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Glamour em xeque · 19/09/2016 - 12h34 | Última atualização em 19/09/2016 - 13h21

Em gravação, Nelito Marques chama candidata a Miss Piauí de 'negrinha'

Evento de 60 anos no Piauí é marcado pelo retrocesso no trato para com a pessoa humana


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Por Rômulo Rocha

“O ESQUEMA É ESSE”_____
“(...) elogiar umas do grupo [de modelos], menos a negrinha. (...)E não se preocupe não, porque eles vão dizer que foi injustiça (...), mas eles nunca vão dizer que foi vendido [o título]” – Nelito Marques

“Miss não fala em pobreza (...). Nunca conte moeda. Mulher de classe não conta moeda” – Nelito Marques

“Você aí já tem 60 pontos. Cada um [jurado] são dez [pontos]. Essas seis pessoas vão estar orientadas. Seis para Yanca [Fontenele], para Pietra [Aguiar], aí vai dar 7 para outra fulana de tal. Para Monsenhor Gil e Alagoinha vão dar 9, porque elas não ganham. Para não dizer que elas só deram notas baixas para as outras. Entendeu?” – Nelito Marques a uma suposta candidata a Miss Piauí.
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OS BASTIDORES DE UM SONHO
No ano de 1973, mais precisamente em 27 de março, o maior ator de todos os tempos do globo terrestre para muitos da crítica mundial, Marlon Brando, entrou para a história. Ele recusou o seu segundo Oscar pela interpretação de Vito Corleone, em ‘O Poderoso Chefão’, em favor de uma causa que julgava maior: a inclusão de índios americanos em papéis de destaque na TV e em filmes de Hollywood. Em seu lugar, para a festa do Oscar, mandou uma índia, ativista, de nome Sacheen Littlefeather, para ler uma carta protesto assinada por Brando. O ator não se sentia satisfeito em ser agraciado com algo, embora representativo e simbólico, em um cenário que não havia a inclusão de todos os seres humanos.

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Em Teresina, onde ocorreu o Miss Piauí neste mês de setembro, algo inusitado veio à tona, no pós-desfile. Um áudio – disponibilizado logo abaixo, em que o eterno organizador do evento, Nelito Marques, estaria a orientar uma das candidatas a como se portar até a vitória. Uma vitória dada como certa e supostamente confabulada, conforme se extraí da fala. Num dos conselhos dados, ele sugere que a interlocutora elogie algumas das candidatas, “menos a negrinha”, em suposta alusão à Miss Esperantina, que vem a ser Kayra Nascimento. Há uma grande diferença nos termos referentes a cor, entre eles negro, ‘neguinha’, ‘neguinho’, ‘preto’, ‘negrinha’... onde há a pesar o contexto, a relação de proximidade e o tom pejorativo. Nelito não era próximo de Kayra, embora tenha ido em sua residência para tratar de assuntos questionáveis.

_Kayra Nascimento: a possível vítima... citada no áudio.

Neste dia, Nelito teria proposto à Kayra, segundo ela narra, que abrisse mão de concorrer ao Miss Teresina, porque uma outra seria alçada ao posto. Teria chegado a dizer o senhor já septuagenário que a capital do estado era preconceituosa com negros e que já haveria um júri formado para tornar Kelly [atual miss Teresina] a vencedora, e que ela acabaria perdendo de uma forma ou de outra se insistisse em disputar. Então, que ela aceitasse ser elevada ao posto de Miss Esperantina, município com o qual tem ligação, para concorrer ao Miss Piauí. Ainda, que próximo ano, garantia ele, a Miss Teresina seria ela própria Kayra. O Miss Teresina não chegou a ocorrer este ano para supostamente evitar gastos.

OUÇA O ÁUDIO: atenção para o tempo 2:40 e 5:08____

Após a gravação vir à tona, Kayra passou a ver a situação com uma outra ótica. “Sendo que agora, da forma como ele [se reporta], para mim tudo ficou claro, que o preconceito não é de Teresina. O preconceito já era dele, entendeu? É uma coisa dele. Ele era o preconceituoso”, falou, ao se dizer “chateada com tudo isso”.

Embora em dois dos cinco momentos em que a reportagem entrou em contato com Kayra, sendo uma delas pessoalmente, ela tenha dito que não se sentia afetada intimamente com isso, frisou em todas elas que sentia chateação. Ou seja, o ato não a diminua, mas a indignava.

- Jovem, que é empresária, representou a cidade de Esperantina

Quando o áudio chegou ao jornalista titular do Blog Bastidores, do 180, primeiramente através de um colega profissional de imprensa de cor negra, o seu teor não chegou a ser ouvido na íntegra, e quando uma parte o foi, de imediato se achou que estaria fora da área de atuação do blog, por se tratar dos bastidores da festa envolvendo um concurso de Miss.

