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História do Piauí - 24/02/2017 às 10h30

A origem da Freguesia de Santo Antônio do Surubim

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Em 1711, a região dos Alongases com suas fazendas, já acumulando considerável quantidade de pessoas, recebeu a visita do Padre Tomé de Carvalho. Tinha ele o intuito de levantar uma capela em dedicação a Santo Antônio, seguindo ordens do bispado de Pernambuco. Com a construção da igreja o lugar passaria à condição de Freguesia, a segunda do Piauí, Santo Antônio do Surubim.

- Segundo templo de Santo Antônio do Surubim, em Campo Maior. Foi construído em 1779. Não há registro do primeiro templo.

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Quanto às origens da religião e da igreja de Santo Antônio, até hoje existe muito do misticismo do catolicismo popular atrelado ao imaginário local. Esse é um retrato autêntico do homem da Idade Média que permanecia impresso no português que colonizava nosso espaço. Moysés Castello Branco Filho parece se deixar envolver por esses contos em sua narrativa: “O primeiro povoado do Longá desenvolveu-se nas margens do regato onde foi encontrada uma pequena imagem de Santo Antônio no tronco de uma juremeira, e logo chamado riacho de Santo Antônio. No lugar foi levantada uma capelinha modesta sob a invocação do milagroso orago e, alguns anos depois, a igreja maior. Em volta cresceu o povoado de Santo Antônio do Surubim de Campo Maior – Santo Antônio de Campo Maior – ou simplesmente Campo Maior na consagração popular” (CASTELO BRANCO, p. 53).


A narrativa fantástica do aparecimento milagroso de imagens de santos católicos sempre permeou o imaginário do povo. Existem vários relatos que atrelam o surgimento de comunidades às imagens encontradas em rios, campinas, árvores, etc. O princípio mítico sempre tem sido o mesmo, geração após geração. A primeira casa de culto católico erigida no Surubim pode ter sido levantada ainda em 1696, antes mesmo da chegada do Padre Miguel de Carvalho, quando viajava pelo sertão do Piauí. Esteve no arraial de Bernardo de Carvalho o jesuíta Ascenso Gago para realizar uma desobriga que durou 18 dias. Padre Cláudio Melo nos lembra que “tinham os jesuítas o hábito de por onde andassem levantar Capelas, mesmo que de taipa e palha. Como este era o costume, podemos supor que foi a partir daquela desobriga que o Surubim teve a sua [primeira] Casa de Oração”. No documento não consta que os padres tenham se abrigado em casa de Bernardo de Carvalho. Essa é uma suposição de Cláudio Melo.


O que está bem documentado quanto à origem da Freguesia de Santo Antônio e de sua primeira capela, é que ela foi fundada pelo Padre Tomé de Carvalho. Sobre isso não há a menor dúvida. Cláudio Melo acreditava que a capela tinha sido construída nas terras da fazenda Bitorocara, no fim do inverno de 1711: “O Pe. Tomé de Carvalho reuniu em Bitorocara, Arraial de Bernardo de Carvalho, os principais cidadãos da redondeza para decidirem o local e a construção da Matriz da nova Freguesia que teria por padroeiro o glorioso Santo Antônio” (MELO, p. 47). Temos outro problema aqui. Para Cláudio Melo, a fazenda Bitorocara e o Arraial Velho tratavam-se da mesma fazenda. A Bitorocara passou a se chamar Arraial Velho no período da guerra contra os índios. O problema é que atualmente a data de sesmaria do Arraial Velho já é bem conhecida e o documento situa essa fazenda nas proximidades do rio Parnaíba, bem mais ao norte de Campo Maior, mais perto de Piracuruca.

- Atual catedral de Santo Antônio, em Campo Maior. É o terceiro templo construído, sempre no mesmo lugar dos templos anteriores.

