Geral

Caso Arimatéia Azevedo · 03/03/2021 - 15h43 | Última atualização em 03/03/2021 - 16h19

Ney Ferraz diz que denunciou cirurgião ao jornalista Arimatéia Azevedo para alertar outras mulheres

Em juízo, marido da suposta vítima do cirurgião plástico Alexandre Andrade Souza conta em detalhes o que a esposa passou após o pós-operatório


Compartilhar Tweet 1



Por Rômulo Rocha - Do Blog Bastidores

 

_Ney Ferraz: Marido da vítima de cirurgião plástico. E uma das testemunhas no processo contra o jornalista Arimateia Azevedo (Imagem: Reprodução)
_Ney Ferraz: Marido da vítima de cirurgião plástico. E uma das testemunhas no processo em que é réu o jornalista Arimatéia Azevedo (Imagem: Reprodução) 

"É UMA MÃE DE DOIS FILHOS"

O presidente do Instituto de Previdência dos Servidores do Distrito Federal (Iprev) Ney Ferraz disse em juízo, como testemunha arrolada pela defesa no caso que envolve o jornalista Arimatéia Azevedo, que procurou o profissional de imprensa para  expor o que julgou ser um erro médico do cirurgião plástico Alexandre Andrade Souza visando alertar outras mulheres e, também, devido ao descaso do profissional da área de saúde após tomar conhecimento do caso.  Alexandre é apontado como o autor de um procedimento estético errôneo no seio de Emanuela Dourado Ferreira Ferraz.

"(...) Pela falta de assistência que ele deu à cliente, que é uma filha, é uma mãe de família de dois filhos", desabafou, justificando porque procurou membro da imprensa. Concluindo: "minha intenção real [ao procurar o jornalista] naquele momento era que não acontecesse mais com outras mulheres, com outras mães de família isso que tinha acontecido. Era uma tremenda insatisfação, e (inaudível) que a sociedade tivesse conhecimento que a equipe médica que lá ficava postando mensagens em Instagram, WhatsApp, como se fosse melhor do mundo e não era".

No depoimento que ocorreu última semana, Ney contou detalhes do que viveu, como ao chegar em casa e ver no chão substância "cor meio amarelada, um negócio estranho, cheio de pus, um negócio horrível", advinda do seio da mulher com quem casou e construiu uma família.

Também narra que ao entrar em contato com o médico foi aconselhado a procurar um hospital público. 

"Aí nesse momento ela [Emanuela Dourado Ferreira Ferraz] entrou em prantos, chorando. Aí eu disse: pôxa, paguei tudo particular, com ele, e ele veio… eu achei no mínimo uma situação meio que desproporcional, uma falta de… não dando a devida assistência, a devida assessoria, porque o problema também não é só físico, o problema também é psicológico, a mulher, principalmente, passando por isso", contou em juízo.

Segundo ele, foi encontrado um pedaço de pano de mais de 30 centímetros no seio/ombro da sua esposa. E que o artefato já estava "enraizando", o que fez ela correr risco de vir a óbito devido à eventual infecção.

Ney Ferraz relata, entre outras experiências ruins sobre a cirurgia malsucedida, que sua esposa ainda vai ter que realizar uma nova cirurgia reparadora esse ano. O que incorre em mais gastos.

Também informou que denunciou o caso à Polícia Civil do Distrito Federal e que o caso teria sido remetido para o Piauí. A intenção é que a conduta médica seja apurada no âmbito criminal também em território piauiense. 

"A informação é que deve ter sido enviado para Teresina. Mas eu não tenho como lhe [ao juízo] precisar em que pé é que está. Depois que é feito a denúncia, a informação, a coisa anda. Não tem como parar", acredita ele.

O repasse de informações ao jornalista Arimatéia Azevedo, a publicação do caso, com possibilidade de direito de resposta ao médico, foram o estopim para que Alexandre - na versão oficial supostamente - procurasse a polícia piauiense e se dissesse vítima de chantagem por parte do profissional de imprensa, que chegou a ser preso pela Polícia Civil do Piauí em um inquérito que o advogado Palha Dias já classificou como no mínimo "estranho".

