeto. “No dia 14 de abril, nossa rede participou da missão NS-31 da Blue Origin. Estudar o comportamento de plantas no espaço é essencial para criarmos cultivares mais resistentes, capazes de enfrentar tanto os desafios do espaço quanto as mudanças climáticas na Terra”, destacou.
O chef atua no projeto como responsável por definir padrões de qualidade para o consumo dos alimentos cultivados em ambiente espacial e por sugerir possíveis receitas. A receita do sonho de batata-doce, segundo Alessandra Fávero, coordenadora da Space Farming e pesquisadora da Embrapa, simboliza o espírito de colaboração da equipe. “É realmente um sonho ver o Brasil integrado ao Programa Artemis, junto a mais de 50 países. A pesquisa tem sido desafiadora, mas muito promissora. E, além disso, a receita ficou deliciosa”, brincou.
O grande objetivo do projeto é que, futuramente, esses alimentos possam ser cultivados e preparados no espaço. “Será que, em breve, teremos grão-de-bico espacial?”, questionou Rueda em tom bem-humorado.

Superando os desafios de cultivar no espaço
Cultivar alimentos fora da Terra não é simples. No espaço, não há gravidade, a composição da atmosfera é diferente e não existe luz solar natural. Apesar desses desafios, pesquisadores brasileiros deram um passo importante: no dia 14 de abril, enviaram sementes de grão-de-bico e mudas de batata-doce roxa para a borda do espaço, a bordo de um voo suborbital.
Carlos Hotta, professor do Instituto de Química da USP e um dos integrantes do projeto, destaca que esse tipo de pesquisa é vital para a sustentabilidade de futuras missões espaciais. “Levar suprimentos para o espaço é extremamente caro. Por isso, é fundamental que os astronautas possam cultivar seu próprio alimento. Além disso, cuidar de plantas tem impacto positivo na saúde mental da tripulação, que não pode depender apenas de comida processada.”
O desenvolvimento dessas tecnologias não beneficia apenas o espaço, mas também a Terra. “Se conseguimos cultivar plantas em um ambiente tão hostil como o espaço, teremos tecnologias capazes de garantir produção de alimentos aqui, mesmo em situações de crise climática”, explica Hotta. Isso segue o mesmo caminho de inovações surgidas na corrida espacial, que trouxeram avanços como satélites, GPS, micro-ondas e outros dispositivos hoje comuns no cotidiano.
Detalhes da missão espacial
O voo da Blue Origin, realizado em 14 de abril, levou exemplares das batatas-doces das variedades Beauregard e Covington, além de sementes do grão-de-bico BRS Aleppo, desenvolvido pela Embrapa. Durante aproximadamente cinco minutos em microgravidade, as plantas ficaram expostas a condições que alteram a expressão genética.
Para estudar os efeitos da microgravidade, os cientistas utilizaram um líquido que interrompe temporariamente o metabolismo das plantas, permitindo capturar o estado biológico exato durante o voo. “É como uma fotografia do funcionamento interno da planta naquele instante”, detalha Hotta.
A missão, que durou 11 minutos, teve uma tripulação inteiramente feminina, incluindo a cantora Katy Perry e Lauren Sánchez, noiva de Jeff Bezos. A decolagem ocorreu no Texas, às 8h30 no horário local (10h30 de Brasília).
De acordo com Alessandra Fávero, as sementes e mudas que foram ao espaço agora estão disponíveis para diferentes análises, incluindo estudos genômicos, epigenéticos, citogenéticos e morfológicos, além de serem usadas em novos experimentos dentro da Rede Space Farming.
Por que batata-doce e grão-de-bico?
Essas espécies foram escolhidas por suas qualidades agronômicas e nutricionais. Ambas são resilientes, de rápido crescimento, resistentes a ambientes adversos e oferecem alto valor nutricional.
“A batata-doce roxa, além de fornecer carboidratos de alta qualidade, é rica em antocianina, um antioxidante importante para proteger contra radiação — algo fundamental no espaço”, explica Fávero. O grão-de-bico, por sua vez, é fonte de proteína, fibras e triptofano, um aminoácido essencial para regular funções como sono e humor.
Segundo Hotta, essa combinação forma uma base alimentar semelhante ao arroz com feijão, unindo proteína e carboidrato em uma refeição completa e equilibrada.
O futuro da agricultura espacial (e da terrestre)
Diante de desafios climáticos crescentes na Terra, as tecnologias desenvolvidas para a agricultura espacial podem se tornar essenciais aqui também. A busca é por sistemas de cultivo fechados e autossustentáveis, que usam pouca água, não dependem de pesticidas e ocupam espaços reduzidos, permitindo produção próxima dos centros de consumo.
“Esses sistemas exigem plantas muito eficientes no uso de água, energia e resistentes à radiação. A ideia é que tudo que entra no sistema seja reaproveitado. É um modelo bio-regenerativo”, detalha Fávero.
Além disso, os pesquisadores estudam formas de acelerar os ciclos de plantio e colheita, algo crucial em cenários extremos, com longos períodos de seca ou chuvas intensas.
“Esse é só o começo”, conclui Hotta. “Nosso sonho é que, em breve, possamos cultivar plantas por longos períodos na Lua, em Marte e, claro, também em ambientes extremos aqui na Terra. Parece ficção científica, mas está cada vez mais perto da realidade.”