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O local escolhido para a igreja foi uma colina situada cerca de 200 metros do rio Surubim. Em Campo Maior a igreja foi construída em terreno isolado, no ermo, sem nenhuma fazenda muito próxima, como se deu também em Oeiras. A capela de Oeiras (chamada na época de Mocha) foi levantada longe das áreas povoadas, “isolada daqueles que formariam a comunidade (...) sem outras habitações que a pequena igreja e três ou quatro ranchos, também de taipa, onde residiam o Cura e seus primeiros colaboradores.” (MELO, p. 8). Esse mesmo fenômeno, o da igreja isolada, se repetiu em Campo Maior. Por isso, labutam em erro aqueles que assumem que a casa da fazenda Bitorocara estava situada próximo à capela.


Embora o padre Tomé de Carvalho tenha reunido o povo para que eles escolhessem o local onde a capela seria levantada, o registro histórico orienta que o local deveria ser escolhido de tal forma que comtemplasse todos os fazendeiros da região, não privilegiando uns em detrimento de outros. As distâncias entre as fazendas e a igreja teriam que ser regulares entre os fazendeiros, sem grandes disparates.

- A história específica das três igrejas de Santo Antônio foi destaque na primeira edição da Revista Eugênio.

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A igreja de Santo Antônio foi construída em 1711. Pouco tempo depois a Freguesia de Santo Antônio do Surubim foi estabelecida. Não se sabe se imediatamente à inauguração da igreja ou alguns poucos meses depois. O fato é que em 1713 já temos o registro de correspondência citando um homem que residia na Freguesia de Santo Antônio do Surubim. Mesmo sem condições de estabelecermos uma data precisa para sua criação, é inequívoca a informação de que em 1713 ela já existia. Portanto, o ano de 1713 é, até o presente momento, a melhor data para falarmos da criação dessa antiga freguesia piauiense.

História do Piauí - 21/02/2017 às 08h47

Os índios cristãos protestantes da Ibiapaba

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A historiografia piauiense cobre muito bem a presença católica no período colonial na região norte da província. A chegada de padres jesuítas, o trabalho de catequização, os aldeamentos, e todo o trabalho católico entre os índios está bem apresentado. O que ficou obscuro e pouco discutido na historiografia piauiense foi a forte presença dos índios protestantes calvinistas que ocuparam a Ibiapaba em 1654-1660 , frutos do trabalho missionário e pastoral do Holandeses em Pernambuco. Depois da capitulação do projeto holandês no Brasil, os índios Potiguara, que haviam recebido a fé protestante e boa educação, sabendo muitos deles ler e escrever, deixaram Pernambuco e rumaram para a Ibiapaba, para se refugiarem dos portugueses.

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- Os índios protestantes chegaram na serra da Ibiapaba antes dos padres Jesuítas, da Companhia de Jesus.


Causa estranheza o fato de não se mencionar a existência dos índios de fé Reformada (protestantes calvinistas) na serra da Ibiapaba pelos historiadores piauienses. Odilon Nunes, que escreveu boa parte da história do Piauí e fez extensas pesquisas, não aprofunda a questão, senão em observar a presença holandesa no Piauí. Esperava-se que Cláudio Melo, pelo fato de ser sacerdote e pesquisador da História da igreja Cristã no Piauí, aprofundasse a temática e desse destaque à igreja protestante que existiu por dois anos na serra da Ibiapaba. Contudo, ele não faz referência aos nativos protestantes, que contabilizavam cerca de dois mil índios. Esse é um número bastante expressivo para passar despercebido. Os protestantes indígenas eram totalmente organizados e fluentes no conhecimento teológico, catequizados com os principais catecismos e confissões de fé utilizados naquele período, tendo seus líderes indígenas navegado ainda criança para os Países Baixos e ali desfrutado de treinamento e educação refinada.


Por quatro anos (1656-1660) a igreja protestante dos índios da Ibiapaba se propagou, autônoma, evangelizadora, sem a disputa dos jesuítas, pois não havia presença católica nesse período. Esse certamente é um fato capaz de gerar incômodo aos historiadores católicos e a quantos acreditaram que houve um pioneirismo católico romano na evangelização dos nativos da Ibiapaba e dos Alongases.


