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História do Piauí - 06/03/2017 às 08h20

Fim do Mistério sobre a data da criação da Freguesia de Santo Antônio do Surubim

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Antonio das Neves - Peritos Associados

Uma das mais antigas e misteriosas lacunas sobre a história de Campo Maior foi resolvida: a data da criação da Freguesia de Santo Antônio do Surubim. Nas últimas décadas essa foi uma das maiores buscas dos historiadores do Piauí. Jamais se tinha chegado à conclusão sobre a data correta da criação da Freguesia de Santo Antônio do Surubim de Campo Maior. Sabia-se sobre as demais freguesias piauienses, mas a de Campo Maior era um mistério.

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Na manhã de ontem, enquanto conversava com o professor Fonseca Neto, chefe do Departamento de História da Universidade Federal do Piauí, discutíamos sobre a história de Campo Maior e o papel da igreja nos primeiros momentos de vida daquela povoação. Ao discutirmos sobre a data da criação da freguesia, o professor analisou os argumentos do padre Cláudio Melo, bem como minha própria posição, no livro Campo Maior Origens.

As datas para a criação da Freguesia de Santo Antônio do Surubim sempre eram remotas. Padre Cláudio assegurava sua existência em meados de 1711, quando a igreja de Santo Antônio foi instalada em Campo Maior. Ele também defendia a possibilidade da freguesia ter sido criada na primeira visita às terras dos Alongases, quando o padre Miguel de Carvalho percorreu o território do norte. Mesmo sem igreja, ele pensava que naquela ocasião poderia ter acontecido a criação da Freguesia do Surubim, de Santo Antônio. Faltava a prova final para sustentar a hipótese, que, aliás, fazia muito sentido. A primeira documentação que registra a expressão “Freguesia de Santo Antônio do Surubim” encontra-se numa correspondência onde o nome de Manoel de Carvalho é citado como um morador da dita freguesia. Essa data me fez acreditar que a data mais confiável que tínhamos, até o momento, seria o ano de 1713, ou mesmo um ou dois anos antes. Essa foi minha posição sobre a origem da Freguesia de Santo Antônio.

Eu escrevi em Campo Maior origens: “A freguesia de Santo Antônio do Surubim foi instalada entre os anos de 1711 a 1713. Prova disso são as referências em correspondências dessa época apontando algumas pessoas que moravam na dita freguesia em 1713”. O raciocínio era simples: se havia menção na existência dessa freguesia em 1713, era sensato entender que ela foi criada nesse mesmo ano ou em data anterior, o que me levava a recuar a data proposta pelo padre Cláudio Melo, na ocasião da construção da igreja de Santo Antônio. Por isso a indecisão entre os anos de 1711 a 1713. Não tinha dúvidas de que sua criação se dera dentro desse espaço cronológico.

- Prof. Fonseca Neto concluiu que a Freguesia de Santo Antônio do Surubim em Campo Maior foi criada em 1740.

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Nas pesquisas do professor Fonseca Neto, trabalho de grande envergadura sobre o bispado piauiense, ele encontrou um documento de Dom Manuel, bispo do Maranhão, onde ele comunica ao rei de Portugal a criação da freguesia de Santo Antônio do Surubim. A profundidade das pesquisas sobre o bispado do Piauí, o levou a inquietação quanto à origem da Freguesia do Surubim, que consistia em grande mistério. Conforme a carta do bispo do Maranhão, Dom Manuel da Cruz, a freguesia foi criada em 1740. A carta é datada de 1741:

“Senhor. Foi vossa Majestade servido por resolução expedida da Mesa da Consciência e Ordem em 20 de maio de 1740 criar de novo na freguesia da vila da Mocha mais duas freguesias com párocos colados, uma na ribeira da Gurguéia, e outra no distrito da Caatinguinha; como também foi servido criar, e erigir mais em novas vigarias coladas os curatos das igrejas de Santa Maria da Vila do Icatu, Nossa Senhora do Carmo do Piracuruca, Santo Antônio do Surubim...”

