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Sociedade no rumo certo? · 19/08/2015 - 19h00 | Última atualização em 19/08/2015 - 22h59

Jornalista do 180 revela impressões da 'atroz chacina' em Alegrete do PI

Misto de surpresa e medo na pacata comunidade que nunca imaginava ser palco da tragédia


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Por Jhone Sousa
Direto de Alegrete do Piauí

Eram 5h50 quando cheguei ao município de Alegrete do Piauí. A cidade ainda despertava e algumas pessoas eram vistas às margens da BR-316, que corta a cidade. A viagem de cinco horas, desde a saída da Teresina, alimentava minha curiosidade. Curiosidade esta compartilhada com muitos piauienses a respeito de um crime que vitimou seis pessoas e que é cercado de mistérios.

Parei em um posto de combustível. O frentista ainda sonolento percebeu minha presença no carro da reportagem e demonstrou querer ajudar de alguma forma. Questionei onde havia acontecido ‘o crime’, ele não sabia exatamente onde era, mas já sabia, pelo boato de que seis pessoas haviam sido assassinadas na noite anterior. Ele mostrou-me a direção, e segui em busca de mais informações.

Cada parada um questionamento, até que disseram que o local ficava depois do povoada Malhada Alta. Segui a BR, passei uma ponte, uma subida, depois uma descida, e um ponto de ônibus me guiaria a entrar do lado esquerdo. Mais na frente me disseram que a tragédia aconteceu no povoado Boa Vista, e por fim o local exato era o Boa Vista ‘de cima’.

Uma das pessoas que pedi informação foi uma idosa de nome Francisca, que ‘aguava’ o terreiro da sua casa. Ela comentou que ouviu falar no caso e que havia ouvido tiros durante a noite. Disse que conhecia de vista as vítimas, mas que nunca imaginou que um crime tão ‘assombroso’ pudesse acontecer próximo a sua casa. Segui meu caminho.

A estrada de terra parecia ficar mais estreita e os obstáculos maiores. Uma verdadeira prova de ‘rally’. Várias pessoas estavam em frente as suas casas, como se quisessem admirar o movimento anormal de veículos naquele dia.

Cada pessoa que eu questionava, dizia que eu estava próximo, e já se passavam quase 30 minutos vagando pelo labirinto de areia. Após me perder algumas vezes, continuei seguindo o caminho que mostrava muitas marcas de pneus de carros, certamente era o caminho, até que encontrei vários veículos estacionados e não tive dúvida que era ali.

UMA CASINHA NO MEIO DO NADA
Estacionei um pouco longe, caminhei apressado em meio a terra e o sol das primeiras horas do amanhecer. Um morro com muitas e grandes pedras embelezavam a paisagem na frente da pequena casa verde. Humilde, cercada pela vegetação seca e retorcida típica da região. Um poste levava energia elétrica para a casa. Uma antena parabólica para a TV. Uma antena de internet.

Na porta da casa, policiais militares, civis e peritos. Do outro lado da ‘rua’, acomodados em pedras, repórteres, cinegrafistas, vizinhos e parentes. Nem mesmo os que chegaram logo após o crime, sabiam dizer informações precisas.

MUITAS HISTÓRIAS, MUITAS VERSÕES
As conversas entre os jornalistas tinha uma protagonista: Maria do Socorro Carvalho, de 23 anos, conhecida como ‘Galega’. Segundo eles, meses atrás, ela e outra moça teriam saído de moto, e neste mesmo dia a moça apareceu morta. ‘Galega’ seria a principal suspeita, pelo menos no julgamento da família da vítima. Um primo da jovem falecida tentou tirar satisfação com a ‘Galega’, e algum tempo depois, esse primo também foi morto.

Segundo esta versão, pessoas próximas aos dois que morreram, teriam se vingado da família de ‘Galega’ na noite desta terça-feira (18/08), por volta de 19h, mantando ela, sua mãe, um irmão de criação, seus avós e um rapaz que visitava a família também acabou assassinado.