Está equivocado o padre Cláudio Melo ao afirmar que “a história religiosa de Campo Maior começa com os primeiros contatos dos missionários da Ibiapaba com nossos selvícolas Potis e Alongases. Isto se deu a partir de 1658...” (MELO, 1983, p. 43). A história religiosa de Campo Maior teve início a partir dos primeiros contatos dos índios protestantes reformados com os índios que cobriam nossas paragens, em 1654. Foi uma evangelização mais fácil e de maior efeito, por ter sido entre os próprios índios. O contato evangelizador do Jesuíta com os índios só aconteceu depois disso. Ele chega mesmo, na minha opinião, a se contradizer, ao afirmar: “não se sabe quem primeiro pregou a fé, mas se sabe que, pela época da segunda missão jesuítica na Ibiapaba, aqueles índios que solicitaram a missão já eram cristãos, fugitivos do poderio holandês de Pernambuco, conforme nos diz o Pe. Betendorf.” (MELO, 1983, p. 29-30. Grifo meu). Ele afirma que, quando os jesuítas chegaram na Ibiapaba, na segunda Missão, os índios que eles encontraram ali já eram cristãos. A explicação para isso é apenas uma: a igreja protestante indígena estava na Ibiapaba. Não resta a menor dúvida disso atualmente. Odilon Nunes lembra que havia índios na Ibiapaba que já eram descritos como hereges, e isso, agora sabemos, pelo fato de serem protestantes reformados da igreja holandesa de Nassau: “a luta entre tribos que viviam no interior da serra, a indisciplina e impiedade no seio da mesma missão, provocado por índios, tidos como hereges, porque ainda guardavam alguma influência dos holandeses” (NUNES, 2007, pp. 72-73).


O renomado padre Antonio Vieira, em seu relatório A Missão da Ibiapaba, faz significativa contribuição histórica que confirma a forte presença da igreja indígena protestante:

Como a chegada destes novos hospedes ficou Ibiapaba verdadeiramente a Genebra de todos os sertões do Brazil, porque muitos dos índios Pernambucanos foram nascidos e criados entre os holandeses, sem outro exemplo nem conhecimento da verdadeira religião... No Recife de Pernambuco, que era a corte e empopoio de toda aquela nova Holanda, havia judeus de Amsterdã, Protestantes da Inglaterra, Calvinistas da França, Luteranos da Alemanha e Suécia, e todas as outras seitas do Norte (SOUZA, 2013, p. 113).

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- Padre Antônio Vieira constatou a presença de índios protestantes na serra da Ibiapaba e os chamou de "hereges".

Em oposição a Odilon Nunes, o padre Antonio Vieira, que foi uma testemunha da existência da igreja protestante indígena, assegura que não foi uma mera influência dos holandeses, mas uma presença dominante, chegando ele a chamar a Ibiapaba de “Genebra de todos os sertões” numa clara referência à Genebra reformada de João Calvino, a cidade modelo da reforma protestante. A Identificação da Ibiapaba com Genebra não se dá por conta de fatores climáticos, isto porque a temperatura da Ibiapaba é bem mais baixa do que no restante do sertão cearense e piauiense, e isso pode confundir o leitor, levando a interpretações equivocadas. O sentimento expresso pelo padre Antonio Vieira era tão somente de infelicidade por conta do domínio dos índios protestante na serra e sobre nações aborígenes vizinhas à serra. Por longos anos as pessoas têm se equivocado em achar que a frase está em sintonia com clima da serra.


Entretanto, sem a ajuda dos Holandeses, que haviam deixado o Brasil, a igreja protestante da serra da Ibiapaba rompe em peregrinação, em 1661, perdurando até o ano de 1692 (SOUZA, 2013, p. 123). Porém, não sem antes deixarem sua contribuição às demais tribos indígenas as quais tiveram a oportunidade de pregar.


