Política

Investigação · 26/07/2009 - 17h00

Othelino teria desviado mais de R$ 100 milhões, diz polícia

A testemunha declarou ainda ter presenciado o cunhado receber \'malas de dinheiro\'.


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SÃO LUÍS - Relatório preliminar elaborado pela Comissão de Investigação de Crimes Contra o Erário Público, ao qual O Estado teve acesso, aponta o ex-secretário do Meio Ambiente Othelino Nova Alves Neto como “chefe de uma organização criminosa” que desviou pelo menos R$ 100 milhões do órgão. Além do hoje secretário de Governo da Prefeitura de São Luís, o outro cabeça do esquema era o ex-superintendente do Sistema de Gestão Florestal (Ceprof/Sisflora) Charlys Wagner Rodrigues.

Segundo a polícia, em 2002, Charlys atropelou e matou o vigia Antônio Alves dos Santos na Avenida Colares Moreira e fugiu sem prestar socorro à vítima. Na época, ele era motorista da secretaria. Othelino vinha como passageiro do carro e, com a ajuda do capitão PM Joselito Mendes da Costa, encobriu o caso. O crime foi descoberto justamente durante as investigações na Secretaria do Meio Ambiente (Sema).

O relatório preliminar foi feito com base nos depoimentos de Clésio Silva Macedo e Leonardo de Jesus Sousa Cardoso, cunhado de Charlys. Foi este quem revelou o atropelamento e a morte do vigia. O esquema funcionava com os acusados cobrando propina pela emissão de autorização para desmates e transportes de produtos florestais para carvoarias, madeireiras e siderúrgicas.

“A quadrilha passava uma aparência de legalidade às madeiras extraídas clandestinamente das nossas reservas florestais e ainda permitia que outras, extraídas dos estados vizinhos, principalmente do Pará, fossem trazidas para o Maranhão e aqui sendo ‘legalizadas’ com tais autorizações, dessa forma furtando-se às fiscalizações das autoridades ambientais, principalmente do Ibama”, informa o relatório.

Restaurante

Clésio Macedo contou à polícia que, em almoço realizado no restaurante Cheiro Verde, Othelino e Charlys “receberam R$ 2,5 milhões em espécie de uma pessoa conhecida como Sergipano, proprietário de uma carvoaria em Buriticupu”. A testemunha enumera vários Cadastros Especializado de Produtos Florestais (Ceprofs) envolvendo diversas madeireiras e carvoarias nos municípios de Buriticupu, Açailândia, Sítio Novo, Centro Novo, Itinga, Santa Luzia e Bom Jesus das Selvas, liberados mediante pagamento de propina.

“Conforme se observa nas declarações, esse esquema fraudulento rendeu à quadrilha uma cifra superior a R$ 100 milhões, dessa forma causando um enorme prejuízo ao Estado, estimando-se que foi autorizado ilegalmente o desmate de aproximadamente 300.000m³ de madeira das florestas maranhenses”, informa o documento.

Esquema

Ex-funcionário da Sema, Leonardo Cardoso, mais conhecido como Léo, contou à polícia ter preenchido várias guias de Licença de Transporte de Produtos Florestais (LTPF), algumas delas feitas em casa durante fins de semana. “Uma vez preenchidas essas licenças, Charlys determinava ao declarante que as entregasse no estacionamento do Garden Shopping (Cohama) para as pessoas de nome Jaime Scaramusa, dono da firma de mesmo nome; Jader, proprietário do projeto F. Pantarolo; e para Sandra, amiga de Charlys de faculdade, que tem um Cross Fox vermelho.

Ao fazer a entrega dessas LTPFs, o declarante recebia envelopes lacrados contendo dinheiro, não sabendo dizer a quantia, mas que era grande a quantidade em razão do volume, sendo que entregava esses envelopes para o próprio Charlys”, explica o relatório policial.

Léo contou ainda ter recebido ordens do cunhado para digitar uma Licença de Desmate e levá-la até a loja Libélula (São Luís Shopping) - de propriedade da ex-mulher de Othelino -, onde ele aguardava para assiná-la. “Cumpriu a determinação e, uma vez assinada a licença pelo secretário, retornou à Sema e no estacionamento entregou esse documento a um senhor desconhecido, que lhe deu um envelope com dinheiro. Em seguida, levou esse envelope para Charlys.”

A testemunha declarou ainda ter presenciado o cunhado receber “malas de dinheiro”, sendo que parte era depositada no Banco do Brasil do Retorno do Calhau. Por várias vezes acompanhou Charlys a essa agência bancária, inclusive indagando-lhe sobre as constantes idas a essa agência, tendo ele respondido que estava indo fazer depósitos a mando de Othelino.

Dinheiro era depositado em nome de empregada

Leonardo de Jesus Sousa Cardoso denunciou que o ex-superintendente do Sistema de Gestão Florestal, Charlys Wagner Rodrigues, chegou a depositar R$ 200 mil na conta de sua empregada doméstica, identificada apenas como Solange. O ex-funcionário da Sema disse ter presenciado a doméstica sacar R$ 27 mil no Bradesco do Garden Shopping.

“Nesse mesmo dia, ela entregou o dinheiro para Charlys. Chegou a indagá-la sobre o valor, tendo esta respondido que era de Charlys e que este já havia movimentado mais de R$ 200 mil em sua conta-corrente. Além de Solange, sabe que Igor, do Rei do Vidro, também movimenta dinheiro de Charlys, bem como Isaque Campos, da Oficina Opção e da Autopeças Solução, situadas na Avenida Kennedy. Desconfia que a empresa Autopeças Solução é de Charlys, haja vista que este utiliza o nome da empresa em cartões de visita.”

A testemunha contou estranhar ainda o fato de, apesar de ser um simples funcionário público, o cunhado usar um cordão de ouro de R$ 14 mil e ao se separar da mulher ter dado a ela um Pegueot 206 zero km e uma casa mobiliada na Cohama. Ele teria ainda uma casa em Caxias, outra no Alto do Calhau, quatro caminhões, um Astra, uma moto 1.100 cilindradas, uma empresa mecânica e um apartamento no edifício Mali. O ex-superintende do Sistema de Gestão Florestal teria várias armas, como revólveres e pistolas, em casa.

Número

R$ 2,5 milhões teria sido o valor entregue a Othelino Neto e Charlys por uma pessoa conhecida como Sergipano, proprietário de uma carvoaria em Buriticupu, segundo depoimento de Clésio Macedo.

Fonte: Jornal O Estado do Maranhão.