Política

Caso Bertolínia · 10/01/2020 - 11h00 | Última atualização em 10/01/2020 - 14h24

Exclusivo | autor de denúncia ao GAECO: “falam para eu encomendar o caixão”

Vereador autor de denúncias na Bacuri já contou à polícia que um dos alvos e dois homens já o agrediram e tentaram tirá-lo do seu carro à força


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Por Rômulo Rocha - Do Blog Bastidores

 

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- “ (...) o Jeconias, quando chegou aqui, disse que eu teria que procurar outro lugar para morar, porque quando ele resolvesse e me encontrasse, eu ia pagar”. 

- Em telefonemas ao jornalista titular do blog, pessoas, espontaneamente, afirmam que temem pela vida do vereador e que há gente perigosa no grupo denunciado

"Não vou negar que estava no limite já. Sem saber se compensava a gente correr tanto. A gente ser ameaçado"

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_José Jeconias, um dos nomes declinados por vereador como que autor de ameças. Um boletim de ocorrência narra que ele já teria agredido o denunciante
_José Jeconias, um dos nomes declinados pelo vereador ao GAECO como que autor de ameaças. Um boletim de ocorrência narra que ele já teria agredido o denunciante 

PROFESSOR, PERSISTENTE E CORAJOSO, ELE ESTÁ SOB AMEAÇA

O homem que desde o ano de 2013 fiscaliza as contas do município de Bertolínia e fez inúmeras denúncias contra a gestão petista que lá aportou naquele ano, e cujos desmandos acabou por culminar na Operação Bacuri, do GAECO, é o professor de matemática e física Jones Werlen Miranda e Silva.

Ele conta que a habilidade com os números, inclusive o ajudou a se debruçar sobre os balancetes do município. No caso de uma das denúncias envolvendo a farra de diárias na gestão petista de Luciano Fonseca, ele conseguiu observar que um motorista do prefeito recebeu mais diárias do que a quantidade de dias do mês de fevereiro. 

“Eu analiso folha por folha. Eu faço todas as anotações. Eu tenho o cuidado de ver datas. Eu tive o cuidado de ver o destino. A data das viagens. A data de pagamento. As transferências. Tudo isso eu vi. Eu via muitas diárias repetidas. Motorista com 37 diárias no mês de fevereiro, que só tem 28 dias?”, questiona.

De fala mansa e simples - sem aumentar o tom de voz e pai de quatro filho (sendo três do primeiro casamento e um com a esposa atual), Jones Werlen Miranda e Silva se mostra ser um exemplo em meio a um Legislativo esfacelado pela defesa dos interesses pessoais.

Inicialmente sozinho (até que entrasse a Rede de Controle) lutando contra um poderoso grupo econômico na região, ele vem enfrentando ameaças das mais diversas e protocolou pedido de proteção à sua integridade física e à de seus familiares junto ao GAECO.

Desde o ano de 2015 sofre ameaças. Ontem o Blog Bastidores, do 180, publicou ocorrência registrada junto à Delegacia de Polícia Civil de Uruçuí, perante o delegado Jarbas Lima (hoje na Delegacia de Homicídios), sobre o arremesso de um celular que teria sido jogado por um dos atuais alvos da Operação Bacuri, o ex-prefeito de Sebastião Leal, José Jaconias.

Contactado, o delegado da época, Jarbas Lima, chegou a dizer que havia o temor de que o caso evoluísse para algo pior.

A situação agora, no entanto, parece ser mais dramática, após a deflagração da operação pelo GAECO. 

180: O senhor tomou alguma precaução depois dessa operação?

Vereador Jones Silva: Como o município é pequeno, a gente não tem como se precaver. Porque eu moro aqui e trabalho. E é daqui para o interior, a 18 quilômetros daqui.

Ele é professor e precisa dar aulas na rede estadual de ensino e na rede municipal de ensino.

 

VEJA A ENTREVISTA COMPLETA: ___________________

(Entrevista ocorreu por telefone e foi gravada)

 

180: Como começou esse levantamento de informações da sua parte para entregar às autoridades?

Vereador Jones Silva: Logo no primeiro mandato [do prefeito  Luciano Fonseca] a gente ficou observando os passos dele, as publicações, que demoravam. E tão logo ele entregava os balancetes eu folheava os balancetes e encontrava as irregularidades e até avisava a ele para corrigir e não era corrigido. Quando vinham as prestações de contas vinham pior.

 

180: Então os senhor ainda pedia a correção dos balancetes? 

Vereador Jones Silva: Sim.

 

180: Então desde 2013 o senhor foi percebendo algumas situações estranhas. Quais seriam elas?

Vereador Jones Silva: Com relação ao valor que contratavam os carros, isso me chamou atenção. 

 

180: Foi o primeiro detalhe que lhe chamou atenção na prestação de contas da prefeitura…

Vereador Jones Silva: Isso. Os contratos também com relação a combustível. As primeiras [denúncias] que comecei a oficializar mesmo foi com relação a nepotismo. 

 

180: Como foi que o senhor chegou à conclusão de que deveria levar o caso às autoridades?

