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História e Religião - 27/04/2017 às 09h29

100 anos de protestantismo: a bandeira dos Batistas

Casa do cartucho

Em 2010 publiquei meu primeiro livro HISTÓRIA DOS BATISTAS: UMA HISTÓRIA DE CAMPO MAIOR, onde apresento a fantástica saga dos Batistas em Campo Maior. Toda minha pesquisa está embasada em fontes históricas primárias, entrevistas, atas, documentos pessoais e em extensa bibliografia. Na ocasião, os Batistas contavam com 96 anos na cidade de Campo Maior. Agora já se passaram 100 anos!

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Entre os anos de 2014 e 2015 os Batistas completam 100 anos de história na cidade de Campo Maior. Os primeiros passos aconteceram quando missionários norte-americanos, que já há alguns anos trabalhavam no sul do Piauí, pregando o evangelho na vila de Corrente (atual cidade de Corrente), em Jerumenha, Aroazes e outras povoações do Estado, se dirigiram com o intuito de expandir a obra missionária em direção ao norte do Estado, alcançando logo em seguida a capital, Teresina, e a tradicionalíssima cidade de Campo Maior.

Os fatos que envolvem a chegada dos Batistas em Campo Maior constituem-se um verdadeiro épico da fé cristã protestante. Entre os anos de 1912 e 1913, o conhecido sapateiro Joaquim Bostoque havia se dirigido para cidade de União em busca de novas oportunidades. Havia a possibilidade de ganhar dinheiro extra para a manutenção das despesas do seu lar. Por essa data Campo Maior ainda não contava com a pujança econômica que seria promovida pela cera de Carnaúba. O fenômeno do gado, por sua vez, que incrementou a economia local por séculos, começava a diminuir em ritmo acelerado. Mesmo continuando a ser uma cidade de importância indiscutível no cenário do Estado do Piauí, e ainda gozando na lembrança de muita gente a imagem de cidade rica, por conta da prosperidade gerada pelo gado em dias passados, Campo Maior não vivia mais seu melhor momento econômico na segunda década do século XX.

Diante de uma situação econômica difícil, Joaquim Bostoque seguiu em busca de dias melhores em União e permaneceu ali por um ano, talvez um pouco mais do que isso. Na ocasião de sua chegada, a cidade celebrava festejos católicos e havia grande movimentação de devotos. Pessoas de várias cidades frequentavam a festa. Aproveitando toda aquela movimentação, Joaquim decide ganhar dinheiro com seu talento de sapateiro e mestre no trabalho com couro. Era uma oportunidade de lucro rápido. Por volta de 1914 ou 1915, quando Joaquim Bostoque retornou para Campo Maior, ele já defendia a bandeira dos Batistas. Considerava-se a si mesmo um crente Batista, como lembra sua neta Iracema dos Santos. Segundo ela, em União, “o vovô foi alcançado pelo poder do evangelho de Jesus Cristo”.

A conversão e o discipulado de Joaquim Bostoque confundem-se em dois aspectos. Primeiro constatamos que ele teve contato com O Jornal Batista, periódico que os Batistas haviam lançado em 1901, no Rio de Janeiro, e que circulava na bagagem dos missionários por todo o Brasil. À medida que os missionários americanos encontravam alguém letrado, enquanto lhe ensinavam sobre as verdades da Bíblia, O Jornal Batista poderia ser utilizado como um instrumento de auxílio no ensino das doutrinas que o grupo defendia. É claro que nem todo mundo tinha acesso ao Jornal Batista, pois o grau de alfabetização ainda era muito reduzido. Mas um homem tão ávido pela cultura e pelo saber, não dispensaria a oportunidade de ler e aprender aquele jornal, principalmente sabendo que se tratava de algo tão importante para a sua vida.