Mas começaram a vir avisos de que o áudio revelava muito mais do que o que parecia, com a referência, em duas ocasiões, a uma das candidatadas do Miss Piauí como “negrinha”. E isso não havia sido percebido de imediato quando da análise preliminar.

Uma conversa com Kayra, em sua residência, foi então agendada para a tarde do último sábado (17). Presente estava seu namorado, que revelou, inclusive, que Nelito Marques o teria oferecido um “agrado financeiro” para que fizesse a namorada desistir do Miss Teresina e aceitasse concorrer no Miss Piauí como Miss Esperantina.

Essas nebulosas e supostas negociações teriam decepcionado a mãe de Kayra, que chegou a pedir que a filha desistisse do Miss Piauí, já que se desenhava um concurso injusto, cheio de acordos nada republicanos, feitos às escuras. Quando da presença da reportagem na residência de Kayra, a mãe não quis se fazer presente à conversa. Pelo menos foi isso que a candidata repassou. Justificara a mãe que havia procurado alertar a filha, mas como ela tinha insistido em concorrer, naquele momento preferia não se manifestar.

A questão, de início, já suscita alguns questionamentos. O que um evento como esse, o Miss Piauí, que se imagina, serve também para passar valores, está a cultuar na mente de mulheres, muitas em pleno processo de amadurecimento - porque uma grande parte possui ainda 20 anos de idade? Outras que sonham em participar sequer atingiram a maioridade. E quanto de hipocrisia há em um evento tão pomposo e cheio de glamour?

_Yanca Fontenele: citada em áudio

Em entrevistas ao 180, antes da esperada noite de desfiles e do áudio vir à tona, candidatas chegaram a declinar o que seria parte de seus sonhos no campo subjetivo. Das declarações emanadas é possível pincelar posições que rementem ao fim do preconceito e a um mundo igualitário.

A Miss Luís Correia Danielly Braga, por exemplo, chegou a dizer que sonha com um futuro onde “possamos viver em um mundo livre de qualquer forma de preconceito”. A própria Kayra Nascimento, a Miss Esperantina, disse almejar um mundo sem preconceito e com “paz entre as pessoas e nações”. A Miss Teresina, Kelly Santos, declarou que quer “ver um mundo sem desigualdade, sem guerras, com mais amor e união entre as pessoas”. A consagrada Miss Piauí 2016 Lara Lobo chegou a dizer que sonha com um mundo “sem violência, sem fome, sem abandono, sem preconceitos, sem desamor, um mundo de paz”.

A incongruência maior é que todas estão a lidar agora com um possível e claro exemplo daquilo que de público disseram ser contra, e pior, ocorrido e reproduzido no seio do evento através do qual disputavam o posto de mulher mais bonita do estado. Então, como se vangloriar com uma premiação, seja de primeira, de segunda ou de terceira colocada, quando e onde o tratamento de respeito para com a pessoa humana parece ter sido nitidamente quebrado, como um cristal a cair?

Não à toa essa reportagem foi iniciada com o caso real envolvendo o ator Marlon Brando, já falecido. Porque alguns dormem e silenciam diante do desrespeito para com o ser humano, seguem em frente. Outros não. Reagem. Então será que não passou da hora de reagir? Ao se almejar a igualdade entre todos, como muitas candidatas declinaram de público, o mais coerente seria não fingir que nada aconteceu, ainda mais levando em conta um evento de tamanha proporção em âmbito estadual. Por mais que tal ato não tenha partido delas.

A Miss Luís Correia, Danielly Braga, foi direta ao ponto. "Eu particularmente vejo como uma discriminação não só com a Kayra, mas para com a beleza negra em geral. E como eles haviam falado várias vezes, não era só a beleza que contava nesse concurso, mas também a inteligência e Kayra é uma menina inteligentíssima e que não merece sofrer esse tipo de discriminação", desabafou.

_Danielly Braga: única a reprovar o ato até agora

QUANTO A NELITO, SÓ UMA NOTINHA, POR ENQUANTO...
O organizador do evento Nelito Marques foi procurado pelo 180, para tratar sobre o conteúdo que consta do áudio gravado e vazado. Não respondeu aos contatos iniciais, nem retornou. Logo depois fez publicar uma nota em rede social onde diz:

“Olá pessoal! Esta semana fui surpreendido com um áudio gravado ilegalmente e manipulado por uma candidata durante algumas visitas que ela me fez acompanhada de um diretor do concurso. E esta derrotada vem tentando tirar o brilho e a lisura do concurso, decepcionando os jurados e auditores responsáveis pela contagem dos votos. Mas tudo já está sendo esclarecido na justiça e a verdade em breve surgirá. AGUARDEM”.

Nenhum pedido de desculpas.