Na carta do bispo, ele indica que em 20 de maio de 1740, foi expedido criar na freguesia do Mocha (Oeiras) mais duas novas freguesias, e em seguida menciona que erigiu “mais” freguesias em novas vigarias, incluindo aí a menção de Santo Antônio do Surubim. Conforme Fonseca Neto essa é a data da criação da Freguesia de Santo Antônio do Surubim.

Sobre as correspondências e a presença desse bispo do Maranhão na região do Surubim, faço menção em Campo Maior Origens (p. 41), demonstrando que a partir daquele momento as delimitações da freguesia de Santo Antônio do Surubim de Campo Maior estava mais bem estabelecida, e, apontando que havia uma disputa entre o bispado do Maranhão e o de Pernambuco, nas delimitações territoriais. Foi o professor Fonseca Neto que me fez compreender que a visita do bispo, além do fato que eu descrevi, serviu também para criar a freguesia do Surubim, por isso essa delimitação tão precisa.

Enquanto eu discutia com o professor Fonseca Neto sobre essa carta e essa data de 1740, sobre as delimitações territoriais, perguntei-lhe sobre a menção das datas mais remotas, como a de 1713, já mencionando a existência da freguesia de Santo Antônio do Surubim. Essa data, segundo Fonseca Neto, deve ser vista como um momento em que a freguesia existia na informalidade, pois ainda não tinha sido literalmente ou oficialmente criada pela igreja. Já era uma freguesia porque já havia a igreja instalada, o cura já oficiava regularmente, e os “fregueses” já estavam lá, mas tratava-se de uma freguesia futura ou freguesia não oficial, mas que já era conhecida assim por causa da igreja e da certeza de que seria criada. A menção a freguesia de Santo Antônio em 1713 não significa que ela já existisse por criação de um bispado. A data exata, concreta, é mesmo o ano de 1740, conforme a carta com as informações da sua criação, em destinada ao rei no ano seguinte, 1741.

Uma cronologia dos estudos sobre a Freguesia de Santo Antônio do Surubim de Campo Maior pode ser compreendida da seguinte forma:

1697 – O padre Miguel de Carvalho visita a região norte para conhecer os termos da freguesia do Mocha. Por ser de enorme extensão (todo o território do Piauí), entende que uma nova freguesia precisa ser criada.

1711 – Outro padre, Tomé de Carvalho, visita a mesma região e, com ordens do bispo de Pernambuco, constrói a igreja de Santo Antônio em Campo Maior. Essa foi a primeira data a se cogitar a criação da freguesia de Santo Antônio.

1713 – Em uma carta encontramos a menção de pessoas que moravam na freguesia de Santo Antônio do Surubim. Essa foi a outra data pensada para a criação da freguesia, já que ela já é mencionada.

1715 – O bispo de Campo Maior encontrou no anuário católico o ano de 1715.

1740 – Data em que, segundo consta na correspondência do bispo do Maranhão, Dom Manuel da Cruz, a freguesia foi concretamente criada e o fato comunicado ao rei de Portugal em 1741.

História do Piauí - 02/03/2017 às 07h53

A origem da Freguesia de Santo Antônio do Surubim

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Antonio das Neves - Peritos Associados

Em 1711, a região dos Alongases com suas fazendas, já acumulando considerável quantidade de pessoas, recebeu a visita do Padre Tomé de Carvalho. Tinha ele o intuito de levantar uma capela em dedicação a Santo Antônio, seguindo ordens do bispado de Pernambuco. Com a construção da igreja o lugar passaria à condição de Freguesia, a segunda do Piauí, Santo Antônio do Surubim.

- Segundo templo de Santo Antônio do Surubim, em Campo Maior. Foi construído em 1779. Não há registro do primeiro templo.

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Quanto às origens da religião e da igreja de Santo Antônio, até hoje existe muito do misticismo do catolicismo popular atrelado ao imaginário local. Esse é um retrato autêntico do homem da Idade Média que permanecia impresso no português que colonizava nosso espaço. Moysés Castello Branco Filho parece se deixar envolver por esses contos em sua narrativa: “O primeiro povoado do Longá desenvolveu-se nas margens do regato onde foi encontrada uma pequena imagem de Santo Antônio no tronco de uma juremeira, e logo chamado riacho de Santo Antônio. No lugar foi levantada uma capelinha modesta sob a invocação do milagroso orago e, alguns anos depois, a igreja maior. Em volta cresceu o povoado de Santo Antônio do Surubim de Campo Maior – Santo Antônio de Campo Maior – ou simplesmente Campo Maior na consagração popular” (CASTELO BRANCO, p. 53).


