Equipe da Revestrés, revista voltada para literatura, visita 180graus
A revista Revestrés, éuma publicação local, voltada para literatura, arte e cultura. O 180graus recebeu na manhã desta quarta-feira (16/04) a equipe sda revista. Recepcionados pelo diretor geral do portal, Helder Eugênio, conheceram as instalações da empresa e participaram de um café da manhã com um bate papo descontraído. Os diretores Wellington Soares e André Gonçalves, Lorena Franco, do comercial, a repórter Luana Sena e o fotógrafo Maurício Soares participaram do encontro.
QUATRO POETAS DO PIAUÍ - apresenta CLÓVIS MOURA

OUTONAL
Clóvis Moura
Depois da primavera o caos no mundo
e uma nuvem deitada nos meus braços,
criança abandonada que regressa
até o tempo de voltar criança.
Depois da primavera um lance apenas
de resto para viver um pouco tarde:
as tardes que perdemos são memória
e as mãos acordam para um abraço calmo.
Depois da primavera uma esperança
de tudo ser tranquilo e repousante,
ser como aquilo que sonhei um instante.
E depois deste outono a vaga espera,
um sabor de passado sem memória
ou só memória, após a primavera.
Extraído de LB – Revista da Literatura Brasileira, nº 6
Diário Incontínuo apresenta MULHERES DROGADAS
ELMAR CARVALHO


Ao caminhar com um amigo, no calçadão da avenida Raul Lopes, contou-me ele que uma enfermeira, casada com um conhecido seu, começou a se queixar de fortes dores de cabeça ao marido. Com esse pretexto ia ao banheiro, onde ficava por vários minutos. Essas desculpas se tornaram frequentes, e cada vez ela se ausentava mais do leito conjugal, às vezes por quase duas horas, no período noturno. Certa noite o marido flagrou a mulher a injetar-se droga, que naturalmente ela conseguia no hospital ou clínica onde trabalhava. Tornara-se ela viciada, ou dependente química, como se diz hoje, de forma eufemística.
Esse caso me fez lembrar um outro, um verdadeiro dramalhão, quase uma tragédia grega, que li nas páginas 112/114 do Diário Secreto, de Humberto de Campos, reeditado pelo Instituto Geia, em 2010, cuja primeira e única publicação data de 1954, também em dois volumes, pelas Edições O Cruzeiro. A anotação diarística é de 4 de janeiro de 1928. Referia-se ao caso de uma filha de um médico, mulher muito formosa. Casara-se ela com um esculápio, que fora, parece, aluno de seu pai. Como um dia sentisse fortes dores, provocadas por uma colite, o seu marido aplicou-lhe uma dose de morfina.
Poucos dias depois a mulher alegou sentir novas dores, que foram se tornando cada vez mais amiudadas, com as consequentes aplicações da droga. Não tardou muito, o marido constatou que ela se tornara uma morfinômana. Entregou-a aos cuidados de um colega, que era tido como especialista em cura de viciados em morfina. Semanas depois, posta sob confissão, a mulher terminou revelando ao marido que o tal especialista era viciado na droga, e que passara a tomar o entorpecente em sua companhia. Veio o desquite, como corolário dessa tragédia familiar.
Com a separação e com o vício do tóxico, a bela mulher descambou para a prostituição, seja para sustentá-lo, seja porque o uso da droga lhe fizera romper os freios inibitórios morais, donde lhe teria advindo o exacerbamento da sexualidade. Os amantes se sucediam em profusão, um após outro, ou mesmo de forma concomitante. O marido não suportando a saudade e a ausência da mulher, terminou por lhe pedir para ser também seu amante, e passou a frequentar sua alcova duas ou três vezes por mês, sob a alegativa de que nunca encontrara uma mulher que se lhe comparasse em desempenho sexual.
Um dia, acidentalmente, a mulher, ao injetar-se a morfina, cuja quantidade de doses aumentara assombrosamente, já chegando a 24 ampolas por dia, aplicou a substância diretamente na veia, o que lhe causou um mal-estar insuportável, com dores e alucinações violentas. Na crise, tentou estrangular um dos filhos. Precisou ser contida por várias pessoas, que lhe amarraram à cama. O marido passou a se dedicar devotamente ao tratamento da mulher, aplicando-lhe os sedativos e medicamentos da época.
Quando Humberto de Campos viu essa bela mulher a desfilar sua beleza em rua do Rio de Janeiro, fazia apenas três dias que ela melhorara da crise a que me referi. Não posso, por isso mesmo, dizer se a mulher do médico, com a ajuda deste, conseguiu vencer o vício. Ante a tragédia que relatou com muitos detalhes, Humberto de Campos finalizou a sua anotação com esta pergunta: “Não estará aqui o arcabouço do meu primeiro romance?”
De meu conhecimento, essa obra (quase) anunciada nunca foi escrita. Acaso tivesse sido, não sei se o grande escritor iria lhe dar um final feliz. Quanto à senhora referida no início deste registro, o meu amigo disse que foi embora com o marido para outra cidade, onde conseguira superar a sua dependência ao uso de tóxico. Portanto, fica aqui o arremate feliz da enfermeira que “conseguiu ficar limpa”, libertando-se do vício que lhe prejudicava o bom convívio conjugal.
ALMANAQUE BIOGRÁFICO O. G. RÊGO DE CARVALHO - por Elmar Carvalho

Das mãos do historiador Reginaldo Miranda, presidente da Academia Piauiense de Letras, recebi um exemplar do “Almanaque Biográfico O. G. Rêgo de Carvalho – O poeta-músico, na personificação de Oeiras”. A publicação, como o nome indica, é em homenagem ao grande romancista oeirense, um dos maiores do Piauí, célebre pelo seu perfeccionismo estilístico, de linguagem clássica e escorreita. Traz vários textos sobre o festejado escritor, tanto em prosa como em versos, sobretudo da lavra de alunos do Instituto Barros de Ensino – IBENS, mas também de alguns professores do educandário.
Estampa alguns textos faquissimilados do jornal O Cometa, fundado pelo também romancista José Expedito Rêgo, que circulou na primeira metade da década de 1970. O almanaque contém fotografias, críticas, dados biográficos e uma cronologia do escritor, na qual estão consignadas as datas de publicação e reedições de seus livros, além de efemérides importantes da vida pessoal do romancista, como seu casamento com a professora e escritora Divaneide Maria Oliveira Batista e o nascimento do filho do casal, Orlando Victor de Oliveira Carvalho. A publicação foi organizada pela professora Maria do Socorro Barbosa Barros. O primeiro número do Almanaque foi em homenagem ao historiador e ensaísta oeirense Dagoberto Carvalho Jr., por ocasião do lançamento da 6ª edição de seu livro Passeio a Oeiras, que tive a honra de prefaciar.
UMA CRÔNICA DE NATAL - por Francisco Miguel de Moura (*)



Charge: Gervásio Castro
Natal é somente um dia por ano. É festa de presentes. Acontece que, neste tempo de consumismo brabo, não há somente um dia, mas um mês de Natal, para que o comércio venda mais, o governo arrecade o que não conseguiu durante todo o ano e as administradoras de cartão de crédito aumentem o assédio aos pobres e endividados. Deveria ser o dia de Confraternização Universal, do humanismo. Como no Brasil e, de resto, no mundo, o dia da Confraternização Universal é o 1º de Janeiro. Por causa das mudanças do calendário, que pouca gente sabe explicar, é que o ano cristão começa em 25 de dezembro e não no 1º de janeiro, em consonância com o ano civil. Restou conservá-lo no dia considerado do nascimento de Jesus de Nazaré. Em homenagem à família de José, Maria e Jesus, o Natal é o Dia da Família. Consta que Jesus nasceu numa manjedoura e vieram algumas pessoas visitá-lo, entre as quais os três Reis Magos, mas a tradição não diz de que países eles eram reis. José estava indo, com a família, para o recenseamento obrigatório que o governo realizava em Belém. Era um carpinteiro pobre, não tinha como descansar numa pousada. Chegando a hora de Maria dar a luz, foi parar numa estrebaria onde havia burros, jumentos, ovelhas, aves, pássaros e plantações. Só isto já é suficiente para uma confraternização com a natureza. E que fazemos nós, hoje, por nossa casa? É tempo de pensar na conservação do planeta. Também, a não ser um reduzido número de católicos, ninguém lembra de Jesus nem visita as igrejas ou as “lapinhas” que outrora se faziam, onde as pastorinhas cantavam, alegres, pelo nascimento de Deus Menino. Quem reinventa um presépio? Quem se lembra dos animais? Quem olha o céu, a estrela, as estrelas? Poucos vão à missa, muitos vão aos shopping-centers para comprar bugigangas para os filhos, e também para os parentes e aderentes, por ocasião da Ceia de Natal. Produtos importados do oriente, da China, principalmente os mais baratos – o que significa que o falso sistema socialista, instalado lá, age como capitalista mesmo, pagando mal aos empregados para exportar mais barato, fazendo concorrência ao verdadeiro capitalismo – o de cá, do ocidente, onde o Papai Noel reina soberano - ele, o símbolo perfeito do capitalismo consumista.
Natal é tudo de mentirinha.
Entrei numa dessas superlojas onde se vendem presentes para crianças e fiquei estupefacto. Como escritor e poeta, sensibilidade aguda, senti-me nervoso e doente vendo todo aquele amontoado de bonecas barby e personagens de toda natureza, inclusive os simbólicos como o homem aranha, a boneca emília, o visconde de sabugosa, o saci, o lobisomem, dinossauros, astronautas e não sei mais o quê, tudo empilhado, uns sufocando os outros, ou jogados nas prateleiras, aos montes, caídos estatelados e emborcados. O negócio é dar presentes materiais de pouca valia, e recebê-los. É de praxe, hoje, o “amigo oculto”, brincadeira de antes da ceia de Natal. Faz-se um sorteio de nomes do grupo para ver quem dá presente a quem. E os nomes ficam em segredo para que quem vai receber não saiba de quem receberá, mas quem vai oferecer saiba a quem vai oferecer. Todos oferecem e todos recebem um presente, e as despesas com o item natalino diminuem sensivelmente. Nada muito alegre. Diante da tevê ouvem-se músicas atuais e a conversa continua em tom alto, de maneira que ninguém entenda ninguém, bastando que fiquem com a impressão de que foram ouvidos. Alguns folheiam velhos álbuns de fotografias ou abrem um vídeo no computador para lembranças melancólicas do passado ou para mangar dos feios e das fotos mal feitas - enquanto comem e bebem.
“Todos os começos são flores”, como dizia minha mãe.
O dia seguinte é só pra curtir os excessos e a solidão. De tudo sobram algumas fotos de registro, cartões com dizeres sempre iguais recebidos e, no outro dia, jogados na cesta, ou o remoer pedaços de frases ditas por alguém, do que não gostou. Em família há diferenças que nem sempre são caladas, passados os primeiros momentos da chegada à festa.
No começo, a casa estava cheia. Agora está vazia e, muitas vezes, os próprios corações. Festa de alegria? Nem sempre. Brigas, desgostos, notícias dolorosas de doença ou morte, tudo pode vir à flor da conversa. Os egoístas não se incomodam com isto. Os poetas é que não se conformam e ficam a escrever o que sonharam – natais tão diferentes, com emoção, lirismo e memória. E chegam a inventar símbolos como o do peru, que, para não ficar triste, morre de véspera.
(*) Escritor, membro da Academia Piauiense de Letras
Flagrantes & Insights apresenta CAMISA 10 OU 1?
ELMAR CARVALHO

