Política

Tentando evitar novas críticas · 08/07/2020 - 11h40

Bolsonaro sonda três evangélicos para o MEC após pressão de aliados

O esforço tem como objetivo agradar o grupo que é um dos pilares do atual governo e manter o perfil conservador


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Na tentativa de evitar novas críticas da bancada evangélica sobre a sucessão no Ministério da Educação, o presidente Jair Bolsonaro tem sondado desde o fim de semana nomes ligados à ala religiosa para assumir a pasta.

O esforço tem como objetivo agradar o grupo que é um dos pilares do atual governo e manter o perfil conservador que marcou a gestão do ex-ministro Abraham Weintraub, que deixou a pasta no mês passado.

Desde então, o presidente indicou o professor da FGV Carlos Decotelli, que caiu após questionamentos a falsidades em seu currículo, e Renato Feder, secretário da Educação do Paraná, que declinou depois de intensas críticas dos religiosos.

Até o momento, três evangélicos conversaram com a equipe do presidente: o pastor Milton Ribeiro, ex-vice-reitor do Mackenzie em São Paulo; o professor da Unb (Universidade de Brasília) Ricardo Caldas; e o reitor do ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica), Anderson Correia.

Na terça-feira (7), em entrevista a emissoras de televisão, o presidente se queixou das críticas feitas aos cotados para o MEC e disse que pretende definir um nome o mais breve possível. Mesmo com o diagnóstico de coronavírus, Bolsonaro tem feito videoconferências com os cotados para o posto.

Ribeiro é pastor da Igreja Presbiteriana de Santos, litoral de São Paulo. Ele foi vice-reitor do Mackenzie e, no ano passado, foi nomeado para a Comissão de Ética Pública da Presidência da República.

Doutor em educação pela USP (Universidade de São Paulo), teve seu nome levado ao presidente, de acordo com fontes envolvidas no processo, pelo ministro Jorge Oliveira (Secretaria-Geral) e conta com a simpatia de deputados evangélicos de São Paulo, que já manifestaram o apoio a Bolsonaro.

Caldas, que é economista e professor de ciência política, tem doutorado em relações internacionais pela Universidade de Kent em Canterbury, Reino Unido. Agrada de integrantes da bancada evangélica, ligados à Assembleia de Deus, como membros da equipe econômica.

Correia, por sua vez, tem um perfil que pode unir duas alas que ajudam a sustentar o governo e nem sempre andam juntas, pois além do apoio de pastores evangélicos é bem visto na cúpula militar.

Considerado por ora o favorito pelos ministros palacianos, por ter perfil técnico e interlocução política, o reitor do ITA deve ter uma conversa com o presidente nesta semana.

Padrinho da indicação de Ribeiro, Jorge Oliveira também sugeriu para o posto o líder do governo na Câmara dos Deputados, Major Vitor Hugo (PSL-GO).

Bolsonaro disse que o deputado estaria "na reserva", após sondá-lo no fim de semana e se reunir com ele na segunda-feira (6). A repercussão de seu nome foi negativa, avaliam interlocutores presidenciais, e ele enfrenta forte resistência dos ministros Braga Netto (Casa Civil) e Luiz Eduardo Ramos (Secretaria de Governo).

O presidente tem afirmado, em conversas reservadas, que busca um nome com perfil semelhante ao do ministro interino da Saúde, Eduardo Pazuello: com respaldo técnico, mas que seja aberto a cumprir demandas pessoais do presidente, na sua avaliação.

Pessoas envolvidas no processo de escolha relatam que o leque de opções tem sido ampliado a cada dia, às vezes sem conversas prévias com o presidente.

A pasta é alvo, desde o ano passado, de assédio de diferentes alas de influência dentro do governo, e cada grupo insiste em emplacar um indicado que atenda sua agenda.

Preocupações com a governabilidade e estabilidade do governo também têm guiado as discussões sobre a escolha do próximo ministro.

A capacidade de liderar a política educacional do país, entretanto, está em segundo plano.

A avaliação de interlocutores do governo no processo é que os episódios recentes evidenciam, além da ausência de um projeto para a educação, uma fraqueza do presidente diante do cenário político: Bolsonaro está inseguro para nomear alguém que desagrade os grupos que ainda o apoiam.


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