Quebra de alguns conceitos · 10/01/2014 - 12h05 | Última atualização em 10/01/2014 - 13h01

Profissão de homem e de mulher: entenda como surgiu essa divisão de tarefas

Profissão de homem e de mulher: entenda como surgiu essa divisão de tarefas


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Todos os dias Anderson Luiz Ferreira Pinto, 28 anos, veste o avental com detalhes cor-de-rosa para trabalhar. Detalhista e delicado, seu desafio diário é moldar sobrancelhas que valorizem o rosto de seus clientes, a maior parte mulheres, que atende em Copacabana, no Rio de Janeiro (RJ). A pergunta que mais escuta é: "você é gay?". Sem se incomodar com o questionamento, ele responde que não. Luiz é casado há cinco anos com uma mulher.

Apesar de, em poucas décadas, a igualdade entre homens e mulheres no mercado de trabalho ter aumentado, ainda prevalece uma divisão silenciosa de profissões por gênero. Quando alguém foge à regra, como Anderson, o estranhamento é inevitável.

Fatores históricos e culturais influenciaram a percepção de profissões que são vistas até hoje como masculinas e outras como femininas.

"Em uma sociedade patriarcal, com o poder masculino muito forte, desde a colonização, o trabalho feminino sempre foi secundarizado. Entendia-se a organização de algumas tarefas como sendo uma extensão do lar, como as do cuidado, a cargo da mulher", explica Mario Sergio Cortella, filósofo, escritor, pesquisador e professor do programa de pós-graduação em Educação da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo).

As atividades mais ligadas ao ambiente doméstico e aos cuidados com os outros foram, ao longo do tempo, ficando com as mulheres, como a docência, enfermagem, nutrição, o secretariado, entre outras. Cortella afirma que os trabalhos que exigem maior capacidade intelectual sempre estiveram associados à natureza masculina, sendo esse mais um resquício da cultura machista.

Para a pesquisadora Mayra Rachel da Silva, mestre em Políticas Públicas e Sociedade, professora do curso de Serviço Social da Faculdade Ratio e da Faculdade Cearense, em Fortaleza (CE), a divisão por gêneros não tem relação com características naturais femininas ou masculinas. Essa separação é fruto de uma construção social, predominantemente desfavorável às mulheres.

"As profissões social e culturalmente tidas como femininas apresentam caráter subalterno, de menor prestígio e remuneração em relação às atividades exercidas pelos homens", diz Mayra.

Clube do bolinha
Ainda no século 21, os territórios masculinos e femininos permanecem bastante demarcados em algumas áreas. É o caso da engenharia. Do universo de 1.083.182 engenheiros registrados no Brasil, apenas 13% são mulheres, segundo o Confea (Conselho Federal de Engenharia e Agronomia). Porém, esse cenário tem se transformado significativamente na última década. Em 2003, foram realizados apenas 2.960 registros do sexo feminino no Conselho. Em 2013, até o mês de novembro, 9.433 mulheres ganharam o título de engenheiras, um aumento de 318,7%.

Acostumada a ser uma das poucas mulheres nesse "clube do bolinha", Darlene Leitão e Silva, conselheira do Confea, acompanha com entusiasmo a mudança de cenário. Em 1993, foi a única mulher de sua turma a se formar em Engenharia Elétrica.

Dez anos depois, ela assumiu a função de diretora técnica responsável pela concessionária de energia de Boa Vista (RR) e, atualmente, trabalha na Secretaria de Infraestrutura do Estado de Roraima. "Não é fácil chegar a esses postos, mas, quando a mulher tem essa oportunidade, consegue demonstrar que tem tanta capacidade quanto o homem", afirma.

No caso de Darlene, foi o cunhado, também engenheiro eletricista, uma figura paterna importante em sua vida depois de ter perdido o pai aos 14 anos, que a influenciou na escolha da carreira. Mas esse é um caso raro. As mulheres, normalmente, não recebem incentivo para profissões historicamente masculinas.

A segmentação das profissões já começa na infância, com brinquedos que costumam reforçar os estereótipos culturais de cada gênero. Recentemente, uma engenheira da Universidade de Stanford, nos Estados Unidos, resolveu tentar mudar esse padrão, lançando em parceria com uma empresa de brinquedos um jogo de engenharia para meninas, com um vídeo que acabou se tornando viral.

Outra área em que a presença feminina vem aumentando consideravelmente é a construção civil. Segundo dados do Ministério do Trabalho, de 2000 a 2010, o número de trabalhadoras nesse setor cresceu 65%. As mulheres desempenham, principalmente, serviços de acabamento.

Na opinião de Mayra Rachel da Silva, que desenvolveu um estudo acerca das relações de gênero e trabalho no âmbito da construção civil em Fortaleza, os canteiros de obra também são lugares para atuação profissional das mulheres. Entretanto, ainda falta muito para que o ambiente se torne ideal.

"Muitas mudanças precisam acontecer para que essas trabalhadoras possam exercer sua profissão de forma digna", acredita a pesquisadora, que em seu levantamento detectou problemas como assédio sexual e pouca participação política nos sindicatos.


Fonte: Com informações da UOL