Carlos Said na charge de Gervásio Castro
Esta manhã, ao visitá-lo em sua casa, encontrei o Carlos Said envergando uma camisa futebolística de nº 10. Observei-lhe que, embora ele fosse nota 10, deveria estar vestindo uma de nº 1, por dois motivos:
Primeiro, por ser sempre o primeiro.
Segundo, por ter sido um grande goleiro.
SONHOS DO NATAL E ANO NOVO - por Francisco Miguel de Moura

Aproveito o cartão de Natal acima, da autoria de Fernando di Castro,
para ilustrar o poema e para estender os seus votos aos leitores do blog
Não se pense o Natal maior do que é:
Um dia, uma noite, uma festa ou a recordação.
Jesus chegou dois mil anos antes
Mas veio o Papai Noel atrapalhar.
Tudo é dinheiro,
Até o tempo que sofremos,
O dia branco e a noite só,
O minuto que amamos,
A eternidade que choramos
E a morte que nos leva.
Todo dia é um dia novo,
Não depende do Natal, nem da Missa do Galo,
Não depende da mudança do calendário.
Quando nele se pensa, já mudou,
Quando se vai ao banheiro, já mudou...
O tempo nos governa em altos juros
De suor, sangue e salário.
Natal, Ano Novo passaram e ninguém não viu...
Tudo é tão veloz!
- Antes de chegar, quem sabe o que novo?
Todos os sonhos morrem no seco,
Sem chegada, sem saída, sem beco.
Teresina, 23/12/2011.
P E R F I S A C A D Ê M I C O S - LUIZ MENDES RIBEIRO GONÇALVES - Reginaldo Miranda


Luiz Mendes Ribeiro Gonçalves e Alice
Na edição de hoje desejamos destacar a personalidade do acadêmico Luiz Mendes Ribeiro Gonçalves, um benemérito da Academia. Natural da cidade de Amarante, veio ao mundo em 7 de fevereiro de 1895, filho de Elesbão Ribeiro Gonçalves e de Amália Mendes Carvalho Ribeiro Gonçalves, ambos oriundos de tradicionais famílias piauienses. Foi casado com Alice Ribeiro Gonçalves, de cujo consórcio não houve filhos.
Engenheiro civil, jornalista, político e escritor, iniciou as primeiras letras em sua terra natal, mudando-se depois para a Bahia, onde formou-se em Engenharia Civil pela Escola Politécnica, no ano de 1916.
De regresso ao Piauí depois, exerceu os mais importantes cargos públicos, entre os quais diretor da Secretaria de Agricultura, Terras, Viação e Obras Publicas(1916-1930). No exercício desse cargo revelou grande talento profissional ao projetar e dirigir obras importantes para do desenvolvimento do Estado, a saber: construção dos prédios do Liceu Piauiense e da Escola Normal Oficial do Estado, hoje Palácio da Cidade; construção de pontes, rodovias, planos de abastecimento d’água, luz elétrica, programas de colonização, plantas de cidades e de mapas do Piauí. Em face desse trabalho denodado, projetou seu nome profissional no cenário nacional, sendo convidado para exercer outros cargos de destaque. Nessa conjuntura, ainda ocupou os cargos de diretor-geral do Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (DNOCS) no período de 1953/54, membro vitalício do Conselho Diretor do Clube de Engenharia, secretário-geral do Departamento Nacional dos Correios e Telégrafos e membro do Conselho Federal de Engenharia e Arquitetura. Com prestígio internacional, foi homenageado em Paris com o título de sócio da Societè des Engeniers de France. Fora do campo profissional, exerceu o cargo de secretário de Estado da Fazenda no Governo de João Luiz Ferreira(1920 – 1924).
Também brilhou no magistério como professor de Matemática e Física no Liceu Piauiense e na Escola Normal Oficial do Estado.
Jornalista brilhante teve destacada atuação na imprensa piauiense, colaborando nos jornais A Imprensa, O Lírio, Estado do Piauí, Correio de Teresina, Correio do Piauí, Diário oficial e O Momento.
Escritor de raro talento escreveu importantes obras sobre os mais variados assuntos, a saber: Problemas Municipais;Fossas Biológicas; Tipo de Colônia Agrícola para o Nordeste; Mapa do Piauí; Magistratura e Justiça; Aspectos do Problema Econômico do Piauí; A Servidão da Inteligência no Economismo Contemporâneo ; Educação e Democracia; Construções Escolares no Piauí; A Escravidão e o Movimento Abolicionista; O Babaçu na Economia Nacional; Fretes Marítimos Internacionais; Viagem de Inspeção ao Nordeste; Santos Dumont - Glória e amargura; Joaquim Ribeiro Gonçalves - poeta, político e parlamentar; Paulo de Frontin; Mauricio Joppert - engenheiro e professor; Le Mauricio Corbusier- Luz Imperecível; A Formação do Engenheiro e sua função social; Brasão do Piauí; por fim, Impressões e Perspectivas, trabalho organizado pelo professor A. Tito Filho. Luiz Mendes Ribeiro Gonçalves pertenceu desde a mocidade à Academia Piauiense de Letras e ao Instituto Histórico e geográfico Piauiense, tendo doado à primeira um imóvel na região central de Teresina, hoje alugado.
Seguindo a tradição familiar, ingressou na política elegendo-se por via indireta Senador da República, em julho 1935. Esse mandato encerrou-se com o Golpe de Dez de Novembro de 1937, que instituiu o Estado Novo. Todavia, retorna ao Senado com a redemocratização do País, sendo eleito pela legenda da União Democrática Nacional(UDN) no pleito travado em 17.01.1947, para o mandato de 1947 a 1951. Candidato à reeleição em 1950, não conseguiu eleger-se.
Faleceu no Rio de Janeiro em 1984, sempre gozando da estima e consideração de todos.
Diário Incontínuo apresenta O MALANDRO FALASTRÃO

Estava eu num dos bares mais tradicionais de Teresina, fazendo hora, enquanto minha mulher e minha filha faziam compra. Aguardava o telefonema delas, para voltarmos para casa. Nisso entrou o meu personagem deste registro. Em gestual e voz expansivos, foi logo chamando a garçonete de meu amor, com certa dose de familiaridade. Cumprimentou um conhecido, que já estava de saída, abraçando-o efusivamente, e dando-lhe pequenas chicotadas no peito com o seu tilintante chaveiro, que lembrava uma pequena chibata.
Estava acompanhado de um rapaz bem mais jovem, que pensei ser seu filho. Trazia um copo, tipo tulipa, desses próprios para cerveja. Pediu uma garrafa dessa bebida, e sentou-se a uma mesa perto da minha. Chamando a garçonete pelo nome, pediu-lhe “sua taça”. Ela logo o atendeu. Só então percebi que as demais pessoas usavam um copo comum, do tipo americano, com capacidade para 150 miligramas. Como falava alto, seja pessoalmente ou ao celular, por mais que eu pudesse ou quisesse ser discreto, não pude deixar de lhe escutar a conversação. Apresentou o jovem como sendo o namorado de sua filha, que estava arranchado em sua casa, e de lá não desejava mais sair.
Incontinenti percebi que se tratava de um malandro, aparentemente simpático, como todo malandro que se preza, um tanto fanfarrão, falastrão, e exibido como um galo novo, conquanto já aparentasse haver dobrado o cabo da boa esperança de meio século de vida. Em meio a um telefonema, disse ao interlocutor que desejava continuar com a sua mulher velha, pois já lhe conhecia os defeitos e mazelas, ao passo que com a “aquisição” de uma mulher nova teria que descobrir os seus problemas e se acostumar com eles; portanto, preferia “recuperar” a coroa, com uma recauchutagem médica e protética. Apenas, em compensação, desejava que ela lhe deixasse degustar as suas cervejas e empreender as suas conquistas amorosas.
Em conversa com o genro (ou futuro genro), alardeou que tinha um chip com a lista telefônica de suas namoradas. A seguir, talvez querendo provar o que acabara de dizer, ou mesmo por simples exibicionismo inato e compulsivo, começou a ligar para algumas delas. Cumprimentou a primeira pretensa namorada, chamando-a de meu amor, proclamando em alta voz que estava “morrendo de saudade”; que o seu maior defeito era gostar dela, e que contra isso não havia remédio nem antídoto.
Quando fez outra ligação, talvez pretendo ser engraçadinho ou criativo, disse:
- Bom dia, boa tarde, boa noite, meu amor, qualquer hora é boa hora com você!...
Atendendo recomendação de Cristo Jesus, não pretendo aqui julgar meu semelhante. Tenho bem presente a sua admoestação de que: “Não julgueis, pois, para não serdes julgados; porque com o juízo que julgardes os outros, sereis julgados; e com a medida com que medirdes, vos medirão também a vós” (Mateus, VII: 1-2).
Entretanto, sem nenhum prurido de falso moralismo, fiquei a imaginar o rapaz casado com a filha do nosso dom Juan tupiniquim. Também imaginei a moça descobrindo conquistas amorosas do marido, e indo pedir ajuda e conselho ao pai. Não sei o que ele lhe diria, o que lhe recomendaria. Engendrei a hipótese de a jovem mulher usar seu pai como exemplo de marido ideal. É possível que o jovem fosse um amigo leal e guardasse consigo as aventuras e fanfarronices do sogro. Todavia, é razoável supor que esse jovem marido, fustigado pelas verrinas e catilinárias da mulher, dissesse, um tanto enfurecido e com certo sarcasmo:
- Foi exatamente com o exemplo de teu pai que eu me tornei o que sou...
Deixo ao leitor o trabalho de conjeturar sobre a continuação desse amargo diálogo.
QUATRO POETAS DO PIAUÍ - apresenta H. Dobal

TÚMULOS
H. Dobal
Trovões distantes trazem
de um horizonte escondido uma tarde de chuva.
A chuva transforma a tarde
nas trevas da noite.
A noite traz de novo os amores perdidos,
uma ambição abandonada
o tremor das almas transidas no túmulo dos corpos.
Extraído de LB – Revista da Literatura Brasileira, nº 6
Flagrante futebolístico - texto e charge de Gervásio Castro