A narrativa fantástica do aparecimento milagroso de imagens de santos católicos sempre permeou o imaginário do povo. Existem vários relatos que atrelam o surgimento de comunidades às imagens encontradas em rios, campinas, árvores, etc. O princípio mítico sempre tem sido o mesmo, geração após geração. A primeira casa de culto católico erigida no Surubim pode ter sido levantada ainda em 1696, antes mesmo da chegada do Padre Miguel de Carvalho, quando viajava pelo sertão do Piauí. Esteve no arraial de Bernardo de Carvalho o jesuíta Ascenso Gago para realizar uma desobriga que durou 18 dias. Padre Cláudio Melo nos lembra que “tinham os jesuítas o hábito de por onde andassem levantar Capelas, mesmo que de taipa e palha. Como este era o costume, podemos supor que foi a partir daquela desobriga que o Surubim teve a sua [primeira] Casa de Oração”. No documento não consta que os padres tenham se abrigado em casa de Bernardo de Carvalho. Essa é uma suposição de Cláudio Melo.


O que está bem documentado quanto à origem da Freguesia de Santo Antônio e de sua primeira capela, é que ela foi fundada pelo Padre Tomé de Carvalho. Sobre isso não há a menor dúvida. Cláudio Melo acreditava que a capela tinha sido construída nas terras da fazenda Bitorocara, no fim do inverno de 1711: “O Pe. Tomé de Carvalho reuniu em Bitorocara, Arraial de Bernardo de Carvalho, os principais cidadãos da redondeza para decidirem o local e a construção da Matriz da nova Freguesia que teria por padroeiro o glorioso Santo Antônio” (MELO, p. 47). Temos outro problema aqui. Para Cláudio Melo, a fazenda Bitorocara e o Arraial Velho tratavam-se da mesma fazenda. A Bitorocara passou a se chamar Arraial Velho no período da guerra contra os índios. O problema é que atualmente a data de sesmaria do Arraial Velho já é bem conhecida e o documento situa essa fazenda nas proximidades do rio Parnaíba, bem mais ao norte de Campo Maior, mais perto de Piracuruca.

- Atual catedral de Santo Antônio, em Campo Maior. É o terceiro templo construído, sempre no mesmo lugar dos templos anteriores.

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O local escolhido para a igreja foi uma colina situada cerca de 200 metros do rio Surubim. Em Campo Maior a igreja foi construída em terreno isolado, no ermo, sem nenhuma fazenda muito próxima, como se deu também em Oeiras. A capela de Oeiras (chamada na época de Mocha) foi levantada longe das áreas povoadas, “isolada daqueles que formariam a comunidade (...) sem outras habitações que a pequena igreja e três ou quatro ranchos, também de taipa, onde residiam o Cura e seus primeiros colaboradores.” (MELO, p. 8). Esse mesmo fenômeno, o da igreja isolada, se repetiu em Campo Maior. Por isso, labutam em erro aqueles que assumem que a casa da fazenda Bitorocara estava situada próximo à capela.


Embora o padre Tomé de Carvalho tenha reunido o povo para que eles escolhessem o local onde a capela seria levantada, o registro histórico orienta que o local deveria ser escolhido de tal forma que comtemplasse todos os fazendeiros da região, não privilegiando uns em detrimento de outros. As distâncias entre as fazendas e a igreja teriam que ser regulares entre os fazendeiros, sem grandes disparates.

- A história específica das três igrejas de Santo Antônio foi destaque na primeira edição da Revista Eugênio.

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A igreja de Santo Antônio foi construída em 1711. Pouco tempo depois a Freguesia de Santo Antônio do Surubim foi estabelecida. Não se sabe se imediatamente à inauguração da igreja ou alguns poucos meses depois. O fato é que em 1713 já temos o registro de correspondência citando um homem que residia na Freguesia de Santo Antônio do Surubim. Mesmo sem condições de estabelecermos uma data precisa para sua criação, é inequívoca a informação de que em 1713 ela já existia. Portanto, o ano de 1713 é, até o presente momento, a melhor data para falarmos da criação dessa antiga freguesia piauiense.