Apesar de ser sapateiro, profissão pouco valorizada naquele período, Joaquim Bostoque era um homem letrado e culto, bastante instruído, versado sobre os mais diversos assuntos, algo difícil de se esperar de um sapateiro pobre naqueles dias. Shirley Ibiapina, neta de Joaquim, lembra que sua mãe sempre lhe contava: “O papai falava sobre todos os assuntos, e sabia falar. Ele era uma pessoa cheia de sabedoria e admirada na cidade”. O ir. Turuka, figura intelectual de Campo Maior, relembrando a vida de Joaquim Bostoque, afirmou: “este é o primeiro homem realmente evangelizado que conheci”. Joaquim, apesar de sapateiro, foi notoriamente reconhecido pelas personalidades mais ricas e instruídas de Campo Maior. Seu nome está presente na ata de lançamento da “pedra fundamental” da casa do Conselho Municipal de Campo Maior, em 1896. Em um convite promovido pela elite campo-maiorense e por personalidades reconhecidas pelo seu saber, encontramos o nome do sapateiro Joaquim Bostoque no meio de tantas figuras ilustres. Também é importante frisar que Joaquim Bostoque foi o fundador do Centro Operário de Campo Maior e seu primeiro presidente.

O período em que Joaquim estava em União, a trabalho, foi o mesmo período em que os missionários Batistas e alguns brasileiros já convertidos desciam do sul do Piauí para a evangelização da região Norte. Foi nesse ponto da história que aconteceu o encontro de Joaquim e os missionários Batistas. É muito provável que Joaquim tenha conhecido o pastor americano Adolpf J. Terry e sua esposa Luly Terry na cidade de União ou proximidades. Com eles estava o piauiense Teófilo Dantas, e sua irmã, convertidos no sul do Estado. Foi nessa ocasião que Joaquim teve acesso ao Jornal Batista e ouviu as primeiras mensagens sobre o evangelho, que transformariam sua vida para sempre.

Em Campo Maior, em 1915, os Batistas já contavam com uma família inteira que incansavelmente ensinava a Bíblia a seus vizinhos e amigos. Esta foi verdadeiramente a PRIMEIRA IGREJA BATISTA DE CAMPO MAIOR e a primeira igreja evangélica/protestante da cidade. Joaquim Bostoque foi o primeiro protestante de Campo Maior. Periodicamente cultos passaram a ser realizados na residência do sapateiro, tudo muito restrito à família e a algumas poucas pessoas que aceitavam os convites. A chegada dos Batistas também foi marcada por intensa perseguição religiosa, a maior parte promovida pelo padre Clarindo Lopes Ribeiro nos anos de 1918 e 1919. Sobre esse episódio, esclareço em detalhes em meu livro. Ainda na mesma década a presença dos missionários americanos foi constatada em cultos na residência de Joaquim, que na época era localizada nas proximidades do atual Mercado Público Central de Campo Maior.

Na década de 1940, com Joaquim Bostoque já falecido, sua filha Heroína Ibiapina assume o papel de liderança entre os Batistas de Campo Maior. Até o momento não havia templo para reunião do pequeno grupo, tudo acontecia nas residências ou em praças públicas. Uma nova leva de missionários americanos, residentes em Teresina, passou a fortalecer o trabalho na cidade de Campo Maior e um novo foco de perseguição se levantou, dessa vez promovida pelo padre Mateus Cortez Rufino, mas que logo foi abafada, tornando-se o padre, em seguida, um dos melhores amigos do pastor Moreira, o primeiro pastor Batista de Campo Maior. A pedido de Heroína Ibiapina, a Primeira Igreja Batista de Teresina passou a enviar um grupo de irmãos para pregar e dirigir os trabalhos em Campo Maior. Pregaram na cidade Lourival Parente, Merval Rosa e muitos outros nomes que mais tarde ganharam grande notoriedade no cenário piauiense. Em 1951, depois de já ter enfrentado quase 40 anos de dificuldades, foi fundada oficialmente a PRIMEIRA IGREJA BATISTA DE CAMPO MAIOR, que até hoje dá testemunho de Jesus Cristo na cidade. Portanto, os Batistas completaram 100 anos em Campo Maior, data que será celebrada em janeiro de 2015, em culto a Deus a ser realizado na PRIMEIRA IGREJA BATISTA REFORMADA EM CAMPO MAIOR.