De um lado a sobriedade, do outro a indiscrição. De um lado o profissional aplicado, do outro o moleque mimado.
De um lado o craque consagrado, do outro a promessa, o produto ainda não acabado e já lançado no mercado como um novo Pelé.
De um lado um verdadeiro time de futebol, do outro um grupo de jogadores super avaliados pela ufanista mídia paulista.
Resultado: Barcelona (do Messi) QUATRO, Santos (do Neymar) ZERO, E foi pouco!
Diário Incontínuo apresenta CARLOS SAID – MESTRE DO FUTEBOL E DA AMIZADE
Após a melancólica, mas de certa forma já esperada, derrota do Santos para o Barcelona, pelo vexatório placar de quatro a zero, que ainda poderia ter sido pior, não fossem duas ou três magníficas defesas do goleiro santista, e dois chutes barceloneses terem acertado a estaca da trave, resolvi ligar para o jornalista Carlos Said. Sabendo que ele gosta de se concentrar para assistir às partidas de futebol pela televisão e para acompanhar os comentários, deixei passar quase uma hora, depois do apito final, para efetuar o telefonema.
Devo dizer que, com relação aos times de São Paulo, sou torcedor do Santos, desde que, aos 13/14 anos de idade, com a ajuda do padre Deusdete Craveiro de Melo, fundei, na cidade de José de Freitas, um time com esse nome, e contribuí para a criação de um campo de futebol, que se localizava na frente do cemitério velho, quase aos pés do Morro do Fidié, que prefiro chamar de Morro do Livramento; ficava, portanto, perto do teatro, de um antigo clube dançante, aos fundos da casa do finado Levi.
Pedi ao mestre Carlos Said que comentasse três pontos que eu iria abordar. Um, foi o excelente futebol apresentado pelo Barcelona, o mais bonito que já me foi dado ver nos últimos anos, um verdadeiro bailado, diria mesmo uma legítima coreografia de balé, com passes longos e curtos, mas sempre precisos, exatos, perfeitos, em que os jogadores estavam sempre a se deslocar, mudando de posição, desnorteando o adversário; às vezes a tabela era feita em deslocamento circular dos jogadores, que me fez recordar o mítico “carrossel holandês”. Mais parecia uma evolução de dançarinos. Cabe ressaltar que não era um tabelamento inócuo, que visasse apenas à posse da bola pela posse da bola, mas tinha um caráter nitidamente estratégico, ofensivo, com a finalidade de fazer gol, e não apenas dar plasticidade ao espetáculo futebolístico.
Dois, observei que o Messi jogara de forma magnífica, no esplendor de seu estilo característico, de muito domínio de bola; que ele, embora em alta velocidade, mantinha o domínio da pelota, com ela quase colada a seus pés; que tinha dribles imprevistos, desconcertantes, desnorteantes; que ele, mesmo sob pressão de marcadores, era muito hábil no recebimento de passes e na distribuição da bola, com lances de precisão milimétrica, cirúrgica, por assim dizer; que tinha raciocínio rápido, grande visão de jogo, e extraordinária capacidade de improviso. Diante dessas e outras qualidades, não referidas, perguntei-lhe se ele não seria superior ao Pelé, o que para muitos fanáticos seria uma verdadeira blasfêmia. Por último, abordei a pretensa Seleção Brasileira de todos os tempos, na ótica do narrador esportivo Galvão Bueno, declarada em programa apresentado pela Angélica, na tarde do último sábado. Bueno, achando-se muy bueno, fez a sua escalação, levando em conta, assumidamente, as suas amizades, ao menos em duas ou três escolhas.
O mestre, após me ouvir sem interrupção, provando que é um arquivo vivo do futebol, senão mesmo uma verdadeira enciclopédia desse esporte bretão, com o seu poder de síntese e análise, deu-me as respostas, que seguem adiante. Com relação ao futebol apresentado pelo Barcelona, não o pôde negar. Todavia, com a sua memória prodigiosa, depois de enunciar a escalação do Santos, nos áureos tempos de Gilmar, Mauro, Pelé, Pepe e futebol clube, esclareceu que esse também foi um time fabuloso. No tocante à comparação entre Messi e Pelé, considerou que o craque brasileiro era superior, entre outras razões, pelas seguintes: jogava com perfeição com as duas pernas, podendo ser considerado ambidestro; era muito bom nas cabeçadas e sabia “tabelar” com o adversário, ou seja, utilizava o oponente para construir as jogadas.
Não concordou com a “seleção do Galvão”. Fazendo uma rápida retrospectiva histórica e biográfica de vários craques do futebol brasileiro de todos os tempos, discordou de alguns nomes dessa seleção. Contudo, quando eu lhe sugeri a publicação do escrete saidiano em sua coluna jornalística, como atleta que foi, conquanto na posição de goleiro, esquivou-se, e me driblou, dizendo que aguardaria que primeiro eu publicasse a minha. Foi uma legítima firula do mestre, porquanto não tenho estofo intelectual futebolístico para tal ousadia, de modo que ficaremos privado de mais uma proeza do Magro de Aço.
Como, por várias vezes, eu o chamasse de mestre, o que ele de fato é, disse que passaria a me chamar de gênio. Diante desse exagero descomunal, diria mesmo alopramento hiperbólico, pedi-lhe:
- Não, mestre, não me levante tão alto, pois ao cair ficarei totalmente esbagaçado!...
Com a sua verve irônica, porém amiga, retrucou-me:
- Não se preocupe, pois o ampararei.
Em confiança, ele, ao telefone, terminou por me escalar o que, na sua visão, seria a Seleção Brasileira de todos os tempos, com atletas das mais remotas épocas. Devo dizer que, em meu parco entendimento, achei mais justa a sua escalação do que a do Galvão Bueno. Nela, certamente, não preponderaram amizades, simpatias ou compadrios, nem quaisquer outros fatores de ordem pessoal. Nela, entre outros que não declinarei, estavam Garrincha, Pelé, Zico e o goleiro Barbosa. Vai que é tua, Magro de Aço!
Comiam, Bebiam, Acasalavam-se - por José Maria Vasconcelos

Teria sido num dos badalados restaurantes da Zona Leste de Teresina onde li esses três verbos? Impossível, porque não se adequam a ambientes chiques e corretamente civilizados. Ou em anúncio de confraternização natalina, no glamuroso cabaré da Beth Cuscuz? Antes de lhe responder, repare o que alguns leitores manifestaram sobre o curioso título da crônica, NENHUM HOMEM PENETROU EM MIM.
"Que o título provocou urgência em ler logo, não tenho dúvidas. Essa foi de mestre!", de Aníbal Martins Machado, da Receita Federal. "Tudo que está entre frestas se faz apetitoso, então dispara o gatilho da curiosidade humana", Paulo Roberto Meireles. Professor Geovane Fernandes: "Eficiente estratégia de fisgar o leitor. Só para citar os mais festejados, temos o capítulo Das Negativas, de Machado de Assis, A Paixão Segundo G.H, de Clarice Lispector e Claro Enigma, de Drummond. Mas, assim como os citados, não só por isso, pois seu texto é de todo cativante, substancial." O radialista Alexandre Carvalho colocou: "Concordo com a analogia feita com relação ao mistério da maternidade de Maria..." O escritor Chico Castro: "O canto de Maria, logo após a anunciação, é uma das peças de maior relevância na literatura de todos os tempos..." Coronel Valdinar, por telefone, louvou a descoberta do tema. Antônio Carlos, docente de Teologia, em curso universitário de Fortaleza, teceu longo e profundo comentário, além de achar o título apelativo. Quando o leu, já sabia quem pronunciara. Professor Saraiva, também docente universitário, naquela capital, afirma que as alunas provocaram rebu com o uso da palavra PENETRAÇÃO. Rita Lúciae, lúcida de sinceridade: "No começo, a surpresa... Depois, ufa! o professor não é veado! kkkkkk."
Final de ano, festas em nome da confraternização humana, mas o abuso material, muitas vezes, ofusca o espiritual. Bares e restaurantes empanzinam-se de múltiplas panelas, receitas e cardápios. Famoso buffet de Santa Catarina prepara-se para o reveillon, cobrando por camarote 10 a 20 mil reais. Em Teresina, há uma explosão de riqueza multiplicando novos e luxuosos condomínios, quase dois mil veículos vendidos mensalmente. Nove pontes sobre o Poti não resolvem o tráfego.
A festa natalina do Messias transforma-se em consumismo exacerbado na figura de papai noel. Noel, em francês, traduz-se Natal. Não é uma irreverência ao Natal cristão? Não é diabólico?
Para se festejar sagrada confraternização, em nome do Filho de Deus, precisa esparramar-se em bebedeiras e festins pagãos? Não condeno a confraternização sadia, mas a irracionalidade tapando a reflexão sobre o sentido da presença de Cristo no mundo. Ora, toda civilização quando chega às extremidades do materialismo, da ganância, da sexualidade desenfreada, da degradação da família, da ausência do espiritual e virtudes, entra em decadência. Foi no império romano, egípcio, grego, francês. No Brasil, enquanto nobres do império refestelavam-se de comida e bebida na Ilha Fiscal, republicanos, na véspera, preparavam-lhes o bote final. Americanos e europeus compõem as últimas vítimas do capitalismo irracional.
Então, me vêm os três verbos da decadência moral previstos por Cristo: "Assim como no tempo de Noé, nos dias que precederam o dilúvio, comiam, bebiam e acasalavam-se...nada sabiam no momento em que veio o dilúvio." Não sou culpado de bater com os olhos nos capítulos 6 do Livro de Gênesis e 24 do evangelho de Mateus, adequados aos luzeiros festivos de final de ano, embevecido de gastanças mil. Porém, que tal escrevê-los na entrada dos restaurantes, lojas e departamentos, academias, bufês e mansões, até mesmo nas frontes de gestores insaciáveis de corrupção e burundanga?
Diário Incontínuo apresenta LEMBRANÇA DE BATISTA COSTA
ELMAR CARVALHO
Antiga Praça da Graça, vendo-se, à direita, o prédio dos Correios