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História do Piauí - 21/02/2017 às 08h47

Os índios cristãos protestantes da Ibiapaba

Antonio das Neves - Peritos Associados
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A historiografia piauiense cobre muito bem a presença católica no período colonial na região norte da província. A chegada de padres jesuítas, o trabalho de catequização, os aldeamentos, e todo o trabalho católico entre os índios está bem apresentado. O que ficou obscuro e pouco discutido na historiografia piauiense foi a forte presença dos índios protestantes calvinistas que ocuparam a Ibiapaba em 1654-1660 , frutos do trabalho missionário e pastoral do Holandeses em Pernambuco. Depois da capitulação do projeto holandês no Brasil, os índios Potiguara, que haviam recebido a fé protestante e boa educação, sabendo muitos deles ler e escrever, deixaram Pernambuco e rumaram para a Ibiapaba, para se refugiarem dos portugueses.

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- Os índios protestantes chegaram na serra da Ibiapaba antes dos padres Jesuítas, da Companhia de Jesus.


Causa estranheza o fato de não se mencionar a existência dos índios de fé Reformada (protestantes calvinistas) na serra da Ibiapaba pelos historiadores piauienses. Odilon Nunes, que escreveu boa parte da história do Piauí e fez extensas pesquisas, não aprofunda a questão, senão em observar a presença holandesa no Piauí. Esperava-se que Cláudio Melo, pelo fato de ser sacerdote e pesquisador da História da igreja Cristã no Piauí, aprofundasse a temática e desse destaque à igreja protestante que existiu por dois anos na serra da Ibiapaba. Contudo, ele não faz referência aos nativos protestantes, que contabilizavam cerca de dois mil índios. Esse é um número bastante expressivo para passar despercebido. Os protestantes indígenas eram totalmente organizados e fluentes no conhecimento teológico, catequizados com os principais catecismos e confissões de fé utilizados naquele período, tendo seus líderes indígenas navegado ainda criança para os Países Baixos e ali desfrutado de treinamento e educação refinada.


Por quatro anos (1656-1660) a igreja protestante dos índios da Ibiapaba se propagou, autônoma, evangelizadora, sem a disputa dos jesuítas, pois não havia presença católica nesse período. Esse certamente é um fato capaz de gerar incômodo aos historiadores católicos e a quantos acreditaram que houve um pioneirismo católico romano na evangelização dos nativos da Ibiapaba e dos Alongases.


Está equivocado o padre Cláudio Melo ao afirmar que “a história religiosa de Campo Maior começa com os primeiros contatos dos missionários da Ibiapaba com nossos selvícolas Potis e Alongases. Isto se deu a partir de 1658...” (MELO, 1983, p. 43). A história religiosa de Campo Maior teve início a partir dos primeiros contatos dos índios protestantes reformados com os índios que cobriam nossas paragens, em 1654. Foi uma evangelização mais fácil e de maior efeito, por ter sido entre os próprios índios. O contato evangelizador do Jesuíta com os índios só aconteceu depois disso. Ele chega mesmo, na minha opinião, a se contradizer, ao afirmar: “não se sabe quem primeiro pregou a fé, mas se sabe que, pela época da segunda missão jesuítica na Ibiapaba, aqueles índios que solicitaram a missão já eram cristãos, fugitivos do poderio holandês de Pernambuco, conforme nos diz o Pe. Betendorf.” (MELO, 1983, p. 29-30. Grifo meu). Ele afirma que, quando os jesuítas chegaram na Ibiapaba, na segunda Missão, os índios que eles encontraram ali já eram cristãos. A explicação para isso é apenas uma: a igreja protestante indígena estava na Ibiapaba. Não resta a menor dúvida disso atualmente. Odilon Nunes lembra que havia índios na Ibiapaba que já eram descritos como hereges, e isso, agora sabemos, pelo fato de serem protestantes reformados da igreja holandesa de Nassau: “a luta entre tribos que viviam no interior da serra, a indisciplina e impiedade no seio da mesma missão, provocado por índios, tidos como hereges, porque ainda guardavam alguma influência dos holandeses” (NUNES, 2007, pp. 72-73).


