Direita e de centro-esquerda · 17/06/2021 - 09h38

Sem nome nem perspectiva, 7 partidos buscam terceira via para 2022 que atraia 'maioria silenciosa'


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RANIER BRAGON, DANIEL CARVALHO E THIAGO RESENDE
BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) 

Dirigentes e integrantes de sete partidos de centro-direita e de centro-esquerda reuniram-se em almoço nesta quarta-feira (16/06) em busca de um objetivo que, nos bastidores, boa parte do mundo político já considera inviável -uma terceira via para disputar a Presidência da República contra Jair Bolsonaro e Lula em 2022.

Na saída do encontro, realizado na casa de um advogado ligado ao DEM, no Lago Sul, em Brasília, o discurso foi unânime: nomes não foram falados, mas houve consenso de que ninguém ali alimenta desejo de se incorporar a Bolsonaro ou Lula, pelo menos não no primeiro turno.

Nas palavras de Bruno Araujo (PE), presidente do PSDB, busca-se chegar aos corações da chamada "maioria silenciosa", termo muito usado, geralmente, por políticos que enfrentam forte oposição nas ruas.

"Queremos falar com essa maioria silenciosa, que não é nem que está com bandeira vermelha nas ruas nem quem está em cima de uma moto no fim de semana se manifestando politicamente", afirmou o tucano, em referência tanto aos protestos contra Bolsonaro quanto às motociatas patrocinadas pelo presidente da República.

Apesar dos discurso de otimismo, as divergências são claras em várias das legendas, a começar no próprio PSDB, que tem quatro pré-candidatos a presidente, entre eles o governador de São Paulo, João Doria, que é torpedeado por fatia expressiva dos tucanos e de outros partidos que se reuniram em Brasília.
Além de Araújo, participaram do encontro os presidentes do DEM, ACM Neto, que saiu sem falar, do Cidadania, Roberto Freire, do Podemos, Renata Abreu, e do PV, José Luiz Penna.

O presidente do MDB, Baleia Rossi (SP), não foi sob o argumento de que tinha um importante compromisso no mesmo horário -um encontro com o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG). Ele mandou um deputado representá-lo, Herculano Passos (MDB-SP).

Baleia foi derrotado na eleição para a presidência da Câmara, em fevereiro, em uma disputa que rachou o DEM de ACM Neto, acusado pela ala de Baleia de se aliar aos interesses de Bolsonaro. A divergência resultou na expulsão de Rodrigo Maia (RJ), ex-presidente da Câmara e padrinho da candidatura de Baleia, além da desfiliação do prefeito do Rio, Eduardo Paes, que foi para o PSD.

Criticado pelos dois lados, tanto dos bolsonaristas quanto dos anti-bolsonaristas, ACM tenta demonstrar força, mas há uma avaliação de que a sigla tende a murchar nos próximos meses, com a saída de parlamentares para outras legendas.

Havia ainda no almoço desta quarta representante do Solidariedade, partido que se inclina a apoiar Lula.

O organizador do almoço foi, oficialmente, o ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta (DEM), que tenta viabilizar seu nome como terceira via.

Na saída, ele afirmou que o único consenso ali foi que os partidos entendem que "os dois extremos" não pacificam o país.

Segundo participantes, acertaram-se novos encontros e um compromisso prévio de que todos tentarão não apoiar Lula ou Bolsonaro no primeiro turno, com o objetivo de fortalecer um terceiro nome -embora essa carta de intenções possa e deva ser rasgada a depender do andar da carruagem.

De acordo com as pesquisas, Lula e Bolsonaro polarizam a disputa.

Pelo último levantamento do Datafolha, do início de maio, Lula lidera a corrida para a Presidência com margem confortável no primeiro turno e venceria Bolsonaro na segunda etapa, também com folga.

O petista alcança 41% das intenções de voto no primeiro turno, contra 23% de Bolsonaro.