Campo Maior - 17/04/2017 às 10h00

1905 - Enchentes de proporções diluvianas

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“O rio [Surubim] que banha a cidade extravasou e transpondo o dique mandado construir no sangradouro da lagoa que lhe fica próximo, juntou suas águas às dela, indo-se depois reunir ao [riacho] Pintadas ...”

Essas foram as notícias sobre o alagamento ocorrido em Campo Maior no início do século XX. Essa referência da grande enchente de 1905 aparece na Gazeta do Prof. B. Lemos, em uma nota que foi enviada pelo campomaiorense Moisés Eulálio e publicada posteriormente no livro de Reginaldo Lima, Geração Campo Maior: anotações para uma enciclopédia, (1996).

Na enchente de 1905, o texto de Moisés Eulálio descreve como a cidade de Campo Maior ficou parcialmente alagada, principalmente as zonas Norte e Nordeste da cidade, que compreendem atualmente as imediações do bairro Califórnia (zona Norte), e boa parte da cidade situada às imediações da BR 343, ladeada pela avenida Heróis do Jenipapo, com mais de uma dezena de vielas e travessas submersas (zona Nordeste). As águas também atingiram a margem oeste do rio Surubim, onde hoje temos o bairro de Flores (zona Noroeste). Uma informação chama atenção: as águas do rio Surubim se juntaram à lagoa próxima e ao riacho Pintadas. A região tornou-se um grande mar d’água.

- A imagem mostra o rio Surubim (2017) com suas águas passando livremente por sobre as duas paredes de contenção, cobrindo árvores e dominando o cenário

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O texto fala de uma “lagoa” próxima ao rio Surubim, o que parece descartar a ideia de que essa lagoa seja uma referência ao açude grande da cidade. Nessa enchente, o açude grande não é mencionado na nota da gazeta do prof. Lemos, mas ele transbordou em alguns pontos, onde as paredes estavam avariadas ou eram mais baixas. Suas paredes, com muito sacrifício devem ter contido o grosso das águas, pois uma aguada tão importante quanto o açude não deixaria de ser mencionada, caso suas águas tivessem invadido parte da cidade, ao menos, é claro, se ele ainda fosse tido por alguns como “lagoa”. Hoje, especialmente os mais velhos, ainda preferem chamar o velho açude de “lagoa”, talvez devido a um resquício linguístico que sobreviveu no imaginário de alguns. Se a referência é ao açude grande, o cenário da época foi devastador.

A lagoa citada por B. Lemos muito provavelmente é a lagoa da fazenda São Joaquim, situada cerca de 100 metros do rio Surubim. Contudo, pode ser também uma referência ao açude de Campo Maior, visto que o texto fala do dique e do sangradouro da lagoa que havia sido construído. A lagoa do São Joaquim não possui dique e nem sangradouro. É uma lagoa natural, posteriormente reforçada pelo proprietário do terreno. Outra observação: o açude grande de Campo Maior à época tinha sua área alagada muito maior do que a atual, que foi delimitada com a construção da Alameda Dirceu Arcoverde. Havia também um riacho sempre cheio no inverno, que deságuava no surubim, mas que também se ligava às águas do açude grande. Até hoje pode-se constatar as manilhas que foram postas na construção da atual avenida Santo Antônio, para dar vasão a água.

Se a lagoa, ao qual se refere o texto é mesmo o açude grande, suas águas devem ter encontrado o riacho Canudos, no ponto onde hoje está a BR 343, na época, a área mais baixa em volta do açude. Se a água do Canudos invadiu o açude de Campo Maior, tivemos uma inundação de proporções diluvianas na cidade. O centro histórico, ou, “cidade velha” ficou literalmente ilhado, com um mar d’água à sua volta. Grande parte da região do bairro Estação ficou alagada. O cenário, assim como seria mais tarde em 1924, foi assombroso e arrasador.