O renomado padre Antonio Vieira, em seu relatório A Missão da Ibiapaba, faz significativa contribuição histórica que confirma a forte presença da igreja indígena protestante:

Como a chegada destes novos hospedes ficou Ibiapaba verdadeiramente a Genebra de todos os sertões do Brazil, porque muitos dos índios Pernambucanos foram nascidos e criados entre os holandeses, sem outro exemplo nem conhecimento da verdadeira religião... No Recife de Pernambuco, que era a corte e empopoio de toda aquela nova Holanda, havia judeus de Amsterdã, Protestantes da Inglaterra, Calvinistas da França, Luteranos da Alemanha e Suécia, e todas as outras seitas do Norte (SOUZA, 2013, p. 113).

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- Padre Antônio Vieira constatou a presença de índios protestantes na serra da Ibiapaba e os chamou de "hereges".

Em oposição a Odilon Nunes, o padre Antonio Vieira, que foi uma testemunha da existência da igreja protestante indígena, assegura que não foi uma mera influência dos holandeses, mas uma presença dominante, chegando ele a chamar a Ibiapaba de “Genebra de todos os sertões” numa clara referência à Genebra reformada de João Calvino, a cidade modelo da reforma protestante. A Identificação da Ibiapaba com Genebra não se dá por conta de fatores climáticos, isto porque a temperatura da Ibiapaba é bem mais baixa do que no restante do sertão cearense e piauiense, e isso pode confundir o leitor, levando a interpretações equivocadas. O sentimento expresso pelo padre Antonio Vieira era tão somente de infelicidade por conta do domínio dos índios protestante na serra e sobre nações aborígenes vizinhas à serra. Por longos anos as pessoas têm se equivocado em achar que a frase está em sintonia com clima da serra.


Entretanto, sem a ajuda dos Holandeses, que haviam deixado o Brasil, a igreja protestante da serra da Ibiapaba rompe em peregrinação, em 1661, perdurando até o ano de 1692 (SOUZA, 2013, p. 123). Porém, não sem antes deixarem sua contribuição às demais tribos indígenas as quais tiveram a oportunidade de pregar.


Os relatos da existência de índios cristãos nas paragens dos Alongases e do Poti, como asseguram muitos historiadores, inclusive o padre Cláudio Melo, apontam que a pregação dos índios protestantes foi ouvida e assimilada, tanto por meio dos franceses, como também por meios dos índios calvinistas frutos do trabalho missionário holandês. Não se pode negar que a fé reformada foi anunciada no norte do Piauí. Fortalece ainda mais essa afirmação o fato de muitos índios protestantes, no momento da peregrinação, terem optado se dirigir da Ibiapaba para o Maranhão, separando-se do grupo principal, e assim, percorrendo a região do Surubim, sua rota natural. Nos Alongases, no Surubim, e em todo o Piauí o catolicismo romano prevaleceu, criou raízes. A igreja protestante indígena, passageira, veio a desaparecer pouco depois, logo após o fim do Brasil Holandês. O que afirmo aqui não é uma nova história da igreja cristã, mas o resgate de uma história que não foi registrada pelos historiadores modernos. Os historiadores que labutaram em escrever a história do Piauí, especialmente aqueles que se detiveram em pesquisar a história religiosa, se não foram ignorantes quanto a esses fatos, foram parciais ao negligenciarem essa importantíssima página de nossa história.

 

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História do Piauí - 14/02/2017 às 10h21

A Fazenda Foge-Homem e sua tradição

No norte do Piauí, seguindo atualmente pela malha estadual que dá acesso à cidade de Castelo do Piauí, em lugar de imensa beleza campestre, com rios e riachos que correm serpenteando nesta larga extensão de terra, encontra-se a secular fazenda Foge Homem. O vaqueiro da região até hoje chama-a “Fojomem”. Rodeada por outras fazendas, em lugar excelente para se criar gado grande e pequeno, a fazenda Foge Homem ganhou destaque no cenário histórico de Campo Maior. Não se sabe exatamente a data de sua origem, porém, ela figura junto com outras fazendas de grande importância local e estadual. Foi fazenda que abrigava escravos, sendo assim um excelente ponto de partida para se pesquisar sobre a escravidão em Campo Maior. Tornou-se um dos importantes currais de gado de Campo Maior no século XIX.