A TERRÍVEL CENA DO CRIME
Os policiais permitiram que alguns jornalistas olhassem pela porta a cena do crime, sem registrar imagens, após a realização da perícia. Chocante. A cena dos seis corpos espalhados pela pequena e bagunçada sala, embrulharia o estômago até dos mais fortes. ‘Galega’, foi a que mais foi perfurada de balas. Era possível verificar que foi baleada na perna, na abdômen, e na cabeça. Vários tiros. Ela desfaleceu como se estivesse olhando para o criminoso. Sob as pernas da mãe, seu corpo ficou quase despido, de olho abertos para o alto.

O odor, mesmo de longe era insuportável. Há mais de 10 horas aqueles corpos estavam naquela sala abafada. O chão estava coberto de sangue e nas paredes várias perfurações de bala. Do lado direito da sala três homens: Cícero Domingos de Carvalho, Sildo de Carvalho e Bartolomeu Gomes. Do outro lado, filha, mãe e avó: ‘Galega’, Silvia Francisca e Francisca Luzia.

NINGUÉM NUNCA IMAGINAVA
Apesar do histórico suspeito de ‘Galega’, familiares e vizinhos jamais suspeitariam que isso fosse acontecer com a família. Todos classificavam-nos como tranquilos. Francisco Geraldo Ramos é primo do seu Cícero, patriarca da família que foi assassinado. Ele disse que recebeu a informação dos assassinatos com muita surpresa e que jamais imaginava que aquilo iria acontecer. Falou do comportamento de ‘Galega’, que segundo ele estudava e vivia fazendo ‘viagens’ por conta dos estudos.

Segundo ele, Cícero era aposentado e vivia dentro de casa, pois há muito tempo era doente do coração. A senhora Francisca era quem cuidava da casa. Silvinha, mãe de ‘Galega’, não morava na casa, tinha um pequeno comércio próximo e vivia junto com seu companheiro. Sildo era um filho adotivo do casal de idosos, trabalhava com roça, tinha uma pequena criação de gado, era dono da moto que estava na sala na hora do crime. Bartolomeu era primo da família e estava visitando a casa na hora do crime. Ele trabalhava com roça, era dono da moto que estava do lado de fora da casa.

COMPANHEIRO DE SILVINHA PODERIA SER A 7ª VÍTIMA
O companheiro de Silvinha, mãe de Galega, esteve no local enquanto era feita a perícia e não escondia estar emocionado e não parava de repetir que ele poderia estar morto. Ela havia ido para a casa da mãe quando o crime aconteceu e que ele também poderia estar lá. Meio em choque, repetia também que desde os tempos antigos os mais velhos falavam que o mundo ia se acabar assim.

LEVADOS EM PLÁSTICOS, NAS MÃOS DE ENFERMEIRAS
Duas ambulâncias, uma de Alegrete e outra de São Julião, foram buscar os corpos para levá-los ao Hospital de Picos. Pelos menos seis enfermeiras do município ajudaram a enrolar os corpos em plásticos pretos, presos com ‘fita gomada’. Elas ainda tentaram carregar os corpos para as ambulâncias, mas sem foça, contaram com a ajuda dos homens, que pareciam sentir muito nojo. Todos ficaram sujos de sangue e não escondiam a ânsia de vomito. Os corpos foram empilhados nas ambulâncias. Três corpos em cada uma.

OS ESQUECIDOS
Nem todos os moradores da casa morreram. Por mais que não sejam humanos, lá habitavam pelos menos dois cachorros, uma gata e uma galinha. Quando os corpos eram removidos, o gato miava desesperadamente, como em choro, observando da janela da sala onde os corpos estavam expostos. Um dos cães tinha o olhar meio que perdido. Outro cachorro ficou entre a porta e a ambulância como se quisesse acompanhar tudo de perto. Uma galinha insistia em tentar entrar na sala e foi expulsa diversas vezes. Detalhes que para muitos é banal.

A DOR QUE FICA
Uma família que desaparece e uma solitária casa no meio da caatinga. Um lar atribulado talvez pelo problema de um, mas que afetou a todos. Uma mostra da sociedade em que vivemos, onde a violência chegou onde nem mesmo quem está ali, distante de tudo, imaginou. A dor fica para os que ficam.

VEJA A PRIMEIRA MATÉRIA SOBRE O CASO

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