Política

Um instituto muito suspeito · 06/09/2020 - 13h28 | Última atualização em 06/09/2020 - 14h31

Fundação provocou rombo de R$ 5,6 milhões no estado com ajuda de políticos

FCAMC é alvo de inúmeras tomadas de contas especiais. Instituto era agraciado com gordas emendas


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Por Rômulo Rocha - Do Blog Bastidores*

* Artigo

 

SOBRE DENÚNCIAS E DENÚNCIAS E SOBRE A INÉRCIA

Quando em 2015, ao se analisar documentos, os membros que compunham o Blog Bastidores, do 180, e o ainda jornalista titular, descobriram o endereço de uma casinha na zona leste de Teresina, abandonada, para onde políticos direcionaram nacos consideráveis de emendas parlamentares, iniciou-se uma série de publicações jornalísticas. 

Não deu outra. O Instituto para Infância e Adolescência (FCAMC) inaugurava, pelo menos em relação ao titular do Blog Bastidores, algo que iria se repetir em algumas outras coberturas ainda mais polêmicas: a procura da Polícia Civil para registrar boletins de ocorrência com algum causo visando incriminar o jornalista que assinava as matérias. 

Então a cada matéria publicada a estratégia foi o registro de um boletim de ocorrência por calúnia, difamação e suposta perseguição à instituição que ajudava inúmeras crianças carentes, olha só, graças a ações nobres de políticos da Assembleia Legislativa do Piauí e da Câmara de Vereadores de Teresina. Havia muita destinação de emendas à FCAMC à época.

Houve toda uma mobilização para calar o blog em questão. Além dos processos, ali em 2015, quando ainda se iniciava a escrever para o 180graus, também se teve contato com ações na mídia - o que também viria a ser praxe em outras coberturas mais polêmicas. Após as publicações a Fundação contratou uma agência e essa agência se encarregou de divulgar em dois portais de notícias locais 'feitos' da FCAMC. Ela era a super-heroína, já o jornalista...

Eram publicadas fotos de crianças felizes, depoimentos, produtos esportivos, atos com as crianças carentes, tudo para ajudar na cortina de fumaça criada para tentar desqualificar o profissional de imprensa responsável pela cobertura e o próprio portal (nesse caso da FCAMC ainda não tinham destacado portais para atacar e imputar crimes ao jornalista responsável por escrever o caso), apenas para levantar a bola da FCAMC. 

Pessoas da comunidade também foram destacadas para falar com o jornalista, que por vezes era convidado a eventos para poder atestar a veracidade de que a FCAMC realmente gastava todo o dinheiro com crianças. Um membro da Polícia Militar falava nos atos da Fundação. Membro da Polícia Civil pedia a retirada das matérias do ar ou que pelo menos o fim das publicações.

A pressão foi tamanha, que foi necessário revisar todo o trabalho. O próprio então presidente da FCAMC, em entrevista que à época foi gravada, para evitar distorções, negou com veemência as suspeitas. 

AGORA A OUTRA PARTE DA REALIDADE

Ocorre que hoje, com as tomadas de contas especiais abertas e/ou em andamento, para se apurar o rombo que a fundação provocou nos cofres públicos, parcialmente atualizado, a cifra já chega no mínimo a R$ 5,6  milhões (R$ 5.630.065,50).

- Secretaria de Cultura: R$ 185.483,57 [parcialmente atualizado] - TC 024065/2018, número do procedimento no Tribunal de Contas do Estado.

- Secretaria de Saúde do Piauí: R$ 1.183.247,67 [parcialmente atualizado] - TC 001338/2017, número do procedimento no Tribunal de Contas do Estado.

- Secretaria de Saúde do Piauí: R$ 317.997,81 [parcialmente atualizado] - TC 001337/2017, número do procedimento no Tribunal de Contas do Estado.

- Secretaria de Saúde do Piauí: R$ 1.719.716,51 [parcialmente atualizado] - TC 001335/2017, número do procedimento no Tribunal de Contas do Estado.

- Secretaria de Saúde do Piauí: R$ 1.631.087,29 [parcialmente atualizado] - TC 001339/2017, número do procedimento no Tribunal de Contas do Estado.

- Secretaria de Saúde do Piauí: R$ 593.122,65 [parcialmente atualizado] - TC 001336/2017, número do procedimento no Tribunal de Contas do Estado.

Total: R$ 5.630.065,50

Há ainda outros repasses suspeitos.


UMA MORTE E OUTROS FATOS 'INTERESSANTES' SOBRE O CASO

O então presidente da FCAMC, Raimundo Gomes de Lima, o Lima da Creche, é dado como morto. 

Não se tem conhecimento de investigação criminal [da Polícia Civil ou do Ministério Público] que detalhe para onde foi esse dinheiro ou investigue o papel de cada um dos supostos envolvidos nesse grupão pró FCAMC.

O promotor Fernando Santos, também movido por outros promotores, chegou sim a atuar no âmbito cível, com relevante participação, para impedir a sangria.

Há muitos políticos graúdos que beneficiavam essa instituição e várias empresas que a circundava. 

O titular do Blog Bastidores não perdeu os inúmeros processos de que foi alvo. Quando vivo, Lima da Creche sequer compareceu às audiências - após a repercussão das investidas contra um jornalista de forma gratuita. 

Na época o advogado Nazareno Thé foi contratado para o caso, na defesa do jornalista.

Os portais usados para desclassificar as publicações do 180 nunca se retrataram. Ao menos um deles inclusive deu espaço para empreiteiros alvos do TCE plantarem Fake News contra este jornalista.

A agência contratada para, por sua vez, contratar portais que falassem bem da instituição, nunca disse quanto recebeu.

O dinheiro dificilmente será recuperado.

No Piauí é assim. (Ou seria em todo lugar?)


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