Documentos de meados de 1800 comprovam que as águas sempre causaram transtornos em Campo Maior. O Conselho Municipal (equivalente à prefeitura e câmara dos Vereadores) sempre alugava, numa espécie de pregão anual, a passagem dos rios. Em outras palavras, em bons invernos era quase impossível entrar ou sair de Campo Maior a pé. Os arrendatários das passagens atravessavam as pessoas em pequenos barcos, que cruzavam os rios Jenipapo, Longá e Surubim. Esse problema existiu devido a localização espacial de Campo Maior, que se desenvolveu entre rios e lagoas, numa região muito fértil para o gado, especialmente por ser uma região de grandes campos e pela fartura de água. Um grande atrativo para o português, que se estabeleceu aqui para criar gado.

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Campo Maior - 06/04/2017 às 09h30

Um século de reformas no açude grande de Campo Maior

Casa do cartucho

Por volta de um século atrás, um engenheiro belga denominado Dr. Horta, recebeu ordens para concertar as paredes do açude grande de Campo Maior, que apresentava vazamento em alguns pontos. O açude é descrito como o nome de ‘açude de Campo Maior’. Esse deve ser o nome ao qual ele era já bem conhecido, o que desfaz a ideia de que ele fosse conhecido como ‘açude de Santo Antônio’, uma tentativa de catolicizar toda a cidade ao padroeiro da fé católica dos professos campo-maiorenses. O açude também é classificado na documentação como pequeno. Quando o DNOCS veio realizar essas obras no açude, há 70 anos ele já existia, e já havia passado por outro reparo, em 1889. A construção foi, na verdade, mais um conjunto de reformas, pois o Dr. Horta “veio e fez concertos no paredão” do açude.

- As últimas reformas realizadas no açude grande tiveram início em 2015 e ainda não foram concluídas.

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Quando o Dr. Horta chegou para reparar os danos no paredão do açude, ele utilizou-se de uma técnica bem peculiar. O paredão contava com algumas rachaduras que provocavam um vazamento considerável. Havia ainda outros pequenos vazamentos, de menor risco. O engenheiro aprontou uma mistura de massa, digamos, bem diferente. Ele preparou traços de argila misturada com estrume de animais. Essa massa foi utilizada para tapar as rachaduras, e à mistura, foram acrescentadas pedras pequenas.

Parece que todos os trabalhos que vinham sendo realizados no açude estavam surtindo bons resultados. Um dos objetivos da construção do açude era conter as águas, evitando que em invernos mais fortes elas não invadissem a cidade, que vinha crescendo rápido, principalmente nas últimas décadas do século XIX. Na realidade, em termos urbanos e estruturais, esse foi um dos períodos mais importantes no desenvolvimento urbano da novel cidade de Campo Maior. Apenas 30 anos Campo Maior fora elevada ao patamar de cidade.

- O açude grande de Campo Maior é considerado o cenário urbano de maior beleza em Campo Maior e o mais impactante

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Em 1905 o açude foi posto à prova. Tivemos um rigoroso inverno nesse ano, o que causou grande enchente. Todos os rios da cidade transbordaram e cidade ficou literalmente ilhada. Era necessário, para entrar ou sair da cidade, o uso de embarcações pequenas. Nesse ano o açude transbordou e surgiram algumas avarias. Em 1924 tivemos outra grande cheia. Desta vez os reparos do Dr. Horta seriam testados. Apenas quatro anos depois que o belga tinha realizados reparos delicados nos paredões do açude grande, a cidade era acometida de um implacável inverno. Tão grande foi a cheia daquele ano que “para fazer compras, o Cel. José Paulino vinha dos Porções, atracando a canoa na calçada de D. Penha, no início da Rua Padre Manoel Félix.”

Dessa forma, a construção do açude grande por Jacob Manoel d’Almendra (1859); as reformas promovidas por Antônio José Nunes Bonna e outras menores que seguiram o ano de 1889, e todas as outras que foram realizadas desde que o Dr. Horta, em 1920, concertou os seus paredões, tem sido de extrema importância para a preservação de importantes áreas urbanas de Campo Maior em nossos dias.