O advogado do jornalista também disse estranhar que o médico não tenha sido investigado pela polícia do Piauí na ocasião em que procurou a instituição - como publicou o Blog Bastidores, do 180graus.com, na matéria titulada Advogado Palha Dias "estranha" não terem investigado médico que acusa jornalista Arimatéia Azevedo.

No autos constam defesa explícita do médico por parte de algumas autoridades, incluindo membro da polícia e do judiciário, o que o advogado de defesa também estranhou.

O julgamento do profissional de imprensa Arimatéia Azevedo - que foi solto pelo STJ, após membro desse tribunal não detectar fundamentação idônea para a prisão, como também noticiou o Blog Bastidores - está em curso, ouvindo-se ainda as testemunhas arroladas. Só então o jornalista será ouvido, abrindo-se em seguida prazo para as alegações finais para posterior sentença. 

_________________

- VEJA A ÍNTEGRA DO DEPOIMENTO DE NEY FERRAZ E AS INDAGAÇÕES DO ADVOGADO DE DEFESA DO JORNALISTA ARIMATÉIA AZEVEDO, O CRIMINALISTA PALHA DIAS:

_Jornalista Arimateia Azevedo, réu em processo após denúncia de médico cirurgião plástico (Imagem: divulgação)    Foto: Reprodução/ Portal AZ
_Jornalista Arimateia Azevedo, réu em processo após denúncia de médico cirurgião plástico   Foto: Reprodução/ Portal AZ

 

