Teoria da História · 26/09/2017 - 06h04

O papel do historiador vai além de narrar os fatos


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Um dos medievalistas que mais admiro é o historiador francês Jacques Le Goff. Para quem se dedica ao estudo da Idade Média, dentre os muitos acadêmicos de renome, o nome de Le Goff é indispensável. Talvez seja dele o maior e o mais importante legado historiográfico nessa área de estudos históricos. Boa parte da grande produção de Le Goff está traduzido para o nosso idioma, e como admirador do seu trabalho, adquiri alguns títulos.  atualmente estou lendo um livro escrito em formato de entrevista biográfica: Uma Vida Para a História: conversações com Marc Heurgon (UNESP, 2007).

Le Goff destaca algumas observações importantes para o historiador sério. Obviamente, há diferenças colossais entre o professor de história e o historiador. Basicamente, o historiador produz pesquisas e o professor utiliza as pesquisas do historiador em sala de aula, no ensino dos seus alunos. Como pesquisador, destaquei uma colocação curta, mas muito importante de Jacques Le Goff. Ele lembra do seu professor no Liceu de Toulon, Henri Michel, que lhe ensinou um dos papéis fundamentais da história:

"Ensinou-me que a história, mais do que relatar, deveria explicar" (p. 37). 

É papel do historiador explicar a história, e não somente narrar  acontecimentos. O papel de narrar fatos cabe mais ao jornalismo, que não precisa se posicionar (para isso há o jornalismo opinativo). Porém, ao historiador cabe a tarefa de explicar os acontecimentos e porque aconteceram. O historiador deve ter a abilidade de entender mais profundamente as questões e os multiplos acontecimentos que culminaram em outros tantos. 

Por isso, quando o historiador se depara com as fontes, ele precisa ter a perícia não apenas de ler o manuscrito antigo, mas de entender o manuscrito e o mundo em que sua fonte foi produzida. As tensões políticas e os interesses por trás pessoas que estão relacionadas ao documento que está sendo analisado. Não é uma tarefa tão simples. Conseguir a fonte é o primeiro passo da pesquisa, o que torna a pesquisa viável. As técnicas empregadas para a análise são outra parte importante do trabalho, porque o historiador não precisa apenas ler a fonte, ele precisa entender a fonte e julgar a autenticidade da fonte: se o que ela descreve é realmente o que aconteceu. 

O material secundário que o historiador utiliza é a bibliografia, ou o que já foi produzido por outros historiadores sobre a temática que está sendo estudada. O que outras pesquisas dizem sobre o assunto? Dessa forma, as obras analisadas pelo historiador devem ser investigadas com a mesma cautela que as fontes primárias. A mesma fonte pode levar um determinado historiador chegar a conclusões diferentes de outro. 

Somente depois de tomados todos estes cuidados (e outros!), o historiador poderá começar a dar a sua explicação da história. Dessa forma, ele pode começar a contar a história e não apenas narrar acontecimentos. A importância do historiador é primaz para a sociedade, qualquer que seja a sociedade, para que se conheça a própria história. falando de outra forma, toda sociedade precisa de bons historiadores, capazes de estudar seu passado e conhecer as implicações de suas decisões e entender como e porque chegaram onde chegaram. 

 

 

Recentemente eu li um texto bem interessante que expunha sobre a escravidão branca que aconteceu no norte da África. O fato é historicamente inegável, mas pouco difundido. Nós fomos condicionados, especialmente por conta da recente escravidão de negros originários da África, que toda espécie de escravidão tem a cor negra, e assim, criou-se a ideia equivocada e preconceituosa, de que escravismo está diretamente ligado, e tão somente ligado, à opressão do branco contra o negro.

Esse fenômeno é maior ainda por um motivo: o recente tempo em que a escravidão negra aconteceu no ocidente, especialmente nos Estados Unidos e aqui no Brasil. Não há fotografias ou imagens da escravidão branca que aconteceu no lado oriental do mundo, e nem no lado ocidental, pois essa etapa se deu anterior à escravidão negra. O que há do período da escravidão branca são pinturas e textos antigos, que inegavelmente retratam esse momento.

Esse tipo de narrativa explodiu com a infame manifestação da luta pelos direitos das minorias, no caso específico aqui, o direito dos negros. Grupos que apoiam esse tipo de movimento de reparação, em sua gênesi, tem origem, influência ou ligações com os ideais da luta de classe e as propostas difundidas mundialmente pelo marxismo. A lógica é a seguinte: como os negros foram oprimidos e escravizados por anos pelos brancos, não tendo condições sociais de competir com a classe branca devido aos anos de escravidão injusta, faz-se necessário, agora, uma reparação.

Essa reparação, claro, é concedida com a intromissão do governo, que deve legislar em favor da criação de leis que reparem esse erro do passado, concedendo cotas nas universidades para negros, concedendo territórios (propriedade privada) para os chamados quilombolas, concedendo indenizações e leis de proteção especiais para negros. Assim, o governo favorece uma parcela da sociedade enquanto desfavorece a maioria da população, o que é injusto.

Mas por outro lado, é notório que o inverso não é aceito e nem mesmo cogitado. O que se sabe quanto à escravidão, num contexto de âmbito mundial, é que ela sempre foi uma constante entre povos de todo o planeta. Não era o aspecto da cor da pele que definia quem seria o escravizado, pois é fato que tribos africanas escravizavam homens e mulheres brancas. Tribos africanas também escravizaram negros de outras tribos, e faziam dessas pessoas (negros) seus escravos.

Milhões de europeus brancos foram escravizados por negros, tanto da África, como de países orientais de predominância muçulmana, os mouros, como eram denominados. Brancos também fizeram de outros brancos seus escravos, assim como também escravizaram negros. Na antiga Roma, por exemplo, a população de escravos beirava 1 milhão de pessoas no primeiro século a.D. Esses escravos eram constituídos de povos das mais diversas etnias, mas a maioria eram de brancos e a minoria era formada por negros.

O mercado de Argel, na África, retrata o comércio de escravos brancos em pinturas. No melhor dos cenários, não menos do que 1,2 milhões de europeus foram escravizados num período mais recente que envolve um universo de 300 anos (1500 a 1800). Mulheres brancas eram escravizadas e levadas aos haréns de senhores negros. Haviam ataques marítimos de barcos africanos, comandados por senhores negros, contra embarcações da Europa. Era uma caçada de negros contra brancos, que acabavam sendo capturados e tornados seus escravos.

Negros foram senhores de escravos tanto quanto o foram homens brancos. Agora, como o mundo vai reparar o direito de milhões de brancos que foram escravizados no passado? Concedendo-lhes cotas? É preciso definir-se escravidão como um sistema cruel e brutal, mas que fazia parte de uma cosmovisão que dominava todos os povos da terra. Pessoas eram escravizadas. Pessoas, e não apenas negros ou brancos. Essa luta é muito mais ideológica atualmente do que humanitária. É a velha luta de classe  revivida, a velha ideia do oprimido e do opressor. Do proletariado e do burguês. Luta de classe é um conceito marxista revolucionário que busca dividir o mundo em dois lados.


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A história do hino de Campo Maior tem cerca de meio século. Foi nos idos da década de sessenta que ele surgiu, não como hino inicialmente, mas como uma música que foi cantada por algumas crianças numa escola de Campo Maior, enquanto se realizavam apresentações artísticas. Naquela época, crianças ainda eram ensinadas a respeitar os símbolos patrióticos, como a bandeira do Brasil. Um espírito conservador estava presente.

As professoras Valmira Napoleão e Maria Alves Pontes parodiaram uma música que ouviram num circo, que se apresentava em Campo Maior naquele período. Os circos, assim como acontece hoje, seguiam em caravana e apresentavam espetáculo em várias cidades. Esse circo fazia um tour pelo nordeste e estava naquele momento em Campo Maior. Durante o espetáculo uma música era cantada (Cidade Morena), e o nome da cidade de Campo Grande era substituía pelo nome de Campo Maior em dado momento na letra, numa forma de agradecer e de conquistar a público campomaiorense presente.

As duas professoras decidiram, numa apresentação escolar, apresentar a música, mas com alterações na letra original, incorporando temas relacionados a Campo Maior, como a Batalha do Jenipapo e temas da geografia e economia campomaiorense, além de destacar os aspectos da beleza inconfundível de Campo Maior. A apresentação foi um grande sucesso e a música foi muito bem recebida, sendo posteriormente cantada em outras escolas, que solicitaram a mesma apresentação. Onde as crianças se apresentavam, eram ovacionadas e a música começou a ser entronizada na identidade do campomaiorense, especialmente dos estudantes e das professoras, nesse primeiro momento. Campo Maior não tinha hino até então.

Comentava-se muito na cidade essa linda música que homenageava Campo Maior e retratava tão bem seus valores. Os primeiros anos se passaram, mas a música não foi esquecida. Nas apresentações do poder público municipal e da Polícia Militar, nenhum hino era entoado, pois não existia o "hino de Campo Maior", a única manifestação que existia era a música das duas professoras. O Capitão Geraldo de Sousa Câncio, na época o comandante da Polícia, começou a cantar a música em cerimônias militares e cívicas em que participava, pois a música cobria a ausência de um hino. O capitão começou a dizer que essa música deveria se tornar o hino de Campo Maior. Mais tarde, em cerimonias oficiais do município, a música começou a ser cantada, apenas de forma artística, pois era uma apologia à Campo Maior, seus heróis e sua terra. A esse tempo, onde quer que a música fosse ouvida, era cantada por muitos presentes. A música e a letra estavam gravadas na memória e as pessoas criaram forte laço de identidade com a canção. Mas, até aqui, Campo Maior permanecia sem um hino oficial.

Em 1983, com a música sendo cantada em todas as ocasiões próprias, celebrações e datas especiais, em escolas de toda a rede municipal de educação, a Câmara Municipal do município decidiu acatar o que já era comum e aceito por todos, e a música torna-se o hino oficial da cidade de Campo Maior, conforme a Lei Municipal Nº 004/83, de 23 de agosto de 1983.

O hino de Campo Maior não foi imposto de cima para baixo, como se a Câmara dos Vereadores, a revelia dos munícipes, tivesse ditado essa lei. O processo foi justamente o oposto disso: os campomaiorenses escolheram essa música e cantaram por pelo menos duas décadas (ou perto disso) essa música, antes que ela se tornasse, por vontade popular, o hino de Campo Maior. As professoras Valmira Napoleão e Maria Alves Pontes nunca tiveram a pretensão de tornar essa música o hino de Campo Maior, como vimos. Foi justamente essa força patriótica que a música carregava em sua letra que promoveu nos corações dos campomaiorenses esse sentimento de pertencimento e de identificação. O tempo tratou de forjar nos corações essa canção, que foi levada por vontade popular irresistível, até chegar a Câmara, onde a lei é criada e o prefeito, naquele momento, César Ribeiro Melo, sancionou a lei.

Hoje debate-se, na mesma Câmara, a remoção do hino de Campo Maior e a revogação da lei que o instituiu. As pessoas que estão promovendo a proposta esquecem dos malefícios que a exclusão de um símbolo cívico pode provocar numa cidade. Um hino é uma identidade, é como um nome pessoal. Quando alguém chama o nome de outro, a resposta imediata é olhar em direção à pessoa que chama, pois sua identidade foi provocada. Quando o hino de Campo Maior é cantado na cidade, os campomaiorenses se identificam imediatamente com ele. Quando miramos a nossa bandeira ou o nosso brasão municipal, nos identificamos também, mas os laços de identidade são ainda maiores com o hino, por se tratar de música e promover mais emoção. retirar o hino de Campo Maior significa não respeitar a identidade e os símbolos adotados pelo povo.

Para encerrar esse texto, acrescento que é perceptível os malefícios que uma educação não patriótica e o reducionismo dos símbolos patrióticos podem causar em uma sociedade. A falta de patriotismo, de zelo pelas tradições, e um espírito não conservador podem promover mudanças radicais e danosas a toda uma sociedade. A Câmara de Campo Maior terá que ter um espírito muito patriótico para enfrentar todos os desafios que lhe estão sendo impostos nesse tempo.

Campo Maior · 23/08/2017 - 22h59

Um golpe no Hino de Campo Maior


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Há cerca de cinco anos, uma polêmica em torno do hino de Campo Maior vem se avolumando na cidade. O hino é tido como um plágio por alguns cidadãos, que buscam derrubar, ou dar um golpe no hino municipal de Campo Maior, já que o termo "golpe" está na boca de muitos socialistas do nosso tempo.