Tópicos
Economia e urbanização - 30/03/2017 às 10h30

Campo Maior: aspectos econômicos, urbanísticos, e a construção do açude grande

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Sobre o esplendoroso açude grande de Campo Maior, monumento natural que encanta os turistas que cruzam seu caminho. Sua obra foi realizada no ano de 1859. Campo Maior nesse período não havia mudado muito em termos de estrutura urbana. Continuava uma vila pacata, no estilo colonial. Embora fosse muito pequena, era considerada grande e próspera quando equiparada a outras vilas do seu tempo.

- O açude grande de Campo Maior: desde de 1859, mas com toda a sua potencialidade sub aproveitada.

- Foto: Juscel Reis
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Esse aspecto de potência econômica vinha desde os primeiros tempos da vila. Os repasses de Campo Maior à coroa portuguesa eram os maiores do Piauí. Em 1791, Campo Maior enviou mais dizimas de gado do que a Capital, Oeiras. Enviou duas vezes mais do que Jerumenha e Parnaguá juntas. Na região norte, também predominou economicamente, e enviou mais arrecadação do que Valença e Marvão. Em 1809-1814 a liderança econômica permanecia e aumentara. No Norte, enviou 4 vezes mais do que Parnaíba, 4 vezes mais do Piracuruca, 3 vezes mais do que Marvão e o dobro de Valença. No Sul, perdeu por muito pouco para Oeiras, com 91:850$000, contra 84:090$000 de Campo Maior. Porém enviou 3 vezes mais do que Jerumenha e Paranaguá.

Quanto ao perímetro da vila, o parque urbano de Campo Maior em 1850 ainda girava em torno da igreja, seu centro histórico mais antigo. Hoje podemos até considerar aquelas imediações como a “cidade velha”. Era no entorno da igreja e um pouco mais afastado dela que se encontravam as moradias. O que estava mais distante da “cidade velha” eram as fazendas, inúmeras, que se espalhavam dentro e além do que hoje é a zona urbana de Campo Maior. É claro que o número de moradias e instalações, e também de fazendas, foi aumentando a cada ano desde os tempos da Freguesia de Santo Antônio do Surubim. Mas ainda não devemos imaginar uma povoação cheia de casas e ruas. Tudo era muito pouco e pequeno. Note que havia passado apenas 36 anos da Batalha do Jenipapo.

O foco vivo e comercial da vila era o entorno da igreja. A área em torno do açude era limite de muitas fazendas. Aquela região no passado nunca foi grandemente habitada, pois era considerada fora dos limites da vila. Mas ela nunca foi deserta. Visto que a lagoa era uma das fontes de água da cidade, a melhor fonte que se tinha, ela sempre foi frequentada. Muitos fazendeiros já se ocupavam das imediações da lagoa, utilizando seu espaço para fazer vazantes e para o descanso de animais, principalmente o gado vacum.

- Imagem ilustrativa que apresenta o açude grande e sua orla reconstruída. O projeto está em andamentoresult2ed.jpg

Pelos idos de 1850, já era aquela aguada muito mais notada, já tendo a população observado a sua indispensável presença. Outro fato interessante que podemos notar ao longo da história da cidade é a constante preocupação, marcada pelo discurso político, com a pureza de suas águas. O açude sempre foi tema político! Sendo assim, o anseio do povo por uma fonte que pudesse reter água em dias de seca e proteger a cidade em dias de enchentes era grande. A cada avanço da vila, maior era a necessidade de segurança. Um açude era a solução para conter esse dilema que o povo vivia. Em ano de pesada estiagem o povo sofria, pois as fontes secavam, o rio Surubim baixava, os riachos desapareciam e a lagoa tinha o nível d'água drasticamente diminuído. Cada vez mais se mostrava necessário resolver esse problema.

Em 1857 um novo presidente da Província é empossado. Seu mandato tem início em 10 de junho. Trata-se aqui do Dr. João José de Oliveira Junqueira. Permaneceria no cargo até o dia 30 de dezembro de 1858 . Nos últimos dias de seu governo, faltando uma semana para deixar a presidência da Província, a obra da construção do açude é arrematada pelo então Cel. Jacob Manoel d’Almendra. Certamente essa foi uma arrematação "política", pois o Jacob de Almendra era, provavelmente, o homem mais rico do Piauí e gozava de enorme influencia política.