Os relatos da existência de índios cristãos nas paragens dos Alongases e do Poti, como asseguram muitos historiadores, inclusive o padre Cláudio Melo, apontam que a pregação dos índios protestantes foi ouvida e assimilada, tanto por meio dos franceses, como também por meios dos índios calvinistas frutos do trabalho missionário holandês. Não se pode negar que a fé reformada foi anunciada no norte do Piauí. Fortalece ainda mais essa afirmação o fato de muitos índios protestantes, no momento da peregrinação, terem optado se dirigir da Ibiapaba para o Maranhão, separando-se do grupo principal, e assim, percorrendo a região do Surubim, sua rota natural. Nos Alongases, no Surubim, e em todo o Piauí o catolicismo romano prevaleceu, criou raízes. A igreja protestante indígena, passageira, veio a desaparecer pouco depois, logo após o fim do Brasil Holandês. O que afirmo aqui não é uma nova história da igreja cristã, mas o resgate de uma história que não foi registrada pelos historiadores modernos. Os historiadores que labutaram em escrever a história do Piauí, especialmente aqueles que se detiveram em pesquisar a história religiosa, se não foram ignorantes quanto a esses fatos, foram parciais ao negligenciarem essa importantíssima página de nossa história.

 

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História do Piauí - 14/02/2017 às 10h21

A Fazenda Foge-Homem e sua tradição

No norte do Piauí, seguindo atualmente pela malha estadual que dá acesso à cidade de Castelo do Piauí, em lugar de imensa beleza campestre, com rios e riachos que correm serpenteando nesta larga extensão de terra, encontra-se a secular fazenda Foge Homem. O vaqueiro da região até hoje chama-a “Fojomem”. Rodeada por outras fazendas, em lugar excelente para se criar gado grande e pequeno, a fazenda Foge Homem ganhou destaque no cenário histórico de Campo Maior. Não se sabe exatamente a data de sua origem, porém, ela figura junto com outras fazendas de grande importância local e estadual. Foi fazenda que abrigava escravos, sendo assim um excelente ponto de partida para se pesquisar sobre a escravidão em Campo Maior. Tornou-se um dos importantes currais de gado de Campo Maior no século XIX.


A antiguidade da fazenda Foge Homem é indiscutível. Ela está registrada em um mapa de 1850, com a inscrição "Carta Topográphica e Administrativa da Província do Piauhy. Erigido sobre os documentos mais modernos pelo VCDE. J. de Villiers de Li´lie Adam. Gravada na lithographia imperial de Vr. Larée". No Brasil, o mapa foi publicado pelos irmãos Carneiro, em 1850. Em outro mapa, ainda mais antigo, de 1828, confeccionado em Munique, Alemanha, a fazenda Foge Homem ganha destaque, pertencendo às terras da Vila de Campo Maior, e formando seu conjunto de fazendas mais importantes. A Foge Homem, em seu formato original, remonta aos idos da segunda metade do século XVIII, portanto, uma fazenda setecentista, sendo assim, um dos mais antigos currais de gado de Campo Maior, cuja a história é pouco conhecida e sua importância socioeconômica tem sido muito negligenciada.


A região onde a fazenda está situada é de aparência ambígua: bela e sinistra. Existe um magistral abismo, onde, em tempos de inverno, corre célere um rio de poderosa correnteza que precipita suas águas no paredão rochoso, formando uma magnífica cachoeira, com uma queda de quase 40 metros de altura. A lenda do nome da fazenda, denominada FOGE HOMEM, está diretamente ligada a esse rio e a esse abismo. Existe uma lenda antiguíssima sobre a origem do nome FOGE HOMEM. Segundo Heitor Castelo Branco Filho, que já foi proprietário da fazenda, o “singular nome [foi] copiado da DATA de demarcação de mesmo nome, a qual pertence, no município de Campo Maior, Piauí.” (CASTELO BRANCO FILHO, 2011, p. 122). Em outras palavras, a região onde a fazenda está instalada já era chamada Foge Homem; assim, à fazenda foi dada a mesma designação da região. A lenda reza o seguinte:


Contava-se que certo vaqueiro seguia em desabalada carreira cavalgando fogoso corcel em perseguição a um boi velho. Em certa altura da atropelada, o boi tomou o leito seco de um riacho. O vaqueiro já estava muito próximo ao bovino, já quase o alcançando, quando subitamente ouviu uma forte voz de comando: FOGE-HOMEM! O vaqueiro saltou do cavalo em disparada, pois tempo não havia para sofrear o animal, que juntamente com o boi precipitou-se em profundo abismo, onde ambos se excidiram. Esse precipício, de cerca de 30 metros de profundidade, pode ser visitado, pois à margem da estrada Campa Maior-Castelo, na Fazenda Pedras Negras, de Adalberto Correia Lima. (Ibid, pp. 122-123).