A polêmica nunca foi aceita pela maioria dos cidadãos, que se portaram sempre contrários à toda tentativa de eliminar o hino, cantado a gerações. O plágio, segundo alegam os revolucionários, é que a letra do hino de Campo Maior é igual a do hino da cidade de Uruçuí, e de fato é, inclusive a melodia (música). São muitas as semelhanças na letra, e a melodia é idêntica, baseada numa homenagem que a dupla Tonico e Tinoco fez à cidade e Campo Grande. Embora a letra dos dois hinos não sejam idênticas, há muitas linhas iguais. Quem fez primeiro?

O hino de Campo Maior é muito querido, isso é um fato facilmente verificável na cidade. Mas a questão realmente é a acusação de plágio, e mais sério ainda, a anulação de um hino que vem sendo entoado por famílias há pelo menos duas gerações, ou três. Imagine se a classe política brasileira, a Câmara dos Deputados e o Senado decidissem mudar o hino nacional do Brasil, você aceitaria isso de bom grado? Você poderia imaginar se algumas pessoas começassem a sugerir que o hino do Brasil deve ser substituído porque ele é um plágio?

Se um plebiscito (consulta sobre questão específica, feita diretamente ao povo, geralmente por meio de votação do tipo sim ou não) fosse proposto no país perguntando se o hino do Brasil deve ser substituído, como o povo brasileiro se posicionaria? Sem dúvidas, poucos brasileiros iriam aceitar tal infâmia. Talvez os militantes marxistas e comunistas abraçassem a ideia, já que não o menor amor à pátria por parte deles, e nem respeito ao símbolos nacionais.

Para ser mais claro, caso o leitor não saiba, o hino brasileiro também é acusado de plágio. A revista VEJA publicou uma reportagem de Celso Masson, com o título: “Até tu, Francisco?” e com o subtítulo: "E essa agora: estudiosos sérios [sic] suspeitam de que o Hino Nacional é um caso de plágio". Isso mesmo, o hino nacional, o "Ouviram do Ipiranga..." pode ser um plágio. É capaz dos marxistas sairem às ruas, vestidos de vermelho e com as bandeiras da CUT, como sempre fazem, e pedir a queda do hino brasileiro também.


A reportagem de Veja traz o seguinte trecho: “Vários musicólogos brasileiros se debruçam, hoje em dia, sobre uma hipótese cada vez mais plausível: a de que o Hino Nacional, única faísca de brilho na fosca obra de Francisco Manuel da Silva, é, na verdade, cópia de um tema do padre José Maurício Nunes Garcia. A suspeita ganhou corpo em Juiz de Fora, em 1995. Durante o festival de música colonial da cidade, o mais importante do país na área do barroco, o maestro carioca Sérgio Dias executou, com orquestra e coro, um ofício religioso de autoria do padre José Maurício, Matinas de Nossa Senhora da Conceição. A platéia, composta em sua maioria de especialistas, ficou estarrecida. Havia um trecho incrivelmente semelhante ao Hino Nacional. De lá para cá, vários estudiosos começaram a estudar o assunto e os primeiros resultados estão saindo agora”.

Mas espere um pouco leitor, tem mais! Não só o hino brasileiro é acusado de plágio, há dezenas de países cujos hinos são também acusados de serem cópias. Existe alguns países, inclusive, cuja a música é a mesma, pasmem! Alguns exemplos: Uruguai, Argentina, Bósnia, África do Sul, Liechtenstein, Estônia, Finlândia e Israel. Todos esses países tem seus hinos questionados. O estudo é de Alex Marshal, no livro Republic or Death! Além desses países, ha um número ainda maior de cidades brasileiras e estrangeiras que também são questionadas. Realmente são muitas, e não irei citar os casos, apenas desperto o leitor para esse fato.

Mais uma informação importante para juntarmos todos as peças do quebra cabeça, ou, da proposta de desconstruir nosso símbolo municipal, o hino de Campo Maior. Nas últimas semanas fomos informados que vários monumentos históricos estavam sendo ameaçados por propostas de movimentos socialistas, ligados às ideias chamadas de Marxismo Cultural, de serem removidos. O caso emblemático foi em Charlottevilles (EUA), onde grupos esquerdistas estavam tentando remover a estátua do general confederado Robert Lee. A estátua é um símbolo e um lugar de memória. É um monumento que lembra fatos históricos, sejam eles agradáveis ou não, corretos ou não, conforme o julgamento popular.

Retirar a estátua significa "apagar a história", acabar com um lugar de memória é o mesmo que rasgar livros de história. Imagine se surgisse a proposta de demolição do monumento aos Heróis do Jenipapo, em Campo Maior. As gerações seguintes começariam a esquecer essa história patriótica. Aliás, os monumentos existem justamente para nos fazer lembrar.

O que se passa em Campo Maior, ao meu ver, é algo semelhante e marcado com o mesmo padrão ideológico. Sejam os proponentes cientes ou não disso, eles seguem a cartilha do marxismo cultural à risca. Espero que a Câmara dos Vereadores não cometa a loucura de mudar o hino de Campo Maior por pressão de alguns poucos campomaiorenses (nem todos são campomaiorenses). 

Eu nem vou falar em cidades que tiveram o nome plagiadom e Campo Maior também é um plágio de Portugal, portanto, logo logo esses mesmos ideólogos desejarão mudar o nome de Campo Maior. Até o nome das pessoas, que são iguais devem ser mudados, assim, toda cidade terá apenas um João, apenas um Fernando... 

História e Religião · 27/04/2017 - 09h29

100 anos de protestantismo: a bandeira dos Batistas


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Em 2010 publiquei meu primeiro livro HISTÓRIA DOS BATISTAS: UMA HISTÓRIA DE CAMPO MAIOR, onde apresento a fantástica saga dos Batistas em Campo Maior. Toda minha pesquisa está embasada em fontes históricas primárias, entrevistas, atas, documentos pessoais e em extensa bibliografia. Na ocasião, os Batistas contavam com 96 anos na cidade de Campo Maior. Agora já se passaram 100 anos!

Entre os anos de 2014 e 2015 os Batistas completam 100 anos de história na cidade de Campo Maior. Os primeiros passos aconteceram quando missionários norte-americanos, que já há alguns anos trabalhavam no sul do Piauí, pregando o evangelho na vila de Corrente (atual cidade de Corrente), em Jerumenha, Aroazes e outras povoações do Estado, se dirigiram com o intuito de expandir a obra missionária em direção ao norte do Estado, alcançando logo em seguida a capital, Teresina, e a tradicionalíssima cidade de Campo Maior.

Os fatos que envolvem a chegada dos Batistas em Campo Maior constituem-se um verdadeiro épico da fé cristã protestante. Entre os anos de 1912 e 1913, o conhecido sapateiro Joaquim Bostoque havia se dirigido para cidade de União em busca de novas oportunidades. Havia a possibilidade de ganhar dinheiro extra para a manutenção das despesas do seu lar. Por essa data Campo Maior ainda não contava com a pujança econômica que seria promovida pela cera de Carnaúba. O fenômeno do gado, por sua vez, que incrementou a economia local por séculos, começava a diminuir em ritmo acelerado. Mesmo continuando a ser uma cidade de importância indiscutível no cenário do Estado do Piauí, e ainda gozando na lembrança de muita gente a imagem de cidade rica, por conta da prosperidade gerada pelo gado em dias passados, Campo Maior não vivia mais seu melhor momento econômico na segunda década do século XX.

Diante de uma situação econômica difícil, Joaquim Bostoque seguiu em busca de dias melhores em União e permaneceu ali por um ano, talvez um pouco mais do que isso. Na ocasião de sua chegada, a cidade celebrava festejos católicos e havia grande movimentação de devotos. Pessoas de várias cidades frequentavam a festa. Aproveitando toda aquela movimentação, Joaquim decide ganhar dinheiro com seu talento de sapateiro e mestre no trabalho com couro. Era uma oportunidade de lucro rápido. Por volta de 1914 ou 1915, quando Joaquim Bostoque retornou para Campo Maior, ele já defendia a bandeira dos Batistas. Considerava-se a si mesmo um crente Batista, como lembra sua neta Iracema dos Santos. Segundo ela, em União, “o vovô foi alcançado pelo poder do evangelho de Jesus Cristo”.

A conversão e o discipulado de Joaquim Bostoque confundem-se em dois aspectos. Primeiro constatamos que ele teve contato com O Jornal Batista, periódico que os Batistas haviam lançado em 1901, no Rio de Janeiro, e que circulava na bagagem dos missionários por todo o Brasil. À medida que os missionários americanos encontravam alguém letrado, enquanto lhe ensinavam sobre as verdades da Bíblia, O Jornal Batista poderia ser utilizado como um instrumento de auxílio no ensino das doutrinas que o grupo defendia. É claro que nem todo mundo tinha acesso ao Jornal Batista, pois o grau de alfabetização ainda era muito reduzido. Mas um homem tão ávido pela cultura e pelo saber, não dispensaria a oportunidade de ler e aprender aquele jornal, principalmente sabendo que se tratava de algo tão importante para a sua vida.

Apesar de ser sapateiro, profissão pouco valorizada naquele período, Joaquim Bostoque era um homem letrado e culto, bastante instruído, versado sobre os mais diversos assuntos, algo difícil de se esperar de um sapateiro pobre naqueles dias. Shirley Ibiapina, neta de Joaquim, lembra que sua mãe sempre lhe contava: “O papai falava sobre todos os assuntos, e sabia falar. Ele era uma pessoa cheia de sabedoria e admirada na cidade”. O ir. Turuka, figura intelectual de Campo Maior, relembrando a vida de Joaquim Bostoque, afirmou: “este é o primeiro homem realmente evangelizado que conheci”. Joaquim, apesar de sapateiro, foi notoriamente reconhecido pelas personalidades mais ricas e instruídas de Campo Maior. Seu nome está presente na ata de lançamento da “pedra fundamental” da casa do Conselho Municipal de Campo Maior, em 1896. Em um convite promovido pela elite campo-maiorense e por personalidades reconhecidas pelo seu saber, encontramos o nome do sapateiro Joaquim Bostoque no meio de tantas figuras ilustres. Também é importante frisar que Joaquim Bostoque foi o fundador do Centro Operário de Campo Maior e seu primeiro presidente.

O período em que Joaquim estava em União, a trabalho, foi o mesmo período em que os missionários Batistas e alguns brasileiros já convertidos desciam do sul do Piauí para a evangelização da região Norte. Foi nesse ponto da história que aconteceu o encontro de Joaquim e os missionários Batistas. É muito provável que Joaquim tenha conhecido o pastor americano Adolpf J. Terry e sua esposa Luly Terry na cidade de União ou proximidades. Com eles estava o piauiense Teófilo Dantas, e sua irmã, convertidos no sul do Estado. Foi nessa ocasião que Joaquim teve acesso ao Jornal Batista e ouviu as primeiras mensagens sobre o evangelho, que transformariam sua vida para sempre.

Em Campo Maior, em 1915, os Batistas já contavam com uma família inteira que incansavelmente ensinava a Bíblia a seus vizinhos e amigos. Esta foi verdadeiramente a PRIMEIRA IGREJA BATISTA DE CAMPO MAIOR e a primeira igreja evangélica/protestante da cidade. Joaquim Bostoque foi o primeiro protestante de Campo Maior. Periodicamente cultos passaram a ser realizados na residência do sapateiro, tudo muito restrito à família e a algumas poucas pessoas que aceitavam os convites. A chegada dos Batistas também foi marcada por intensa perseguição religiosa, a maior parte promovida pelo padre Clarindo Lopes Ribeiro nos anos de 1918 e 1919. Sobre esse episódio, esclareço em detalhes em meu livro. Ainda na mesma década a presença dos missionários americanos foi constatada em cultos na residência de Joaquim, que na época era localizada nas proximidades do atual Mercado Público Central de Campo Maior.

