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Por que a digitalização dos desbancarizados na América Latina acontece pelas ferramentas mais simples

O que traz uma pessoa sem conta bancária para o mundo digital é a simplicidade. Uma ferramenta tão fácil de usar que ela cabe na rotina de quem nunca pisou numa agência. Quem constrói infraestrutura de pagamento na América Latina precisa entender isso antes de qualquer outra coisa. A porta de entrada para dezenas de milhões de consumidores é a simplicidade, e ela quase sempre passa por algo que a pessoa já faz no dia a dia.

Eu trabalho com pagamentos há anos e vejo de perto como esse processo funciona de verdade. A digitalização dos desbancarizados avança quando alguém consegue pagar uma compra online sem precisar de uma conta, usando um código que ele leva até a loja da esquina. É discreto, é prático e funciona.

O que significa "desbancarizado" na América Latina?

Desbancarizado é o adulto que não tem nenhuma conta bancária: sem cartão, sem acesso aos serviços financeiros comuns. Quase nunca é uma escolha. É uma barreira estrutural, feita de renda informal ou em dinheiro vivo, falta de documentos ou comprovante de endereço, distância das agências e uma desconfiança histórica em relação aos bancos.

Os números mostram o tamanho disso. No Brasil, 4,6 milhões de adultos seguem sem conta bancária, segundo dados compilados no Guide to Accessing Latin America. No México, a população desbancarizada caiu de forma consistente: era 64,6% em 2017, passou para 56,8% em 2021 e chegou a 52,8% em 2024, de acordo com a mesma fonte.

Na Colômbia, cerca de um quarto da população ainda está fora do sistema bancário. Mesmo assim, 88% dos colombianos compram online, o que mostra o tamanho da demanda represada esperando por uma forma de pagar.

Por que o desbancarizado não vai começar pela cripto?

Porque a cripto é uma ferramenta ainda mais complexa para ele do que o próprio banco. Alguém que não tem conta justamente por causa de barreiras de documento, de renda e de confiança não vai sozinho abrir uma carteira de criptomoedas, gerenciar chaves privadas e lidar com a volatilidade. Isso pede mais conhecimento, não menos.

É importante colocar a cripto no lugar certo nessa conversa. Na América Latina, ela funciona mais como proteção da poupança contra a inflação para quem já está dentro do mundo digital. Para a grande massa de desbancarizados, ela tem peso quase nulo como porta de entrada.

Quem desenha infraestrutura pensando em inclusão precisa resistir à tentação do hype. A ferramenta certa para esse público é a que exige o menor esforço possível para dar o primeiro passo.

Quais ferramentas realmente trazem essas pessoas para o digital?

São as ferramentas ligadas à vida cotidiana, e elas se dividem em dois tipos. O primeiro são os vouchers em dinheiro. No Brasil, o boleto: a pessoa compra online, recebe um código e paga em dinheiro no comércio mais próximo. No México, o mesmo papel é cumprido pelo pagamento em dinheiro na rede OXXO. Nenhum dos dois exige conta bancária para funcionar.

O segundo tipo são as carteiras simples que chegam como um recurso lateral de um aplicativo que a pessoa já usa. O Pix entrou na vida das pessoas pelo celular que elas já tinham na mão. O Mercado Pago cresceu pegando carona no Mercado Livre, onde elas já compravam. A pessoa não foi atrás da carteira; a carteira chegou até ela dentro de algo familiar.

Esse é o padrão que se repete. A adoção em massa acontece quando o passo digital é quase invisível, embutido em um hábito que já existe. O sucesso de boleto, OXXO e Pix vem exatamente daí.

Por que isso é uma oportunidade de negócio, e não caridade?

Porque quem consegue aceitar um pagamento de uma pessoa sem conta ganha acesso a dezenas de milhões de clientes que a concorrência simplesmente não enxerga. A inclusão financeira deixou de ser um discurso de responsabilidade social e virou uma vantagem competitiva concreta para o comércio.

Pense no mercado brasileiro. São 4,6 milhões de adultos desbancarizados que ainda compram, consomem e querem pagar. No México, mais da metade da população esteve fora do sistema bancário até bem recentemente. Cada uma dessas pessoas é um cliente real para quem oferece a forma de pagamento certa.

A conclusão para qualquer empresa que entra na região é direta. Aceitar boleto, pagamento em dinheiro e carteiras locais é a diferença entre faturar com esse público ou cedê-lo para quem chegou preparado.

FAQ

O que significa "desbancarizado"? É o adulto que não possui nenhuma conta bancária, cartão ou acesso a serviços financeiros tradicionais. Costuma resultar de barreiras estruturais como renda informal, falta de documentos, distância das agências e desconfiança em relação aos bancos.

Quantos adultos são desbancarizados na América Latina? No Brasil, 4,6 milhões de adultos seguem sem conta bancária. No México, a taxa caiu de 64,6% em 2017 para 52,8% em 2024, e na Colômbia cerca de um quarto da população ainda está fora do sistema bancário, segundo dados do Guide to Accessing Latin America.

Foto: Reprodução

A cripto ajuda a incluir os desbancarizados? Pouco. Para a maioria dessa população, a cripto é mais complexa que um banco. Na América Latina, ela funciona principalmente como proteção contra a inflação para quem já está no mundo digital, e não como porta de entrada para quem está fora dele.

Quais ferramentas funcionam para incluir essas pessoas? Vouchers em dinheiro como o boleto no Brasil e o pagamento via OXXO no México, além de carteiras simples que chegam dentro de aplicativos já usados, como o Pix pelo celular e o Mercado Pago pelo Mercado Libre.

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