Igreja N. S. de Fátima, em Parnaíba
Neste final de tarde chuvosa e fria de Regeneração, evoco a figura de João Batista Costa, sobre o qual me referi no último registro deste diário. Quando meu pai assumiu a chefia da ECT em Parnaíba, no primeiro semestre de 1975, ainda o encontrou como funcionário dessa repartição. Era ele remanescente do antigo DCT – Departamento de Correios e Telégrafos. Não tendo optado pelo regime trabalhista (CLT), na mudança organizacional dessa repartição da administração direta federal para ser uma empresa da União, aposentou-se como funcionário estatutário, sob o regime da Lei nº 1711, a fim de não perder a estabilidade funcional.
Após o curso de monitor postal no Recife, no Centro de Treinamento Correio Paulo Bregaro, e depois de ter trabalhado por mais de ano em Teresina, fui removido, através de permuta, para Parnaíba, a fim de cursar Administração de Empresas na UFPI, Campus Ministro Reis Velloso. Exercendo minhas atividades postais, via, quase diariamente, no prédio dos Correios, o saudoso amigo João Batista Costa. É que ele, apesar de já aposentado, vinha receber as correspondências destinadas a moradores do povoado Morros da Mariana, que na época não tinha posto de correios e nem linha regular de ônibus.
Nessa época, a cidade de Parnaíba tinha três Batistas, que mais se destacavam. Batista Leão, jornalista, diretor da rádio Educadora, a mais antiga emissora do Piauí, e do jornal Folha do Litoral, do qual fui colaborador, sobretudo na qualidade de poeta; Batista Silva, também jornalista, que foi eleito prefeito do município, e se tornou impopular, mormente por ter destruído a antiga e graciosa Praça da Graça, que agora passa por ampla restauração; e o saudoso Batista Costa, que fora vice-prefeito, na gestão de Elias Ximenes do Prado. Homem bom, correto, cordato, cordial, bem-humorado, católico praticante, era uma personalidade querida na cidade de Parnaíba e em Morros da Mariana, onde nascera.
Era sempre com um amplo sorriso, com sua voz potente, de timbre agradável, quase de tenor, com uma leve tonalidade metálica, vibrátil, que me cumprimentava, ainda na primeira parte da manhã, chamando-me de professor, profissão que venero, mas que, a bem dizer, nunca exerci, a não ser precariamente, durante curtíssimo período. De forma efusiva e alegre, eu lhe correspondia ao cumprimento, enquanto entabulávamos breve conversação, sem o menor resquício de ressentimento por causa de nossas discussões veementes nas reuniões dos padres redentoristas, conforme assinalei no registro anterior.
Quase toda semana, ele me emprestava os seus velhos discos de vinil, com músicas executadas por grandes orquestras americanas e nacionais, as chamadas big bands. Em troca, eu lhe repassava os discos que eu vinha comprando, com execuções desse mesmo gênero musical. Nesses vinis pontificavam as orquestras de grandes maestros, como Billy Vaughn, Glenn Miller, Ray Conniff e outros bambas da harmonia musical, além de trilhas sonoras de filmes que marcaram época, mormente dos gêneros dramático e épico.
Certo dia, tomado de entusiasmo e alegria musical, quase como se fosse um garoto, Batista Costa, dando à voz uma semelhança de saxofone e trompete, imprimindo-lhe um timbre nitidamente metálico, executou a música Tema de Lara, para que eu me recordasse dessa melodia. Sempre que ouço essa música ou revejo o filme Doutor Jivago, recordo esse amigo que partiu desta vida um tanto precocemente. Aliás, os verdadeiros amigos sempre se vão cedo demais. Mas, como disse, num de meus poemas, meus amigos mortos me acompanham cada vez mais vivos.
ELEIÇÃO DA NOVA DIRETORIA DA ACADEMIA PIAUIENSE LETRAS
Francisco Miguel de Moura, Assis Brasil, Reginaldo Miranda, des. Paulo Freitas,
des. Manfredi Mendes de Cerqueira e Celso Barros Coelho
Francisco Miguel, Teresinha Queiroz, Assis Brasil, Hardi Filho, Reginaldo Miranda,
des. Paulo Freitas, des. Manfredi Cerqueira, Elmar Carvalho e Celso Barros Coelho
Realizou-se hoje, pela manhã, a eleição para a diretoria da Academia Piauiense de Letras, que dirigirá a entidade no biênio 2012/2013. Em virtude da boa administração do presidente Reginaldo Miranda da Silva, que entre outras realizações promoveu vários eventos culturais, retomou a edição do boletim Notícias Acadêmicas, editou vários livros, publicou vários números da Revista da Academia, e já está com outros números no prelo, com o objetivo de atualizá-la, criação do site da Academia ( http://www.academiapiauiensedeletras.org.br ), não houve disputa. A chapa única estava assim constituída: Reginaldo Miranda da Silva – presidente; Raimundo Nonato Monteiro de Santana – vice-presidente; Oton Mário José Lustosa Torres – secretário geral; José Elmar de Mélo Carvalho – 1º secretário; Nelson Nery Costa – 2º secretário, e Manoel Paulo Nunes – tesoureiro. A chapa recebeu 33 votos a favor, sem nenhum voto contra ou nulo.
A CONSOLIDAÇÃO DA APL - Reginaldo Miranda

Fundada a Academia em 31 de dezembro de 1917, foi eleita por unanimidade a nova Mesa Diretora, tendo por presidente o acadêmico Clodoaldo Severo Conrado de Freitas, de 62 anos de idade. Na primeira sessão magna ou solene que realizou-se em 24.05.1918, ao tomar posse o novo acadêmico Pedro Brito declarou sobre a eleição de Clodoaldo: “A Academia elegeu-o seu presidente: ninguém lhe disputaria a cadeira porque é o mais delicado e perfeito dos nossos escritores” (RevAPL, 1923).
Clodoaldo Freitas conduziria a Casa no período de 1917 a 1919, por dois anos, vindo a falecer em 1924. Foi sucedido por Higino Cícero da Cunha(1919 – 1924), de 61 anos de idade, sendo eles os dois principais esteios da nova agremiação literária, vez que Abdias Neves, outro grande talento, estava ausente no exercício do mandato de senador da República, vindo a falecer em 1928. Concluídos esses sete primeiros anos, assumiu a presidência da Academia o então governador Matias Olímpio de Melo, de 42 anos de idade, que acumulou os dois cargos a partir de 1924, deixando o governo do Piauí em 1928 e a presidência da Academia em 1929.
Esses doze anos iniciais representaram um período de implantação e consolidação da Academia como mola propulsora da cultura piauiense. Foi lançada a primeira edição da Revista em 1919, e que passou a ser reeditada com todo o zelo e competência, sendo a 14.ª edição lançada em 1929. Os Estatutos foram elaborados, aprovados e publicados passando a vigorar desde a sessão inaugural, instituindo a existência de trinta cadeiras, que foram preenchidas nas duas sessões que se seguiram à da posse da Diretoria. Em 04 de julho de 1921, pela Lei Estadual n.º 1002, a Academia Piauiense de Letras, juntamente com o Instituto Histórico e Geográfico Piauiense e uma extinta “Sociedade Auxiliadora da Instrucção”, foram reconhecidos de utilidade pública. Em 1929, traz a revista a informação de que todas as cadeiras existentes continuavam devidamente preenchidas. Inclusive, em 25 de janeiro de 1925, ao tomar posse na Cadeira n.º 01, que foi de Clodoaldo Freitas, o padre Cyrillo Chaves informa que enfrentou acirrada disputa contra outro candidato e que foi esta a primeira vez que houve disputa para preenchimento de uma cadeira da Academia, o que demonstra o prestígio de que gozava a Academia e o conseqüente interesse dos escritores locais em ingressar na nova agremiação literária.
Pode-se dizer, então, que a Academia Piauiense de Letras consolidou-se desde cedo como uma das mais atuantes instituições culturais do País, atuando de forma efetiva no meio cultural, dentro do espírito moderno que orientava a produção literária brasileira. As três primeiras diretorias, pelo período de doze anos, foram presididas por dois sexagenários que representavam a mais consolidada cultura do Estado, atualizados das mais modernas correntes filosóficas e políticas em voga no mundo, cujo pensamento, de ambos, foi plasmado na histórica Escola do Recife; por fim, esse ciclo inicial foi coroado com a presença de um jovem e inteligente governador, também intelectual de largos recursos, o que demonstra o prestígio da Academia desde sua fase inicial. Em 1929, retorna à presidência da Academia o sábio Higino Cunha, em cuja gestão se demoraria por quatorze anos. Mas esse é assunto para outra análise.
A ARTISTA PLÁSTICA FÁTIMA CAMPOS FARÁ CIRURGIA

Amigos, familiares, todos que puderem nos ajudar: minha mãe Maria de Fátima Campos Sousa Medeiros vai fazer uma cirurgia na terça, dia 20/12, ou na quarta, dia 21/12, e precisa de 58 doadores para doar plaquetas e concentrado de Hemácias! Pode ser qualquer tipo de sangue, o doador tem que ter de 18 a 65 anos acima de 50Kg, tem que estar alimentado. Se for mulher não pode estar menstruada nem grávida. Quando chegar ao HEMOPI, favor se identificar como doador da paciente Maria de Fátima Campos Sousa Medeiros, que vai fazer uma cirurgia no Hospital HTI, dessa forma as bolsas chegarão ao hospital!!! Por favor, compartilhem com todos! Que deus abençoe a todos nós! Grata!
Marina Medeiros
Diário Incontínuo apresenta O DESTINO E A RELATIVIDADE
ELMAR CARVALHO