Na década de 1940, com Joaquim Bostoque já falecido, sua filha Heroína Ibiapina assume o papel de liderança entre os Batistas de Campo Maior. Até o momento não havia templo para reunião do pequeno grupo, tudo acontecia nas residências ou em praças públicas. Uma nova leva de missionários americanos, residentes em Teresina, passou a fortalecer o trabalho na cidade de Campo Maior e um novo foco de perseguição se levantou, dessa vez promovida pelo padre Mateus Cortez Rufino, mas que logo foi abafada, tornando-se o padre, em seguida, um dos melhores amigos do pastor Moreira, o primeiro pastor Batista de Campo Maior. A pedido de Heroína Ibiapina, a Primeira Igreja Batista de Teresina passou a enviar um grupo de irmãos para pregar e dirigir os trabalhos em Campo Maior. Pregaram na cidade Lourival Parente, Merval Rosa e muitos outros nomes que mais tarde ganharam grande notoriedade no cenário piauiense. Em 1951, depois de já ter enfrentado quase 40 anos de dificuldades, foi fundada oficialmente a PRIMEIRA IGREJA BATISTA DE CAMPO MAIOR, que até hoje dá testemunho de Jesus Cristo na cidade. Portanto, os Batistas completaram 100 anos em Campo Maior, data que será celebrada em janeiro de 2015, em culto a Deus a ser realizado na PRIMEIRA IGREJA BATISTA REFORMADA EM CAMPO MAIOR.

Campo Maior · 17/04/2017 - 10h00

1905 - Enchentes de proporções diluvianas


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“O rio [Surubim] que banha a cidade extravasou e transpondo o dique mandado construir no sangradouro da lagoa que lhe fica próximo, juntou suas águas às dela, indo-se depois reunir ao [riacho] Pintadas ...”

Essas foram as notícias sobre o alagamento ocorrido em Campo Maior no início do século XX. Essa referência da grande enchente de 1905 aparece na Gazeta do Prof. B. Lemos, em uma nota que foi enviada pelo campomaiorense Moisés Eulálio e publicada posteriormente no livro de Reginaldo Lima, Geração Campo Maior: anotações para uma enciclopédia, (1996).

Na enchente de 1905, o texto de Moisés Eulálio descreve como a cidade de Campo Maior ficou parcialmente alagada, principalmente as zonas Norte e Nordeste da cidade, que compreendem atualmente as imediações do bairro Califórnia (zona Norte), e boa parte da cidade situada às imediações da BR 343, ladeada pela avenida Heróis do Jenipapo, com mais de uma dezena de vielas e travessas submersas (zona Nordeste). As águas também atingiram a margem oeste do rio Surubim, onde hoje temos o bairro de Flores (zona Noroeste). Uma informação chama atenção: as águas do rio Surubim se juntaram à lagoa próxima e ao riacho Pintadas. A região tornou-se um grande mar d’água.

- A imagem mostra o rio Surubim (2017) com suas águas passando livremente por sobre as duas paredes de contenção, cobrindo árvores e dominando o cenário

O texto fala de uma “lagoa” próxima ao rio Surubim, o que parece descartar a ideia de que essa lagoa seja uma referência ao açude grande da cidade. Nessa enchente, o açude grande não é mencionado na nota da gazeta do prof. Lemos, mas ele transbordou em alguns pontos, onde as paredes estavam avariadas ou eram mais baixas. Suas paredes, com muito sacrifício devem ter contido o grosso das águas, pois uma aguada tão importante quanto o açude não deixaria de ser mencionada, caso suas águas tivessem invadido parte da cidade, ao menos, é claro, se ele ainda fosse tido por alguns como “lagoa”. Hoje, especialmente os mais velhos, ainda preferem chamar o velho açude de “lagoa”, talvez devido a um resquício linguístico que sobreviveu no imaginário de alguns. Se a referência é ao açude grande, o cenário da época foi devastador.

A lagoa citada por B. Lemos muito provavelmente é a lagoa da fazenda São Joaquim, situada cerca de 100 metros do rio Surubim. Contudo, pode ser também uma referência ao açude de Campo Maior, visto que o texto fala do dique e do sangradouro da lagoa que havia sido construído. A lagoa do São Joaquim não possui dique e nem sangradouro. É uma lagoa natural, posteriormente reforçada pelo proprietário do terreno. Outra observação: o açude grande de Campo Maior à época tinha sua área alagada muito maior do que a atual, que foi delimitada com a construção da Alameda Dirceu Arcoverde. Havia também um riacho sempre cheio no inverno, que deságuava no surubim, mas que também se ligava às águas do açude grande. Até hoje pode-se constatar as manilhas que foram postas na construção da atual avenida Santo Antônio, para dar vasão a água.

Se a lagoa, ao qual se refere o texto é mesmo o açude grande, suas águas devem ter encontrado o riacho Canudos, no ponto onde hoje está a BR 343, na época, a área mais baixa em volta do açude. Se a água do Canudos invadiu o açude de Campo Maior, tivemos uma inundação de proporções diluvianas na cidade. O centro histórico, ou, “cidade velha” ficou literalmente ilhado, com um mar d’água à sua volta. Grande parte da região do bairro Estação ficou alagada. O cenário, assim como seria mais tarde em 1924, foi assombroso e arrasador.

Documentos de meados de 1800 comprovam que as águas sempre causaram transtornos em Campo Maior. O Conselho Municipal (equivalente à prefeitura e câmara dos Vereadores) sempre alugava, numa espécie de pregão anual, a passagem dos rios. Em outras palavras, em bons invernos era quase impossível entrar ou sair de Campo Maior a pé. Os arrendatários das passagens atravessavam as pessoas em pequenos barcos, que cruzavam os rios Jenipapo, Longá e Surubim. Esse problema existiu devido a localização espacial de Campo Maior, que se desenvolveu entre rios e lagoas, numa região muito fértil para o gado, especialmente por ser uma região de grandes campos e pela fartura de água. Um grande atrativo para o português, que se estabeleceu aqui para criar gado.


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Por volta de um século atrás, um engenheiro belga denominado Dr. Horta, recebeu ordens para concertar as paredes do açude grande de Campo Maior, que apresentava vazamento em alguns pontos. O açude é descrito como o nome de ‘açude de Campo Maior’. Esse deve ser o nome ao qual ele era já bem conhecido, o que desfaz a ideia de que ele fosse conhecido como ‘açude de Santo Antônio’, uma tentativa de catolicizar toda a cidade ao padroeiro da fé católica dos professos campo-maiorenses. O açude também é classificado na documentação como pequeno. Quando o DNOCS veio realizar essas obras no açude, há 70 anos ele já existia, e já havia passado por outro reparo, em 1889. A construção foi, na verdade, mais um conjunto de reformas, pois o Dr. Horta “veio e fez concertos no paredão” do açude.

- As últimas reformas realizadas no açude grande tiveram início em 2015 e ainda não foram concluídas.

Quando o Dr. Horta chegou para reparar os danos no paredão do açude, ele utilizou-se de uma técnica bem peculiar. O paredão contava com algumas rachaduras que provocavam um vazamento considerável. Havia ainda outros pequenos vazamentos, de menor risco. O engenheiro aprontou uma mistura de massa, digamos, bem diferente. Ele preparou traços de argila misturada com estrume de animais. Essa massa foi utilizada para tapar as rachaduras, e à mistura, foram acrescentadas pedras pequenas.

Parece que todos os trabalhos que vinham sendo realizados no açude estavam surtindo bons resultados. Um dos objetivos da construção do açude era conter as águas, evitando que em invernos mais fortes elas não invadissem a cidade, que vinha crescendo rápido, principalmente nas últimas décadas do século XIX. Na realidade, em termos urbanos e estruturais, esse foi um dos períodos mais importantes no desenvolvimento urbano da novel cidade de Campo Maior. Apenas 30 anos Campo Maior fora elevada ao patamar de cidade.

- O açude grande de Campo Maior é considerado o cenário urbano de maior beleza em Campo Maior e o mais impactante

Em 1905 o açude foi posto à prova. Tivemos um rigoroso inverno nesse ano, o que causou grande enchente. Todos os rios da cidade transbordaram e cidade ficou literalmente ilhada. Era necessário, para entrar ou sair da cidade, o uso de embarcações pequenas. Nesse ano o açude transbordou e surgiram algumas avarias. Em 1924 tivemos outra grande cheia. Desta vez os reparos do Dr. Horta seriam testados. Apenas quatro anos depois que o belga tinha realizados reparos delicados nos paredões do açude grande, a cidade era acometida de um implacável inverno. Tão grande foi a cheia daquele ano que “para fazer compras, o Cel. José Paulino vinha dos Porções, atracando a canoa na calçada de D. Penha, no início da Rua Padre Manoel Félix.”

Dessa forma, a construção do açude grande por Jacob Manoel d’Almendra (1859); as reformas promovidas por Antônio José Nunes Bonna e outras menores que seguiram o ano de 1889, e todas as outras que foram realizadas desde que o Dr. Horta, em 1920, concertou os seus paredões, tem sido de extrema importância para a preservação de importantes áreas urbanas de Campo Maior em nossos dias.


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Sobre o esplendoroso açude grande de Campo Maior, monumento natural que encanta os turistas que cruzam seu caminho. Sua obra foi realizada no ano de 1859. Campo Maior nesse período não havia mudado muito em termos de estrutura urbana. Continuava uma vila pacata, no estilo colonial. Embora fosse muito pequena, era considerada grande e próspera quando equiparada a outras vilas do seu tempo.

- O açude grande de Campo Maior: desde de 1859, mas com toda a sua potencialidade sub aproveitada.

- Foto: Juscel Reis

Esse aspecto de potência econômica vinha desde os primeiros tempos da vila. Os repasses de Campo Maior à coroa portuguesa eram os maiores do Piauí. Em 1791, Campo Maior enviou mais dizimas de gado do que a Capital, Oeiras. Enviou duas vezes mais do que Jerumenha e Parnaguá juntas. Na região norte, também predominou economicamente, e enviou mais arrecadação do que Valença e Marvão. Em 1809-1814 a liderança econômica permanecia e aumentara. No Norte, enviou 4 vezes mais do que Parnaíba, 4 vezes mais do Piracuruca, 3 vezes mais do que Marvão e o dobro de Valença. No Sul, perdeu por muito pouco para Oeiras, com 91:850$000, contra 84:090$000 de Campo Maior. Porém enviou 3 vezes mais do que Jerumenha e Paranaguá.

Quanto ao perímetro da vila, o parque urbano de Campo Maior em 1850 ainda girava em torno da igreja, seu centro histórico mais antigo. Hoje podemos até considerar aquelas imediações como a “cidade velha”. Era no entorno da igreja e um pouco mais afastado dela que se encontravam as moradias. O que estava mais distante da “cidade velha” eram as fazendas, inúmeras, que se espalhavam dentro e além do que hoje é a zona urbana de Campo Maior. É claro que o número de moradias e instalações, e também de fazendas, foi aumentando a cada ano desde os tempos da Freguesia de Santo Antônio do Surubim. Mas ainda não devemos imaginar uma povoação cheia de casas e ruas. Tudo era muito pouco e pequeno. Note que havia passado apenas 36 anos da Batalha do Jenipapo.

O foco vivo e comercial da vila era o entorno da igreja. A área em torno do açude era limite de muitas fazendas. Aquela região no passado nunca foi grandemente habitada, pois era considerada fora dos limites da vila. Mas ela nunca foi deserta. Visto que a lagoa era uma das fontes de água da cidade, a melhor fonte que se tinha, ela sempre foi frequentada. Muitos fazendeiros já se ocupavam das imediações da lagoa, utilizando seu espaço para fazer vazantes e para o descanso de animais, principalmente o gado vacum.

- Imagem ilustrativa que apresenta o açude grande e sua orla reconstruída. O projeto está em andamento

Pelos idos de 1850, já era aquela aguada muito mais notada, já tendo a população observado a sua indispensável presença. Outro fato interessante que podemos notar ao longo da história da cidade é a constante preocupação, marcada pelo discurso político, com a pureza de suas águas. O açude sempre foi tema político! Sendo assim, o anseio do povo por uma fonte que pudesse reter água em dias de seca e proteger a cidade em dias de enchentes era grande. A cada avanço da vila, maior era a necessidade de segurança. Um açude era a solução para conter esse dilema que o povo vivia. Em ano de pesada estiagem o povo sofria, pois as fontes secavam, o rio Surubim baixava, os riachos desapareciam e a lagoa tinha o nível d'água drasticamente diminuído. Cada vez mais se mostrava necessário resolver esse problema.

Em 1857 um novo presidente da Província é empossado. Seu mandato tem início em 10 de junho. Trata-se aqui do Dr. João José de Oliveira Junqueira. Permaneceria no cargo até o dia 30 de dezembro de 1858 . Nos últimos dias de seu governo, faltando uma semana para deixar a presidência da Província, a obra da construção do açude é arrematada pelo então Cel. Jacob Manoel d’Almendra. Certamente essa foi uma arrematação "política", pois o Jacob de Almendra era, provavelmente, o homem mais rico do Piauí e gozava de enorme influencia política.