A lenda é realmente bem conhecida na região, principalmente pelos mais antigos moradores do lugar. José Damião e João Cristino da Paz – e muitos outros – antigos moradores, deixaram aos seus filhos e netos a tradição da lenda que foi imortalizada por Heitor Castelo Branco Filho. Em cronologia simples, a lenda do nome Foge Homem remonta, no mínimo, cerca de dois séculos. Porém, não podemos esquecer que a força do imaginário é muito vigorosa. A história parece ter sofrido alterações e transformações ao longo do tempo.


Em documentação inédita, constando de informações gerais sobre Campo Maior, enviadas diretamente pelo Conselho Municipal, no mês de abril do ano de 1881, a fazenda parecia ser designada com este nome por outro motivo. Não se menciona nada a respeito da lenda da voz misteriosa que bradou ao vaqueiro, ordenando-lhe que fugisse da montaria. Ao mencionar as potencialidades das terras daquele setor, os conselheiros de Campo Maior citam o sítio de João Antônio Pacheco e José Alexandre Teixeira, lembrando que suas terras são potencialmente produtivas, ricas em águas, que podem ser canalizadas para a irrigação. Mencionam ainda que a terra é muito boa para a criação de gado bovino. Lembram, no entanto, que as terras estão abandonadas a anos. Ao falar disso, o relatório dos conselheiros de Campo Maior pontua a existência de um riacho bravio e desafiador, que segue em um acentuado declive. Os conselheiros explicaram a origem do nome FOGE HOMEM de outra forma. A citação segue mantendo a grafia original:


"Ao leste da Villa, em um rumo directo, existe um riacho denominado Santa Maria, em cujo leito lagiado, se nota um despenhadeiro medonho que forma um taiado de mais de 400 metros d’altura [40 metros], formando em baixo um poço d’água de grande profundidade feito pelo despenhado das águas na estação chuvosa do qual segue o mesmo riacho seu curso. Na distancia d’elle, ao lado de cima nas enchentes da chuva, não se pode passar, porque tudo quanto entra no seu leito, é levado pela extraordinária corrente a precipitar-se no referido despenhadeiro, pelo que tomou uma fazenda de gado vizinha a denominação – “foge-homem” (Anais da Biblioteca Nacional. Conselho Municipal de Campo Maior. Relatório Anual, 1881).


Dessa forma o nome Foge Homem, segundo consta neste documento do Conselho Municipal de Campo Maior, era uma advertência contra o suicídio de tentar fazer a travessia do riacho no inverno, visto que suas águas fatalmente arrastariam qualquer pessoa ao abismo, com queda de quase 40 metros de altura. Qualquer “homem” inteligente deveria “fugir” de tentar vencer suas águas.

Edição: Marcus Paixão

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Turismo e Culinária - 10/02/2017 às 08h41

Campo Maior: terra da "carne de sol"

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Em todo o Estado do Piauí e em muitas cidades brasileiras, o município de Campo Maior é conhecido como a terra da carne de sol. Aqui no Piauí esse título é consenso, ninguém discute mais a questão, ninguém toma de Campo Maior esse mérito. No Brasil, por conta dos turistas que tem visitado nossa terra – especialmente por causa da Batalha do Jenipapo, festejos religiosos, etc. – no decorrer de anos, a fama e o título começam a ganhar peso nacional. Ano passado a revista Veja publicou em seu site matéria explicando as origens da "Maria Izabel", arroz à base de carne de sol e destacou a cidade de Campo Maior. Nos últimos anos, com a criação do evento cultural SABOR MAIOR, a fama de Campo Maior ganhou forte impulso nacional. Não há dúvida que através deste evento, a culinária campomaiorense tem se destacado e tem comprovado sua fama secular. Campo Maior e carne de sol, hoje, são sinônimos.