Testemunho de Ney Ferraz à Justiça: Ela [Emanuela Dourado Ferreira Ferraz] teve que fazer uma cirurgia corretiva porque uma das próteses estava subindo, não ficou bem feito, no local do seio direito. E assim foi marcada uma nova cirurgia. O doutor Alexandre [Andrade Souza] marcou uma nova cirurgia. E nessa nova cirurgia corretiva para ajeitar o silicone, possivelmente, por um problema na primeira cirurgia. E assim fez essa nova cirurgia. Aparentemente estava tudo normal, estava tudo perfeito e nós, com o passar dos meses, tivemos que vir morar em Brasília. Morando em Brasília ela começou a dar uma reação, não sei se alérgica, mas uma reação, uma rejeição do organismo com alguma coisa. E essa alguma coisa a gente não descobria. E ela dando febre, tinha uma secreção de pus enorme, todos os dias. E aumentando, aumentando, aumentando. E a gente entrava em contato com o médico, o doutor Alexandre, e o doutor Alexandre dizia que era normal, que era normal, e procurasse botar o remédio, e medicando ela, medicações, medicações. Isso tudo via telefone, meritíssimo. E foi se agravando. A gente procurou outros médicos. Desculpe ao meritíssimo e à promotora, eu posso até me equivocar com o nome… [procuramos] uma mastologista, e quando nós encontramos uma médica aqui em Brasília especialista, essa mastologista, ela disse que a situação era grave, que a infecção estava aumentando. A gente não queria acreditar, porque queria se apegar a uma forma mais fácil de resolver. E assim foi se agravando e o pus chegou a um ponto...  a gente estava em um jantar na minha casa, com minha irmã e com meu cunhado aqui em Brasília... fui deixar meu cunhado em casa e quando eu volto, por volta de 11 horas da noite, ela estava chorando, dizendo que tinha estourado o seio dela. (...) Uma secreção meio avermelhada, não era sangue 100%, era uma secreção mesmo, um vermelho meio viscoso, uma cor meio amarelada, um negócio estranho, cheio de pus, um negócio horrível. E tinha um quarto completamente derramado dessa substância. Eu disse pronto: pois morreu. Um negócio terrível. Levamos ela para o médico e lá foi feito a limpeza. No outro dia de manhã ela entrou em contato com o doutor Alexandre e o doutor Alexandre disse assim: procure um hospital, ele falou o nome de um, HRAN. É um hospital público aqui do Distrito Federal. Aí nesse momento ela [Emanuela Dourado Ferreira Ferraz] entrou em prantos, chorando. Ai eu disse: pôxa, paguei tudo particular, com ele, e ele veio… eu achei no mínimo uma situação meio que desproporcional, uma falta de… não dando a devida assistência, a devida assessoria, porque o problema também não é só físico, o problema também é psicológico, a mulher, principalmente, passando por isso. Levo ela em outro médico, cirurgião plástico aqui em Brasília, que me recomendaram. Chegando lá, era uma sexta-feira, por volta das 11 horas da manhã, e o médico disse: ‘olha o caso dela é gravíssimo e ela tem que fazer cirurgia amanhã de manhã cedo. Ela pode até morrer por conta da infecção’. Ele disse que na hora que manuseou, eu não estava dentro da sala, disse que já dava até para ver a prótese. E o nosso receio era que acontecesse o pior, era a rejeição do corpo. O corpo dela ir rejeitando, ela ficar sem seio. Paguei o procedimento à vista, porque tinha que ser no outro dia de manhã. Não tinha como ir atrás de plano de saúde. Paguei tudo à vista. Foi feito de manhã cedo. E a cirurgia, tinham me dito, seria uma cirurgia rápida. E demorou. Demorou cerca de três, quatro horas. Quando ele entra na sala, ele [o médico do DF] entra com um médico parceiro dele que fez a cirurgia [com ele], e entrou com um semblante meio preocupado e disse: ‘olha, deu tudo certo, mas achamos um probleminha. Tinha uma coisinha lá’. A primeira coisa que eu pensei logo: era um câncer, um nódulo? É a primeira coisa que a gente pensa, não é? Ele disse: ‘não, não é. Nós achamos uma compressa’. Eu falei: é gaze? Ele disse: ‘não, gaze é uma coisa pequena, compressa é tipo um pano, de 30 a 40 centímetros e estava no seio da sua esposa, altura aqui já do ombro. Retiramos e ele era o ensejador. E aí nós tivemos que fazer uma raspagem porque já estava tanto tempo lá dentro que já estava se enraizando, grudando’. Deu tudo certo. Não teve mais infecção nenhuma. Tirou as próteses. Ele fez uma cirurgia corretiva no seio e procuramos o Alexandre no mesmo dia com a prova, com o pano. E começamos a explicar: aconteceu isso. E isso foi mais ou menos em setembro. Foi setembro, outubro, novembro e nada. Ele só ficava vamos fazer, vamos conversar, aí botava a advogada. E essa advogada vinha, ao invés de procurar uma forma de solucionar, vinha era atacar. Não tinha interesse de resolver. Até que nós resolvemos ajuizar uma ação. Em meados de novembro eu entrei com uma ação e foi marcada uma audiência de conciliação (inaudível)... passou Natal, Ano Novo. Chego em Brasília novamente, dia 02, 03 de janeiro. Eu vou olhar por acaso o andamento do processo e tinha uma petição. Mas outro advogado, ele ficava mudando o tempo todo de advogado. Era bem o terceiro. O advogado peticionou dizendo que não tinha interesse em fazer nenhum tipo de conversa de auto negociação na audiência de conciliação. Não tinha e podia passar adiante para a instrução. Aí eu estava já extremamente chateado, não pela… sendo bem sincero, não estávamos atrás de nenhum tipo de dinheiro. Nada disso. O que mais me chateou foi a falta total de assistência que ele não deu em momento algum para com a minha esposa. Aí eu explodi no dia e entrei em contato com o jornalista [Arimateia Azevedo] explicando o que tinha acontecido. O processo era público aqui na vara. O advogado do médico Alexandre peticionou pedindo sigilo. E esse pedido foi negado. Passei para ele Arimateia via WhatsApp todas as informações, cópia integral do processo e expliquei o que aconteceu. E perguntei se não tinha como dar publicidade. Porque minha intenção real naquele momento era que não acontecesse mais com outras mulheres, com outras mães de família isso que tinha acontecido. Era uma tremenda insatisfação, e (inaudível) que a sociedade tivesse conhecimento que a equipe médica que lá ficava postando mensagens em Instagram, WhatsApp, como se fosse melhor do mundo e não era. Errar todo ser humano erra, principalmente, qualquer profissional liberal da área médica, principalmente, está suscetível, como advogado, também está suscetível, promotor, juiz. Todo mundo está suscetível a errar. Mas o que mais me fez procurar o portal do jornalista Arimateia foi a falta de consideração, respeito com a vida com seu cliente e a falta de assistência [por parte do médico]. Procurei e ele [Arimateia Azevedo] prontamente disse que achava um absurdo aquilo ali e iria sim preparar uma matéria e que provavelmente teria outros casos. E assim foi feito. 