No ardor e na bisonhice de meu final de adolescência, no segundo semestre de 1975, fui, algumas vezes, com meu pai a reuniões no salão paroquial da igreja de Fátima, perto do chamado arsenal, antiga sede da Polícia Militar em Parnaíba. Seguíamos a pé, do apartamento dos Correios, onde morávamos, na Praça da Graça, até o local das reuniões. Nessa época, ainda me afirmando, eu gostava de debates e discussões intelectuais. Por duas ou três vezes, com a mediação de um dos padres redentoristas, entrei em calorosa discussão com o senhor João Batista Costa, funcionário aposentado dos Correios e vice-prefeito de Parnaíba, na gestão Elias Ximenes do Prado. Era ele colega e amigo de meu pai.
Ele esposava o entendimento de que existia destino, no sentido de que o homem já vinha com a trajetória de sua vida previamente traçada por Deus. Eu tinha o entendimento diametralmente oposto, e argumentava com ênfase muito incisiva que se não fosse assim a Justiça divina não existiria, ou, ao menos, não poderia existir o pecado. Ora, argumentava eu, se uma pessoa trazia o destino de cometer pecado, como, por exemplo, matar alguém, essa culpa não lhe poderia caber, já que ela nasceu com essa determinação do destino, da qual não poderia fugir, pois seria algo semelhante ao maktub dos árabes, cujo vocábulo pode ser traduzido por “já estava escrito”. Por outro lado, a virtude também não poderia existir, porquanto se um ser humano veio ao mundo predestinado a ser bom, a fazer caridade, nenhum mérito lhe caberia, uma vez que nascera “programado” para fazer o bem, para ser virtuoso. Logo, não poderia existir o destino. E se este existe, no sentido de predestinação, não pode existir o livre arbítrio.
Numa dessas vezes, quando a reunião terminara, procurei conversar com um dos padres, procurando sondar sua opinião e ao mesmo descobrir se ele tinha o mesmo pensamento meu, ou se também era adepto de que existiria o chamado destino humano. Ele deu uma resposta sibilina, enigmática, que eu interpretei como se ele estivesse se equilibrando em cima de um muro, ou tateando nas trevas de dúvidas e indecisões. O certo é que eu não o compreendi completamente. Hoje, passadas mais de três décadas e meia, penso que ele tinha uma postura mista, em que o destino não era totalmente descartado, como uma possibilidade, ainda que parcial ou que pudesse sofrer modificação ou interferência humana.
Com a maturidade, já começando a descambar para a chamada terceira idade, verifico que nunca um homem tem controle total sobre sua vida; que todos dependem de certas circunstâncias e acontecimentos, que lhe podem ou não ser favoráveis; que a vida de um homem, a começar pelo seu nascimento, é cheia de tempos e contratempos, de percalços, de acidentes de percurso, de fatos fortuitos ou aleatórios, de acontecimentos que não poderíamos prever, de acontecimentos que independem de nossa vontade ou poder decisório.
Vou mesmo além: se o óvulo de sua mãe tivesse sido fecundado por um outro espermatozóide, entre os milhões que disputavam a maratona em busca do único óvulo disponível, um homem seria outro homem. Por outras palavras, os acontecimentos se vão sucedendo, e nós vamos indo, às vezes de roldão, influenciando e sofrendo influência, tentando impor as nossas vontades, os nossos desejos. Em suma, tentando exercer influência. Em muitos casos, temos poder decisório, mas esse mesmo limitado pelas leis, pelos fatos, pelas convenções sociais, pela nossa personalidade, que por sua vez foi moldada pela herança genética, pela educação, pela experiência de vida, pela inteligência, e assim por diante.
Para não me alongar, parece que nada é absoluto neste mundo. A relatividade parece ser uma certeza, ou, ao menos, uma certeza relativa. Na mecânica quântica existe o princípio da incerteza; quanto mais um ponto é determinado, mais a velocidade se torna imprecisa. Por outro lado, cada vez são descobertos mais mistérios no mundo do infinitamente pequeno, como certas subpartículas de comportamento bizarro. Dizem que algumas parecem ora se comportar como ondas, ora como matéria.
Até a ideia de Einstein de que nada poderia suplantar a velocidade da luz parece estar sendo superada, pois o neutrino, uma subpartícula atômica, que não se detém ante nada, como se fosse um espírito, um ser (quase) imaterial, seria mais veloz que a luz. Agora mesmo, os cientistas estão a rastrear o chamado bóson de Higgs, apelidado de partícula de Deus, do qual parecem vislumbrar tênues indícios, ainda não totalmente comprovados. Em síntese: existem muitas incertezas e muitas coisas e acontecimentos sobre os quais não temos nenhum controle.
Diante de tudo isso que acabo de expor e ante as descobertas em torno do código genético (DNA), faço uma pequena revisão em minha crença de que o destino, no sentido de predestinação, não existiria. Ao que parece, algumas heranças genéticas parecem influenciar o comportamento do ser humano. Nesse aspecto, algumas pessoas poderiam ter predisposição para adotarem certos comportamentos, certas atitudes. Se isso for realmente confirmado, alguns crimes e pecados poderiam ser cometidos por causa do tipo de DNA do portador? E se isso for verdade, qual o grau de culpabilidade da pessoa, até que ponto ela seria responsável pelo seu pecado ou crime? De qualquer maneira, isso não elide o fato de que a sociedade tem necessidade de se defender dos criminosos e violentos, sejam eles sanos ou insanos, psicopatas ou não.
Outro dia, ouvindo meu pendrive, que tem mais de mil músicas, que fui selecionando ao longo de várias décadas, através de discos de vinil, de CDs, de mp3, da internet, etc, e que uso sempre no modo de seleção aleatória, ou seja, através do programa que faz uma espécie de “sorteio” das músicas, pensei na vida e no destino. Quando, por algum motivo, eu não estava disposto a ouvir a faixa “sorteada”, eu apertava o botão que provocava nova escolha aleatória. Quer dizer, eu tinha o poder de elidir, naquele momento, aquela determinada canção, entretanto eu não tinha o poder de escolher que música viria a seguir.
A vida, fazendo uma analogia, permite que descartemos algumas “músicas”, mas parece não nos dar muito poder de decisão sobre o que nos reserva o futuro, pois todos influenciamos e somos influenciados, numa tremenda interação, em que todos decidem algumas coisas, no varejo, e são destinatários, no atacado, de decisões alheias, coletivas ou individuais. Ortega y Gasset disse que “eu sou eu e minhas circunstâncias”. Sem dúvida. De acordo. Entretanto, com certeza, em muitas ocasiões, ele não foi o artífice de suas próprias circunstâncias. Como diz minha mãe, nós não sabemos sequer de que modo iremos morrer. Por isso mesmo, os humildes e precavidos, rezam para ter uma morte.
QUATRO POETAS DO PIAUÍ - Da Costa e Silva

PARA ILUDIR O CORAÇÃO
Da Costa e Silva
Como me enleva e quanto me impressiona
Conservar sempre nítido comigo
O teu perfil judaico de Madona
Na iluminura de um missal antigo!
A saudade, que nunca me abandona,
(Oh! sombra de minha'alma, eu te bendigo!),
Ficando a tua imagem se fez dona
Do pensamento em que te dei abrigo...
Para iludir o coração que pena,
No espelho móvel da memória trago
Teu vulto amado, na expressão serena...
E iluminas meu ser, num sonho vago,
Como estrela a abrir-se em luz serena
Sobre a quietude límpida de um lago...
Extraído de LB – Revista da Literatura Brasileira, nº 6
Ter livros em casa ou não tê-los: eis o dilema - por Cunha e Silva Filho


Foto meramente ilustrativa
Não são boas as notícias sobre o destino dos livros que possuímos. Algumas delas falam em brigas de casal por causa de excesso de livros num dos cômodos, ou nas dependências de empregada, já que estas estão sumidas do poder econômico da classe média ou média baixa ou sei lá em que se transformou a designação da pirâmide social, hoje preferindo rotulações que me soam um tanto cabalísticas ou mesmo esotéricas: classes a, b, c, d, e ... Nunca vi país mais chegado à virtual divisão de estratos sociais quanto o nosso. Mas, leitor, esse não é bem o ponto central desta crônica. O que quero pôr em discussão, ou senão em forma de monólogo, ou no mínimo num incerto diálogo, é o destino, triste sina, dos livros de que dispomos em nosso “Home, home, sweet home”, ou no “My home is my castle,” como preferem os ingleses muito inclinados aos jardins tão bem cuidados e de fazer inveja.
Sei de um amigo que já em parte se separou dos seus amados volumes adquiridos em tantos anos de leitor compulsivo; sei de outro que está destinando parte de sua biblioteca a uma biblioteca pública; sei de outro que, aos poucos, está doando livros que já foram lidos e, muitas vezes, relidos. Sei de outros que andam também com a mesma ideia de ter que se separar de seus bem-queridos livros adquiridos em longos anos em volumes que chegaram a compor uma modesta biblioteca privada.
Uma vez, estava numa velha livraria de sebo quando um senhor magrinho, baixinho, chegou-se até ao livreiro e lhe perguntou se queria comprar algumas coleções inteiras de grandes autores da literatura universal. Este mesmo senhor, dirigindo-se também a mim, perguntou se eu também queria comprar-lhe alguns volumes e foi direto me passando, numa espécie de cartão de visita, o endereço e o telefone. Guardei o cartão por algum tempo, contudo, não sei como, terminei perdendo o cartão e a possibilidade de ir procurar aquele senhor magrinho com cara de leitor voraz.
Dessa experiência com notícias sobre descarte de livros, aprendi uma lição: a pessoa que consegue ter uma média ou grande biblioteca, em determinada época do balanço da vida, resolve livrar-se dos próprios livros. As razões são múltiplas e, muitas vezes, inconfessáveis: tédio da vida, sentimento de quem acha que morte está se aproximando com o peso dos anos, tirar algum ganho por necessidade num tempo em que a aposentadoria ficou corroída com os anos, certeza de que não terá mais tempo e paciência para reler aquela montanha de livros, motivo de mudança de uma casa para um apartamento ou para uma casa menor, onde não haverá espaço suficiente para caber tantos livros.
No meu caso, me situo numa experiência diferente e talvez única. Muitos livros que tinha, assim como coleções de jornais, de revistas de material, de anotações, ou melhor arquivos com centenas de folhas, livros didáticos que gostaria de ter comigo para sempre, com tantas mudanças que fiz, foram se perdendo para enorme tristeza minha. Se existe algo que me entristece é perder um livro de que gosto. Uma vez – se é que não estou me repetindo -, fiz uma crônica, dolorosa crônica lamentando a perda de um livro. O mesmo vale para coleções de suplementos literários, como os do JB, do Globo, da Folha de São Paulo, da coleção de revistas do Piauí, da coleção do Jornal de Letras dos irmãos Condé, da revista Forum, excelente publicação americana para professores de inglês, da coleção da revista Contato, da Cesgranrio, da coleção Plain Truth, nos áureos tempos do Pastor americano Armstrong, que lia a fim de melhorar meu inglês, de obras de autores piauienses, da coleção de artigos de meu pai publicados durante décadas em alguns jornais do Piauí, de coleção de artigos meus antigos remontando a 1963, muitos exemplares dos quais perdi pela vida afora.
O fato é que fui perdendo muitos livros, mas, aos poucos, sentindo as dores em doses menores, porque o mais lamentável é perder todos os livros de um só vez, assim como é profunda a dor de perder os originais de um livro que nos deu tanto trabalho, canseira - e por que não! – alegria de escrever. Uma vez, o contista João Antônio (1937-1996), tendo escrito Malagueta, Perus e Bacanaço (Civilização Brasileira, 1963), considerada sua obra-prima, teve a desdita de perder os originais que foram queimados em um incêndio. O pobre e talentoso contista teve que reescrevê-lo todinho, aproveitando o espaço de um biblioteca em São Paulo. Foi um milagre o havê-lo reescrito. Como, pergunto eu, teria sido mesmo a primeira versão? Não é possível que a recomposição tenha sido cem por cento a mesma. Já me aconteceu de haver escrito um texto longo no computador e, de repente, or deslize meu de não o ter salvo, perdê-lo, sendo forçado a refazê-lo de forma diferente e, a meu ver, inferior, à versão primeira.
Para quem ama na verdade os livros, separar-se deles é uma tormento, uma realidade que passa a ser angustiante, sentimento de desvalia, de carência, de desgosto, de abandono. A vida é mesmo cheia de perdas constantes. Os livros são como pessoas queridas, animais domésticos que estimamos e tratamos como se fossem um ser humano. Ao perdermos livros, perdemos parte de nosso universo afetivo, o que nos deixa num vazio inconsolável, sobretudo quando decididamente sabemos que não mais voltarão para nós.
Assim, venho me desfazendo, por mera falta de espaço, de alguns velhos livros, companheiros que me têm acompanhado por longos anos. Invejo, pois, aqueles que têm à disposição um lugar separado em que possam ser guardados a salvo do descarte. Sei que sou mesquinho quando não pretendo me desfazer de algumas obras que foram compradas com sacrifício, que foram encontradas por sorte em sebos. Triste e sombria cena presenciarmos o desmonte de uma vetusta biblioteca, cujos volumes vão parar numa lixeira, enxotados que foram por herdeiros que não amam os livros e nem se interessam por determinada área do conhecimento artístico, literário, científico.
Sabemos igualmente que não lemos todos os livros que temos conosco. Todavia, eles estão lá nas prateleiras, ao nosso alcance, para qualquer dia ser objeto de nossa leitura. Muita gente pensa que quem tem uma grande biblioteca leu todos os volumes ali contidos. Já ouvi alguém afirmar que o prazer do bibliófilo é possuir seus livros, pouco lhe importa se não ler todos eles. Cada livro tem o seu momento de leitura. Poderá ser hoje, amanhã, daqui a anos. O deleite é tê-los lá nas inúmeras estantes, prontos para serem buscados, escolhidos, lidos e admirados.
Os livros, na biblioteca, explicam gostos e preferências de seus donos. São pistas indicativas da formação de um indivíduo. Em silêncio, dizem muito de quem os coleciona. Da mesma forma, os livros iluminam aspectos da biografia de seus donos. Por isso, é tão traumático para alguém ter que se separar de seus livros. Ninguém, em sã consciência, estimaria perder um único livro de seu acervo particular. Se isso acontece é porque alguma coisa anda errada entre os moradores de uma casa, ou apartamento, onde existe uma biblioteca. A angústia do possuidor de uma biblioteca é a incerteza que nele paira sobre o destino que terão seus livros quando não mais estiver entre os mortais.
Enquanto puder, leitor, preserve os seus livros, lendo-os, amando-os, cuidando bem deles, e, quando não mais o puder, doe-os ou venda-os a quem deles precisa, seja uma pessoa física, seja um instituição privada ou publica. Se possível, faça um testamento expressando claramente a quem destinará seus livros, com quem ficará ou o que será feito deles na forma legal. Que, enfim, seus livros, sua biblioteca tenham um tratamento à altura de sua importância para a cultura do saber democraticamente divulgado e compartilhado. Só assim a angústia dos bibliófilos talvez fique mais aplacada ante a dor da separação.
ODE À VIDA - por Carlos Costa [escritor amazonense]