Mas o que há de especial com a carne de sol de Campo Maior? A criação de gado em Campo Maior é diferenciada? Os pastos são melhores ou o solo tem algum composto que o diferencia? Você sabe por que Campo Maior tem a fama de terra da carne de sol? Ainda é grande a quantidade de pessoas na cidade que não sabe responder essa pergunta; ou que está enganada quanto à resposta. A história do povoamento de nossas paragens pode nos ajuda compreender essa matéria.

Logo após a metade do século XVII, por volta de 1660 e 1670, nossa terra começou a ser atravessada por fazendeiros portugueses que vinham da Bahia, do Pernambuco e do Ceará, todos com destino a São Luís do Maranhão. Tratava-se de uma nova rota. As rotas antigas seguiam do Sul (Oeiras) em direção ao litoral (Norte), cruzando o Piauí em sentido vertical. A nova rota, que atravessava a atual Campo Maior, região então chamada de Vale do Longá, tinha seu trajeto pela cordilheira da Ibiapaba. Ali os vaqueiros que conduziam o gado desciam a serra e adentravam na região onde hoje cobre as cidades de Castelo a Pedro II. Continuavam seguindo na região, na direção do Longá, sempre caminhando para rio Parnaíba, divisa atual dos Estados (Piauí e Maranhão), numa travessia que cortava o Piauí ao meio, em sentido horizontal, cruzando o Vale do Longá. A nova trilha tornou-se o “corredor do gado” no Piauí.

Nessas muitas andanças de vaqueiros e fazendeiros portugueses, a terra de Campo Maior logo despertou a atenção, especialmente por duas características: as grandes e espaçosas campinas, extremamente propícia para a criação do gado; e a grande quantidade de rios e lagoas que cortavam a terra. Fazendas e curais começaram a surgir ainda nesse período inicial. Boiadas eram trazidas para as terras de Campo Maior, que logo estava cheia, pontilhada de cabeças de gado. A medida que o século XVII chegava ao fim, na mesma velocidade, crescia o número de fazendas e de bois. O gado foi a primeira riqueza de Campo Maior. Trouxe fartura, poder econômico e prestígio aos moradores da região. Isso tudo há cerca de 350 anos atrás, quando Campo Maior ainda não era chamada de Campo Maior, mas já iniciava seu povoamento e sua história com o gado, forte ligação que se comprova desde os tempos mais remotos. Ao despontar o século XVIII, com a fortificação do povoamento de fazendas, com a guerra contra os índios deflagrada, ação que dizimou as populações nativas do nosso território, a criação do gado deu, novamente, mais um grande salto. O índio não deixava de ser um problema para os fazendeiros, pois era comum o roubo do gado e o ataque às fazendas. Sem a presença indígena a criação do gado despontou e a economia do norte também. De todas as povoações do Piauí, Campo Maior sempre esteve bem presente nas dízimas do gado que eram enviados ao centro da colônia. Algumas vezes Campo Maior chegou a superar a própria Oeiras, capital da Província, na criação do gado.

- A carne de sol destaca-se na produção de vários pratos saborosos, como a paçoca, o escondidinho, o arroz Maria Izabel e até em meios às massas, como a pizza e o espaguete.

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Alguns documentos antigos, que datam dos anos de 1770 a 1779, comprovam que a riqueza e o poder em Campo Maior vinham mesmo do gado. Chegava-se ao absurdo de um fazendeiro comprar um vestido para uma mulher ao custo de três cabeças de gado, o que equivaleria hoje, por alto, cerca de R$ 5.000,00. E isso era prática comum. Duas garrafas de cachaça custavam um valor superior ao de R$ 1.000,00, isto é, uma cabeça de gado. Para comer uma galinhada era preciso dispor de uma cabeça de gado, e dos grandes. Todo esse esbanjar comprova, não apenas a falta de alguns itens básicos, mas a grande quantidade de gado que estava espalhada nas fazendas de Campo Maior.