Vereador Jones Silva: Porque já estava demais. Você chegava no hospital e não encontrava medicamento, as pessoas reclamando que não tinha atendimento adequado. Tudo isso a gente via. E a coisa que a gente via que saía com mais facilidade era a contratação de bandas caríssimas. Nosso município deixava de atender às necessidades básicas para contratar bandas caras para os padrões daqui.. 

 

180: O senhor em meio à esse levantamento de informações o senhor analisava os balancetes, via possíveis incongruências, então quando o senhor resolveu procurar o GAECO?

Vereador Jones Silva: A princípio eu procurava a DFAM [órgão técnico interno do Tribunal de Contas do Estado do Piauí], procurava os órgãos do Tribunal de Contas. Primeiro a nível municipal, o Ministério Público [Estadual] daqui. Primeiro as denúncias foram feitas aqui. Só que quando a gente estava começando, estava nos inquéritos civis, o que ocorria, sempre ia sendo remanejado os promotores que começavam os trabalhos. 

 

180: E os demais não continuavam?

Vereador Jones Silva: Só teve um que não deu andamento, não é? Deixou parados os processos. Mas teve alguns que davam andamento. O que acontece, começavam tudo novamente, praticamente do zero. Os primeiros que deram o pontapé inicial foram o doutor Assuero [Oliveira] e doutor Adriano [Fontenele]. 

 

180: E como foi a comunicação com o Grupo de Atuação Especial contra o Crime Organizado?

Vereador Jones Silva: Aí sempre que a gente achava que ia ter andamento, tinha sempre uma pausa, porque tinha essa transferência de promotor. Então a gente procurava outros órgãos. Daí eu fui no Ministério Público do Tribunal de Contas, daí fui pegando as informações sobre quais eram os setores competentes e então eu fui até ao GAECO. Eu fui lá umas três vezes ou quatro vezes. 

 

180: Então o senhor chegou a falar com o promotor Rômulo Cordão [antigo coordenador do GAECO, responsável por notórias investigações e operações no Piauí, incluindo essa em Bertolínia]?

Vereador Jones Silva: Eu dei depoimento lá ainda duas vezes na gestão dele. Já estava praticamente concluída [a investigação] quando ele foi substituído. Quando eu fui agora em 22 de maio de 2019. Ali já estava praticamente fechado. 

 

180: O senhor esperava que tivesse esse desfecho, houvesse essas prisões?

Vereador Jones Silva: Eu sou daqueles que sou ansioso e que gosta de estar sempre cobrando não é? E eu sempre pedia informações para saber como estava o andamento e as coisa estavam andando. Eu tinha esperança de que iria acontecer. Só que a gente entende que as coisas têm que ser devagar porque sei que não podem errar. Porque todas as informações têm que investigarem, para saber e tomar as decisões. 

 

DAS SUPOSTAS AMEAÇAS

 

180: Depois que foi deflagrada a operação, como foi essa questão relacionada às ameaças que ocorreram contra o senhor?

Vereador Jones Silva: Começou bem antes da operação essas ameaças. As primeiras ameaças mesmo começaram em 2015 ainda. Inclusive, contra um dos donos dessas empresas que estão envolvidas e que foi preso na operação e que está com prisão domiciliar, o [José] Jeconias, eu fiz dois Boletins de Ocorrência contra ele. Um em 2015, dia 5 de maio de 2015, e um segundo, 24 de agosto de 2015. 

 

180: Os Boletins eles narram o que? Ele lhe ameaçava de que forma? Ele falava que ia lhe matar, lhe bater?

Vereador Jones Silva: Sempre falava isso aí, que iria matar. Agora mesmo, agora é que está forte não é? Porque depois que ele foi preso, disse que tão logo se saia dessa operação, que resolva o problema, aí vai acertar as contas comigo. 

 

180: Ele falou isso de que forma, em que ocasião?

Vereador Jones Silva: Assim, o que eu tenho de informação é que um amigo meu, se precisar vai ao GAECO. Não vou divulgar o nome dele agora. Mas se o GAECO assim entender e precisar, ou qualquer outro órgão, ele testemunha. Ele chegou na prefeitura, e quando chegou lá tinham funcionários comentando dessa operação. Que não se preocupasse, que tão logo ele saísse iria resolver isso aí. E que poderia encomendar o caixão. E esses filhos deles andam dizendo que vão fazer uma devassa na minha vida, que eu não vou ter sossego, que de alguma forma eu vou ter que pagar. 

 

180: Antes da prisão do senhor José Jeconias, o senhor protocolou junto ao GAECO um pedido de proteção à sua pessoa e à sua família?

Vereador Jones Silva: Fiz.

 

180: Isso foi ali início do mês de dezembro [de 2019] não é isso?

Vereador Jones Silva: Foi nessa data aí. Assim, tão logo quando prenderam o prefeito daqui com os secretários. Já tinha decretado a prisão preventiva dele [José Jeconias], mas ainda não estava preso. Por conta disso eu fiz logo o comunicado, porque eu já sabia das ameaças. 

 

180: O senhor teme pela sua vida?

