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Muitas conquistas ao estado · 04/05/2013 - 20h32

Missão franco-brasileira completa 40 anos no estado do Piauí

Niède Guidon descobriu florestas tropicais onde tudo parecia sequidão


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Com o mérito de ter mudado a história da ocupação do continente americano, provando através de inúmeras pesquisas científicas que as hipóteses propostas pelos arqueólogos norte-americanos estavam ultrapassadas, a arqueóloga brasileira Niéde Guidon, volta a ser motivo de orgulho internacional. Depois de chegar aos 80 anos de idade no último mês de março, comemorados com apelos para conclusão das obras do aeroporto de São Raimundo Nonato (525 km de Teresina), sua equipe celebra agora os 40 anos da chegada da Missão Franco-Brasileira de Arqueologia ao Piauí, com sucesso e destaque nos principais jornais, revistas e emissoras de televisão do planeta.

Poucas vezes na história mundial se documentou tão detalhadamente a trajetória de uma pesquisadora que deixou uma vida de conforto, arte e ciência na luxuosa capital da França, Paris, para se dedicar a uma série de pesquisas multidisciplinares numa das regiões com menor índice de desenvolvimento humano do Brasil. No sertão assolado pela estiagem e a miséria, Niéde fez história e ciência mudando radicalmente os destinos de famílias, paisagens e regiões pela Caatinga adentro.

Guidon descobriu florestas tropicais onde tudo parecia sequidão.
Desenterrou do solo arenoso e causticante, pedras, esqueletos humanos, 10 mil fósseis da megafauna e pedaços de carvão que estão mudando os rumos da ciência. Trouxe para a pequena São Raimundo Nonato especialistas do Brasil, Itália, Espanha, França, Estados Unidos.Fez o papel de apresentadora positiva do esquecido Piauí para veículos de comunicação do Japão, Alemanha, Inglaterra, Israel.

Sugeriu e implementou o Parque Nacional Serra da Capivara, que hoje é Patrimônio Cultural da Humanidade pela Unesco e gera uma centena de empregos. Fez surgir do solo seco do sertão, escolas de tempo integral (projeto paralisado pelo Governo Federal) para as crianças dos povoados que fazem limites com a reserva ambiental. Formou técnicos e profissionais extremamente capacitados que atualmente trabalham na região, no país afora e até no exterior.

Na periferia de São Raimundo Nonato, onde inexplicavelmente os moradores não valorizam seu espaço e continuam jogando lixo pelas ruas, nasceu um complexo de instituições científicas formado pelo Museu do Homem Americano (Fumdham) e pelo Centro Cultural Sérgio Motta, com pesquisadores e laboratórios que não deixam a desejar a nenhum grande centro de pesquisas do país. Infelizmente a avenida que dá acesso ao local, recheada de buracos, representa a prioridade política dos atuais governantes.

Na área da ciência fica a imperativa necessidade de se revisar a história de ocupação das Américas. Niéde nunca foi contra os cientistas norte-americanos, ao contrário, em 1993 fez um seminário internacional em São Raimundo Nonato e trouxe exatamente os pesquisadores mais críticos e reticentes à mudanças na teoria de chegada do homem ao continente. Todos ficaram impressionados com o que viram no Piauí. Alguns, ao voltar para os Estados Unidos, publicaram artigos contestando as datações. Outros refirmaram a necessária revisão de suas pesquisas e reconheceram os trabalhos realizados na Serra da Capivara.

Fechando um ciclo de 40 anos da Missão Franco-Brasileira de Arqueologia do Piauí, iniciada na década de 1970 sob a coordenação da equipe de Niéde Guidon e paralisada no começo da década de 2000 com a sua aposentadoria através do governo francês (sim, apesar de brasileira, Niéde sempre foi mantida trabalhando na Serra da Capivara através da Universidade de Altos Estudos em Ciências Sociais, Sorbonne, de Paris), a missão logo foi retomada em meados de 2009 pelo pesquisador francês Eric Boeda.

Agora as primeiras datações da equipe de Boeda reafirmam claramente as descobertas de Niéde Guidon e começam a ganhar destaque pelo mundo afora. Por enquanto, são datações com 22 mil anos. Niéde sempre defendeu uma ocupação com, no mínimo, 50 mil anos - datações mais recentes recuam para 100 mil. A ciência vai dando passos lentamente e Niéde caminha quase sempre correndo, muito à frente do nosso tempo.


Fonte: Com informações da Assessoria