Por ter adquirido muita influência, Jacob de Almendra tinha transito privilegiado no cenário político do Piauí. Quando a cidade de Teresina passou a ser a capital do Piauí, Jacob Manoel d’Almendra foi um dos que apoiaram o então Presidente da província Antônio Saraiva. Monsenhor Chaves aponta seu nome como um dos principais colaboradores na transição da capital para Teresina. Seu nome está na lista dos 20 deputados que apoiaram a mudança da capital, com uma nota do padre: “guardemos estes nomes para a história”. Jacob Manoel d’Almendra foi um dos homens que subscreveu o projeto que transferiu a capital de Oeiras para Teresina.

- Diferente das reformas do século XIX, realizadas por escravos, nos dois últimos anos o açude de Campo Maior foi esvaziado para reformas e retirada de dejetos com máquinas pesadas.

O cenário para a construção do açude estava preparado. A verba estava reservada, custando, segundo relata Marion Saraiva, 3:500$000, “pagos depois que a obra tivesse resistido a um inverno” . A lagoa, tão útil no passado, deu lugar ao Açude Grande de Campo Maior, uma das maiores obras realizadas naquele período.


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Uma das mais antigas e misteriosas lacunas sobre a história de Campo Maior foi resolvida: a data da criação da Freguesia de Santo Antônio do Surubim. Nas últimas décadas essa foi uma das maiores buscas dos historiadores do Piauí. Jamais se tinha chegado à conclusão sobre a data correta da criação da Freguesia de Santo Antônio do Surubim de Campo Maior. Sabia-se sobre as demais freguesias piauienses, mas a de Campo Maior era um mistério.

Na manhã de ontem, enquanto conversava com o professor Fonseca Neto, chefe do Departamento de História da Universidade Federal do Piauí, discutíamos sobre a história de Campo Maior e o papel da igreja nos primeiros momentos de vida daquela povoação. Ao discutirmos sobre a data da criação da freguesia, o professor analisou os argumentos do padre Cláudio Melo, bem como minha própria posição, no livro Campo Maior Origens.

As datas para a criação da Freguesia de Santo Antônio do Surubim sempre eram remotas. Padre Cláudio assegurava sua existência em meados de 1711, quando a igreja de Santo Antônio foi instalada em Campo Maior. Ele também defendia a possibilidade da freguesia ter sido criada na primeira visita às terras dos Alongases, quando o padre Miguel de Carvalho percorreu o território do norte. Mesmo sem igreja, ele pensava que naquela ocasião poderia ter acontecido a criação da Freguesia do Surubim, de Santo Antônio. Faltava a prova final para sustentar a hipótese, que, aliás, fazia muito sentido. A primeira documentação que registra a expressão “Freguesia de Santo Antônio do Surubim” encontra-se numa correspondência onde o nome de Manoel de Carvalho é citado como um morador da dita freguesia. Essa data me fez acreditar que a data mais confiável que tínhamos, até o momento, seria o ano de 1713, ou mesmo um ou dois anos antes. Essa foi minha posição sobre a origem da Freguesia de Santo Antônio.

Eu escrevi em Campo Maior origens: “A freguesia de Santo Antônio do Surubim foi instalada entre os anos de 1711 a 1713. Prova disso são as referências em correspondências dessa época apontando algumas pessoas que moravam na dita freguesia em 1713”. O raciocínio era simples: se havia menção na existência dessa freguesia em 1713, era sensato entender que ela foi criada nesse mesmo ano ou em data anterior, o que me levava a recuar a data proposta pelo padre Cláudio Melo, na ocasião da construção da igreja de Santo Antônio. Por isso a indecisão entre os anos de 1711 a 1713. Não tinha dúvidas de que sua criação se dera dentro desse espaço cronológico.

- Prof. Fonseca Neto concluiu que a Freguesia de Santo Antônio do Surubim em Campo Maior foi criada em 1740.

Nas pesquisas do professor Fonseca Neto, trabalho de grande envergadura sobre o bispado piauiense, ele encontrou um documento de Dom Manuel, bispo do Maranhão, onde ele comunica ao rei de Portugal a criação da freguesia de Santo Antônio do Surubim. A profundidade das pesquisas sobre o bispado do Piauí, o levou a inquietação quanto à origem da Freguesia do Surubim, que consistia em grande mistério. Conforme a carta do bispo do Maranhão, Dom Manuel da Cruz, a freguesia foi criada em 1740. A carta é datada de 1741:

“Senhor. Foi vossa Majestade servido por resolução expedida da Mesa da Consciência e Ordem em 20 de maio de 1740 criar de novo na freguesia da vila da Mocha mais duas freguesias com párocos colados, uma na ribeira da Gurguéia, e outra no distrito da Caatinguinha; como também foi servido criar, e erigir mais em novas vigarias coladas os curatos das igrejas de Santa Maria da Vila do Icatu, Nossa Senhora do Carmo do Piracuruca, Santo Antônio do Surubim...”

Na carta do bispo, ele indica que em 20 de maio de 1740, foi expedido criar na freguesia do Mocha (Oeiras) mais duas novas freguesias, e em seguida menciona que erigiu “mais” freguesias em novas vigarias, incluindo aí a menção de Santo Antônio do Surubim. Conforme Fonseca Neto essa é a data da criação da Freguesia de Santo Antônio do Surubim.

Sobre as correspondências e a presença desse bispo do Maranhão na região do Surubim, faço menção em Campo Maior Origens (p. 41), demonstrando que a partir daquele momento as delimitações da freguesia de Santo Antônio do Surubim de Campo Maior estava mais bem estabelecida, e, apontando que havia uma disputa entre o bispado do Maranhão e o de Pernambuco, nas delimitações territoriais. Foi o professor Fonseca Neto que me fez compreender que a visita do bispo, além do fato que eu descrevi, serviu também para criar a freguesia do Surubim, por isso essa delimitação tão precisa.

Enquanto eu discutia com o professor Fonseca Neto sobre essa carta e essa data de 1740, sobre as delimitações territoriais, perguntei-lhe sobre a menção das datas mais remotas, como a de 1713, já mencionando a existência da freguesia de Santo Antônio do Surubim. Essa data, segundo Fonseca Neto, deve ser vista como um momento em que a freguesia existia na informalidade, pois ainda não tinha sido literalmente ou oficialmente criada pela igreja. Já era uma freguesia porque já havia a igreja instalada, o cura já oficiava regularmente, e os “fregueses” já estavam lá, mas tratava-se de uma freguesia futura ou freguesia não oficial, mas que já era conhecida assim por causa da igreja e da certeza de que seria criada. A menção a freguesia de Santo Antônio em 1713 não significa que ela já existisse por criação de um bispado. A data exata, concreta, é mesmo o ano de 1740, conforme a carta com as informações da sua criação, em destinada ao rei no ano seguinte, 1741.

Uma cronologia dos estudos sobre a Freguesia de Santo Antônio do Surubim de Campo Maior pode ser compreendida da seguinte forma:

1697 – O padre Miguel de Carvalho visita a região norte para conhecer os termos da freguesia do Mocha. Por ser de enorme extensão (todo o território do Piauí), entende que uma nova freguesia precisa ser criada.

1711 – Outro padre, Tomé de Carvalho, visita a mesma região e, com ordens do bispo de Pernambuco, constrói a igreja de Santo Antônio em Campo Maior. Essa foi a primeira data a se cogitar a criação da freguesia de Santo Antônio.

1713 – Em uma carta encontramos a menção de pessoas que moravam na freguesia de Santo Antônio do Surubim. Essa foi a outra data pensada para a criação da freguesia, já que ela já é mencionada.

1715 – O bispo de Campo Maior encontrou no anuário católico o ano de 1715.

1740 – Data em que, segundo consta na correspondência do bispo do Maranhão, Dom Manuel da Cruz, a freguesia foi concretamente criada e o fato comunicado ao rei de Portugal em 1741.

História do Piauí · 02/03/2017 - 07h53

A origem da Freguesia de Santo Antônio do Surubim


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Em 1711, a região dos Alongases com suas fazendas, já acumulando considerável quantidade de pessoas, recebeu a visita do Padre Tomé de Carvalho. Tinha ele o intuito de levantar uma capela em dedicação a Santo Antônio, seguindo ordens do bispado de Pernambuco. Com a construção da igreja o lugar passaria à condição de Freguesia, a segunda do Piauí, Santo Antônio do Surubim.

- Segundo templo de Santo Antônio do Surubim, em Campo Maior. Foi construído em 1779. Não há registro do primeiro templo.


Quanto às origens da religião e da igreja de Santo Antônio, até hoje existe muito do misticismo do catolicismo popular atrelado ao imaginário local. Esse é um retrato autêntico do homem da Idade Média que permanecia impresso no português que colonizava nosso espaço. Moysés Castello Branco Filho parece se deixar envolver por esses contos em sua narrativa: “O primeiro povoado do Longá desenvolveu-se nas margens do regato onde foi encontrada uma pequena imagem de Santo Antônio no tronco de uma juremeira, e logo chamado riacho de Santo Antônio. No lugar foi levantada uma capelinha modesta sob a invocação do milagroso orago e, alguns anos depois, a igreja maior. Em volta cresceu o povoado de Santo Antônio do Surubim de Campo Maior – Santo Antônio de Campo Maior – ou simplesmente Campo Maior na consagração popular” (CASTELO BRANCO, p. 53).


A narrativa fantástica do aparecimento milagroso de imagens de santos católicos sempre permeou o imaginário do povo. Existem vários relatos que atrelam o surgimento de comunidades às imagens encontradas em rios, campinas, árvores, etc. O princípio mítico sempre tem sido o mesmo, geração após geração. A primeira casa de culto católico erigida no Surubim pode ter sido levantada ainda em 1696, antes mesmo da chegada do Padre Miguel de Carvalho, quando viajava pelo sertão do Piauí. Esteve no arraial de Bernardo de Carvalho o jesuíta Ascenso Gago para realizar uma desobriga que durou 18 dias. Padre Cláudio Melo nos lembra que “tinham os jesuítas o hábito de por onde andassem levantar Capelas, mesmo que de taipa e palha. Como este era o costume, podemos supor que foi a partir daquela desobriga que o Surubim teve a sua [primeira] Casa de Oração”. No documento não consta que os padres tenham se abrigado em casa de Bernardo de Carvalho. Essa é uma suposição de Cláudio Melo.


O que está bem documentado quanto à origem da Freguesia de Santo Antônio e de sua primeira capela, é que ela foi fundada pelo Padre Tomé de Carvalho. Sobre isso não há a menor dúvida. Cláudio Melo acreditava que a capela tinha sido construída nas terras da fazenda Bitorocara, no fim do inverno de 1711: “O Pe. Tomé de Carvalho reuniu em Bitorocara, Arraial de Bernardo de Carvalho, os principais cidadãos da redondeza para decidirem o local e a construção da Matriz da nova Freguesia que teria por padroeiro o glorioso Santo Antônio” (MELO, p. 47). Temos outro problema aqui. Para Cláudio Melo, a fazenda Bitorocara e o Arraial Velho tratavam-se da mesma fazenda. A Bitorocara passou a se chamar Arraial Velho no período da guerra contra os índios. O problema é que atualmente a data de sesmaria do Arraial Velho já é bem conhecida e o documento situa essa fazenda nas proximidades do rio Parnaíba, bem mais ao norte de Campo Maior, mais perto de Piracuruca.

- Atual catedral de Santo Antônio, em Campo Maior. É o terceiro templo construído, sempre no mesmo lugar dos templos anteriores.


O local escolhido para a igreja foi uma colina situada cerca de 200 metros do rio Surubim. Em Campo Maior a igreja foi construída em terreno isolado, no ermo, sem nenhuma fazenda muito próxima, como se deu também em Oeiras. A capela de Oeiras (chamada na época de Mocha) foi levantada longe das áreas povoadas, “isolada daqueles que formariam a comunidade (...) sem outras habitações que a pequena igreja e três ou quatro ranchos, também de taipa, onde residiam o Cura e seus primeiros colaboradores.” (MELO, p. 8). Esse mesmo fenômeno, o da igreja isolada, se repetiu em Campo Maior. Por isso, labutam em erro aqueles que assumem que a casa da fazenda Bitorocara estava situada próximo à capela.