Quando a vida lhe parecer pesada demais para ser transportada às costas; transporte-a e viva-a!
Quando a vida lhe parecer cansada demais, pesada demais, para ser vivida; viva-a!
Quando a vida lhe parecer chata demais, cansada demais, pesada demais para continuar vivendo; viva!
Quando a vida lhe for alcançada pela solidão, o desespero, a amargura e a insegurança lhe afligir e, junto, lhe vierem o cansaço e o peso; viva-a mesmo assim, porque sua vida é bela!
Quanto tudo lhe parecer difícil, torne fácil e viva intensamente!
Quando o desespero lhe bater à porta, não atenda. Mande alguém dizer que você saiu, não está em casa. Invente uma mentira qualquer, mas não o atenda. Uma mentirinha boba dessas não lhe levará para o inferno.
Se tudo lhe parecer desabando, reconstrua com os cacos que lhe restaram e faça com que novamente a vida se torne bela e adorável para ser vivida! Una todos os pedaços de sua vida, tijolo por tijolo, caco por caco e ponha-se de pé mais uma vez! A vida é sempre bela!
Só deixe de viver quando parar de respirar. Aí terá a certeza que todos seus órgãos vitais pararam mas, se puder, tente pela última vez mais um fôlego, mais uma respirada para sentir pela última vez o perfume da rosa sempre bela e desprezada. Com tudo isso, essa garra, essa certeza, lhe terá valido a pena viver!
Acordar pela manhã e poder respirar o ar fresco da noite, e sentir o vento lhe beijando o rosto, saiba: é uma dádiva de DEUS e ninguém poderá lhe roubar isso, nunca!
Arme-se com as armas da vida e transforme tudo em uma batalha para viver sempre mais e intensamente. Essa é a única razão porque estamos no mundo e devemos agradecer sempre a essa razão!
Viva de forma intensa, mas com responsabilidade. A todos é dado o direito à ignorância. Mas a ninguém é dado usar da igorância para prejudicar aos outros.
FOCO (*) - um poema de Luiz Ayton [ do livro, no prelo, Objeto Presença]

enxergo melhor você pelos gestos
a posição dos dedos
a velocidade do respiro
a ericidade dos pelos
enxergo você
pelo cabelo assanhado
o cruzar da sala de estar
de seu caminhado
quase sempre não preciso
virar o rosto
abrir os olhos
limpar os óculos
para entender os seus recados
enxergo melhor você
no espreguiçar das pernas
no balançar dos braços
o punho levantado
pouco importa que me puxe pelo queixo...
o gesto é o espelho dos segredos
(*) O poema faz parte do livro Objeto Presença, do médico e professor universitário Luiz Ayrton, a ser lançado em janeiro próximo.
Diário Incontínuo apresenta Um Caso de Pistolagem
ELMAR CARVALHO

Outro dia, enquanto esperava a conclusão de um serviço de confecção de capas para os bancos de meu carro, ouvi na oficina uma história, dada como verídica, que mais parecia um conto policial. Inicialmente, pensei em exagerá-la, dar-lhe alguns “enfeites”, acrescentar-lhe alguns diálogos e entrechos, e transformá-la numa narrativa ficcional. Porém, pensando mais, preferi contá-la neste diário, tal como a retive em minha memória, sem nada além do que me foi narrado.
Certo rapaz, cujo nome não foi revelado, alugou uma casa, em certo conjunto residencial de Teresina. Tinha todo o conforto na residência – geladeira, aparelho de som, televisor, ar condicionado, poltronas, etc. Dizia ser sustentado pelo pai, suposto fazendeiro maranhense. Quando uma moça da vizinhança foi comemorar um aniversário, ele patrocinou o churrasco e as cervejas. Quando essa mesma moça teve um celular roubado, ele, não se sabe com que artes mágicas, conseguiu encontrar o aparelho e lhe devolver. Embora ninguém lhe conhecesse os parentes, amigos e procedência, tornou-se querido, conquanto nunca ninguém lhe tenha adentrado a casa, que nunca era aberta para visitas.
Um ou dois meses depois de ele se instalar nessa casa, um jovem delinquente apareceu morto, vítima de dois ou três balaços. Suspeitava-se, pelo menos corriam rumores a esse respeito, de que esse rapaz, anos antes, matara um fazendeiro maranhense, atendendo “encomenda”. Como vingança, a família do proprietário assassinado supostamente teria contratado um pistoleiro de aluguel, que seria o prestativo e educado vizinho referido nos parágrafos acima. Suspeitaram fosse ele o executor do homicídio porque logo após a notícia do assassinato do jovem delinquente esse bom e solícito vizinho sumiu, sem deixar o menor rastro ou notícia, deixando todos os móveis e eletrodomésticos na casa.
Dele ficou a lembrança de um rapaz simpático e atencioso com os vizinhos, e essa insidiosa suspeita pairando no ar. Contudo, é legítimo supor que ele não tenha cometido nenhum crime, e qualquer dia reapareça, ou que tenha cometido outro tipo de crime, que não o assassinato de um pistoleiro de aluguel. Afinal, para cometer o último crime talvez não precisasse passar mais de dois meses em uma casa mobiliada por ele. O aluguel, a compra dos móveis e aparelhos, bem como a relação com os vizinhos sempre deixariam rastros.
O MURO DA MINHA ESCOLA - por João Pinto [cronista e contista]

Todo dia que acordo, acordo meio sobressaltado por não estabelecer boa maneira com a minha aula. E aula, com certeza, é um núcleo que pode ser esmiuçado em muro, portão, mesa do professor ou carteiras, meus cacarecos pedagógicos, assoalho dos pés, paredes e, finalmente, aluno. Tudo isso minha aula, que não posso te dar o endereço porque se encontra em cada esquina.
Cada parte desse mundo me deixa com amargura. E não sei de onde me vem esse vazio existencial, que vem sendo constante quando vou à escola. Não sei mais conviver com esses elementos da escola, todos são comuns e me passam uma triste sina de coisa velha numa paisagem sem vida, que não mudam nem se renovam. Há muita liberdade e pouco sucesso. E nada de atípico aparece para me devolver a paz. Se eu encontrasse uma escola que tivesse esses mesmos elementos mas dentro de uma paisagem diferente, poderia com certeza conviver, manter diálogo renovado, mas o cérebro de quem fez e gerencia a minha escola por bem não é de gente que se fascina pelos livros. Dentro deles não há criança, há velhos rabugentos que o tempo nunca vai escrever na história.
O muro da minha escola não tem fachada que me agrade, seu corpo é doentio e precisa de reparos, o portão que lhe faz brecha é desbotado e abocanhado de ferrugem. Assim tudo se parece com tragédia. A sala dos professores precipita meus passos para fora, o bebedouro é outra lástima e a merenda me ajuda com esses quilinhos a mais, o banheiro é flex. As salas dos alunos representam uma corrida, quanto à escrita, para quem se saia melhor como pichador ou analfabeto da escrita, agora imagine o banheiro estudantil, essa parte monumental da escola que o aluno encontra para explodir bombas de festim nos vasos e criar sua linguagem anárquica em meio a urina e torneiras quebradas e vasos entupidos, de qualquer forma as meninas ali se pintam e os garotos mijam fora.
Quando toca a campa ao iniciar as aulas, meus passos seguem um corredor longínquo que não acaba mais. Eu o atravesso camuflado com meu tênis surrado, o meu material dissipado no lado esquerdo e os óculos que arribo de vez em quando para o topo do nariz. Cá comigo, penso, contabilizo 40 tempos semanais, por eles contabilizo o cansaço e esse medo que tenho de ambientes carcomidos, o tempo aqui é cheio como era ao tempo dos escravos nas senzalas. Tudo tem um preço na escola. O preço que pagamos com as decepções. Às vezes, em sala, minhas sílabas ficam cortadas numa exposição, só percebo quando os risos me colocam ao ridículo.
Entro numa sala repleta de alunos e, ali, em vez de o aluno levantar-se como era costume antigo para sinalizar respeito, o que ouço são os sons renitentes dos celulares, como pequenas balas de artilharia. E fico embriagado pela falta de lucidez do aluno, que são voltados apenas para o lado de uma sociedade que se molda no consumo. Fico desarmado. Relanceio a vista atrás de outros valores e nada encontro. Minha aula está precisando de um choque de urgência, que reponham a disciplina e a competição entre os alunos, afastem o bolor das paredes e dos livros nas bibliotecas, que de leitura ninguém morre, e é esse que é o alimento verdade do homem.
Mas, hoje, o professor tira o jeito de um muro de escola com sua cobertura de tinta apagada e enferrujada e que por ele vão passando muita gente, alguns ainda dizem algum valor, já outros gostam mesmo é de soltar xaveca para que a mofa fique presente na vida de todos.
P E R F I S A C A D Ê M I C O S - MATIAS OLÍMPIO DE MELO - por Reginaldo Miranda

