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O mundo pede saúde mental · 27/01/2022 - 11h07 | Última atualização em 24/03/2022 - 10h39

Narrativas (auto)biográficas: a dança de Svera sobre a sobriedade

Janeiro Branco: Campanha busca informar sobre a importância de cuidar da saúde emocional


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No contexto em que o mundo pede saúde mental, com a Campanha Janeiro Branco, destacam-se iniciativas que valorizam a pessoa em estado de angustia psíquica. Contribuições para a construção da imagem distanciada dos estigmas ligados a pessoa em profundo estado de sofrimento psíquico, como a improdutividade e a incapacidade.

John Wedson dos Santos Silva, 36 anos, vive uma experiência de pesquisa iniciada em 2009. Ano em que cursou, enquanto estudante de graduação em Ciências Sociais, da Universidade Federal do Piauí (UFPI), a disciplina de Estágio Curricular, conduzindo investigação sobre as práticas culturais da juventude teresinense. Os resultados alcançados com a iniciativa revelaram inúmeros aspectos sobre uma modalidade de pichação localmente conhecida como xarpi, e estes, por sua vez, originaram mais perguntas sobre os jovens e suas práticas. Em busca de respostas, foi confeccionado um projeto de pesquisa de maior envergadura, sendo o mesmo direcionado ao Programa de Pós Graduação em Antropologia da UFPI. Uma das consequências do esforço de pesquisa de Mestrado veio em meio as festividades de 25 anos da Editora da UFPI, com a publicação dos resultados obtidos no formato de livro. De maneira que em 2017 chega a sociedade a obra “Pichando a Capital: juventude, resistência e cultura em Teresina – Piauí”.

O 180 conversou com o autor do livro para saber, em especial, sobre a trajetória de Svera, um dos personagens centrais da obra. Quando jovem nos anos 1990, ele teve intensa participação no cenário cultural de Teresina: como músico, foi vocalista da banda de rock extremo Neustã, mas também foi seu produtor, quando uniu a escrita com o desenho para criar a logomarca que a representava nos cartazes de show. Por sua vez, enquanto adepto do xarpi, Svera angariou destaque e reconhecimento entre uma parcela da juventude local por escrever seu nome com letras estilizadas pelos locais mais inesperados da cidade. Contudo, nos anos 2000, Svera é acometido de Esquizofrenia paranoide. Com ela, ele se tornou auto recluso, rompeu com as relações sociais, e adotou como expressão o desenho e a pintura, ao tempo que manteve a prática da escrita, porém em outro formato. A seguir, o estudioso fala um pouco do trabalho iniciado em 2009 com o Svera e suas criações:

Como tem sido trabalhar com o Svera e as produções dele? Suas iniciativas resultaram em algum ganho para ele?

Cheguei à casa de Svera em 2009, durante a pesquisa que conduzia para a disciplina de Estágio Curricular/Ciências Sociais/UFPI. Com a progressiva aceitação que fui obtendo entre os familiares dele, tive a iniciativa de nos escrever em eventos para realizar exposições públicas dos desenhos, pinturas e escritos que ele produzia diariamente nos âmbitos de sua residência, enquanto recluso, e que ele espontaneamente passou a me entregar desde minha chegada a residência dele. Sem ser consultado previamente, ele me tornou em algo como um curador de suas produções, involuntariamente, também acabei tornando-me algo próximo de um produtor artístico para Svera. Assim, ainda em 2009, durante o evento universitário Cenas Juvenis em Teresina, as criações de Svera foram expostas na Biblioteca Comunitária Jornalista Carlos Castelo Branco/UFPI. Já em 2016, participamos da Semana Acadêmica de Psicologia e Medicina, da Universidade Estadual do Piauí - UESPI, com a exposição Svera: Outra Noite. Por sua vez, a 16ª edição do salão do Livro do Piauí – SALIPI, em 2018, recebeu as criações de Svera. Momento em que duas de suas obras foram emolduradas e vendidas como quadros. Mas também foi a ocasião em que ele encarou o público presente no Bate Papo Literário/SALIPI e declamou para o auditório o poema “Pelas Suaves Pétalas”, de autoria dele, na sequência entrei em cena e realizei a análise da obra, resultando em uma exposição oral em coautoria. Em 2019 participamos, no Teatro do Boi, da 2º edição do Ruaz, evento pensado para a valorização do artista e da arte urbana, com a exposição Anti natural.

