Produção artesanal · 28/09/2012 - 16h28

Do sertão para o mundo: Cerâmica piauiense é potência ecológica e social

Do sertão para o mundo: Cerâmica piauiense é potência ecológica e social


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A cerâmica piauiense é considerada uma das melhores do mundo. E não é exagero. Muita gente conhece mais a da capital Teresina, feita no Pólo Cerâmico do Poty Velho, zona Norte de Teresina.

Mas tem um local onde esse produto é ainda mais bem trabalhado e pouca gente conhece. A reportagem do 180graus foi até lá: Cerâmica Serra da Capivara, localizada no município de Coronel José Dias (a 555km de Teresina). Onde já possui um longo histórico, tanto na sua forma e métodos de fazer, quanto nos moldes, pintura, comercialização e utilização mundo afora.

As peças teresinenses são geralmente utilizadas em decoração, devido ao seu material não ser indicado para o uso culinário. Entretanto as peças que são produzidas em Coronel José Dias são autenticadas e possuem um selo de autorização que permite sua utilização no forno, micro-ondas entre outras utilidades domésticas. Nossa reportagem foi até os dois e fez uma espécie de comparativo. Uma coisa é certa: vale a pena conferir!

CERÃMICA DO POTY VELHO
A argila do polo cerâmico do Poty velho é colhido nos bairros Poty Velho e Olaria às margens dos rios Poti e Parnaíba. Essa atividade ainda é considerada perigosa, pois o trabalhador usa apenas picareta e uma pá, sem proteção algum num trabalho que dura em média 10 horas, pois antes de ser retirada, é necessário, que se desmate o terreno.

A matéria-prima que é extraída dos barrancos recebem 30% de areia, e água que serão misturados para ser elaborada a massa; após 24h ela é cortada com uma enxada em forma de bolas e deverão passar pelo cilindro para adquirir homogeneidade e, ao chegarem aos galpões a argila será amassada em pequenas quantidades para o manuseio e produção das peças.

A maior parte do trabalho é feito manualmente, inclusive na fase de retirada do ar, segundo Dona Raimundinha, presidente da Associação dos Artesãos em Cerâmica do Poti Velho (Arcepoti), essa fase é realizada com batidas à mão e, só depois serão moldadas tanto manualmente quanto no torno. A secagem dura em média de três a cinco dias para então ser levada para a fase de acabamento.

Por fim, as peças são queimadas em um forno à lenha durante 24 horas, de acordo com informações ainda da Arcepoti, a madeira utilizada nesse processo, em sua maioria é autorizada pelo Ibama e outra é adquirida por restos de material de construção. Em seguida, as peças passarão pelo resfriamento que é a fase de conclusão e dura também 24 horas.

CERÂMICA SERRA DA CAPIVARA
Já Cerâmica Serra da Capivara faz parte de um grandioso projeto inicialmente organizado pela Fundação Museu do Homem Americano FUMDHAM no qual reúne as mais variadas peças decorativas e de utilidade doméstica inspiradas nos desenhos rupestres da pré-história piauiense.



Fundado em agosto de 1994 a Cerâmica Serra da Capivara contava com um pequeno espaço e apenas quatro artesãos para a produção e abastecimento de algumas peças para serem comercializadas na loja do Hotel Serra da Capivara, em São Raimundo Nonato, como também na venda aleatória para turistas. Além disso, a queima da cerâmica era feita em fornos a base de lenha retiradas da área de preservação.

Hoje, funcionando há cerca de 18 anos a cerâmica conta com 28 artesãos numa oficina de grande porte localizada no povoado Barreirinho, zona rural do município de Coronel José Dias, Totalmente artesanal e respeitando as leis de preservação ambiental, a oficina trabalha com a população do entorno do Parque Nacional da Serra da Capivara, visando fornecer alternativas de emprego e renda incentivando um comércio ético e solidário, o respeito ao meio ambiente, a inclusão social e o consumo consciente.

Reconhecida nacional e internacionalmente por trabalhos de cunho social e ambiental a Cerâmica Serra da Capivara conquistou o primeiro lugar em um evento em 2009 promovido pelo Conselho Brasileiro de Desenvolvimento Sustentável (CEBEDES), uma associação pela promoção do Desenvolvimento Sustentável e do diálogo entre as empresas, a academia, as ONGs, o governo e as pessoas.

Com a união de técnicas artesanais e alta tecnologia a Cerâmica Serra da Capivara se destaca tanto pela seleção da argila que é utilizada quanto à substituição da lenha para o gás como forma de impedir o desmatamento. Para a escolha da argila foi feita primeiramente um estudo no qual foram testados 20 tipos para ser escolhido apenas dois, um localizado no povoado João Costa (a 514km de Teresina) e outro no próprio povoado Barreirinho. Sendo que não é qualquer tipo de argila que suporta as altas temperaturas para ser moldada.

Conheça o processo de produção da Cerâmica Serra da Capivara:

1ª fase: limpeza da argila por meio de uma peneiragem e segundo a decantação, à mistura dos dois tipos selecionados por mais ou menos oito dias para se chegar a ponto ideal.

2ª fase: A secagem da argila para se ter uma maior densidade é usada um cocheira exposta ao meio ambiente.



3ª fase: A argila é colocada em um depósito para mantê-las densas evitando a secagem completa do material, ainda bruto.



4ª fase: a argila passa por uma máquina chamada de maromba e/ou estrusora para que o material fique homogêneo retirando as bolhas de ar;



5ª fase: modelação das peças: umas serão feitas no torno, geralmente peças menores e de fácil moldagem, ou fôrmas. Inclusive, hoje a Cerâmica Serra da Capivara conta com seis tornos elétricos;



6ª fase: processo de acabamento feito do lado externo da peça que segue padrões de medida e formatos;

7ª fase: secagem completa é feita naturalmente, exceto as de pequeno porte que são expostas ao sol para agilizar a secagem e retirada das fôrmas;



8ª fase: ocorre a primeira queima a uma temperatura de 800* por aproximadamente 10h para adquirir resistência e ser lixada;



9ª fase: feita a impermeabilização com cera de carnaúba pura aquecida para depois ser realizado o desenho, padronizado com figuras rupestres presentes nos parques piauienses com cores padrão que são: azul, bege, branco e verde;



10ª fase: a argila é esmaltada e há a segunda queima feita gradativamente chegando a uma temperatura de 1.250* por cerca de 12 a 15 horas.



Por fim, a fase do resfriamento que é feita em aproximadamente 48h. Todo esse processo dura em torno de 8 a 10 dias para resultar no produto a ser comercializado.


(Coleção 2013)
(Coleção 2013)


(Coleção 2013)

Texto: Allana Sousa / Colaboração: Anne Neves / Edição Allyson Paixão