O segundo presidente da Academia Piauiense de Letras foi Matias Olímpio de Melo que, embora não sendo um dos fundadores, porque estava ausente de Teresina na época da fundação, aderiu a ela desde a primeira hora. Sucedeu a gestão de Clodoaldo Freitas.
Nasceu no dia 15 de setembro de 1882 na Fazenda São José, do Município de Barras(PI), filho de José Olimpio de Melo, ex-deputado estadual, e de Inácia Olimpio de Melo. Faleceu no dia 28 de junho de 1967, na cidade de Teresina(PI). Foi casado em primeiras núpcias com Maria José Mendes de Melo e em segundas núpcias, com Marcolina de Arêa Leão Melo, deixando descendência de ambos os matrimônios.
Magistrado, jornalista, político e escritor, iniciou os primeiros estudos em sua terra natal, passando posteriormente para Teresina, capital do Estado, onde cursa o ensino ginasial e secundário, concluindo este último no Liceu Piauiense. Mudando-se para Pernambuco, cursa Direito na Faculdade de Direito do Recife, concluindo o curso em 1904.
Depois de formado retorna para Teresina, onde vai nomeado promotor público da Capital, exercendo o cargo de 1905 a 1907. De 1914 a 1915, exerceu o cargo de diretor da Empresa de Correios e Telégrafos. Foi secretário de Governo em três administrações.
Mudando-se para o Território do Acre, vai nomeado juiz municipal de Sena Madureira, no ano de 1915, sendo depois promovido a juiz federal da comarca de Taraucá, no mesmo Território. Durante a Era Vargas exerceu o cargo de juiz federal na Bahia(1931 – 1937) e em Pernambuco (1937 – 1945).
Ainda no início de sua vida profissional atuou no magistério, sendo um dos fundadores do Ateneu Piauiense, onde lecionou História e Português. Militou também no jornalismo, sendo colaborador dos jornais A Pátria, O Monitor e diretor do jornal O Estado do Piauí. Conferencista, crítico literário, cronista, publicou alguns trabalhos interessantes, a saber: Pensamento e Ação; Ensaios, Discursos e Conferências; Discursos e Pareceres; Rumos e Atitudes; Falando e Escrevendo e Despachos e Sentenças. Membro da Academia Piauiense de Letras, exerceu a presidência dessa instituição(1924 – 1929) exatamente entre as gestões de dois ícones da Casa, Clodoaldo Freitas e Higino Cunha, contribuindo com sua ação para consolidá-la como vanguarda da cultura piauiense.
Matias Olímpio filiou-se ao Partido Republicano Piauiense, sendo eleito governador do Piauí em 1924, e exercendo o mandato de 01.07.1924 a 01.07.1928. Durante essa gestão teve de combater firmemente o banditismo que assolava o sul do Estado, pacificando a região. Teve também de enfrentar a invasão do Piauí pela Coluna Prestes, reforçando as passagens do Parnaíba e a defesa da Capital. Graças à ação enérgica do governo em 31.12.1925, foi preso na localidade Areias, arredores de Teresina, pelo coronel Antonio da Costa Araújo Filho, o militar Juarez Távora, um dos comandantes da Coluna. Posteriormente libertado por intervenção de D. Severino Vieira de Melo, Bispo de Teresina.
Durante essa gestão governamental, adquiriu o prédio e instalou o governo piauiense no atual palácio de Karnak. Entre outras realizações, tentou fomentar a economia do Piauí, baseada majoritariamente na exportação da carnaúba; deu amplo incentivo à construção da ferrovia que ligava Petrolina(PE) a Teresina. Todavia, o presidente da República, Washington Luís, empossado em 15 de novembro de 1926, suspendeu a execução dessa e de muitas outras obras de grande porte, com o objetivo de restabelecer a estabilidade cambial do país.
Em 1928, Matias Olimpio deixou o governo do Estado, passando o cargo ao governador eleito João de Deus Pires Leal e a Humberto de Arêa Leão, vice-governador e seu cunhado, ambos correligionários. Entretanto, não demorou para que Matias Olímpio passasse à oposição. Posteriormente, quando da campanha eleitoral para a escolha do presidente e vice-presidente da República, aderiu à Aliança Liberal, apoiando as candidaturas de Getúlio Vargas e de João Pessoa, respectivamente. Com a derrota destes, Matias Olímpio participou ativamente do movimento revolucionário de 1930, liderado no Piauí pelo desembargador Vaz da Costa. Foi um dos organizadores do assalto ao 25º Batalhão de Caçadores e ao Quartel-General da Policia Militar. Os rebeldes chefiados por Vaz da Costa em poucas horas tomaram o poder no Piauí. O capitão Humberto de Arêa Leão ocupou provisoriamente o Governo do Estado, deixando o posto em 29 de janeiro de 1931. Depois disso, Matias Olimpio ainda conseguiu a indicação para Interventor Federal no Piauí, do juiz Raimundo Campos, mas este não aceitou a indicação, ambos desavindo-se com Vaz da Costa. Então, o ex-governador Matias Olímpio afastou-se provisoriamente da política, indo exercer seu cargo de juiz federal na Bahia.
Com a redemocratização do País, em 1945, o ex-governador Matias Olímpio foi dos primeiros que se apresentaram na trincheira de luta para organizar o diretório estadual da União Democrática Nacional(UDN), de que foi presidente. Por essa legenda foi eleito Senador Constituinte no pleito travado em dois de dezembro daquele ano, juntamente com Esmaragdo de Freitas. Votada a Constituição Federal em 1946, o Senador Matias Olímpio permaneceu por toda a legislatura ordinária (05.02.1946 – 31.01.1955). Durante esse primeiro mandato exerceu a vice-presidência da Comissão de Relações Exteriores, membro das Comissões de Finanças e de Serviço Público, tendo participado ainda da Comissão Especial de Navegação Tocantins-Parnaíba. Ardente defensor do monopólio estatal do petróleo, foi nomeado vice-presidente do Centro de Estudos e Defesa do Petróleo e da Economia Nacional (CEDPEN).
Em 1954, depois de abandonar a UDN e organizar o Partido Trabalhista Brasileiro(PTB), candidata-se à reeleição por essa legenda em coligação com o PSD, sendo reeleito para o Senado da República (1955 – 1963). Nessa legislatura exerceu os cargos de suplente da Comissão Diretora do Senado(1958 - 1959), quarto-secretário(1961) e novamente suplente(1962). Concluindo esse mandato aos oitenta anos de idade não mais se candidatou, indicando um filho, João Mendes Olímpio de Melo, para deputado federal, que foi eleito.
Matias Olímpio foi estrela de primeira grandeza na política piauiense, sendo justa e merecida a homenagem que recebeu com o nome de um município piauiense. Na qualidade de ex-presidente da Academia Piauiense de Letras, hoje lhe traçamos o perfil.
REVISTA TURMA TEIXEIRA DE FREITAS - FACULDADE NACIONAL DE DIREITO
ELMAR CARVALHO


Recebi hoje, das mãos do desembargador Nildomar da Silveira Soares, membro da Academia Piauiense de Letras, a Revista Turma Teixeira de Freitas, comemorativa das bodas de ouro dessa turma da Faculdade Nacional de Direito (1961-2011), da qual ele fez parte. A capa traz um palco iluminado, tendo como cenário “o caminho da vida que cruzamos”, como nela está assinalado.
Foi editada exclusivamente às suas expensas, tendo sido ele também o seu idealizador e organizador. Imagino o seu trabalho em conseguir as velhas fotografias, que a ilustram, em coligir as reportagens e notas jornalísticas, que se referem a essa turma, em obter os vários depoimentos, que a enriquecem, alguns repassados da mais vívida saudade, outros da mais intensa emoção. Enaltece o nome dos ilustres mestres, alguns juristas consagrados em sua época, autores de livros adotados em outros faculdades de Direito, entre os quais podem ser citados, em sintética enumeração: Evaristo de Morais Filho, Hélio Tornaghi, Serpa Lopes, Haroldo Teixeira Valladão, Lineu de Albuquerque Mello, Alcino Salazar e Hélio Gomes.
Evidentemente, grande foi o seu esforço em contactar os seus colegas, que se encontram dispersos em vários rincões do Brasil. Muitos já partiram para outras moradas dos páramos celestiais, mas seus nomes foram assinalados, sobrepostos a bela ilustração, em que se destacam uma cruz branca e um verde gramado, como símbolos da Paz e da Esperança. Muitos dos componentes dessa turma se tornaram parlamentares, entre os quais o deputado federal piauiense Paes Landim; sete galgaram o cargo de desembargador, dentre estes o piauiense Nildomar Soares, e um tornou-se vice-governador, fora os que se destacaram em outras atividades, inclusive como operadores do Direito.
A revista é toda em papel couché, e teve bela formatação e programação visual. Contém várias fotografias em preto e branco e em policromia. Estampa textos em prosa e em versos, que ilustram e enriquecem essa crônica de vencedores, entre cujos textos se destaca o poema Nem Tudo é Fácil, de Cecília Meireles. Mas, sobretudo, registra a história da Turma Teixeira de Freitas, no ano em que a Faculdade Nacional de Direito completa 120 anos de existência.
Diário Incontínuo apresenta No Pesqueirinho
ELMAR CARVALHO
Neste domingo, minha mulher e eu fomos comer uma peixada na churrascaria, ou antes, na peixaria ou restaurante Pesqueirinho. Disse churrascaria para melhor designar o tipo de ambiente da casa gastronômica, que é amplo, com áreas cobertas e abertas, podendo o freguês escolher ficar à sombra de árvores. Em certos locais, o cliente poderá ter uma bela visão do rio Poti, com a sua renda de aguapés, ou as belas árvores ribeirinhas, mormente da margem oposta, em que também se vê uma extensa pastagem.
Não faz tanto tempo assim, ao lado do restaurante ficava o ancoradouro de um pontão, que atravessava carros e passageiros, de uma margem à outra, em constante vaivém, fora o movimento das embarcações menores, que conduziam apenas pessoas, bicicletas e pequenas cargas. Com a construção da ponte, algumas centenas de metros a jusante, cessou esse comércio de passageiros, que dava um tom pitoresco de cidadezinha ao local. Dali, vê-se a curvatura da ponte, que liga os bairros Poti Velho e Santa Maria da Codipe. O Poti Velho tem hoje um importante centro artesanal, e continua sendo o local onde moram muitos operários de olarias e pescadores.
Pode ser considerado o mais antigo bairro de Teresina. Quando o Conselheiro Saraiva, em 1852, fundou a cidade de Teresina, ele era um povoado, situado quase na confluência do Poti e do Parnaíba, onde hoje fica o Parque Encontro das Águas, ponte turístico da capital. Saraiva achou que o local seria insalubre e suscetível de enchentes, pelo que preferiu instalar a nova capital a montante do Parnaíba, na chapada do Corisco, onde fica o centro histórico teresinense.
Nas lendas, anedotas e mistificações, que podem ou não ter um fundo de verdade, o conselheiro teria uma amante no povoado, razão determinante para que ele criasse a nova capital em sua proximidade. Talvez tudo não passe de simples maledicência ou brincadeira, não sei ao certo. Em junho, o bairro, através da Igreja Católica, promove o movimentado festejo de São Pedro, com as instalações de barracas para venda de comidas e bebidas, boxes de jogos, realizações de quermesses e novenas, além de outros eventos profanos. O ponto culminante é a passeata fluvial, com os barcos acompanhando a imagem de São Pedro pelos rios Parnaíba e Poti, no trecho que vai do troca-troca à praça da matriz do bairro.
No Pesqueirinho vi várias esculturas de animais, como coruja, papagaio, águia e tucano, que não existem, pelo menos nos dias de hoje, na região ribeirinha. Apenas a garça retrata espécime que vive ali. Por coincidência, numa das fotografias que tirei, uma garça de verdade aparece por trás da esculpida, fixada na mureta do terraço da casa de pasto. São obras de cerâmica que podem ser compradas no centro de artesanato do bairro.
O tucano, com o seu bico enorme, desproporcional em relação ao corpo, parece querer contrariar as leis da aerodinâmica, pois voa sem nenhum problema. A coruja tornou-se símbolo da sabedoria, apesar de noctívaga, sorumbática, tida como aziaga; talvez isso se deva ao seu ar meditabundo, em que seus olhos grandes, arregalados, parecem tudo enxergar, tudo perscrutar e compreender. O papagaio, animal inteligente, a arremedar a voz humana, designa o homem falador, falastrão, de incontinência verborrágica, muitas vezes um simples decoreba, sem ideias próprias.
Vi ainda a escultura de um pescador a segurar um enorme peixe, praticamente de seu tamanho. Lembrei-me de antigo cartaz de propaganda do purgante emulsão de Scott, que segundo a legenda era feito à base de fígado de bacalhau. A catrevagem ou beberagem era tida como uma verdadeira panaceia, mormente para as pessoas de poucas letras, e era bastante vendável. Podia ser encontrado em qualquer farmácia ou drogaria interiorana. No cartaz, um pescador, profissional tido como mentiroso, carregava às costas um peixe quase de seu tamanho, sem fazer esforço, a demonstrar o suposto vigor proporcionado pela emulsão.
A escultura também me fez lembrar o romance de Ernest Hemingway, O Velho e o Mar, em que o obstinado pescador, enfrentando uma maré de azar, dia após dia, lançava seus apetrechos de pesca ao mar, sem sucesso. Após vários dias de persistente trabalho, Santiago consegue pescar um peixe descomunal. Ao chegar à praia, após tremenda luta, o velho pescador constata que o espadarte fora devorado pelos tubarões, que só lhe deixaram o esqueleto, como troféu de uma glória quase inglória ou inócua. Contudo, por ser o maior peixe capturado naquela paragem, serviu para lhe elevar o moral ou astral, com o consequente respeito de seus pares.
Tive a satisfação de encontrar no recinto, à sombra de frondosa árvore, o desembargador Tomaz Gomes Campelo, dona Gracy e dois dos filhos do casal amigo. Ao cumprimentá-lo, pedi licença para fotografá-lo com a família. Com a sua lhaneza e conhecida elegância, sorriu, e permitiu-me retratá-lo. Constantemente o encontro em eventos culturais, como conferências, posses acadêmicas e lançamentos de livros. Tenho a honra de ser seu confrade em várias instituições culturais, entre as quais cito: Academias do Vale do Longá, da Maçonaria, da Magistratura, do Médio Parnaíba. É ele o atual titular da União Brasileira de Escritores do Piauí – UBE-PI, de que tive a honra de ser presidente nos idos de 1988/1990.
Numa das paredes, vi um banner com o retrato de Edvaldo Robert da Silva, no qual foi grafada a frase: “Não lembres de mim com tristeza, lembre-se dos momentos felizes e alegres que vivemos”. Era ele o proprietário do Pesqueirinho, bar e restaurante tradicional de Teresina, de grande e fiel clientela. Perguntei a um dos garçons quando ele falecera. Respondeu-me que fazia 31 dias de sua morte. Pude sentir que os garçons são educados, prestativos, atenciosos, e que os herdeiros haverão de conduzir o barco do Pesqueirinho, por águas tranquilas, sob céu de brigadeiro, a porto seguro e venturoso, como expressou no cartaz o seu antigo timoneiro.
Flagrante natalino - texto e charge de Gervásio Castro

