Lula x Moro · 11/05/2017 - 06h57 | Última atualização em 11/05/2017 - 11h09

Que Brasil teremos depois do depoimento de Lula ao juiz Sérgio Moro?

Que Brasil teremos depois do depoimento de Lula ao juiz Sérgio Moro?


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O dia 10 de maio de 2017 caminha para o seu final. No campo da política, hoje foi um dia de atenções voltadas para o depoimento de Lula ao juiz Sérgio Moro, em Curitiba.

E, agora? Quais os desdobramentos?

Reproduzo aqui textos do Portal Fórum, de autoria de Renato Rovai e Rodrigo Vianna que, na minha opinião, melhor retratam a conjuntura brasileira.

A decisão de um juiz de Brasília, que mandou fechar o Instituto Lula, mostra que o arbítrio avança rapidamente. Outras decisões de juízes de primeira instância já indicavam que estamos em pleno regime autoritário de corte jurídico-midiático: uma juíza (ligada aos fascistas do MBL) proibiu manifestações na capital do Paraná; outro (Moro) impediu Lula de gravar o depoimento, em clara afronta ao que diz o Código de Processo Civil.

Em 1968, quando os militares decidiram aprofundar a ditadura com o AI-5 (que fechava o Congresso, impedia habeas corpus e dava poderes absolutos aos fardados), um civil que apoiava o regime se colocou contra a medida: era o vice presidente (e jurista) Pedro Aleixo. Ele disse: “o meu medo não é o presidente abusar da autoridade; o meu medo é o guarda da esquina”.

No Brasil do golpe, hoje, cada juiz virou um guarda da esquina. Os setores mais lúcidos do centro democrático, e mesmo da direita partidária, já perceberam que avançamos para uma situação de arbítrio que afundará a todos.

Vivemos hoje numa situação parecida com o período entre 64 e 68: já havia autoritarismo, mas o povo organizado resistia, inclusive nas ruas com a passeata dos 100 mil.

Mas tudo indica que avançamos rapidamente para um novo 1968, com um AI-5 em câmera lenta. Cada juizeco de primeira instância sente-se investido da autoridade para condenar “políticos”, construindo uma narrativa de que “contra a corrupção” qualquer exagero ou abuso pode ser justificado.

Temos no Brasil hoje três forças em disputa:
1 – a esquerda e os movimentos populares, sob liderança de Lula;
2 – a direita política, tucana sobretudo, mas agregando também PMDB e outros partidos de centro-direita;
3 – a direita judicial-midiática, sob comando de Moro e da Globo (surfando no discurso da antipolítica).

Os setores 2 e 3 se uniram para derrubar Dilma. Mas agora essa aliança se rompeu.
Reinaldo Azevedo e Gilmar Mendes, com suas críticas aos abusos da Lava-Jato, são a expressão desse giro: os tucanos e seus aliados percebem que o golpe cria uma situação perigosa, em que o campo 3 pode quase tudo.

O quadro de deterioração institucional nesse início de maio inclui ainda:
• Congresso sitiado pela polícia, no dia da votação dos destaques do desmonte da Previdência;
• nova ordem judicial no Paraná, mandando cercar partes do acampamento da Democracia, montado para defender Lula do arbítrio de Moro.

A Globo cumpre papel central na radicalização do golpe. Dá apoio a Temer para aprovar as “reformas” – até debaixo de porrada, se necessário. E dá cobertura a Moro (e a qualquer guarda da esquina do Judiciário) que decidir investir contra Lula.

Os paralelos com os anos 60 são impressionantes:
• uma corporação do Estado (militares em 64; juízes/promotores no golpe atual) foi usada para criminalizar e derrubar o governo trabalhista;
• a direita política (UDN em 64; PSDB/DEM no golpe atual) insuflou essa corporação e pôs a classe média na rua;
• o centro fisiológico (PSD em 64; PMDB e outros menores no golpe atual) abandonou a aliança com o trabalhismo e bandeou-se para o golpismo;
• passado o golpe, a direita política tradicional (UDN = PSDB) minguou, o centro oportunista afundou (velho PSD = PMDB), e acabaram devorados pela direita estamental.

A diferença é que em 1964 derrubou-se Jango quando Vargas já estava morto. Dessa vez, Vargas está vivo e vai depôs perante a República de Curitiba.

