Mais de 30,7 mil contaminados · 17/10/2020 - 11h40

Coronavírus avança em comunidades indígenas: faltam até caixões


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Lideranças indígenas de comunidades do Maranhão desembarcaram nesta semana em Brasília em busca de socorro das autoridades brasileiras para o combate à pandemia do novo coronavírus nas aldeias. Em medida desesperada, os representantes dos povos Guajajara tentam apoio do governo para conter o avanço da Covid-19 na região. As informações são do Metrópoles

A reportagem conversou com os indígenas que clamam por ajuda do Ministério da Saúde. Os relatos dão conta de problemas como falta de medicamentos, remédios vencidos, má distribuição de recursos e de equipamentos de proteção individuais (EPIs). Além disso, os representantes denunciam baixo efetivo de profissionais para o atendimento da população.

Em alguns lugares, falta caixão para enterrar as vítimas do novo vírus.

As comunidades indígenas maranhenses estão entre as mais atingidas pela pandemia: foram 1.533 casos e 27 mortes por Covid-19. O estado de Mato Grosso do Sul lidera as tristes estatísticas, com 60 óbitos e mais de 2,4 mil casos.

Ao Metrópoles, o presidente do Conselho Supremo dos Caciques Guajajara, Raimundo Carlos da Silva Guajajara, afirmou que o cenário atual nas comunidades indígenas é o de “abandono”. “Estamos sem medicamento, sem atendimento e ficam se promovendo, dizendo que estão cuidando da gente. Eles recebem repasses bilionários, mas não há investimento em nós. Nossos parentes estão morrendo”, critica.

Raimundo é uma das lideranças da Aldeia Belo Sonho Buritirana, na região do Bananal, no Maranhão. Segundo ele, a área abriga 47 aldeias com quase 4 mil índios. O número de profissionais de saúde destinados ao atendimento exclusivo dos indígenas não é suficiente para atender toda a demanda.

“Há dois técnicos em enfermagem para 4 mil índios. A testagem ocorre só quando o Exército aparece e, mesmo assim, não é como o pessoal está pensando não, só alguns são testados. Na última visita, só atenderam 50 pessoas. Veja, nós somos 4 mil”, denuncia Raimundo.

A fala de Raimundo Guajajara encontra ressonância entre indígenas que moram na região. Natural da aldeia de Bacurizinho, Itahy Bento Guajajara conta que outro problema é a falta de instrução para os integrantes das tribos sobre a disseminação e o modo de ação do vírus.

“Realmente, existe uma omissão com parte da Sesai com as populações indígenas. Utilizaram a quarentena para se ausentarem, cada vez mais, de suas responsabilidades com os povos. Tem valores bilionários que não são repassados aos índios”, acrescenta.

De acordo com Itahy, não há veículo disponível para transporte emergencial dos infectados que precisam deixar as aldeias rumo às capitais em busca de tratamento. “Meu tio faleceu às 9h da manhã, mas só foram levar um caixão por volta de 16h. Não teve um carro pra prestar assistência, para um atendimento emergencial. Os familiares fretaram um carro para poder levar o corpo.”

Em vídeo cedido à reportagem, é possível observar familiares carregando uma das vítimas da Covid-19 na caçamba de uma caminhonete e em cima de uma maca improvisada.

Veja a gravação:

Ela narra que, em casos graves, índios estariam sendo medicados com produtos vencidos. “Houve casos de profissionais da saúde que distribuíram remédios vencidos, postos sem funcionários. Na região Bananal, mesmo na UBS [Unidade Básica de Saúde] que era para ter um enfermeiro, um técnico e os agentes de saúde, está completamente vazia, sem ninguém para fazer atendimento emergencial.”

 


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