Vereador Jones Silva: Assim, pelos comentários, que as pessoas sempre falam, pessoas que trabalham com eles, ali funcionários mesmo, secretários… Ontem mesmo chegou um e disse: ‘rapaz, se eu fosse você eu não andaria de moto’, ‘se eu fosse você eu não andaria nesses lugares assim facilmente’. Inclusive, o Jeconias, quando chegou aqui, disse que eu teria que procurar outro lugar para morar, porque quando ele resolvesse e me encontrasse, eu ia pagar. 

 

180: Eu entendi. O senhor tem tomado conhecimento disso por terceiros? 

Vereador Jones Silva: Isso. Mas por pessoas que podem, assim, se me chamarem, eu falo as testemunhas e eles vão testemunhar. São pessoas que dizem que vão testemunhar sim, porque dizem que são coisas muito sérias. 

 

180: Sobre denúncias me parece que o senhor protocolou uma nova agora no TCE, não é isso?

Vereador Jones Silva: Isso, 4 de novembro. 

 

180: E essa denúncia é sobre diárias?

Vereador Jones Silva: Isso.

 

180: Quando o senhor protocolou o pedido de proteção ao GAECO, o que ficou resolvido lá por eles?

Vereador Jones Silva: Ficou da doutora Geane [nova coordenadora do GAECO, promotora de Justiça Débora Geane Aguiar Aragão] analisar e informar a posterior. 

 

180: Entendi. O senhor tomou alguma precaução depois dessa operação?

Vereador Jones Silva: Como o município é pequeno a gente não tem como se precaver. Porque eu moro aqui e trabalho. E é daqui para o interior, a 18 quilômetros daqui. Então não tem como escapar, eu tenho que ir para lá. Todo dia, e vir para cá. Aqui os policiais são poucos. Só tem dois. E não ficam aqui frequentemente. São da Polícia Militar. 

 

180: Eu entendo. Vereador, a gente vive num estado onde os vereadores geralmente procuram acordos com os prefeitos e assim, não fiscalizam as prefeituras. O senhor já atua de uma forma diferente. O que lhe motivou a agir assim dessa forma?

Vereador Jones Silva: Primeiro que eu sou um professor e que não concorda com esse tipo de atitude. As coisas que eu vejo que estão erradas, eu não apoio. Não tem esse que faça eu apoiar. Então isso me motivou a fazer isso aí. Porque sempre o que a gente vê é que a educação, as escolas abandonadas, que não se tem como fazer. Às vezes falta porta em banheiro, sem acesso à internet. Ainda tem transporte chamado pau de arara. Ainda se encontra isso na Zona Rural. Vai para os hospitais ou postos de saúde e quando chega lá, aqueles remédios que devem ter sempre lá, não têm. A gente fica chateado com essas coisas. 

 

180: O senhor vai se candidatar novamente agora não é?

Vereador Jones Silva: Assim, eu estou no segundo [mandato], não é? Eu achava assim, que de tanto eu andar, de ver as coisas, de lutar, e não porque… eu vejo assim, que eles trabalham bem seguros, cada órgão. Eu acho que nessa operação foram competentes demais. O Tribunal de Contas, a Rede [de Controle] em si. Foram todos bem organizados, bem estruturados e no momento certo souberam agir. A gente tem que ter a paciência. Não vou negar que estava no limite já. Sem saber se compensava a gente correr tanto. A gente ser ameaçado, eu tava pensando em não me candidatar mais. Eu dizia: o que eu posso fazer lá? Geralmente o prefeito tem sua maioria. A gente apresenta alguma coisa, negam. Eles fazem o que querem. Tipo assim, vem a prestação de contas do prefeito. É reprovada pelo Tribunal de Contas, vem aqui para Câmara, daqui eles dão parecer contrário ao do Tribunal. 

 

180: Mas agora o senhor pensa em continuar na política?

Vereador Jones Silva: É assim, se Deus permitir e se for do interesses dos eleitores, se assim enxergarem. A maioria está elogiando demais o trabalho do GAECO. 

180: Como tem sido o sentimento da população no município depois dessa operação?

Vereador Jones Silva: A grande maioria é de alívio. Oh, já deu uma melhorada. Não sei se é por pressão. Mas já contratou médico para ficar de plantão aos finais de semana. Pagou o salário atrasado que tinha, que tava atrasado três meses. Então estão observando essas pequenas mudanças.

180: Tem um efeito pedagógico também, essas operações, não é?

Vereador Jones Silva: É. Eu acredito que sim. Serve de exemplo para os municípios todos, do estado. Eu acho que foi bem interessante. Eu gostaria de agradecer ao Tribunal de Contas Tem uma parte do Tribunal de Contas, do GAECO, promotor Rômulo Cordão, que já deixou praticamente concluída [a investigação, antes de deixar o posto]. Dou os parabéns a ele, o trabalho dele, eficiente. E também à doutora Geane por ter contribuído e deixado dar andamento depois. 

CONFIRA AINDA:________

- Operação Bacuri: denunciante disse ao GAECO que “capanga” do prefeito o ameaçou

- Operação do GAECO: ex-prefeito preso indaga desembargador sobre ameaça a denunciante


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