A direita não sabe o que fazer com Lula. Ele é um fantasma que se recusa a desaparecer. E volta para assombrar o golpismo

Outra diferença central:
• em 1964, deu-se o golpe em nome da moralidade; e o poder ficou com um general “limpo” – Castelo Branco;.
• em 2016, deu-se o golpe também em nome da moralidade; e o poder ficou com um sujeito podre, Michel Temer e seu bando.

A figura nefasta de Temer cria dissonância; o golpe precisa urgentemente limpar sua imagem.

Por isso, a Globo abandonou o campo 2 (citado acima) da direita política. E apostou todas suas fichas na anti-política capitaneada por Moro e Janot.

Chama muita atenção que o diretor-geral da Globo e outros 12 empresários peso-pesados (do Itaú às Lojas Marisa) venham se reunido em caráter “reservado” com a presidenta do STF, Carmen Lúcia.

Se as “reformas” de Temer minguarem, o decorativo pode ser defenestrado no TSE. Carmen Lúcia (a terceira na linha sucessória; os presidentes do Senado e da Câmara respondem a processos judiciais) seria uma forma de criar uma narrativa de “limpeza”, coerente com a necessidade absoluta de impedir Lula de concorrer em 2018.

A direita anti-política vai aprofundar o golpismo nas próximas semanas. Nada mais é proibido. Parafraseando Dostoievski: se a Constituição já não existe, tudo é permitido.
Só o combate na rua e nas redes pode esfarelar o golpe. A aliança com o centro (ou o que restou dele) é primordial.

Comandantes da PM, juizecos de primeira instância, chefes da quadrilha midiática: todos eles se julgam guardas da esquina, prontos a emparedar a democracia e aprofundar o golpe.

10 de maio: divisor de águas ou Dia D

O dia 6 de junho de 1944 passou para a história ocidental como o Dia D. Naquela data cerca de 155 mil soldados, com o apoio de 600 navios e milhares de aviões, desembarcaram na costa da Normandia, França, abrindo uma nova frente de guerra no Oeste Europeu, na II Guerra Mundial.

Aquilo foi fundamental para recuperar a Europa e levar os Aliados a derrotarem a Tríplice Aliança. De um lado, este lance conduzido por Churchill e Einsehower. Do outro, a emboscada que Stalin montou para Hitler na URSS.

O desembarque da militância lulista, que é muito maior do que a petista nos dias de hoje, na Curitiba de Sérgio Moro, dá um toque de Dia D desta guerra aberta entre um juiz de direito e um ex-presidente da República que se tornou réu.

Moro e a Lava Jato não conseguem apresentar provas objetivas de que Lula de fato é o dono do triplex do Guarujá. O jogo pode começar a se inverter no seu palco principal, a opinião pública.

E outras tantas manifestações como essa podem se multiplicar Brasil afora em atos para os quais certamente Lula será convidado.

Vamos, agora, viver o dia seguinte, a disputa simbólica da narrativa e a capacidade que o resultado disso pode gerar de ações de rua.

É por isso que a Rede Globo está produzindo factoides aos montes para tentar conter o avanço das tropas lulistas e baixar a moral desses milhares de militantes que não só em Curitiba, mas em todos os cantos do Brasil estão acompanhando com atenção o desenrolar desta história.

Eles perceberam que há uma reorganização do campo popular no Brasil e Lula saindo mais forte deste depoimento, o avanço contra os direitos, a previdência, o Pré-Sal e tantos outros setores correm risco. E para quem deu um golpe tão sem-cerimônia, entregar a rapadura é algo inimaginável.

Mas o jogo não tem um lado só. E a ação deste Dia D pelos militantes em solidariedade a Lula, pode estar começando a mudar o jogo.

É o que resta à democracia brasileira e à resistência neoliberal. Não se trata apenas de defender Lula, mas de buscar garantias mínimas ao Estado de Direito e, por outro lado, tentar proteger a liderança que sobrou com capacidade de conter o avanço de um modelo de liberalismo que pode levar o Brasil à barbárie. Porque o capital tira tudo o que pode. E depois voa para outro lugar. E o Brasil continuará onde sempre esteve. Mas muito mais pobre e mais fraco para sair do buraco.