'O sertão vai virar mar' -

Profecia se cumprindo? Mar invade rio São Francisco e deixa água salgada

Há muito tempo o “profeta brasileiro” Antônio Conselheiro dizia que um dia “o sertão vai virar mar, e o mar vai virar sertão”. Agora, em 2016, o Brasil pode estar assistindo sentado, muito bem acomodado, à proferia se cumprir.

A reportagem de Carlos Madeiro, para Uol, aponta que o Rio São Francisco, ou “O Velho Chico”, tem agora correndo em parte de seu leito, água salgada.

Em um ponto a 7k quilômetros da foz do rio, a água salgada serve para o abastecimento da cidade e fez peixes marítimos serem capturados onde antes era água doce. Isso porque a seca fez com que o mar avançasse, dando outro tom à vida ribeirinha.

Os relatos na matéria impressionam. Até um tubarão de cerca de 40 quilos foi capturado no rio a 1 km de distância do mar no ano passado --quando a vazão ainda era de 900 m³/s, segundo contou um pescador. "A água agora não faz nem espuma quando colocamos sabão. A roupa fica mal lavada, o sal estraga a água", reclama uma lavadeira.

Não só ao meio ambiente, a mudança trouxe também problemas para a população. Os médicos das comunidades ribeirinhas já relatam aumento no número de hipertensos.

LEIA UM TRECHO A REPORTAGEM
*Por Carlos Madeiro

Ao chegar ao povoado de Potengy, em Piaçabuçu (142 km de Maceió), o cheiro de mar dá as boas-vindas na tradicional comunidade de pescadores no litoral sul de Alagoas. Mas distante 7 km do oceano, o local deveria ter outro cheiro, de rio, já que fica às margens do São Francisco. Acontece que a seca e a consequente redução da vazão do "Velho Chico" fez com que o mar invadisse ainda mais o leito do rio. A água salgada serve para o abastecimento da cidade e fez peixes marítimos serem capturados onde antes era água doce.

A vazão normal média liberada para pelas barragens de Sobradinho e Três Marias (BA) é de 1.300 m³/s (metros cúbicos por segundo). Desde 2013, a vazão vem sendo reduzida por conta da seca que atinge o Nordeste. Naquele ano, foi reduzida para 1.100 m³/s e foi caindo até, no final do ano passado, chegar aos 800 m³/s. Cada m³ equivale a 1.000 litros.

A redução ocorreu após decisão da ANA (Agência Nacional de Águas) em dezembro de 2015. Sem chuvas regulares desde então, existe a previsão de uma nova redução em breve.

A medida causou prejuízos à população de Piaçabuçu. Como o abastecimento na cidade depende exclusivamente do rio, a água ofertada atualmente aos moradores é salgada. Para piorar, na cidade não há saneamento básico, e todos os dejetos são jogados no rio.

Fotos de Beto Macário/UOL

O São Francisco tem uma importância vital na cidade: Piaçabuçu tem uma das maiores comunidades de pescadores de Alagoas, com 3.500 cadastrados na colônia do município.

Jaelson Costa Santos, 60, é um deles. Ele diz que houve uma "mudança grande" no comportamento dos peixes na parte baixa do rio com o menor volume de água. "A gente agora só pega peixe do mar aqui no rio. Só quando a maré está baixa é que ainda encontramos algum peixe de água doce, mas, mesmo assim, em quantidade menor. Mudou demais depois que baixou o nível."

O presidente da Colônia de Pescadores da cidade, Antônio Amorim, relata que além da redução de espécies, se tornou frequente a captura de peixes fora de seu habitat. História ou não de pescador, ele conta que um tubarão de cerca de 40 quilos foi capturado no rio a 1 km de distância do mar no ano passado --quando a vazão ainda era de 900 m³/s.

"Isso ocorre na maré alta, que empurra os peixes para dentro e arrasta tudo. Mudou demais o comportamento dos peixes aqui na região do baixo São Francisco", diz.

Até as lavadeiras de rio sentiram a salinidade. "A água agora não faz nem espuma quando colocamos sabão. A roupa fica mal lavada, o sal estraga a água", conta Maria José dos Santos, 54, que lava roupa todo dia no rio São Francisco.

Fonte: None

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