A antiguidade da fazenda Foge Homem é indiscutível. Ela está registrada em um mapa de 1850, com a inscrição "Carta Topográphica e Administrativa da Província do Piauhy. Erigido sobre os documentos mais modernos pelo VCDE. J. de Villiers de Li´lie Adam. Gravada na lithographia imperial de Vr. Larée". No Brasil, o mapa foi publicado pelos irmãos Carneiro, em 1850. Em outro mapa, ainda mais antigo, de 1828, confeccionado em Munique, Alemanha, a fazenda Foge Homem ganha destaque, pertencendo às terras da Vila de Campo Maior, e formando seu conjunto de fazendas mais importantes. A Foge Homem, em seu formato original, remonta aos idos da segunda metade do século XVIII, portanto, uma fazenda setecentista, sendo assim, um dos mais antigos currais de gado de Campo Maior, cuja a história é pouco conhecida e sua importância socioeconômica tem sido muito negligenciada.


A região onde a fazenda está situada é de aparência ambígua: bela e sinistra. Existe um magistral abismo, onde, em tempos de inverno, corre célere um rio de poderosa correnteza que precipita suas águas no paredão rochoso, formando uma magnífica cachoeira, com uma queda de quase 40 metros de altura. A lenda do nome da fazenda, denominada FOGE HOMEM, está diretamente ligada a esse rio e a esse abismo. Existe uma lenda antiguíssima sobre a origem do nome FOGE HOMEM. Segundo Heitor Castelo Branco Filho, que já foi proprietário da fazenda, o “singular nome [foi] copiado da DATA de demarcação de mesmo nome, a qual pertence, no município de Campo Maior, Piauí.” (CASTELO BRANCO FILHO, 2011, p. 122). Em outras palavras, a região onde a fazenda está instalada já era chamada Foge Homem; assim, à fazenda foi dada a mesma designação da região. A lenda reza o seguinte:


Contava-se que certo vaqueiro seguia em desabalada carreira cavalgando fogoso corcel em perseguição a um boi velho. Em certa altura da atropelada, o boi tomou o leito seco de um riacho. O vaqueiro já estava muito próximo ao bovino, já quase o alcançando, quando subitamente ouviu uma forte voz de comando: FOGE-HOMEM! O vaqueiro saltou do cavalo em disparada, pois tempo não havia para sofrear o animal, que juntamente com o boi precipitou-se em profundo abismo, onde ambos se excidiram. Esse precipício, de cerca de 30 metros de profundidade, pode ser visitado, pois à margem da estrada Campa Maior-Castelo, na Fazenda Pedras Negras, de Adalberto Correia Lima. (Ibid, pp. 122-123).


A lenda é realmente bem conhecida na região, principalmente pelos mais antigos moradores do lugar. José Damião e João Cristino da Paz – e muitos outros – antigos moradores, deixaram aos seus filhos e netos a tradição da lenda que foi imortalizada por Heitor Castelo Branco Filho. Em cronologia simples, a lenda do nome Foge Homem remonta, no mínimo, cerca de dois séculos. Porém, não podemos esquecer que a força do imaginário é muito vigorosa. A história parece ter sofrido alterações e transformações ao longo do tempo.


Em documentação inédita, constando de informações gerais sobre Campo Maior, enviadas diretamente pelo Conselho Municipal, no mês de abril do ano de 1881, a fazenda parecia ser designada com este nome por outro motivo. Não se menciona nada a respeito da lenda da voz misteriosa que bradou ao vaqueiro, ordenando-lhe que fugisse da montaria. Ao mencionar as potencialidades das terras daquele setor, os conselheiros de Campo Maior citam o sítio de João Antônio Pacheco e José Alexandre Teixeira, lembrando que suas terras são potencialmente produtivas, ricas em águas, que podem ser canalizadas para a irrigação. Mencionam ainda que a terra é muito boa para a criação de gado bovino. Lembram, no entanto, que as terras estão abandonadas a anos. Ao falar disso, o relatório dos conselheiros de Campo Maior pontua a existência de um riacho bravio e desafiador, que segue em um acentuado declive. Os conselheiros explicaram a origem do nome FOGE HOMEM de outra forma. A citação segue mantendo a grafia original:


"Ao leste da Villa, em um rumo directo, existe um riacho denominado Santa Maria, em cujo leito lagiado, se nota um despenhadeiro medonho que forma um taiado de mais de 400 metros d’altura [40 metros], formando em baixo um poço d’água de grande profundidade feito pelo despenhado das águas na estação chuvosa do qual segue o mesmo riacho seu curso. Na distancia d’elle, ao lado de cima nas enchentes da chuva, não se pode passar, porque tudo quanto entra no seu leito, é levado pela extraordinária corrente a precipitar-se no referido despenhadeiro, pelo que tomou uma fazenda de gado vizinha a denominação – “foge-homem” (Anais da Biblioteca Nacional. Conselho Municipal de Campo Maior. Relatório Anual, 1881).


Dessa forma o nome Foge Homem, segundo consta neste documento do Conselho Municipal de Campo Maior, era uma advertência contra o suicídio de tentar fazer a travessia do riacho no inverno, visto que suas águas fatalmente arrastariam qualquer pessoa ao abismo, com queda de quase 40 metros de altura. Qualquer “homem” inteligente deveria “fugir” de tentar vencer suas águas.

Edição: Marcus Paixão

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Turismo e Culinária - 10/02/2017 às 08h41

Campo Maior: terra da "carne de sol"

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Antonio das Neves - Peritos Associados

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Em todo o Estado do Piauí e em muitas cidades brasileiras, o município de Campo Maior é conhecido como a terra da carne de sol. Aqui no Piauí esse título é consenso, ninguém discute mais a questão, ninguém toma de Campo Maior esse mérito. No Brasil, por conta dos turistas que tem visitado nossa terra – especialmente por causa da Batalha do Jenipapo, festejos religiosos, etc. – no decorrer de anos, a fama e o título começam a ganhar peso nacional. Ano passado a revista Veja publicou em seu site matéria explicando as origens da "Maria Izabel", arroz à base de carne de sol e destacou a cidade de Campo Maior. Nos últimos anos, com a criação do evento cultural SABOR MAIOR, a fama de Campo Maior ganhou forte impulso nacional. Não há dúvida que através deste evento, a culinária campomaiorense tem se destacado e tem comprovado sua fama secular. Campo Maior e carne de sol, hoje, são sinônimos.

Mas o que há de especial com a carne de sol de Campo Maior? A criação de gado em Campo Maior é diferenciada? Os pastos são melhores ou o solo tem algum composto que o diferencia? Você sabe por que Campo Maior tem a fama de terra da carne de sol? Ainda é grande a quantidade de pessoas na cidade que não sabe responder essa pergunta; ou que está enganada quanto à resposta. A história do povoamento de nossas paragens pode nos ajuda compreender essa matéria.

Logo após a metade do século XVII, por volta de 1660 e 1670, nossa terra começou a ser atravessada por fazendeiros portugueses que vinham da Bahia, do Pernambuco e do Ceará, todos com destino a São Luís do Maranhão. Tratava-se de uma nova rota. As rotas antigas seguiam do Sul (Oeiras) em direção ao litoral (Norte), cruzando o Piauí em sentido vertical. A nova rota, que atravessava a atual Campo Maior, região então chamada de Vale do Longá, tinha seu trajeto pela cordilheira da Ibiapaba. Ali os vaqueiros que conduziam o gado desciam a serra e adentravam na região onde hoje cobre as cidades de Castelo a Pedro II. Continuavam seguindo na região, na direção do Longá, sempre caminhando para rio Parnaíba, divisa atual dos Estados (Piauí e Maranhão), numa travessia que cortava o Piauí ao meio, em sentido horizontal, cruzando o Vale do Longá. A nova trilha tornou-se o “corredor do gado” no Piauí.