_Pietra Aguiar: citada em áudio

Nelito, a princípio, não nega ser ele a falar no áudio. Ao contrário, até confirma. Outro trecho da gravação que suscita inúmeros questionamentos é aquele em que o organizador do Miss Piauí, quando a dialogar com essa suposta candidata, diz:

“Deixa eu lhe explicar aqui para você ter uma certeza. Eu estou querendo colocar 11 jurados (...). Está certo Marinna [Lima, ex-miss Piauí]; a mulher do auditor, do Josivan, a Cláudia (...); a Cláudia Simone, uma cantora que eu convidei, ela é da Cultura; o Antônio Pedro (...); ah, a mulher do João Henrique [ex-ministro]. Têm essas cinco pessoas certas já. Eu vou botar seis pessoas. O meu filho (...), vou botar o Glauco (...); Vou colocar Anacy Pereira, certo?; Vou colocar a Ermelinda Castelo Branco, amiga da Iracema [Portella], certo?; convidei a deputada Juliana Moraes Souza, que não vai poder ir, mas vai mandar uma carta-ofício da Assembleia Legislativa indicando o ‘Chiquim’, o assessor número 1 dela. Você aí já tem 60 pontos. Cada um são dez. Essas seis pessoas vão estar orientadas. [Nota] seis para Yanca [Fontenele, Miss Piripiri], para Pietra [a Pietra Aguiar, Miss Castelo do Piauí], aí vai dar 7 para outra fulana de tal. Para Monsenhor Gil e Alagoinha vão dar 9, porque elas não ganham. Para não dizer que elas só deram notas baixas para as outras... Entendeu? (...) Mas desses aqui você vai ter 7, 8, que junta com esse aqui, a maioria é sua”.

COM QUEM NELITO MARQUES ESTARIA A FALAR E POR QUE O SEGREDO?
_“O esquema é esse”, afirma na gravação.
No início do áudio Nelito deixa pistas. Diz ele: “(...) e não gaste com mais besteira de jeito nenhum. Você já comprou aquele tanto de ingresso (...)”. O 180 apurou que as duas maiores torcidas dentro do Teatro 4 de Setembro eram as de Loysa Vasconcelos e Lara Lobo. Ambas teriam comprado significativas quantias de entradas para o espetáculo. Loysa ficou em quarto lugar, Lara venceu a disputa.

_Nelito, ao se posicionar. "Derrotada"?

Grandes empresas país a fora e até mesmo órgãos públicos nacionais e de estados mais desenvolvidos, quando não o tem, montam o que se chama de gabinete de crise, para lidar com fatos inesperados e que podem por a imagem dessas entidades abaixo em questão de dias, frente aos questionamentos da imprensa, que no Brasil, em âmbito nacional, é fortíssima.

Os gabinetes de crise sabem que só há duas saídas para quando algo fora do usual assim acontece e, diante de casos concretos, visam trabalhar para minimizar os estragos e especulações: primeiro, contam a verdade em sua totalidade; segundo, pedem desculpas a quem de direito. É um primeiro passo. Ao silenciar, Nelito Marques dará combustível para as especulações.

Ocorre que famílias gastaram para ver as filhas participarem desse evento. Candidatas perderam tempo nos estudos e sonharam dias com o posto. Muitos que integram a sociedade piauiense acompanharam o evento. Todos merecem explicações. Já há quem especule que o dinheiro dos ingressos não será todo destinado ao evento Outubro Rosa, como teria anunciado Nelito. E aqui, com a situação como está, já não basta ser honesto, tem que parecer honesto.

É ao tratar desse evento, o Outubro Rosa, que mais uma vez Kayra Nascimento é citada como “negrinha” na gravação. “(...) A Loysa [Vasconcelos] não pode ir para o jantar (...) O esquema é esse. Quando você tiver lá no Outubro Rosa, onde você tiver, não vá dizer com a Kayra [Nascimento] que a pessoa disse: ela está olhando porque sabia que a negrinha ali não ia ganhar”. “Com ironia?”, questiona um interlocutor. “Com ironia”, reforça Nelito Marques. Aqui, se não foi Nelito, a gravação sugere que alguém já tratava a candidata desta forma, tanto que ele veio a reproduzir tal diálogo.

No áudio é possível perceber que há Nelito; alguém a quem ele orienta, que seria uma das modelos; e um um homem.

_As jovens que disputaram o Miss Piauí: elas precisam saber o que ocorreu

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EM XEQUE

Por RR

O teor desses diálogos – como podem ser ouvidos, travados pelo organizador do evento, tem posto em xeque a capacidade de permanência de Nelito Marques à frente do evento pelos próximos anos. Algumas das candidatas comungam da mesma opinião. O portal identificou ao menos uma que teria medo de entrar na questão, porque quer participar novamente, e Nelito tiraria e poria quem quisesse em tais eventos. Seria uma espécie de senhor absoluto nesse ramo, interpreta.