Por ter adquirido muita influência, Jacob de Almendra tinha transito privilegiado no cenário político do Piauí. Quando a cidade de Teresina passou a ser a capital do Piauí, Jacob Manoel d’Almendra foi um dos que apoiaram o então Presidente da província Antônio Saraiva. Monsenhor Chaves aponta seu nome como um dos principais colaboradores na transição da capital para Teresina. Seu nome está na lista dos 20 deputados que apoiaram a mudança da capital, com uma nota do padre: “guardemos estes nomes para a história”. Jacob Manoel d’Almendra foi um dos homens que subscreveu o projeto que transferiu a capital de Oeiras para Teresina.

- Diferente das reformas do século XIX, realizadas por escravos, nos dois últimos anos o açude de Campo Maior foi esvaziado para reformas e retirada de dejetos com máquinas pesadas.201512280925111.jpg

O cenário para a construção do açude estava preparado. A verba estava reservada, custando, segundo relata Marion Saraiva, 3:500$000, “pagos depois que a obra tivesse resistido a um inverno” . A lagoa, tão útil no passado, deu lugar ao Açude Grande de Campo Maior, uma das maiores obras realizadas naquele período.

História do Piauí - 06/03/2017 às 08h20

Fim do Mistério sobre a data da criação da Freguesia de Santo Antônio do Surubim

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Uma das mais antigas e misteriosas lacunas sobre a história de Campo Maior foi resolvida: a data da criação da Freguesia de Santo Antônio do Surubim. Nas últimas décadas essa foi uma das maiores buscas dos historiadores do Piauí. Jamais se tinha chegado à conclusão sobre a data correta da criação da Freguesia de Santo Antônio do Surubim de Campo Maior. Sabia-se sobre as demais freguesias piauienses, mas a de Campo Maior era um mistério.

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Na manhã de ontem, enquanto conversava com o professor Fonseca Neto, chefe do Departamento de História da Universidade Federal do Piauí, discutíamos sobre a história de Campo Maior e o papel da igreja nos primeiros momentos de vida daquela povoação. Ao discutirmos sobre a data da criação da freguesia, o professor analisou os argumentos do padre Cláudio Melo, bem como minha própria posição, no livro Campo Maior Origens.

As datas para a criação da Freguesia de Santo Antônio do Surubim sempre eram remotas. Padre Cláudio assegurava sua existência em meados de 1711, quando a igreja de Santo Antônio foi instalada em Campo Maior. Ele também defendia a possibilidade da freguesia ter sido criada na primeira visita às terras dos Alongases, quando o padre Miguel de Carvalho percorreu o território do norte. Mesmo sem igreja, ele pensava que naquela ocasião poderia ter acontecido a criação da Freguesia do Surubim, de Santo Antônio. Faltava a prova final para sustentar a hipótese, que, aliás, fazia muito sentido. A primeira documentação que registra a expressão “Freguesia de Santo Antônio do Surubim” encontra-se numa correspondência onde o nome de Manoel de Carvalho é citado como um morador da dita freguesia. Essa data me fez acreditar que a data mais confiável que tínhamos, até o momento, seria o ano de 1713, ou mesmo um ou dois anos antes. Essa foi minha posição sobre a origem da Freguesia de Santo Antônio.

Eu escrevi em Campo Maior origens: “A freguesia de Santo Antônio do Surubim foi instalada entre os anos de 1711 a 1713. Prova disso são as referências em correspondências dessa época apontando algumas pessoas que moravam na dita freguesia em 1713”. O raciocínio era simples: se havia menção na existência dessa freguesia em 1713, era sensato entender que ela foi criada nesse mesmo ano ou em data anterior, o que me levava a recuar a data proposta pelo padre Cláudio Melo, na ocasião da construção da igreja de Santo Antônio. Por isso a indecisão entre os anos de 1711 a 1713. Não tinha dúvidas de que sua criação se dera dentro desse espaço cronológico.

- Prof. Fonseca Neto concluiu que a Freguesia de Santo Antônio do Surubim em Campo Maior foi criada em 1740.

