Em carta ao diretor-geral · 19/05/2020 - 18h03

Trump ameaça retirar os EUA da OMS por divergências sobre coronavírus


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LUCAS ALONSO
BAURU, SP (FOLHAPRESS)

O presidente Donald Trump ameaçou na noite desta segunda-feira (18) interromper permanentemente os pagamentos para a OMS (Organização Mundial da Saúde) e reavaliar a permanência dos Estados Unidos na organização em meio à pandemia de coronavírus.

O líder americano, em carta ao diretor-geral da organização, Tedros Adhanom Ghebreyesus, publicada numa rede social, deu prazo de 30 dias para que a OMS faça "melhorias significativas" ou então concretizará, segundo ele, as ameaças.
Mais cedo na segunda (18), Trump já havia acusado a entidade de ter feito "um trabalho muito triste" em relação à emergência sanitária e indicado que a OMS se move por interesses chineses.

"Os EUA pagam a eles US$ 450 milhões [R$ 2,5 bilhões] por ano; a China paga a eles US$ 38 milhões [R$ 218,5 milhões] por ano. E eles são um fantoche da China", disse o presidente americano na Casa Branca.

O governo Trump culpa a OMS e a China pela pandemia de Covid-19, uma vez que o país asiático foi o primeiro a registrar casos do novo coronavírus, em dezembro. Hoje, os EUA são o epicentro da doença.

Na contramão das orientações sanitárias feitas pelo organismo, o presidente americano tem pressionado governadores a encerrar as medidas de isolamento da população e promovido o uso da hidroxicloroquina, medicamento sem eficácia comprovada no tratamento da Covid-19.​

A China reagiu nesta terça-feira (19), por meio do porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Zhao Lijian, dizendo que a carta de Trump é difamatória.
"A carta aberta da liderança dos EUA está cheia de insinuações, de 'talvez' e de 'provavelmente', e tenta enganar o público por meio desse método ilusório, para alcançar o objetivo de difamar os esforços da China na prevenção de epidemias e tirar a responsabilidade de sua própria incompetência."

Ainda segundo o porta-voz chinês, a decisão de Trump de parar de contribuir com a OMS viola suas obrigações internacionais. Na semana passada, a China cobrou que países, em especial os EUA, paguem suas dívidas com a ONU.

Na Rússia, o vice-ministro das Relações Exteriores, Serguei Riabkov, disse que os EUA tentam "quebrar" a OMS. Segundo ele, a manobra "obedeceria a interesses políticos e geopolíticos" dos americanos.

A União Europeia também reagiu às ameaças de Trump e manifestou apoio à OMS. "É hora de solidariedade, não de apontar o dedo ou minar a cooperação multilateral. A UE apoia os esforços da OMS", disse a porta-voz da diplomacia europeia, Virginie Battu, em entrevista coletiva.

Para os países europeus, "os esforços multilaterais são a única opção eficaz e viável para vencer esta batalha" contra o novo coronavírus.

A UE é uma das autoras de um projeto de resolução que prevê uma revisão independente da resposta global da OMS à pandemia.

Patrocinada por países como Brasil, Rússia, Austrália e Nova Zelândia, a proposta foi analisada durante a assembleia geral da OMS, que começou nesta segunda-feira (18).

A resolução foi aprovada e, embora não traga detalhes sobre como e quando, propõe, "o mais rapidamente possível", uma "avaliação imparcial, independente e abrangente" para "revisar a experiência adquirida e as lições aprendidas" na resposta coordenada pela OMS à pandemia.

No encerramento da assembleia, Ghebreyesus defendeu o papel da organização que dirige e disse que vai continuar coordenando a luta contra o coronavírus, que já causou quase 300 mil mortes entre os mais de 4,6 milhões de casos confirmados em todo o mundo.

"Queremos confiabilidade mais do que ninguém", disse ele durante a conferência virtual que contou com a participação dos 194 países membros da OMS. "Continuaremos fornecendo liderança estratégica para coordenar a resposta global."

Os EUA também permitiram a aprovação da resolução, mas fizeram objeções a pelo menos dois trechos considerados problemáticos por Washington.
Em um deles, o texto aprovado na assembleia pede que os países mantenham "provisão segura" de serviços de saúde e menciona, entre outros aspectos que devem ser contemplados, a "saúde sexual e reprodutiva da mulher".

Os americanos argumentaram que o trecho pode ser interpretado como uma exigência de que os países permitam o aborto. A resolução, entretanto, não faz nenhum pedido nesse sentido.

Outro trecho contestado pelos EUA se refere ao direito de países pobres de ignorar patentes para garantir acesso a vacinas e tratamentos para a Covid-19.
Muitos governos, especialmente de países africanos, temem ser preteridos por países mais ricos, a menos que consigam forçar as empresas que descobrirem novas formas de combate ao coronavírus a compartilharem a propriedade intelectual com fabricantes capazes de produzi-las em uma escala de baixo custo.
Em sua nota de objeção, os diplomatas de Washington afirmaram que os EUA reconhecem a importância de "produtos de saúde acessíveis, seguros, eficazes e de alta qualidade".

No entanto, segundo os americanos, o texto da resolução "envia a mensagem errada aos inovadores que serão essenciais para as soluções que o mundo inteiro precisa".

De acordo com embaixadores africanos ouvidos pelo jornal britânico Financial Times em Genebra, na Suíça, onde fica a sede da OMS, os EUA tentaram mudar o texto da resolução para garantir que sejam o primeiro país a ter acesso a vacinas contra o coronavírus.

Não houve, entretanto, nenhuma alteração no texto da resolução aprovada pela assembleia.

O dirigente chinês, Xi Jinping, em seu discurso na conferência nesta segunda, disse que quaisquer vacinas contra a Covid-19 produzidas em seu país serão consideradas um "bem público mundial e compartilhado".

As princIpais críticas ao desempenho da OMS por parte de Trump e outros conservadores (inclusive no Brasil) são derivadas da hesitação de seu diretor-geral, o etíope Tedros Adhanom Ghebreyesus, em declarar uma emergência de saúde global logo no início do ano.

Em janeiro, Ghebreyesus escreveu, no Twitter, que não havia evidências de "transmissão de humanos para humanos do novo coronavírus identificado em Wuhan". Naquele momento, sabe-se agora, esse tipo de transmissão já ocorria.
O diretor-geral ainda elogiou "a liderança e a intervenção" do regime chinês e disse que a Covid-19 era uma emergência limitada à China. A emergência global só foi decretada pela OMS em 30 de janeiro.

Ghebreyesus chegou ao cargo com apoio da China, o que o expõe à acusação de ser condescendente com o país asiático. Ele também era um aliado dos chineses, que têm grandes investimentos na Etiópia, quando ocupava o cargo de ministro das Relações Exteriores de seu país.

Criada em 1948 como uma agência da Organização das Nações Unidas (ONU), a estrutura da OMS é financiada por doações e repasses de diversos países e filantropos.

​Há cerca de um mês, o presidente americano anunciou a suspensão temporária dos pagamentos à organização. O corte de US$ 400 milhões (R$ 2,3 bilhões) representa 15% do orçamento total da entidade e foi considerado "egoísta" e "fora de hora".

Embora tenha o apoio de grande parte da comunidade internacional, a OMS não tem poder decisório. Seu escopo de atuação é limitado a orientações e assessoramento técnico.

O organismo é responsável por articular a resposta global a emergências sanitárias, mas não tem poder para interferir nas políticas adotadas por seus países membros na resposta ao coronavírus.


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