Nessas muitas andanças de vaqueiros e fazendeiros portugueses, a terra de Campo Maior logo despertou a atenção, especialmente por duas características: as grandes e espaçosas campinas, extremamente propícia para a criação do gado; e a grande quantidade de rios e lagoas que cortavam a terra. Fazendas e curais começaram a surgir ainda nesse período inicial. Boiadas eram trazidas para as terras de Campo Maior, que logo estava cheia, pontilhada de cabeças de gado. A medida que o século XVII chegava ao fim, na mesma velocidade, crescia o número de fazendas e de bois. O gado foi a primeira riqueza de Campo Maior. Trouxe fartura, poder econômico e prestígio aos moradores da região. Isso tudo há cerca de 350 anos atrás, quando Campo Maior ainda não era chamada de Campo Maior, mas já iniciava seu povoamento e sua história com o gado, forte ligação que se comprova desde os tempos mais remotos. Ao despontar o século XVIII, com a fortificação do povoamento de fazendas, com a guerra contra os índios deflagrada, ação que dizimou as populações nativas do nosso território, a criação do gado deu, novamente, mais um grande salto. O índio não deixava de ser um problema para os fazendeiros, pois era comum o roubo do gado e o ataque às fazendas. Sem a presença indígena a criação do gado despontou e a economia do norte também. De todas as povoações do Piauí, Campo Maior sempre esteve bem presente nas dízimas do gado que eram enviados ao centro da colônia. Algumas vezes Campo Maior chegou a superar a própria Oeiras, capital da Província, na criação do gado.

- A carne de sol destaca-se na produção de vários pratos saborosos, como a paçoca, o escondidinho, o arroz Maria Izabel e até em meios às massas, como a pizza e o espaguete.

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Alguns documentos antigos, que datam dos anos de 1770 a 1779, comprovam que a riqueza e o poder em Campo Maior vinham mesmo do gado. Chegava-se ao absurdo de um fazendeiro comprar um vestido para uma mulher ao custo de três cabeças de gado, o que equivaleria hoje, por alto, cerca de R$ 5.000,00. E isso era prática comum. Duas garrafas de cachaça custavam um valor superior ao de R$ 1.000,00, isto é, uma cabeça de gado. Para comer uma galinhada era preciso dispor de uma cabeça de gado, e dos grandes. Todo esse esbanjar comprova, não apenas a falta de alguns itens básicos, mas a grande quantidade de gado que estava espalhada nas fazendas de Campo Maior.

Respondendo a pergunta: por que Campo Maior é conhecida como terra da carne de sol? Primeiro, é bom lembrarmos que muita informação equivocada existe. Alguns tem espalhado a notícia que essa fama é oriunda do talento presente em nossa culinária. Outros acreditam que nossos campos tinham compostos especiais que tornavam o capim diferenciado... tudo estória, estória pra boi dormir. A fama se deu especialmente por conta das condições físicas naturais de nosso território. Esse título se deve, a priori, aos imensos campos que estão presentes em nossa região. Essas grandes campinas foram o motivo principal da instalação de muitas e grandes fazendas de gado. A terra logo se encheu de gado vacum. A pecuária era a fonte que mais jorrava riquezas ao povo de Campo Maior (leia-se aqui: aos fazendeiros). Se houve muito gado, isso se deu pelo fato da terra ser favorável, oferecendo grandes campinas e muito pasto.

Como o fazendeiro não dispunha de energia elétrica, a carne era conservada com sal e posta ao sol, para secar mais rapidamente e ser armazenada em pequenas e médias quantidades. Aí estava a carne de sol de Campo Maior, que se tornou lendária no Piauí inteiro. Saiba o leitor que a fama da cidade não vem de hoje, vem de quase dois séculos de tradição. As tradições se transformam e se modelam com o tempo, e a tradição da carne de sol de Campo Maior também passou por essa transformação. Hoje, ao ouvirmos que Campo Maior é a terra da carne de sol, logo ouvimos que o motivo disso é porque a nossa carne é a melhor da região. Não discordo que a nossa carne é a mais gostosa do Piauí, o Sabor Maior vai comprovar mais uma vez que a melhor culinária piauiense está em Campo Maior, mas, sem dúvida nenhuma, a origem dessa fama se deu não por motivos culinários, mas pela força que o gado sempre representou na nossa economia.

Edição: Marcus Paixão

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