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Nas pesquisas do professor Fonseca Neto, trabalho de grande envergadura sobre o bispado piauiense, ele encontrou um documento de Dom Manuel, bispo do Maranhão, onde ele comunica ao rei de Portugal a criação da freguesia de Santo Antônio do Surubim. A profundidade das pesquisas sobre o bispado do Piauí, o levou a inquietação quanto à origem da Freguesia do Surubim, que consistia em grande mistério. Conforme a carta do bispo do Maranhão, Dom Manuel da Cruz, a freguesia foi criada em 1740. A carta é datada de 1741:

“Senhor. Foi vossa Majestade servido por resolução expedida da Mesa da Consciência e Ordem em 20 de maio de 1740 criar de novo na freguesia da vila da Mocha mais duas freguesias com párocos colados, uma na ribeira da Gurguéia, e outra no distrito da Caatinguinha; como também foi servido criar, e erigir mais em novas vigarias coladas os curatos das igrejas de Santa Maria da Vila do Icatu, Nossa Senhora do Carmo do Piracuruca, Santo Antônio do Surubim...”

Na carta do bispo, ele indica que em 20 de maio de 1740, foi expedido criar na freguesia do Mocha (Oeiras) mais duas novas freguesias, e em seguida menciona que erigiu “mais” freguesias em novas vigarias, incluindo aí a menção de Santo Antônio do Surubim. Conforme Fonseca Neto essa é a data da criação da Freguesia de Santo Antônio do Surubim.

Sobre as correspondências e a presença desse bispo do Maranhão na região do Surubim, faço menção em Campo Maior Origens (p. 41), demonstrando que a partir daquele momento as delimitações da freguesia de Santo Antônio do Surubim de Campo Maior estava mais bem estabelecida, e, apontando que havia uma disputa entre o bispado do Maranhão e o de Pernambuco, nas delimitações territoriais. Foi o professor Fonseca Neto que me fez compreender que a visita do bispo, além do fato que eu descrevi, serviu também para criar a freguesia do Surubim, por isso essa delimitação tão precisa.

Enquanto eu discutia com o professor Fonseca Neto sobre essa carta e essa data de 1740, sobre as delimitações territoriais, perguntei-lhe sobre a menção das datas mais remotas, como a de 1713, já mencionando a existência da freguesia de Santo Antônio do Surubim. Essa data, segundo Fonseca Neto, deve ser vista como um momento em que a freguesia existia na informalidade, pois ainda não tinha sido literalmente ou oficialmente criada pela igreja. Já era uma freguesia porque já havia a igreja instalada, o cura já oficiava regularmente, e os “fregueses” já estavam lá, mas tratava-se de uma freguesia futura ou freguesia não oficial, mas que já era conhecida assim por causa da igreja e da certeza de que seria criada. A menção a freguesia de Santo Antônio em 1713 não significa que ela já existisse por criação de um bispado. A data exata, concreta, é mesmo o ano de 1740, conforme a carta com as informações da sua criação, em destinada ao rei no ano seguinte, 1741.

Uma cronologia dos estudos sobre a Freguesia de Santo Antônio do Surubim de Campo Maior pode ser compreendida da seguinte forma:

1697 – O padre Miguel de Carvalho visita a região norte para conhecer os termos da freguesia do Mocha. Por ser de enorme extensão (todo o território do Piauí), entende que uma nova freguesia precisa ser criada.

1711 – Outro padre, Tomé de Carvalho, visita a mesma região e, com ordens do bispo de Pernambuco, constrói a igreja de Santo Antônio em Campo Maior. Essa foi a primeira data a se cogitar a criação da freguesia de Santo Antônio.

1713 – Em uma carta encontramos a menção de pessoas que moravam na freguesia de Santo Antônio do Surubim. Essa foi a outra data pensada para a criação da freguesia, já que ela já é mencionada.

1715 – O bispo de Campo Maior encontrou no anuário católico o ano de 1715.

1740 – Data em que, segundo consta na correspondência do bispo do Maranhão, Dom Manuel da Cruz, a freguesia foi concretamente criada e o fato comunicado ao rei de Portugal em 1741.

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