UESPI: A lenta agonia de um patrimônio do povo
A Universidade Estadual do Piauí – UESPI encontra-se mergulhada em uma crise administrativa sem precedentes, sobretudo porque a Instituição foi colocada fora do projeto de desenvolvimento político, econômico e tecnológico a que se propõe o Estado do Piauí e seus Municípios. Tal realidade foge totalmente aos fundamentos pelas quais foi criada.
É bem latente que a administração da UESPI, sob o sopro do conceito de autonomia, se dissociou dos projetos de desenvolvimento almejados pelo Estado - isso tanto do ponto vista público quanto privado -, fazendo com que tais agentes deixassem de investir na sua intraestrutura para projetos a longo prazo.
A estagnação gerada por esta situação criou um descontentamento na comunidade acadêmica e na sociedade como um todo, pois viver apenas o dia-a-dia, sem perspectiva de futuro, é uma realidade muito sombria e desastrosa para quem espera muito mais da UESPI.
Permitir que erros se tornem rotina significa sufocar o desejo de crescimento, o que implica em dizer que os agentes do processo começam a aceitar a desorganização como regra. Quem nunca ouviu a expressão “A UESPI é desorganizada”? Tal fato está sendo assimilado pela consciência coletiva da administração da universidade, que desistiu de lutar e passou a considerar isso normal.
A estrutura física, administrativa e acadêmica da UESPI está fora do tempo. Hoje não se admite que coisas simples como dados cadastrais de professores e técnicos não estejam informatizados, que o sistema de lançamento de notas seja manual e que os discentes não possam fazer suas matriculas semestrais via online. Esta falha obriga os estudantes a interromperem suas férias e, muitos deles, deslocarem-se por grandes distâncias apenas para se matricular.
É preciso investir em infraestrutura na UESPI, o que implica em reformular todo o seu ambiente para se adequar às novas realidades educacionais, bem como os aspectos inerentes à era digital. Para tanto, é preciso regularizar a situação patrimonial, criar uma política interna de autonomia de cooperação com mais agentes da sociedade e fazer investimentos estruturais a fim de reestabelecer a confiança da comunidade.
Um dos pontos que influenciam o estado de confiança da comunidade universitária é o espaço destinado ao aluno, ao professor e ao servidor. O local de convívio atualmente apresenta salas de aulas sujas, carteiras, cadeiras e quadros quebrados, corredores com umidade, portas e janelas avariadas e sem segurança, fiação velha e exposta (sujeita a risco de incêndios), banheiros em péssimo estado de conservação e outros tantos problemas.
A administração da Universidade Estadual do Piauí desistiu de lutar para fazer as mudanças necessárias sob o argumento de que o Governo do Estado se limita a pagar folha de pagamento e não investe na instituição. Renunciou ao direito de administrar, atribuindo ao Governo todas as mazelas que vive a instituição. No entanto, o Orçamento Público da UESPI quase que triplicou de 2010 até a atualidade. Se o aumento do orçamento era a grande bandeira de luta da administração atual, por quê, mesmo com o orçamento triplicado, a situação só piorou a cada dia até se tornar insustentável?
Quando dizemos que administração da UESPI renunciou ao direito de administrar é porque os fatos são mais fortes que as palavras e facilmente de serem verificados. Prova disso foi a medida de acabar com o Vestibular mais concorrido do Nordeste, sob a alegação de que isso gerava prejuízo. Outro erro grave de administração foi reduzir o Núcleo de Concursos (NUCEPE) a órgão executor de tarefas. Ou mais grave ainda foi não conseguir, mesmo com os recursos assegurados, concluir o Campus de Picos.
A administração da UESPI renunciou ao direito de administrar ao permitir que sua estrutura física se deteriorasse a ponto de desabar em todos os Centros, Campi e Núcleos como noticiam os meios de comunicações e redes sociais. O descaso é tão grande que a administração permitiu que recursos que estavam previstos em emenda parlamentar no Orçamento da União fossem devolvidos para o governo federal por falta de projetos para investimento.
Portanto, a Universidade Estadual do Piauí precisa resgatar a confiança de seus agentes internos(aluno, professor e servidor), para assim buscar parceiros externos para que possa implementar de fato suas competências constitucionais. A importância do recurso público é questão primeira e não deve ser colocada de lado. A UESPI é um patrimônio do povo piauiense, portanto não pode agonizar por servir a interesses de pessoas que não estão comprometidas com o desenvolvimento do Estado.
(Artigo publicado no jornal Diário do Povo)
*Antonio Gonçalves Honório
* Professor da Universidade Estadual do Piauí. Mestre em Direito Internacional, especialista em Docência Superior, Administração Pública, Direito Constitucional , Direito Processual, Licenciado em História e Advogado.
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