Embora o padre Tomé de Carvalho tenha reunido o povo para que eles escolhessem o local onde a capela seria levantada, o registro histórico orienta que o local deveria ser escolhido de tal forma que comtemplasse todos os fazendeiros da região, não privilegiando uns em detrimento de outros. As distâncias entre as fazendas e a igreja teriam que ser regulares entre os fazendeiros, sem grandes disparates.

- A história específica das três igrejas de Santo Antônio foi destaque na primeira edição da Revista Eugênio.


A igreja de Santo Antônio foi construída em 1711. Pouco tempo depois a Freguesia de Santo Antônio do Surubim foi estabelecida. Não se sabe se imediatamente à inauguração da igreja ou alguns poucos meses depois. O fato é que em 1713 já temos o registro de correspondência citando um homem que residia na Freguesia de Santo Antônio do Surubim. Mesmo sem condições de estabelecermos uma data precisa para sua criação, é inequívoca a informação de que em 1713 ela já existia. Portanto, o ano de 1713 é, até o presente momento, a melhor data para falarmos da criação dessa antiga freguesia piauiense.

História do Piauí · 21/02/2017 - 08h47 | Última atualização em 22/02/2017 - 09h01

Os índios cristãos protestantes da Ibiapaba


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A historiografia piauiense cobre muito bem a presença católica no período colonial na região norte da província. A chegada de padres jesuítas, o trabalho de catequização, os aldeamentos, e todo o trabalho católico entre os índios está bem apresentado. O que ficou obscuro e pouco discutido na historiografia piauiense foi a forte presença dos índios protestantes calvinistas que ocuparam a Ibiapaba em 1654-1660 , frutos do trabalho missionário e pastoral do Holandeses em Pernambuco. Depois da capitulação do projeto holandês no Brasil, os índios Potiguara, que haviam recebido a fé protestante e boa educação, sabendo muitos deles ler e escrever, deixaram Pernambuco e rumaram para a Ibiapaba, para se refugiarem dos portugueses.

- Os índios protestantes chegaram na serra da Ibiapaba antes dos padres Jesuítas, da Companhia de Jesus.


Causa estranheza o fato de não se mencionar a existência dos índios de fé Reformada (protestantes calvinistas) na serra da Ibiapaba pelos historiadores piauienses. Odilon Nunes, que escreveu boa parte da história do Piauí e fez extensas pesquisas, não aprofunda a questão, senão em observar a presença holandesa no Piauí. Esperava-se que Cláudio Melo, pelo fato de ser sacerdote e pesquisador da História da igreja Cristã no Piauí, aprofundasse a temática e desse destaque à igreja protestante que existiu por dois anos na serra da Ibiapaba. Contudo, ele não faz referência aos nativos protestantes, que contabilizavam cerca de dois mil índios. Esse é um número bastante expressivo para passar despercebido. Os protestantes indígenas eram totalmente organizados e fluentes no conhecimento teológico, catequizados com os principais catecismos e confissões de fé utilizados naquele período, tendo seus líderes indígenas navegado ainda criança para os Países Baixos e ali desfrutado de treinamento e educação refinada.


Por quatro anos (1656-1660) a igreja protestante dos índios da Ibiapaba se propagou, autônoma, evangelizadora, sem a disputa dos jesuítas, pois não havia presença católica nesse período. Esse certamente é um fato capaz de gerar incômodo aos historiadores católicos e a quantos acreditaram que houve um pioneirismo católico romano na evangelização dos nativos da Ibiapaba e dos Alongases.


Está equivocado o padre Cláudio Melo ao afirmar que “a história religiosa de Campo Maior começa com os primeiros contatos dos missionários da Ibiapaba com nossos selvícolas Potis e Alongases. Isto se deu a partir de 1658...” (MELO, 1983, p. 43). A história religiosa de Campo Maior teve início a partir dos primeiros contatos dos índios protestantes reformados com os índios que cobriam nossas paragens, em 1654. Foi uma evangelização mais fácil e de maior efeito, por ter sido entre os próprios índios. O contato evangelizador do Jesuíta com os índios só aconteceu depois disso. Ele chega mesmo, na minha opinião, a se contradizer, ao afirmar: “não se sabe quem primeiro pregou a fé, mas se sabe que, pela época da segunda missão jesuítica na Ibiapaba, aqueles índios que solicitaram a missão já eram cristãos, fugitivos do poderio holandês de Pernambuco, conforme nos diz o Pe. Betendorf.” (MELO, 1983, p. 29-30. Grifo meu). Ele afirma que, quando os jesuítas chegaram na Ibiapaba, na segunda Missão, os índios que eles encontraram ali já eram cristãos. A explicação para isso é apenas uma: a igreja protestante indígena estava na Ibiapaba. Não resta a menor dúvida disso atualmente. Odilon Nunes lembra que havia índios na Ibiapaba que já eram descritos como hereges, e isso, agora sabemos, pelo fato de serem protestantes reformados da igreja holandesa de Nassau: “a luta entre tribos que viviam no interior da serra, a indisciplina e impiedade no seio da mesma missão, provocado por índios, tidos como hereges, porque ainda guardavam alguma influência dos holandeses” (NUNES, 2007, pp. 72-73).


O renomado padre Antonio Vieira, em seu relatório A Missão da Ibiapaba, faz significativa contribuição histórica que confirma a forte presença da igreja indígena protestante:

Como a chegada destes novos hospedes ficou Ibiapaba verdadeiramente a Genebra de todos os sertões do Brazil, porque muitos dos índios Pernambucanos foram nascidos e criados entre os holandeses, sem outro exemplo nem conhecimento da verdadeira religião... No Recife de Pernambuco, que era a corte e empopoio de toda aquela nova Holanda, havia judeus de Amsterdã, Protestantes da Inglaterra, Calvinistas da França, Luteranos da Alemanha e Suécia, e todas as outras seitas do Norte (SOUZA, 2013, p. 113).

- Padre Antônio Vieira constatou a presença de índios protestantes na serra da Ibiapaba e os chamou de "hereges".

Em oposição a Odilon Nunes, o padre Antonio Vieira, que foi uma testemunha da existência da igreja protestante indígena, assegura que não foi uma mera influência dos holandeses, mas uma presença dominante, chegando ele a chamar a Ibiapaba de “Genebra de todos os sertões” numa clara referência à Genebra reformada de João Calvino, a cidade modelo da reforma protestante. A Identificação da Ibiapaba com Genebra não se dá por conta de fatores climáticos, isto porque a temperatura da Ibiapaba é bem mais baixa do que no restante do sertão cearense e piauiense, e isso pode confundir o leitor, levando a interpretações equivocadas. O sentimento expresso pelo padre Antonio Vieira era tão somente de infelicidade por conta do domínio dos índios protestante na serra e sobre nações aborígenes vizinhas à serra. Por longos anos as pessoas têm se equivocado em achar que a frase está em sintonia com clima da serra.


Entretanto, sem a ajuda dos Holandeses, que haviam deixado o Brasil, a igreja protestante da serra da Ibiapaba rompe em peregrinação, em 1661, perdurando até o ano de 1692 (SOUZA, 2013, p. 123). Porém, não sem antes deixarem sua contribuição às demais tribos indígenas as quais tiveram a oportunidade de pregar.


Os relatos da existência de índios cristãos nas paragens dos Alongases e do Poti, como asseguram muitos historiadores, inclusive o padre Cláudio Melo, apontam que a pregação dos índios protestantes foi ouvida e assimilada, tanto por meio dos franceses, como também por meios dos índios calvinistas frutos do trabalho missionário holandês. Não se pode negar que a fé reformada foi anunciada no norte do Piauí. Fortalece ainda mais essa afirmação o fato de muitos índios protestantes, no momento da peregrinação, terem optado se dirigir da Ibiapaba para o Maranhão, separando-se do grupo principal, e assim, percorrendo a região do Surubim, sua rota natural. Nos Alongases, no Surubim, e em todo o Piauí o catolicismo romano prevaleceu, criou raízes. A igreja protestante indígena, passageira, veio a desaparecer pouco depois, logo após o fim do Brasil Holandês. O que afirmo aqui não é uma nova história da igreja cristã, mas o resgate de uma história que não foi registrada pelos historiadores modernos. Os historiadores que labutaram em escrever a história do Piauí, especialmente aqueles que se detiveram em pesquisar a história religiosa, se não foram ignorantes quanto a esses fatos, foram parciais ao negligenciarem essa importantíssima página de nossa história.

 

História do Piauí · 14/02/2017 - 10h44

A Fazenda Foge-Homem e sua tradição


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No norte do Piauí, seguindo atualmente pela malha estadual que dá acesso à cidade de Castelo do Piauí, em lugar de imensa beleza campestre, com rios e riachos que correm serpenteando nesta larga extensão de terra, encontra-se a secular fazenda Foge Homem. O vaqueiro da região até hoje chama-a “Fojomem”. Rodeada por outras fazendas, em lugar excelente para se criar gado grande e pequeno, a fazenda Foge Homem ganhou destaque no cenário histórico de Campo Maior. Não se sabe exatamente a data de sua origem, porém, ela figura junto com outras fazendas de grande importância local e estadual. Foi fazenda que abrigava escravos, sendo assim um excelente ponto de partida para se pesquisar sobre a escravidão em Campo Maior. Tornou-se um dos importantes currais de gado de Campo Maior no século XIX.


A antiguidade da fazenda Foge Homem é indiscutível. Ela está registrada em um mapa de 1850, com a inscrição "Carta Topográphica e Administrativa da Província do Piauhy. Erigido sobre os documentos mais modernos pelo VCDE. J. de Villiers de Li´lie Adam. Gravada na lithographia imperial de Vr. Larée". No Brasil, o mapa foi publicado pelos irmãos Carneiro, em 1850. Em outro mapa, ainda mais antigo, de 1828, confeccionado em Munique, Alemanha, a fazenda Foge Homem ganha destaque, pertencendo às terras da Vila de Campo Maior, e formando seu conjunto de fazendas mais importantes. A Foge Homem, em seu formato original, remonta aos idos da segunda metade do século XVIII, portanto, uma fazenda setecentista, sendo assim, um dos mais antigos currais de gado de Campo Maior, cuja a história é pouco conhecida e sua importância socioeconômica tem sido muito negligenciada.


A região onde a fazenda está situada é de aparência ambígua: bela e sinistra. Existe um magistral abismo, onde, em tempos de inverno, corre célere um rio de poderosa correnteza que precipita suas águas no paredão rochoso, formando uma magnífica cachoeira, com uma queda de quase 40 metros de altura. A lenda do nome da fazenda, denominada FOGE HOMEM, está diretamente ligada a esse rio e a esse abismo. Existe uma lenda antiguíssima sobre a origem do nome FOGE HOMEM. Segundo Heitor Castelo Branco Filho, que já foi proprietário da fazenda, o “singular nome [foi] copiado da DATA de demarcação de mesmo nome, a qual pertence, no município de Campo Maior, Piauí.” (CASTELO BRANCO FILHO, 2011, p. 122). Em outras palavras, a região onde a fazenda está instalada já era chamada Foge Homem; assim, à fazenda foi dada a mesma designação da região. A lenda reza o seguinte:


Contava-se que certo vaqueiro seguia em desabalada carreira cavalgando fogoso corcel em perseguição a um boi velho. Em certa altura da atropelada, o boi tomou o leito seco de um riacho. O vaqueiro já estava muito próximo ao bovino, já quase o alcançando, quando subitamente ouviu uma forte voz de comando: FOGE-HOMEM! O vaqueiro saltou do cavalo em disparada, pois tempo não havia para sofrear o animal, que juntamente com o boi precipitou-se em profundo abismo, onde ambos se excidiram. Esse precipício, de cerca de 30 metros de profundidade, pode ser visitado, pois à margem da estrada Campa Maior-Castelo, na Fazenda Pedras Negras, de Adalberto Correia Lima. (Ibid, pp. 122-123).


A lenda é realmente bem conhecida na região, principalmente pelos mais antigos moradores do lugar. José Damião e João Cristino da Paz – e muitos outros – antigos moradores, deixaram aos seus filhos e netos a tradição da lenda que foi imortalizada por Heitor Castelo Branco Filho. Em cronologia simples, a lenda do nome Foge Homem remonta, no mínimo, cerca de dois séculos. Porém, não podemos esquecer que a força do imaginário é muito vigorosa. A história parece ter sofrido alterações e transformações ao longo do tempo.