Em um segundo pelotão, embolados, aparecem o ex-ministro da Justiça Sergio Moro (sem partido), com 7%, o ex-ministro da Integração Ciro Gomes (PDT), com 6%, o apresentador Luciano Huck (sem partido), com 4%, João Doria (PSDB), que obtém 3%, e, empatados com 2%, Mandetta e o empresário João Amoêdo (Novo).
Desse grupo, dois já desistiram oficialmente, Amoêdo e Huck. Moro é considerado carta fora do baralho pela maioria dos políticos.

Pouco depois do encerramento do almoço dos defensores da terceira via, deputados do PSL se reuniram com Bolsonaro no Palácio da Alvorada.

Muitos se dizem impacientes com a demora para que ele se decida sobre a qual sigla se filiar. E indicavam desde o início da semana resistência em migrar para o Patriota, para onde foi o senador Flávio Bolsonaro (RJ).

Reservadamente, pessoas do entorno do presidente apontaram como principal entrave a necessidade de uma estrutura para disputarem a reeleição.

Se em 2018 podiam se escorar na expectativa do que seria o governo Bolsonaro, agora, na próxima eleição, terão que lidar com o desgaste de um governo com popularidade corroída e promessas não cumpridas, principalmente aquelas ligadas à agenda ideológica que os elegeu, mas não saiu do papel.

Estes bolsonaristas veem no PSL um partido com condições de bancar suas campanhas, que agora terão que ser mais profissionais que as de cerca de três anos atrás. O Patriota tem estrutura e verba de legenda nanica.

Durante a convenção nacional do Patriota na segunda-feira (14/06), Flávio Bolsonaro disse que, antes de decidir sobre eventual filiação ao partido, o presidente Jair Bolsonaro aguarda a sigla resolver questões internas. A legenda, porém, continua rachada.

O embate do Patriota coloca de lado opostos o presidente do partido, Adilson Barroso, e o vice-presidente, Ovasco Resende. A ala adversária de Adilson acusa o dirigente de atropelar o debate na executiva nacional e impor uma mudança no estatuto, que abre caminho para a acomodação do grupo de Bolsonaro.

Apesar da disputa interna, Flávio disse, pouco antes da reunião no Alvorada, que o Patriota ainda é forte candidato na disputa para abrigar o presidente na campanha à reeleição. "Isso não atrapalha; é coisa pequena. O Patriota tem tudo para ser um dos maiores partidos do Brasil com o presidente Bolsonaro filiado a ele", afirmou o senador à reportagem.

Nesta quarta, Resende convocou mais uma convenção da sigla, prevista para 24 de junho, para debater sanções a Adilson, mudanças no estatuto e deliberar sobre a possibilidade de o Patriota ter candidatura própria à Presidência da República em 2022.

"Eu tenho autoridade de dizer que está nula essa convocação. Estou fazendo hoje [quarta] o ato contra essa convenção irregular", informou Adilson.

A principal contestação da ala ligada ao vice-presidente da sigla é que a família de Bolsonaro e Adilson querem mudanças no estatuto do partido, mas não discutiram quais seriam as alterações, antes de aprová-las.

Em um dos pontos, o número de membros do diretório nacional do Patriota sobe de 32 vagas para mais de 100 integrantes. Com isso, pode haver um desequilíbrio de poder, já que a composição atual é dividida entre aliados de Adilson e do vice-presidente.

"Nenhum de nós é contra a vinda de Bolsonaro. Nosso grupo todo quer a vinda do presidente. Não concordamos com as atitudes do Adilson", disse o secretário-geral do Patriota, Jorcelino Braga.

Para Flávio, as desavenças poderiam ser resolvidas com diálogo.

"O Ovasco se optar por esta linha é um equívoco da parte dele. Nós queremos todos dentro do partido para crescermos juntos. Talvez ele não tenha tido ainda o tamanho da dimensão do projeto com a candidatura do presidente Bolsonaro, se for o caso, pelo Patriota", disse Flávio.

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