Advogado Palha Dias: o senhor pagou ao jornalista Arimateia para sair essa matéria?  

Ney Ferraz: Em momento algum eu ofereci. Em momento algum me foi pedido. Então eu procurei o jornalista, passei as informações, todas elas públicas e em momento algum foi tratado em qualquer momento a respeito de valor.

Advogado Palha Dias: E o desfecho da ação. O senhor promoveu uma ação cível. Promoveu uma ação criminal, (inaudível), qual foi a ação que o senhor promoveu?

Ney Ferraz: Nós interpusemos uma ação cível para reparar o dano e também nós promovemos uma queixa junto à polícia, aqui no Distrito Federal, na delegacia de polícia. A informação é que deve ter sido enviado para Teresina. Mas eu não tenho como lhe precisar em que pé é que está. Depois que é feito a denúncia a informação, a coisa anda. Não tem como parar. Na ação cível foi feito um acordo, óbvio que somente após a matéria eles nos procuraram. Trocaram mais umas três vezes de advogado, mesmo assim. E cada um vinha dizendo que tinha poder para negociar e quando a gente estava tentando acabar com a confusão mudava, até que resolveram, o último, um advogado, e acabamos entrando num denominador comum para acabar com a ação judicial. Mas somente após a matéria ser publicada. 

Advogado Palha Dias: Na ação cível?

Ney Ferraz: Cível. 

Advogado Palha Dias: O senhor poderia dizer qual foi esse valor desse acordo que ele [médico Alexandre] pagou?

Ney Ferraz: Foi algo em torno de R$ 100 mil. Foi R$ 90 mil.

Advogado Palha Dias: Depois de o senhor receber essa importância o senhor Arimatéia lhe procurou pedindo alguma recompensa? 

Ney Ferraz: De forma alguma. O acordo foi feito depois da matéria, mas no caso, através de advogados. Ele médico, pessoalmente, me procurou, pessoalmente que eu digo por telefone, me procurou. Eu disse que eu estava extremamente chateado com o fato, triste com a matéria mais ainda porque tive que externar a insatisfação da família. Aí eu volto a reprisar, pela falta de assistência que ele deu à cliente, que é uma filha, é uma mãe de família de dois filhos. E ele chorava, dizia que estava chateado e iria botar um advogado. E assim foi feito um acordo, que nem de longe reparou nada disso. Até porque vai ter que fazer esse ano uma nova cirurgia para poder concluir [a solução] do problema. Após a conclusão do acordo em momento algum o jornalista ora aqui presente na audiência me procurou para falar alguma coisa a respeito de pedir ou induzir algum tipo de solicitação de dinheiro para a vítima. 

Advogado Palha Dias: Para esclarecer mais os fatos, o senhor Alexandre, quando pagou esse acordo, R$ 90 mil, ele pagou em cheque, em espécie, como é que foi feito?

Ney Ferraz: Através de uma transferência bancária para a conta da minha esposa, conta do BRB, diretamente na conta dela [em meados de janeiro de 2020]. 

VEJA TAMBÉM:________

- Interceptação no telefone de Arimatéia Azevedo não "gerou áudio relevante", diz polícia

- Ministra do Supremo derruba censura judicial imposta por juiz do Piauí ao Portal AZ

- Ministra do STJ sobre prisão de Arimatéia Azevedo: "não detectei fundamentação idônea"

- Advogado Palha Dias "estranha" não terem investigado médico que acusa jornalista Arimatéia Azevedo

Comentários