Em documentação inédita, constando de informações gerais sobre Campo Maior, enviadas diretamente pelo Conselho Municipal, no mês de abril do ano de 1881, a fazenda parecia ser designada com este nome por outro motivo. Não se menciona nada a respeito da lenda da voz misteriosa que bradou ao vaqueiro, ordenando-lhe que fugisse da montaria. Ao mencionar as potencialidades das terras daquele setor, os conselheiros de Campo Maior citam o sítio de João Antônio Pacheco e José Alexandre Teixeira, lembrando que suas terras são potencialmente produtivas, ricas em águas, que podem ser canalizadas para a irrigação. Mencionam ainda que a terra é muito boa para a criação de gado bovino. Lembram, no entanto, que as terras estão abandonadas a anos. Ao falar disso, o relatório dos conselheiros de Campo Maior pontua a existência de um riacho bravio e desafiador, que segue em um acentuado declive. Os conselheiros explicaram a origem do nome FOGE HOMEM de outra forma. A citação segue mantendo a grafia original:


"Ao leste da Villa, em um rumo directo, existe um riacho denominado Santa Maria, em cujo leito lagiado, se nota um despenhadeiro medonho que forma um taiado de mais de 400 metros d’altura [40 metros], formando em baixo um poço d’água de grande profundidade feito pelo despenhado das águas na estação chuvosa do qual segue o mesmo riacho seu curso. Na distancia d’elle, ao lado de cima nas enchentes da chuva, não se pode passar, porque tudo quanto entra no seu leito, é levado pela extraordinária corrente a precipitar-se no referido despenhadeiro, pelo que tomou uma fazenda de gado vizinha a denominação – “foge-homem” (Anais da Biblioteca Nacional. Conselho Municipal de Campo Maior. Relatório Anual, 1881).


Dessa forma o nome Foge Homem, segundo consta neste documento do Conselho Municipal de Campo Maior, era uma advertência contra o suicídio de tentar fazer a travessia do riacho no inverno, visto que suas águas fatalmente arrastariam qualquer pessoa ao abismo, com queda de quase 40 metros de altura. Qualquer “homem” inteligente deveria “fugir” de tentar vencer suas águas.

Turismo e Culinária · 10/02/2017 - 08h56

Campo Maior: terra da "carne de sol"


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Em todo o Estado do Piauí e em muitas cidades brasileiras, o município de Campo Maior é conhecido como a terra da carne de sol. Aqui no Piauí esse título é consenso, ninguém discute mais a questão, ninguém toma de Campo Maior esse mérito. No Brasil, por conta dos turistas que tem visitado nossa terra – especialmente por causa da Batalha do Jenipapo, festejos religiosos, etc. – no decorrer de anos, a fama e o título começam a ganhar peso nacional. Ano passado a revista Veja publicou em seu site matéria explicando as origens da "Maria Izabel", arroz à base de carne de sol e destacou a cidade de Campo Maior. Nos últimos anos, com a criação do evento cultural SABOR MAIOR, a fama de Campo Maior ganhou forte impulso nacional. Não há dúvida que através deste evento, a culinária campomaiorense tem se destacado e tem comprovado sua fama secular. Campo Maior e carne de sol, hoje, são sinônimos.

Mas o que há de especial com a carne de sol de Campo Maior? A criação de gado em Campo Maior é diferenciada? Os pastos são melhores ou o solo tem algum composto que o diferencia? Você sabe por que Campo Maior tem a fama de terra da carne de sol? Ainda é grande a quantidade de pessoas na cidade que não sabe responder essa pergunta; ou que está enganada quanto à resposta. A história do povoamento de nossas paragens pode nos ajuda compreender essa matéria.

Logo após a metade do século XVII, por volta de 1660 e 1670, nossa terra começou a ser atravessada por fazendeiros portugueses que vinham da Bahia, do Pernambuco e do Ceará, todos com destino a São Luís do Maranhão. Tratava-se de uma nova rota. As rotas antigas seguiam do Sul (Oeiras) em direção ao litoral (Norte), cruzando o Piauí em sentido vertical. A nova rota, que atravessava a atual Campo Maior, região então chamada de Vale do Longá, tinha seu trajeto pela cordilheira da Ibiapaba. Ali os vaqueiros que conduziam o gado desciam a serra e adentravam na região onde hoje cobre as cidades de Castelo a Pedro II. Continuavam seguindo na região, na direção do Longá, sempre caminhando para rio Parnaíba, divisa atual dos Estados (Piauí e Maranhão), numa travessia que cortava o Piauí ao meio, em sentido horizontal, cruzando o Vale do Longá. A nova trilha tornou-se o “corredor do gado” no Piauí.

Nessas muitas andanças de vaqueiros e fazendeiros portugueses, a terra de Campo Maior logo despertou a atenção, especialmente por duas características: as grandes e espaçosas campinas, extremamente propícia para a criação do gado; e a grande quantidade de rios e lagoas que cortavam a terra. Fazendas e curais começaram a surgir ainda nesse período inicial. Boiadas eram trazidas para as terras de Campo Maior, que logo estava cheia, pontilhada de cabeças de gado. A medida que o século XVII chegava ao fim, na mesma velocidade, crescia o número de fazendas e de bois. O gado foi a primeira riqueza de Campo Maior. Trouxe fartura, poder econômico e prestígio aos moradores da região. Isso tudo há cerca de 350 anos atrás, quando Campo Maior ainda não era chamada de Campo Maior, mas já iniciava seu povoamento e sua história com o gado, forte ligação que se comprova desde os tempos mais remotos. Ao despontar o século XVIII, com a fortificação do povoamento de fazendas, com a guerra contra os índios deflagrada, ação que dizimou as populações nativas do nosso território, a criação do gado deu, novamente, mais um grande salto. O índio não deixava de ser um problema para os fazendeiros, pois era comum o roubo do gado e o ataque às fazendas. Sem a presença indígena a criação do gado despontou e a economia do norte também. De todas as povoações do Piauí, Campo Maior sempre esteve bem presente nas dízimas do gado que eram enviados ao centro da colônia. Algumas vezes Campo Maior chegou a superar a própria Oeiras, capital da Província, na criação do gado.

- A carne de sol destaca-se na produção de vários pratos saborosos, como a paçoca, o escondidinho, o arroz Maria Izabel e até em meios às massas, como a pizza e o espaguete.

Alguns documentos antigos, que datam dos anos de 1770 a 1779, comprovam que a riqueza e o poder em Campo Maior vinham mesmo do gado. Chegava-se ao absurdo de um fazendeiro comprar um vestido para uma mulher ao custo de três cabeças de gado, o que equivaleria hoje, por alto, cerca de R$ 5.000,00. E isso era prática comum. Duas garrafas de cachaça custavam um valor superior ao de R$ 1.000,00, isto é, uma cabeça de gado. Para comer uma galinhada era preciso dispor de uma cabeça de gado, e dos grandes. Todo esse esbanjar comprova, não apenas a falta de alguns itens básicos, mas a grande quantidade de gado que estava espalhada nas fazendas de Campo Maior.

Respondendo a pergunta: por que Campo Maior é conhecida como terra da carne de sol? Primeiro, é bom lembrarmos que muita informação equivocada existe. Alguns tem espalhado a notícia que essa fama é oriunda do talento presente em nossa culinária. Outros acreditam que nossos campos tinham compostos especiais que tornavam o capim diferenciado... tudo estória, estória pra boi dormir. A fama se deu especialmente por conta das condições físicas naturais de nosso território. Esse título se deve, a priori, aos imensos campos que estão presentes em nossa região. Essas grandes campinas foram o motivo principal da instalação de muitas e grandes fazendas de gado. A terra logo se encheu de gado vacum. A pecuária era a fonte que mais jorrava riquezas ao povo de Campo Maior (leia-se aqui: aos fazendeiros). Se houve muito gado, isso se deu pelo fato da terra ser favorável, oferecendo grandes campinas e muito pasto.

Como o fazendeiro não dispunha de energia elétrica, a carne era conservada com sal e posta ao sol, para secar mais rapidamente e ser armazenada em pequenas e médias quantidades. Aí estava a carne de sol de Campo Maior, que se tornou lendária no Piauí inteiro. Saiba o leitor que a fama da cidade não vem de hoje, vem de quase dois séculos de tradição. As tradições se transformam e se modelam com o tempo, e a tradição da carne de sol de Campo Maior também passou por essa transformação. Hoje, ao ouvirmos que Campo Maior é a terra da carne de sol, logo ouvimos que o motivo disso é porque a nossa carne é a melhor da região. Não discordo que a nossa carne é a mais gostosa do Piauí, o Sabor Maior vai comprovar mais uma vez que a melhor culinária piauiense está em Campo Maior, mas, sem dúvida nenhuma, a origem dessa fama se deu não por motivos culinários, mas pela força que o gado sempre representou na nossa economia.


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A incerteza quanto ao real lugar onde os brasileiros que morreram na Batalha do Jenipapo estão sepultados levanta uma outra questão, bastante constrangedora, se for confirmada. Primeiro, é importante lembrarmos que o Cemitério do Batalhão, em Campo Maior, tradicional lugar onde se diz que estão enterrados os mortos da Batalha do Jenipapo pode ter surgido a partir do imaginário popular, depois da construção de um Obelisco em memória aos mortos da guerra. Com absoluta certeza posso afirmar que no Cemitério do Batalhão estão sepultados pessoas que viviam na vizinhança e, depois do Obelisco e do simbolismo que adquiriu o lugar, a comunidade, de fato, transformou a área num cemitério. Contudo, antes de 1922, os homens que lutaram na guerra do Jenipapo, “durante anos permaneceram no esquecimento, principalmente por parte das autoridades” (BRASIL, 2002, p. 20).

Nos primeiros 100 anos do pós-Batalha, os heróis do Jenipapo ficaram no esquecimento. Afirmar que os restos mortais dos patriotas que lutaram na guerra do Jenipapo, que consagrou a completa independência do Brasil, também estão nesse cemitério, é algo que ainda não foi provado por ninguém. Apenas um século depois da guerra foi que as primeiras homenagens começaram a aparecer. O que sustenta a afirmativa de que os nossos heróis estão sepultados ali, é tão somente a tradição e nada mais.

- Os soldados portugueses: Fidié os sepultou em algum ponto no lugar do combate

Em segundo lugar, e muito constrangedor, é a confirmação que temos por documento e pela historiografia produzida sobre o tema, que o Major Fidié, após a mortal batalha, depois da dabandada dos patriotas do local de guerra, permaneceu algumas horas no campo de batalha, recolhendo armas, somando as perdas e os ganhos, prestando os primeiros cuidados aos feridos, reavaliando sua estratégia e juntando os cadáveres dos seus soldados. Aqui, para embasar minha argumentação, cito Abdias Neves e o Mons. Chaves:

Não se sabe, ao certo, o número de mortos que tiveram os portugueses, porque Fidié reuniu os cadáveres em cinco sepulturas e não as enumerou na parte da ação (NEVES, 2006, p. 148).

Em Campo Maior permaneceu Fidié dois dias enterrando seus mortos, curando os feridos, reorganizando as fileiras (CHAVES, 2005, p. 86).

Observe que, como afirma Abdias Neves, o Major Fidié enterrou os soldados mortos (no lugar da batalha), em cinco covas. Mons. Chaves segue na mesma linha, deixando certo que ele, Fidié, enterrou seus mortos no campo de batalha, isto é, em terras campo-maiorenses. A quantidade de portugueses mortos varia, segundo a historiografia. Alguns falam em menos de 20, outros chegam a afirmar um número bem superior a 200, até maior, se observarmos a tradição oral. É incerto. Mas, cinco covas abertas sugere um número não muito alto de mortos portugueses. Onde, exatamente, Fidié os enterrou? Não podemos saber; não há nenhum registro do lugar exato. Porém, foi no lugar chamado “Campo do Batalhão”, pois esse foi o palco da batalha: “Em Campo Maior permaneceu Fidié dois dias enterrando seus mortos...”. Também pode o comandante português ter sepultado outros portugueses, que vieram a falecer em seguida, vítimas das feridas de guerra, nas proximidades da casa da fazenda Tombador, a cerca de um quilometro da vila de Campo Maior. Nesta fazenda Fidié passou dois dias: a noite do dia 13 de março, todo o dia 14, e a manhã do dia 15. Ele deixou a fazenda por volta das 11 horas da manhã.