Acredite: Papai Noel existe! E mora na minha rua. Na verdade ele mora em várias ruas, mas ontem estava aqui perto. Se chama Carlos, tem oito anos e não é framenguista:
- Tô usano a camisa porque a moça mim deu. A outra tava muito rasgada.
Esse ano havia decidido caprichar no cartão de Natal. Depois de hora e meia desenhando resolvi fazer uma pausa e saí pra tomar um chopp. Foi então que encontrei Papai Noel. Quando voltei pra casa (vários choppsdepois) desisti da idéia original e hoje fiz esse outro desenho. Acredito que esse será o cartão mais feio que vocês vão receber nesse Natal. Espero que me perdoem. Prometo não fazer pausa pro chopp, ano que vem.
Diário Incontínuo apresenta CRÍTICA LITERÁRIA – MINHA DESPEDIDA
ELMAR CARVALHO


Assim como o craque envelhecido deixa de jogar futebol, e pendura as chuteiras, resolvi, metaforicamente, pendurar a minha caneta de aprendiz de crítico literário, que tenho sido algumas vezes, ao longo de minha vida literária. Assim como a velha meretriz, que vai perdendo a clientela para as mais jovens e mais bonitas, começa a fazer os serviços de arrumadeira e criada, e fica em paz em seu canto ou quartinho, comecei a fazer os serviços mais humildes de recolher os meus textos dispersos, de coligir os esparsos, de enfeixar os avulsos, e de tentar rever os extraviados. Oportunamente, pretendo reunir em volume os meus pequenos ensaios sobre literatura e mais alguns dos prefácios e apresentações que escrevi.
A crítica literária sempre me foi um mister algo penoso ou que me exigia certo esforço intelectual e de pesquisa, de modo que me dava a sensação de um quase exercício físico, de disciplina espartana. Aliás, só fiz texto de crítica quando movido por alguma injunção, ou quando me senti praticamente no dever de fazê-la, em atenção ao merecimento da obra e do seu autor. Portanto, posso dizer que só as fiz quando achava que os textos analisados mereciam meu esforço. Adotei o critério de que não deveria malhar a produção de meu semelhante, mas que também não deveria fazer elogios que entendesse descabidos, exceto os verbais, que a polidez e a relação social recomendam, mas sem ênfases e superlativos.
Sem dúvida considero a crítica e a teoria literária da mais alta importância para o desenvolvimento da arte literária, sobretudo para a formação de bons leitores e escritores, dando-lhes maior discernimento crítico, para que saibam separar o joio do trigo, mormente numa época internética em que todos se metem a escrever e a publicar. Por isso mesmo lhes dei a minha modesta contribuição, e delas extraí lições que ainda hoje me são de grande valia. Ademais, a boa crítica, a crítica justa e imparcial, contribui para divulgar as boas obras literárias, e para deixar no seu devido lugar as obras menores. Pode provocar o salutar debate, que venha a manter viva a verdadeira literatura, arejando-a com novas ideias, recursos e possibilidades, unindo sempre a tradição e a invenção.
O poeta Hardi Filho, no prefácio à primeira edição de meu livro Rosa dos Ventos Gerais, UFPI, 1996, asseverou que: “Criou-se até, entre nós, a mítica dos 'opinantes de plantão' os quais, de tão assediados, seriam obrigados a ter já grafado ou de memória o que dizer de um que sirva para muitos; se o trabalho não merece, a pessoa do autor recebe elogios e fica contente”. O texto seria uma espécie de carimbo, que, mutatis mutandis, aplicar-se-ia a todos os prefaciados. Um desses prefaciadores contumazes era sempre laudatório. Contudo, a seu modo, era sincero; se o seu texto fosse lido com a devida atenção, o leitor perceberia que o elogio era apenas aparente, porquanto era dirigido ao autor ou ao tema, mas nunca à qualidade ou ao estilo do escritor ou poeta.
Certa feita um amigo, cujo nome jamais irei declinar, ensinou-me como eu deveria proceder para obter elogios dos medalhões da literatura nacional, e, de forma humilde e sincera, me confessou que procedia da maneira como me recomendava. Eu deveria fazer uma carta, exaltando a obra literária do destinatário, encaminhando-lhe um exemplar do livro a ser elogiado; deveria prometer-lhe que o texto encomiástico seria publicado em jornais e revistas, e sairia na próxima edição do livro, que já se avizinhava. Agradeci-lhe o conselho, mas devo confessar que nunca o segui.
Vejo, aqui e alhures, encarapitados nas orelhas, nas folhas de rosto, nas contracapas, os mais descomedidos panegíricos a certos livros; a gente fica até na dúvida se desaprendeu o que sabia, ou se o elogiador escalado é quem teria perdido o juízo. Todavia, se esses aplausos forem lidos com cuidado, verifica-se que eles são uma tremenda ironia ou gozação, pelo exagero dos qualificativos e retumbância das palmas, ou são apenas metáforas pomposas, que nada dizem de concretamente sobre a obra a que se referem. O fato é que ficamos com a sensação de que a “estátua é bem maior do que o modelo”.
Muitos anos atrás, uma poet(is)a me deu um poema para que eu o lesse em sua presença. Porém, antes de me repassar o papel com o texto, foi logo me advertindo de que se tratava de sua obra-prima; que estava muito inspirada quando a escreveu, e que ficou muito feliz com o resultado final dessa peça. Devo dizer que me senti muito pequeno para merecer tamanha deferência e consideração, e cheio de espectativa comecei a ler essa arte supostamente tão esmerada. Não sei se foi pelo excesso de espectativa que a autora me passou, ou se foi porque sempre fui um leitor muito exigente, mas o certo é que não vi nenhuma qualidade excepcional no poema; na verdade, o texto era repleto de trivialidades, lugares comuns e ejaculações discursivas balofas, sem nenhum lampejo de talento, quanto mais de genialidade.
Ao devolver-lhe o papel, com a cortesia de praxe, que a civilidade recomenda, para não lhe ferir o inflado ego e a delicada suscetibilidade, falei:
- Muito bem... Está bom.
Como ela notasse, pela expressão de meu semblante que eu ficara decepcionado e também pela falta de efusão em meu “elogio”, retrucou-me com ênfase, em que mal dissimulava certa irritação:
- É, pode não estar bom para os outros, mas para mim está excelente!
Sorri, e nada mais acrescentei. É por causa de fatos desse tipo que tomei a deliberação de me recolher a meu canto, para me dedicar apenas a produzir os meus textos, sem ilusões de glória, posto que sei, mais do que ninguém, de que o renome através da arte literária, nunca vem, ou só vem após demorado, árduo e penoso esforço. Irei, aos poucos, sem pressa e sem alarde, publicando os meus “dispersos, esparsos e reencontrados”. Finalizo com o que disse o pregador de Eclesiastes (1:2), que se aplica também e talvez principalmente a mim: “Vaidade das vaidades! Tudo é vaidade”.
QUATRO POETAS DO PIAUÍ - poema de Elmar Carvallho

NA NOITE
Elmar Carvallho
Na noite
um sapo coaxa.
Uma puta triste
acha graça. Acha graça.
Um galo
às desoras desfere um canto
fora de hora. E chora.
Um cão ladra por nada:
nenhuma cadela no cio.
O silêncio
grita como louco
na concha acústica
dos labirintos dos ouvidos moucos
por onde um Teseu lasso caminha
em busca do Minotauro – perdido
sem o fio de Ariadne –
conduzido por outro fio
que parte / se parte e
se reparte entre o ser
e o não ser.
E os gritos de Teseu
arrancam ecos
que já ecos de si mesmos
se repetem se repetem
até a mais completa
absoluta exaustão.
Extraído de LB – Revista da Literatura Brasileira, nº 6