Respondendo a pergunta: por que Campo Maior é conhecida como terra da carne de sol? Primeiro, é bom lembrarmos que muita informação equivocada existe. Alguns tem espalhado a notícia que essa fama é oriunda do talento presente em nossa culinária. Outros acreditam que nossos campos tinham compostos especiais que tornavam o capim diferenciado... tudo estória, estória pra boi dormir. A fama se deu especialmente por conta das condições físicas naturais de nosso território. Esse título se deve, a priori, aos imensos campos que estão presentes em nossa região. Essas grandes campinas foram o motivo principal da instalação de muitas e grandes fazendas de gado. A terra logo se encheu de gado vacum. A pecuária era a fonte que mais jorrava riquezas ao povo de Campo Maior (leia-se aqui: aos fazendeiros). Se houve muito gado, isso se deu pelo fato da terra ser favorável, oferecendo grandes campinas e muito pasto.

Como o fazendeiro não dispunha de energia elétrica, a carne era conservada com sal e posta ao sol, para secar mais rapidamente e ser armazenada em pequenas e médias quantidades. Aí estava a carne de sol de Campo Maior, que se tornou lendária no Piauí inteiro. Saiba o leitor que a fama da cidade não vem de hoje, vem de quase dois séculos de tradição. As tradições se transformam e se modelam com o tempo, e a tradição da carne de sol de Campo Maior também passou por essa transformação. Hoje, ao ouvirmos que Campo Maior é a terra da carne de sol, logo ouvimos que o motivo disso é porque a nossa carne é a melhor da região. Não discordo que a nossa carne é a mais gostosa do Piauí, o Sabor Maior vai comprovar mais uma vez que a melhor culinária piauiense está em Campo Maior, mas, sem dúvida nenhuma, a origem dessa fama se deu não por motivos culinários, mas pela força que o gado sempre representou na nossa economia.

Edição: Marcus Paixão

História do Piauí - 04/02/2017 às 10h52

O Cemitério do Batalhão pode guardar os restos mortais dos soldados de Fidié

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A incerteza quanto ao real lugar onde os brasileiros que morreram na Batalha do Jenipapo estão sepultados levanta uma outra questão, bastante constrangedora, se for confirmada. Primeiro, é importante lembrarmos que o Cemitério do Batalhão, em Campo Maior, tradicional lugar onde se diz que estão enterrados os mortos da Batalha do Jenipapo pode ter surgido a partir do imaginário popular, depois da construção de um Obelisco em memória aos mortos da guerra. Com absoluta certeza posso afirmar que no Cemitério do Batalhão estão sepultados pessoas que viviam na vizinhança e, depois do Obelisco e do simbolismo que adquiriu o lugar, a comunidade, de fato, transformou a área num cemitério. Contudo, antes de 1922, os homens que lutaram na guerra do Jenipapo, “durante anos permaneceram no esquecimento, principalmente por parte das autoridades” (BRASIL, 2002, p. 20).

Nos primeiros 100 anos do pós-Batalha, os heróis do Jenipapo ficaram no esquecimento. Afirmar que os restos mortais dos patriotas que lutaram na guerra do Jenipapo, que consagrou a completa independência do Brasil, também estão nesse cemitério, é algo que ainda não foi provado por ninguém. Apenas um século depois da guerra foi que as primeiras homenagens começaram a aparecer. O que sustenta a afirmativa de que os nossos heróis estão sepultados ali, é tão somente a tradição e nada mais.

- Os soldados portugueses: Fidié os sepultou em algum ponto no lugar do combate

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Em segundo lugar, e muito constrangedor, é a confirmação que temos por documento e pela historiografia produzida sobre o tema, que o Major Fidié, após a mortal batalha, depois da dabandada dos patriotas do local de guerra, permaneceu algumas horas no campo de batalha, recolhendo armas, somando as perdas e os ganhos, prestando os primeiros cuidados aos feridos, reavaliando sua estratégia e juntando os cadáveres dos seus soldados. Aqui, para embasar minha argumentação, cito Abdias Neves e o Mons. Chaves:

Não se sabe, ao certo, o número de mortos que tiveram os portugueses, porque Fidié reuniu os cadáveres em cinco sepulturas e não as enumerou na parte da ação (NEVES, 2006, p. 148).