- Major João José da Cunha Fidié, chefe maior das tropas portuguesas

Se a tradição campo-maiorense de que os Heróis do Jenipapo mortos estão enterrados no Campo do Batalhão for realmente anterior à construção do Obelisco (1922), os túmulos que estão lá, podem conter, não os restos mortais dos patriotas que lutavam pela independência do Brasil, mas os restos mortais dos soldados portugueses que foram sepultados no lugar do combate. Podem ser os soldados que Fidié enterrou, conforme citam as fontes. Também deve ser considerado que o cemitério era bem menor do que o que vemos hoje. Atualmente a velha necrópole já está bem adulterada. Quanto aos brasileiros, volto a dizer, não existe nenhuma documentação que ateste que estejam sepultados no lugar do conflito, mas, quanto aos portugueses, estes sim, há testemunhas que afirmam que foram sepultados no Campo do Batalhão, o lugar onde se deu a Batalha do Jenipapo.

O constrangimento, se confirmado a hipótese, está no fato de, há décadas, as forças armadas brasileiras estarem prestando homenagens aos soldados inimigos, que pretendiam nos massacrar. Há muitas décadas, anualmente, o Exército brasileiro, no dia 13 de março, visita o velho cemitério da Batalha do Jenipapo para honrar os heróis brasileiros. O Governo do Estado e o Governo Federal, que reconhecem no Cemitério do Batalhão o último lugar de descanso dos heróis da guerra do jenipapo, visitam o cemitério para prestar as mesmas honras. Seria constrangedor saber que, debaixo daquele chão, estão os portugueses que lutaram para dizimar nosso exército separatista e para manter o Brasil sob o julgo político português.

Contudo, o famoso e quase bicentenário “Cemitério do Batalhão” jamais perderá seu encanto e seu simbolismo. Jamais deixará de ser o cemitério dos veteranos do Jenipapo, dos heróis brasileiros que deram seu sangue pela libertação do Brasil. O simbolismo do cemitério dos Heróis do Jenipapo é perpétuo. Naquele campo, independentemente de onde tenham sido sepultados os bravos soldados campo-maiorenses, sempre se prestará as devidas honras aos nossos homens. Ainda que as sepulturas sejam, de fato, de soldados portugueses, servirá isso apenas para notarmos que aqueles que jazem ali foram eliminados pelos nossos soldados. Naquelas sepulturas está morto o sonho de Portugal.


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Reza a tradição de que aqueles que morreram na Batalha do Jenipapo estão enterrados no cemitério que fica atrás do Monumento. Quando surgiu essa tradição? E o mais importante: os soldados que lutaram na Batalha do Jenipapo estão mesmo enterrados lá?

- Luís Rodrigues de Miranda, ex prefeito de Campo Maior. Em 1922, ele mandou construir as sepulturas de pedra e o Obelisco, caracterizando o cemitério do Batalhão


Quando o Conselho de Campo Maior construiu o Obelisco em homenagem à memória dos Heróis do Jenipapo, já havia decorridos 100 anos da Batalha. Nestes últimos cem anos nenhuma homenagem ou lembrança aos combatentes da guerra campo-maiorense jamais havia sido realizada. Estavam renegados ao mais completo esquecimento. Isso pode ser conferido, por exemplo, em alguns poucos títulos da bibliografia sobre o assunto, a exemplo do José Omar Brasil, campo-maiorense e pesquisador da Batalha do Jenipapo, que lembrou que os combatentes “durante anos permaneceram no esquecimento, principalmente por parte das autoridades” (p. 20). Os jornais da década de 70, especialmente o semanário A Luta, tratou do abandono total da memória dos heróis da Batalha do Jenipapo nos primeiros cem anos do confronto. Portanto, foi a construção do Obelisco que quebrou o silêncio e pôs fim ao esquecimento dos nossos heróis de guerra. Aquele rústico Obelisco fez a primeira honra aos nossos soldados.


Quando o Obelisco foi erigido, em 1922 (para celebrar o centenário da Batalha, no ano seguinte), o prefeito da cidade (Intendente) ordenou que se colocassem pedras, criando ou, fazendo surgir, pela primeira vez, as famosas sepulturas dos que morreram na Batalha do Jenipapo. Adrião Neto destaca que “o prefeito de Campo Maior, Luís Rodrigues de Miranda (Major Lula), mandou construir um rústico obelisco e delinear com pedras as sepulturas dos combatentes que tombaram pelo ideal de independência e de liberdade” (p. 55). Segundo ele, o prefeito apenas mandou “delinear as sepulturas” com pedras, o que seria apenas um tipo de marcação ou o tracejo ao redor das sepulturas. Porém, o texto de Adrião Neto tem base nas referências que o jornal campo-maiorense A Luta apresenta no início da década de setenta, mas com uma linguagem um pouco diferente.

- Obelisco em homenagem aos mortos na Batalha do Jenipapo. Ao redor do Obelisco estão as sepulturas de pedra (1922)

Segundo o editorial do A Luta, “foram construídos túmulos para guardar o corpo dos heróis, como marco que as gerações futuras lembrariam a nobreza e a honra de morrer pela pátria ... estão entregues à sanha incruenta das intempéries os túmulos e monumentos erguidos no palco em que se desenrolou o drama da Batalha do Jenipapo”. O semanário não fala em uma simples marcação, mas, de fato, na construção de túmulos. Chega a falar em “túmulos e monumentos erguidos”, o que nos permite questionar a existência do cemitério anterior a essa data, 1922. Por outro lado, também parece ser o entendimento de que os restos mortais dos combatentes do Jenipapo estavam ali enterrados, pois o texto afirma que os túmulos ou amontoados de pedras serviam para “guardar o corpo dos heróis”. O editorial, quando afirma que os corpos estão lá, apenas seguem a tradição campo-maiorense.

- O semanário A Luta, de Campo Maior. Os editoriais sempre cobravam às autoridades a construção do Monumento do Jenipapo


Nesse tempo, início dos anos setenta, quando o texto do semanário foi publicado, já cinquenta anos havia se passado desde a construção do Obelisco e dos túmulos de pedra. A tradição de que os mortos da Batalha do Jenipapo estão enterrados naquele lugar já estava muito forte cinquenta anos depois do Obelisco (1973). O Governo do Estado do Piauí estava prestes a erguer um grande monumento de concreto para homenagear os Heróis do Jenipapo (erguido em 1973). Assim, naquela época, muitos outros túmulos de pedra foram acrescentados no entorno do Obelisco. Aquele lugar, na década de setenta, já era visto como um lugar de memória, de forte tradição popular, o cemitério dos heróis do Jenipapo, reconhecido pelo IPHAN (1938) e pelo Estado do Piauí.


É muito provável que o cemitério não existisse nos primeiros cem anos da Batalha do Jenipapo. E, se existisse, era praticamente desconhecido de todos, até mesmo da maioria dos moradores da região. Talvez seja por isso que nenhum autor e nenhum documento escrito na época, nem mesmo documentos escritos nos primeiros cem anos do pós-Batalha do Jenipapo faça qualquer tipo de menção ao Cemitério do Batalhão. Nem mesmo o escritor Abdias Neves menciona esse cemitério. No início da premira década de 1900, ele obteve muita informação dos moradores de Campo Maior. É grande a probabilidade de que muitas pessoas que conversaram com Abdias Neves já eram nascidas na época da Batalha. Parece, entretanto, que nenhuma delas conhecia nada acerca do cemitério do Batalhão ou do paradeiro dos mortos.


A homenagem do Conselho de Campo Maior, em 1922, parece ter sido muito mais do que a construção de um Obelisco. Naquela data, pelo que a ata do Conselho e outras evidências parecem sugerir, a construção das simbólicas sepulturas em memória aos Heróis do Jenipapo deu origem ao próprio cemitério do Batalhão e sua tradição. Isso explicaria o completo silêncio em relação ao cemitério e ao destino dos corpos dos combatentes por um século.

 

Questionamentos sobre história · 29/01/2017 - 09h00

Onde estão sepultados os mortos da Batalha do Jenipapo?


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Onde estão os restos mortais daqueles que tombaram na épica Batalha do Jenipapo? A resposta mais comum, claro, é que eles estão sepultados no “Cemitério do Batalhão”, em Campo Maior.

- Cemitério do Batalhão, em Campo Maior. A tradição diz que nesse cemitério estão sepultados os "Heróis do Jenipapo".

A história do cemitério dos mortos da Batalha do Jenipapo se desenvolveu, especialmente, através da tradição popular e de uma religiosidade exacerbada, que podemos denominar de catolicismo popular. Não há registros documentais precisos sobre o lugar dos sepultamentos. Talvez a maior parte dos piauienses (e também os campo-maiorenses) não saiba, mas o Cemitério do Batalhão, na configuração que ele tem hoje, com toda a disposição de sepulturas, nasceu a partir do soerguimento do Obelisco, em 1922, portanto, há 95 anos atrás, quase um século atrás. Esse Obelisco foi levantado como lembrança à memória dos heróis que lutaram na guerra do Jenipapo, e o lugar escolhido para construção do obelisco não foi "o cemitério", como poderíamos esperar no documento. O texto, conforme está escrito na ata do Conselho Municipal de Campo Maior, destaca que esse primeiro monumento foi erguido num lugar chamado "Campo do Batalhão".

Esse texto do Conselho de Campo Maior me causou estranheza. Conforme sugere a tradição secular da Batalha do Jenipapo, os mortos, combatentes da guerra, foram sepultados no atual “Cemitério do Batalhão”. Era natural que os conselheiros municipais de Campo Maior destacassem que o Obelisco seria erguido no cemitério onde jazem os mortos da batalha, e não simplesmente no grande "campo do Batalhão". Mas não o fizeram. Isso seria importante não apenas para identificar o cemitério dos heróis de guerra, mas para deixar a informação da localização muito mais precisa. O cemitério seria o melhor ponto de referência para os conselheiros municipais indicarem onde seria erguido o Obelisco. Contudo, o texto negligencia esse cemitério.

- Obelisco erigido em 1922, localizado no Cemitério do Batalhão, em homenagem aos mortos na guerra

O “Campo do Batalhão” é uma designação ao campo de batalha onde o combate foi travado. Indica o largo espaço geográfico que se deu o confronto. Os conselheiros campo-maiorenses, ao que parece, decidiram erguer o Obelisco num determinado ponto do campo de batalha e não precisamente em um cemitério, visto que o texto jamais se refere a qualquer cemitério. A região, de fato, depois da guerra ficou conhecido popularmente como o “Campo do Batalhão”. Era desejo do Conselho homenagear os heróis que morreram na guerra do Jenipapo com um Obelisco que seria levantado no lugar da batalha.

Depois de 1922, quando o Obelisco foi erguido, o lugar passou a ser visto simbolicamente como o lugar dos mortos do Batalhão. Repito: não há nenhuma informação de que o lugar, anteriormente, já fosse um cemitério. Mas é fato que a partir de 1922 ele passou a ser visto como cemitério. O Obelisco tornou-se um marco para onde as pessoas peregrinavam para rezar aos mortos da guerra. Também para lá as pessoas afluíam para pagar suas promessas e, posteriormente, o lugar passou a receber ex-votos dos fiéis católicos. Foi daí que surgiu a tradição das “Almas do Batalhão”, isto é, a tradição do catolicismo popular de que as almas que morreram no combate eram milagrosas. Acredito que a tradição de que os mortos da Batalha do Jenipapo estão sepultados naquele cemitério também ganhou força nesse mesmo período.

Outro fato importante é que, depois de 1922, é certo que muitas pessoas começaram a sepultar seus defuntos junto ao Obelisco, com a ideia de que o campo sagrado (sagrado por causa dos mortos da guerra) poderia de alguma forma ajudar os mortos. Dessa forma, muitas sepulturas que estão localizadas no cemitério são, na realidade, de pessoas que morreram mais de um século depois da Batalha do Jenipapo.

As produções historiográficas que abordam a temática, desde Luís Antônio Vieira da Silva, que em 1862 escreveu o primeiro registro histórico da Batalha do Jenipapo, até as últimas pesquisas publicadas até 2010, nenhuma informação consta sobre a existência desse cemitério. Nada acrescenta sobre isso Abdias Neves. Em sua obra não há a menor referência de que o lugar onde os mortos foram sepultados é esse cemitério. Odilon Nunes e Mons. Chaves também não afirmam isso e os documentos citados por eles em nada tratam desse assunto. Os autores modernos também nada afirmam. Na realidade, eles também não negam, e provavelmente seguem a tradição que foi desenvolvida em Campo Maior.