Escritos de Svera em exposição: Anti natural, no Teatro do Boi
Escritos de Svera em exposição: Anti natural, no Teatro do Boi 

Considero como sendo os resultados mais importantes desse esforço uma positiva mudança de comportamento como consequência da progressiva ressocialização que Svera veio experimentando com as exposições públicas, de acordo com meus registros, por exemplo: percebo que hoje ele conversa com as pessoas que chegam até ele, ao invés de evitá-las. Menciono como relevante, ainda, a paulatina construção de referências no presente, ao invés de busca-las nos anos 1990. Como constatava em 2009, quando teve início meu contato com ele. Entre as novas referências destaco, por exemplo: perguntas sobre quando ocorrerão novas exibições públicas e pessoas que ele conheceu por meio delas. Resultados semelhantes foram alcançados pela psiquiatra Nise da Silveira quando ela colocou uma pessoa no Centro Psiquiátrico Pedro II com a única função de permanecer ao lado de um dos internos, e também participante do ateliê de pintura idealizado pela pesquisadora naquele ambiente.   

Como os antropólogos da Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP podem contribuir no entendimento das criações de Svera?

O trabalho intersubjetivo que se da entre mim e Svera, bem como a parte simbólica existente nas produções dele, dialogam estritamente com os objetivos do Ateliê de Produção Simbólica e Antropológica – APSA/UNICAMP, que tem a frente o professor Christiano Key Tambascia.

Em inúmeros escritos de Svera encontro passagens reveladoras das experiências vividas por ele, como se observa no seguinte trecho do poema Pelas Suaves Pétalas: “que quando, sonhar não quero pintar, os meus materiais, livros de música quero escrever e colorir os céus de batalha”. Aspecto que se aproxima das discussões sobre grafias e narrativas etnográficas promovidas pelo Laboratório Antropológico de Grafia e Imagem – LA’GRIMA/UNICAMP, encabeçado pela professora Fabiana Bruno.

Wedson Silva e Svera:  exposição, analise e leitura do poema Pelas Suaves Petalas no 16º SALIPI
Wedson Silva e Svera: exposição, analise e leitura do poema Pelas Suaves Petalas no 16º SALIPI 

Pensar o trabalho intersubjetivo existente e a produção simbólica, com a constância da experiência de Svera, retratada nos textos que escreve, resulta em uma nova ótica sobre as criações dele: agora compreendidas como narrativas (auto)biográficas!

Para a Antropologia, qual a importância dos escritos de Svera serem narrativas (auto)biográficas?

Sumariamente falando, de acordo com os estudos da professora Suely Kofes/UNICAMP, se ergue ante a biografia e a auto biografia o problema de serem relacionadas ao “indivíduo”. Mas, etimologicamente, elas fazem, na verdade, referência a “vida”. Seriam então, “grafia da vida”; a grafia de uma experiência.

E justamente o que o Svera fez ao longo de sua trajetória foi escrever sobre as próprias experiências vivida: nos anos 1990, como um fantasma destemido, superou os desafios impostos pelas madrugadas em um vai e vem incessante pela cidade para grafar a estilização de seu nome, ao lado da paixão musical que carregava consigo, em meio a urbe. Inexoravelmente, ele segue com a escrita pelos anos 2000 e pelas décadas seguintes, mesmo quando a Esquizofrenia paranoide se abate sobre ele. É como se Svera tomasse a escrita como par e rodopiassem uma dança sobre a sobriedade. Entre a diversidade de produções de Svera que acumulo desde 2009, retomo, para ilustrar que atualmente ele continua escrevendo sobre a própria experiência vivida, o trecho anteriormente destacado do poema Pelas Suaves Pétalas: “que quando, sonhar não quero pintar, os meus materiais, livros de música quero escrever e colorir os céus de batalha”. 

Narrativas (auto)biográficas de Svera em exposição na UESPI
Narrativas (auto)biográficas de Svera em exposição na UESPI 

De modo que, ao tomar os textos de Svera como objeto de reflexão, estarei contribuindo para pensar as consequências de se considerar a biografia e a autobiografia na Antropologia.


Wedson Silva é bacharel e licenciado em Ciências Sociais/UFPI e mestre em Antropologia/UFPI. Atualmente é membro do Ateliê de Produção Simbólica e Antropológica, da Universidade Estadual de Campinas - APSA/UNICAMP. Desde 2007 participa de pesquisas no Núcleo de Pesquisas e Estudos sobre Crianças Adolescentes e Jovens. Entre os anos 2016 e 2020 ocupou cargo ligado a pesquisa no Centro de Referências Técnicas em Psicologia e Politicas Publicas, do Conselho Regional de Psicologia da 21ª Região – CRP21/CREPOP.

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