Em Campo Maior permaneceu Fidié dois dias enterrando seus mortos, curando os feridos, reorganizando as fileiras (CHAVES, 2005, p. 86).

Observe que, como afirma Abdias Neves, o Major Fidié enterrou os soldados mortos (no lugar da batalha), em cinco covas. Mons. Chaves segue na mesma linha, deixando certo que ele, Fidié, enterrou seus mortos no campo de batalha, isto é, em terras campo-maiorenses. A quantidade de portugueses mortos varia, segundo a historiografia. Alguns falam em menos de 20, outros chegam a afirmar um número bem superior a 200, até maior, se observarmos a tradição oral. É incerto. Mas, cinco covas abertas sugere um número não muito alto de mortos portugueses. Onde, exatamente, Fidié os enterrou? Não podemos saber; não há nenhum registro do lugar exato. Porém, foi no lugar chamado “Campo do Batalhão”, pois esse foi o palco da batalha: “Em Campo Maior permaneceu Fidié dois dias enterrando seus mortos...”. Também pode o comandante português ter sepultado outros portugueses, que vieram a falecer em seguida, vítimas das feridas de guerra, nas proximidades da casa da fazenda Tombador, a cerca de um quilometro da vila de Campo Maior. Nesta fazenda Fidié passou dois dias: a noite do dia 13 de março, todo o dia 14, e a manhã do dia 15. Ele deixou a fazenda por volta das 11 horas da manhã.

- Major João José da Cunha Fidié, chefe maior das tropas portuguesas

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Se a tradição campo-maiorense de que os Heróis do Jenipapo mortos estão enterrados no Campo do Batalhão for realmente anterior à construção do Obelisco (1922), os túmulos que estão lá, podem conter, não os restos mortais dos patriotas que lutavam pela independência do Brasil, mas os restos mortais dos soldados portugueses que foram sepultados no lugar do combate. Podem ser os soldados que Fidié enterrou, conforme citam as fontes. Também deve ser considerado que o cemitério era bem menor do que o que vemos hoje. Atualmente a velha necrópole já está bem adulterada. Quanto aos brasileiros, volto a dizer, não existe nenhuma documentação que ateste que estejam sepultados no lugar do conflito, mas, quanto aos portugueses, estes sim, há testemunhas que afirmam que foram sepultados no Campo do Batalhão, o lugar onde se deu a Batalha do Jenipapo.

O constrangimento, se confirmado a hipótese, está no fato de, há décadas, as forças armadas brasileiras estarem prestando homenagens aos soldados inimigos, que pretendiam nos massacrar. Há muitas décadas, anualmente, o Exército brasileiro, no dia 13 de março, visita o velho cemitério da Batalha do Jenipapo para honrar os heróis brasileiros. O Governo do Estado e o Governo Federal, que reconhecem no Cemitério do Batalhão o último lugar de descanso dos heróis da guerra do jenipapo, visitam o cemitério para prestar as mesmas honras. Seria constrangedor saber que, debaixo daquele chão, estão os portugueses que lutaram para dizimar nosso exército separatista e para manter o Brasil sob o julgo político português.

Contudo, o famoso e quase bicentenário “Cemitério do Batalhão” jamais perderá seu encanto e seu simbolismo. Jamais deixará de ser o cemitério dos veteranos do Jenipapo, dos heróis brasileiros que deram seu sangue pela libertação do Brasil. O simbolismo do cemitério dos Heróis do Jenipapo é perpétuo. Naquele campo, independentemente de onde tenham sido sepultados os bravos soldados campo-maiorenses, sempre se prestará as devidas honras aos nossos homens. Ainda que as sepulturas sejam, de fato, de soldados portugueses, servirá isso apenas para notarmos que aqueles que jazem ali foram eliminados pelos nossos soldados. Naquelas sepulturas está morto o sonho de Portugal.

Edição: Marcus Paixão

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