- Livro de Abdias Neves, o primeiro livro piauiense sobre a Batalha do Jenipapo. Nenhuma referência ao local onde estão sepultados os mortos da guerra.

Abdias Neves é um caso interessante a ser examinado. Esperava-se que ele, por ter escrito seu livro sobre a Batalha do Jenipapo, A Guerra de Fidié, em 1907, fizesse alguma menção ao velho cemitério dos heróis. Abdias Neves nada fala sobre isso. Nada. Sua obra foi escrita quando apenas 84 anos haviam se passado da Batalha do Jenipapo. É no mínimo estranho que ele, destacando o bravo feito dos homens que lutaram na guerra, a bravura e o patriotismo deles, não faça nenhuma menção ao lugar em que eles estão sepultados.

Se toda essa discussão que levanto já não bastasse, merece consideração o fato de o antigo Cemitério do Batalhão sofrer constantemente violações e acréscimos de sepulturas para dar-lhe a aparência de mais monumental. Uma quantidade considerável de túmulos ou montículos de pedra foi posicionada de modo a aumentar o número de supostos sepultados. Uma tentativa de fraudar a história. Qualquer fotografia antiga, especialmente aquelas que antecedem a construção do Monumento do Jenipapo (1973), revelam que o local foi violado inúmeras vezes. Além disso, a passarela que foi aberta em meio a alguns antigos sepulcros é um absurdo inaceitável. O cenário foi completamente alterado.

Dessa forma, sabendo que estou mexendo num vespeiro, pois sei que o assunto é caro para todos nós, levanto a discussão, a fim de fomentar a pesquisa e buscar a verdade dos fatos sobre o lugar onde os mortos da Batalha do Jenipapo estão sepultados.

Trago mais informações na minha próxima postagem.

Turismo histórico no Piauí · 24/01/2017 - 09h00

O abandonado “Cemitério do Batalhão”


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Pode até parecer meio surreal, mas os cemitérios, além de serem o lugar do “descanso dos mortos”, também são pontos turísticos. Nos Estados Unidos, no Cemitério de Arlington, estão sepultados mais de 400 mil combatentes e mais algumas personalidades, como o ex-presidente John Kennedy. É um cemitério militar, administrado pelo Departamento do Exército dos EUA, mas de acesso público. Foi inaugurado no dia 13 de maio de 1864, e guarda os restos mortais de combatentes de todas as guerras travadas pelos americanos. O cemitério é emblemático e é midiático. Nele, todos os presidentes dos Estados Unidos prestam homenagens aos veteranos de guerra. O último foi Donald Trump. Há também em Arlington, o famoso Túmulo do Soldado Desconhecido, que contém os corpos de três soldados que lutaram na I Guerra Mundial, II Guerra Mundial e Guerra da Coréia. Os três soldados representam todos os mortos de guerra não identificados. O cemitério dos veteranos de guerra de Arlington recebe turistas do mundo todo, todas as épocas do ano, e em grande número.

- Túmulo do Soldado Desconhecido, no Cemitério de Arlington - EUA

No Brasil há o Monumento Nacional aos Mortos da Segunda Guerra Mundial, no Rio de Janeiro, inaugurado no dia 05 de agosto de 1959. No local estão sepultados 462 corpos de combatentes brasileiros que morreram na Itália. Também foi homenageado o Soldado Desconhecido, com um túmulo contendo restos mortais que não foram identificados. É o mais conhecido cemitério de guerra brasileiro.

- Monumento Nacional aos Mortos da Segunda Guerra Mundial, no Rio de Janeiro

Mais antigo que o Cemitério de Arlington (1864), e do que o Cemitério dos Veteranos Brasileiros da II Guerra Mundial (1959), é o Cemitério do Batalhão, que homenageia os mortos da Batalha do Jenipapo, ocorrida em 13 de março de 1823. Localizado na cidade de Campo Maior, o cemitério, simbólico, está situado no Campo do Batalhão, nome pelo qual ficou conhecido o local onde se deu o confronto entre brasileiros e portugueses. A guerra sangrenta era pela total independência do Brasil.

- Cemitério do Batalhão, em Campo Maior. É tombado pelo IPHAN desde 1938

Em 1922, comemorando 100 anos da guerra do Jenipapo, o Conselho Municipal de Campo Maior decidiu erigir um obelisco no Campo do Batalhão, para lembrar os heróis de guerra que tombaram ali. O obelisco foi inaugurado no dia 7 de setembro, dia da independência do Brasil. No ano de 1938, no dia 30 de novembro, o Cemitério do Batalhão foi reconhecido e tombado pelo IPHAN. O registro está no Livro do Tombo Histórico e das Belas Artes. Em 1973, o Governo do Estado, no Regime Militar, inaugurou o Monumento do Jenipapo, uma grande construção que reforçava as homenagens aos heróis da guerra em Campo Maior.

O Cemitério do Batalhão também foi homenageado em um selo postal em 2013. Mais três cemitérios tombados foram homenageados, o do Batalhão, em Campo Maior, é o mais antigo dos cemitérios tombados pelo IPHAN.

- Selo Postal do Cemitério do Batalhão. Foram confeccionados 150 mil unidades

Diferente dos demais cemitérios citados, o Cemitério do Batalhão permanece em completo abandono. Um desprezo terrível àqueles que tombaram na Batalha do Jenipapo. Uma desonra inaceitável aos heróis do Jenipapo. Mas fora isso, a completa ignorância do Estado novamente se destaca. Esse cemitério, como centenas de outros ao redor do mundo, poderia ser um ponto turístico dos mais visitados do Brasil. Até sua localização colabora para isso, visto que ele está fincado às margens da BR 343, que segue em direção a Fortaleza.

Imagino o dia em que alguém vai abrir os olhos para esse descaso e, além de honrar a memória dos homens que lutaram pela nossa liberdade, vai transformar aquele lugar num ponto turístico. Quantos sulvenirs poderiam ser vendidos, lembrando cenas da guerra? Pequenas estatuetas, medalhas, brasões, camisetas, bandeiras, livros, réplicas das armas. O local não conta com nenhum tipo de loja ou alojamento e não há lugar para refeição, nem para banho. O museu é um atentado à história, com peças fraudulentas, de outro período histórico, inclusive. Não tem auditório. Nada! A verdade é que o lugar está abandonado e sempre foi assim, desde 1823. Só na véspera, dois dias antes do 13 de março, o abandonado monumento é limpo.

- Durante quase todo ano o local fica totalmente abandonado

Não há interesse político. Morto não vota, é uma pena. É um retrato da falta de cultura e de visão, de intelectualidade, de entendimento econômico, tudo falta em nossos políticos. No âmbito nacional, jamais um presidente brasileiro teve a sensibilidade de visitar o Monumento do Jenipapo e o Cemitério do Batalhão, muito diferente dos presidentes dos Estados Unidos, que honram seus soldados. No Brasil, o presidente é o Comandante em Chefe das Forças Armadas. Descaso absurdo. Nem mesmo uma bandeira existe no local. As bandeiras do Brasil, do Piauí e de Campo Maior, deveriam tremular noite e dia no Campo do Batalhão, e a presença de um posto do Exército também era necessária. Até quando será assim? Um potencial turístico gigantesco no mais completo descaso.


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Desde de que tomei mais consciência da importância que o passado exerce para alavancar a economia de um lugar, me pergunto porque toda a potencialidade do Piauí é tão mal explorada, ou, na maioria das vezes, negligenciada. Sou filho de uma cidade historicamente privilegiada: Campo Maior. Quando estive na universidade, no curso de História, era consenso entre todos os professores a importância significativa da cidade para a história do Piauí e do Brasil. A nível nacional, Campo Maior é protagonista do mais significativo episódio da nossa independência: a Batalha do Jenipapo.

Na gestão pública parece haver uma total incapacidade em compreender que o turismo histórico tem se mostrado um grande aliado da economia local em muitas cidades brasileiras. Muitas vezes chegando a superar as bases tradicionais da economia de um município. Algumas cidades têm explorado esse setor de maneira que os frutos econômicos têm se revelado impressionantes. Apenas para citar dois exemplos: Ouro Preto, em Minas Gerais e Salvador, na Bahia. Só em Salvador, são 372 igrejas incluídas nos vários menus que o turista recebe para escolher seu passeio. Só em Salvador! Em Ouro Preto há outro mundo de possibilidades, desde monumentos até locais de efetiva beleza natural. As duas cidades têm aproveitado suas potencialidades para o turismo histórico e a economia gerada a partir disso se aproxima dos valores repassados pelo Governo Federal. Isso equivale quase a dois Fundos de Participação mensais. Outras cidades vivem praticamente do turismo o ano inteiro.

Praticamente todo o Piauí, de Norte a Sul, tem capacidade de crescimento econômico através do turismo histórico, de forma direta ou indireta. Em Campo Maior, por exemplo, esse potencial jamais foi devidamente aproveitado. Houve algumas tentativas, mas todo esforço ficou mesmo na mesa de reunião. O único movimento turístico que acontece em Campo Maior, mas de forma mal explorada, é o evento culinário Sabor Maior, desenvolvido, na época, pelo geógrafo Marko Galeno. Além dele, não existe nenhuma iniciativa pública ou privada que ofereça alguma proposta sobre o turismo histórico.

Somente em fazendas de gado que remontam o século XVIII, que ainda hoje preservam parte do seu passado, há espaço para se preparar um circuito histórico extraordinário. Há, inclusive, fazendas que remontam o finalzinho do século XVII, como parece ser o caso da Abelheiras, antigo feudo da família portuguesa Garcia D’ávila. Na primeira metade do oitocentos, Jacob Manoel de Almendra comprou a propriedade e construiu um casarão que até hoje pode ser visto e visitado. Essa propriedade é um testemunho vivo da história piauiense mais antiga, remontado os anos iniciais do povoamento da região norte. A fazenda é um laboratório para se estudar a história do escravo africano, que povoou aqueles sertões campo-maiorenses em numerosa quantidade.

Existe preservado na fazenda um colossal muro de pedra, que remonta os primeiros povoadores. O muro é uma atração à parte, pois foi todo levantado pela mão escrava e servia como curral para o gado. A história econômica de Campo Maior e do Piauí também envolve a fazenda Abelheiras, pois o gado, principal motor econômico do Piauí nos primeiros séculos, se amontoava em seus campos. A história do vaqueiro, da lide com o gado, de suas jornadas, dos desbravamentos, dos índios que fervilhavam nessas paragens, da antiguidade da colonização, tudo pode ser observado a partir da Abelheiras. Além dela, percorrendo o mesmo circuito histórico encontramos as antiguíssimas fazendas Foge-Homem, Trabalhado, Jatobazal, seguindo adiante o sítio da antiga Tabocas, Tapera, Tucaia, dentre outras. Um tesouro inexplorado pelo turismo histórico piauiense.

A própria história do vaqueiro pode ser contada a partir de uma visita à fazenda de gado. Desde a história dos primitivos vaqueiros portugueses até os cavaleiros negros e indígenas que trabalharam na atividade do cuidado dos rebanhos, tudo pode ser apresentado. O turismo histórico no Piauí, desde que bem elaborado e com guias capazes, pode proporcionar um passeio inesquecível e uma contribuição inestimável para a economia local, além da divulgação das histórias e tradições do povo. Outro detalhe: o turismo não é movido só pelo que se vê, mas também o que se ouve e o que se sente. Aqui é importante frisar o papel da história imaterial. Quando o turista entra em uma fazenda antiga ou visita um curral de ferragem de gado, inúmeros elementos que formam a história imaterial devem entrar em ação para dar mais força ao passeio. A participação de personagens e de fatos que marcaram o ambiente no passado, as lendas em torno do lugar, tudo ganha vida no turismo histórico. A história do velho vaqueiro, que dominou os campos da região; as pegas de boi. Tudo ganha vida. Além de ver, o turista vai sentir e se emocionar.

A ineficácia e a cegueira secular do governo, que poderia aproveitar essa potencialidade, é inaceitável e não deixa de ser um disparate. Mas o setor privado também mostra pouco tino comercial por não ter se mobilizado até agora. Além das fazendas, que citei nesse artigo como exemplo, poderíamos discutir muitas outras temáticas, inclusive a exploração de centros urbanos antigos, igrejas centenárias, cemitérios, praças e outros logradouros públicos, lugares de beleza natural, lagos, cachoeiras, e mais uma infinidade de potencialidades. É preciso que alguém acorde para essa realidade.