Grilagem de terras. · 18/10/2019 - 17h31

Três pessoas são decapitadas em comunidade de Manaus


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A Polícia Civil do Amazonas investiga a morte de três pessoas encontradas decapitadas na última quinta-feira (16), em Manaus. Há suspeita de que os assassinatos estejam ligados à disputa entre facções criminosas ligadas ao tráfico de drogas ou à grilagem de terras.

Os crimes acontecem em um contexto de violência nos presídios do Amazonas neste ano. Em maio, 55 presos morreram durante dois dias de rebeliões em unidades de Manaus.

Pouco depois, o governador Wilzon Lima (PSC) disse que não havia como evitar as dezenas de assassinatos porque há um racha entre facções criminosas nas prisões. O estado já havia ganhado repercussão internacional em 2017, com outra matança em presídio da capital, com saldo de 67 mortos.
Os corpos de Dulcinéia Ferreira Lima Ramos, 51, do filho dela, Yuri Lima Ramos, 19, e de Matheus Gilventino Carvalho, 20, foram encontrados por volta de 6h de quinta em uma área de mata na comunidade Itaporanga, no bairro Nova Cidade, zona norte da capital amazonense.

Uma quarta vítima, um homem de 34 anos que teria testemunhado os crimes, que aconteceram nos fundos da residência dele, teve a casa invadida e foi espancado pelos assassinos, que deixaram as inscrições "CV" (referência a Comando Vermelho) feitas com sangue na janela da casa e na geladeira. Ele foi levado para um hospital da capital.

  Segundo a polícia, Dulcinéia, Yuri e Matheus foram assassinados entre a noite de quarta e a madrugada de quinta-feira. O corpo de Dulcinéia foi encontrado atrás da residência, decapitado e com as mãos amarradas. A cabeça dela estava mais à frente, em uma área de mata, junto com os corpos de Yuri e Matheus, também decapitados.

De acordo com peritos do Departamento de Polícia Técnica e Científica (DPTC), os corpos tinham sinais de tortura e várias perfurações feitas por arma branca. Uma faca e um pedaço de madeira foram recolhidos para serem periciados.

Um vídeo que circula na internet, e que teria sido gravado momentos antes das execuções, mostra Dulcinéia, dois homens e dois supostos adolescentes ajoelhados e com as mãos amarradas sendo agredidos e ameaçados de morte.

No vídeo, os criminosos perguntam a Dulcinéia "onde estão as armas", e ela responde que a "polícia já tinha levado". Em seguida, um dos supostos assassinos ameaça colocar uma granada na boca de Dulcinéia, caso ela não dê as informações que eles querem. Ele ameaça matar a todos, inclusive Dulcinéia que, segundo ele, "é a cabeça de todos eles".

"É o trem louco de Manaus, tropa do Mano G., tá entendendo? Comando Vermelho! O trem voltou. O bom filho à casa torna", diz o homem, antes do vídeo ser encerrado.

Mano G, a quem ele se refere, é Gelson Carnaúba, um dos líderes da facção criminosa Família do Norte (FDN), ao lado de João Pinto Carioca, o João Branco, e José Roberto Barbosa, o Zé Roberto da Compensa, que protagonizaram um racha na facção.

Manaus se tornou palco da guerra entre facções criminosas que buscam o controle do tráfico de drogas no estado, onde fica localizada uma das principais rotas do tráfico do país do rio Solimões.

A disputa entre facções criminosas, inclusive, foi o pano de fundo para os massacres em presídios protagonizados pelos próprios detentos, que deixaram 122 mortos em abril deste ano e em janeiro de 2017.

Segundo a Secretaria de Estado de Segurança Pública do Amazonas (SSP-AM), em janeiro de 2017 o massacre ocorrido no Complexo Penitenciário Anísio Jobim (Compaj), em Manaus, que resultou na morte de 67 detentos, foi promovido pela facção criminosa FDN, que buscava eliminar os rivais do Primeiro Comando da Capital (PCC), à época minoria no Amazonas.

Já em abril deste ano, quando uma nova onda de ataques nos presídios do Amazonas terminou com 55 mortos, os crimes foram motivados por um racha interno na FDN, após uma dissidência entre João Branco e Zé Roberto da Compensa, segundo a SSP-AM.

Apesar dos indícios e relatos de testemunhas, a Delegacia Especializada em Homicídios e Sequestros (DEHS), que investiga o caso, ainda não confirmou se as mortes ocorreram em razão de uma disputa entre facções criminosas ou se as siglas do CV foram deixadas como forma de despistar outra motivação, como a disputa por terras na invasão.

Segundo a SSP-AM, Dulcinéia, que era conhecida como "Baiana", era uma das líderes da comunidade, que surgiu a partir de uma invasão. Moradores teriam relatado que ela estava comercializando terrenos que pertenciam a outras lideranças da invasão, que a teriam ameaçado de morte.
De acordo com a delegada adjunta da DEHS, Zandra Ribeiro, as investigações estão em andamento. A delegada informou que a esposa de uma das vítimas, que presenciou as agressões e o momento em que os três foram levados pelos assassinos, prestou depoimento ainda na quinta-feira e informou que não reconheceu nenhum dos autores.

A mulher também relatou que oito pessoas, que tinham parte do rosto e da boca cobertos, participaram das execuções, mas segundo informações de testemunhas colhidas pelas equipes da DEHS, ao menos 20 pessoas estavam envolvidas no delito. Na comunidade nenhum morador quis comentar o assunto.

Ainda segundo a delegada, as mortes também podem ter ligação com o homicídio do cacique Francisco de Souza Pereira, 53, morto em fevereiro deste ano, na zona norte de Manaus. Francisco era esposo de Dulcineia, uma das vítimas do triplo homicídio.

Sobre os vídeos que estão repercutindo na internet, a delegada destacou que não há confirmação da autenticidade deles, mas que "parecem tratar-se das vítimas". A polícia não forneceu mais detalhes "para não comprometer o andamento das investigações".


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