O irônico é que tal ocorrência, do termo “negrinha”, aparentemente em tom pejorativo, se dá quando dos 60 anos do Miss Piauí, quando da participação da primeira Miss Brasil negra, Deise Nunes, que foi recepcionada pelas candidatas no restaurante Grillé. A princípio, tal ato pode até eximir Nelito Marques de algo. Mas aqui se pode suscitar outro imbróglio. Por que tratar bem os de fora, e supostamente oprimir os de dentro, a prata da casa?

O cinema americano, ao retratar a realidade, é cheio de exemplos da luta pela dignidade, o respeito para com a pessoa humana e o combate à opressão. Estrelado por Leonardo de Caprio, Djimon Hounsou e Jennifer Connelly, o filme ‘Diamante de Sangue’ mostra em suas cenas finais uma conferência realizada em Kimberley, na África do Sul, em 2000, o que culminou com a Certificação Kimberley, sistema internacional de certificação de origem de diamantes brutos que visava evitar o contrabando da pedra para financiar conflitos armados, e ainda por cima combater a opressão de povos negros em Serra Leoa, marginalizados na caça à pedra preciosa, vendida aos ricaços, que de certa forma acabavam por contribuir com essa situação, em meio à cortina de silêncio existente.

A classe abastada, que comprava diamantes de sangue – porque custavam vidas, só passou a refletir sobre tal situação com a publicação de vasto material jornalístico sobre o ocorrido. As pessoas estavam a cultuar algo que tinha como preço verdadeiras atrocidades. O exemplo que fica? Ora, por que reverenciar e apoiar algo em nome do luxo e do glamour sendo que há vítimas nesse processo? Que mundo igualitário é esse que se diz sonhar, enquanto alguns lutam e outros assistem?

_Primeira Miss Brasil negra: Deise Nunes. Ela participou do evento

Outro exemplo é o filme Amistad, de Steven Spielberg, baseado em fatos reais, onde um caso de aprisionamento de um navio negreiro desencadeou uma das mais aguerridas batalhas em tribunais norte-americanos, indo parar na Suprema Corte daquele país. Um dos pontos altos é a entrada na causa, como advogado, do ex-presidente dos Estados Unidos John Adams [interpretado por Anthony Hopkins]. Ele resolve romper o silêncio e defende, com a desenvoltura do intelectual que era, que a soltura dos negros – reivindicados como propriedades por alguns –, ainda que contribuísse para uma guerra civil entre nortistas e sulistas defensores da escravidão, assim se fazia necessário, porque seria o último estágio para transformar os Estados Unidos num País, num Estado, numa Nação.

Como se vê, todos têm suas próprias guerras civis a travar. Sendo que algumas delas deveria envolver a todos. Mas uns calam, outros se posicionam. A diferença entre os outros e nós é justamente a capacidade de agir. Ao lutar por um sonho, como o de Miss – frente a outras batalhas que travará na vida, Kayra Nascimento merece sim a maior de todas as coroas: a do respeito. Porque ela não é, por conta da cor da sua pele, melhor ou pior do que ninguém. Mas infelizmente ainda luta contra esse mal chamado preconceito.

Um detalhe que chama atenção no áudio é que Nelito trata a todos pelo nome, quando o pode. Então por que se referir a KAYRA NASCIMENTO como “negrinha”, sendo que Nelito fora em sua casa e sabia o seu nome – ainda que não o soubesse? Uma coisa parece certa: intimidade, aparentemente, ele não tinha e o tom usado soa pejorativo.

Pesa ainda contra o organizador do Miss Piauí o fato de se apresentar como donatário de conhecimentos de regras de etiqueta, e ao que se sabe, nos manuais sobre tal assunto não existe o termo "negrinha" para se referir a alguém da cor NEGRA. É no mínimo deselegante usado da forma como foi.

Outro ponto questionável na gravação – ouvida mais de uma dezena de vezes – é a falta de tato para com a função que ocupa. O chefe máximo do Miss Piauí no estado parece não ter o que se espera de um titular do posto, o exemplo de retidão necessária. Ao emergir, a gravação depõe contra esse zelo que se espera do organizador em tela. Até porque a torcida deve ficar para as torcidas de cada concorrente.

Sem falar que uma mãe não pode ter o dessabor de não poder vislumbrar, com a dignidade de direito, a participação de sua filha em um evento de beleza porque a postulante possui cor negra. Isso é dissonante não só com o mundo da moda, mas com o contexto que se vislumbra nos dias que se seguem.

E A VIAGEM, NELITO?
Kayra Nascimento conta que ganhou uma viagem a Fortaleza no âmbito do concurso. Vai receber sem problemas ou só a receberá se silenciar, tendo que oprimir o que pensa?