Afeta autoestima -

Sexualidade sob cerco. Tudo o que quer esclarecer

O estereótipo do macho latino continua vivo. E afeta todas as esferas da vida das pessoas do gênero masculino, inclusive a sua saúde sexual.

“Noto que a sociedade portuguesa ainda é bastante conservadora. Vê o homem como um provedor com saúde de ferro que não tem problemas sexuais”. Esta é a visão do nutricionista brasileiro Marcelo Carvalho em entrevista à Men’s Health.

A cultura machista exige que os homens não assumam as suas fragilidades e dificuldades. Tal faz com que “eles se fechem em copas e não procurem uma solução”. Isto ameaça não só o seu bem-estar físico como o psicológico. E começa mais cedo do que possa pensar.

Carne para canhão

Marcelo Carvalho tem vindo a observar “cada vez mais disfunções sexuais em homens com 20 e 30 anos”. De acordo com o especialista, é aos 26 anos que se atinge a máxima produção de hormonas sexuais, “a maturidade sexual”. Mas há um número crescente de jovens adultos “com níveis de testosterona equivalentes aos de um homem de 50 ou 60 anos”.

Ora, tal fenômeno pode ser provocado mais por fatores exógenos do que endógenos. “Os jovens andam muito ansiosos”, confirmou-nos a psicóloga clínica e sexóloga Vânia Beliz. E a lista de coisas que interfere na sua vida sexual não é curta.

São pressionados para serem os melhores alunos e os profissionais mais produtivos, ter uma vida social ativa, para terem um corpo escultural. Tudo isto, segundo a sexóloga, “afeta a sua autoestima”. O nutricionista acrescenta que tal os leva a fazer “exercício físico em excesso e a ter hábitos alimentares inadequados”.

Quando a cabeça não tem juízo…

A psicóloga clínica acompanha muitos homens no seu consultório de sexologia e tem verificado que os mais jovens “estão muito preocupados com o tamanho, o formato e o aspeto do pénis, e com a duração da relação sexual”. Acima de tudo, frisa Vânia Beliz, esses jovens “têm medo de não conseguir corresponder às expetativas das parceiras, que nalguns casos têm mais experiência sexual”.

Esta ansiedade poderá estar relacionada com a visualização excessiva de pornografia: “As pessoas têm que perceber que a pornografia está feita para criar excitação rápida em quem a consome. Não espelha a realidade”. Marcelo Carvalho concorda que, com o acesso fácil a conteúdos pornográficos, está a “criar-se uma distorção do comportamento sexual, não só na cabeça deles, mas das parceiras também”.

Persiste a redutora ideia de que todos os homens têm um apetite sexual voraz e são insaciáveis. “Espera-se que tenham sempre vontade, que tenham iniciativa e que estejam disponíveis e prontos quando uma mulher os procurar”, critica Vânia Beliz. Mas, tal como elas têm dias ou mesmo fases em que não lhes apetece ter relações sexuais, também eles têm momentos ou atravessam períodos similares. Particularmente, se a carga de trabalho e as responsabilidades familiares tiverem aumentado.

E… o corpo é que paga

“O stress é mais agressivo no homem que na mulher, porque acaba com a qualidade da ereção e a pessoa começa a ficar letárgica, cansada, sonolenta, prefere dormir”, esclarece Marcelo Carvalho. Porém, as dificuldades e falhas ocasionais não são razão para alarme. As sirenes só devem soar quando os problemas se prolongam no tempo.

“Se um homem acordar sem uma ereção matinal durante três meses consecutivos, ou se tiver seis meses sem conseguir reagir a estímulos sexuais (visuais, sonoros, olfativos, táteis), provavelmente tem uma disfunção”, informa Vânia Beliz. Falamos de falta de desejo sexual, de impotência, de ejaculação prematura e de inibição do orgasmo. Nestas circunstâncias, a sexóloga encoraja-o a consultar o seu médico de família ou um urologista. “Tem que procurar ajuda”, reforça. Ignorar ou adiar a visita a um especialista pode agravar a situação, que pode revelar-se mais tarde e ser mais séria do que pensa. “Se está com dificuldade sexual e não for de origem psicológica, pode ser consequência de uma doença crónica.

Por exemplo, a maior parte dos homens com diabetes tem disfunção erétil”, alerta a psicóloga clínica. A hipertensão e o colesterol também foram associados ao mesmo problema. Também deve ter em atenção que a toma de medicamentos antidepressivos e ansiolíticos afeta o desejo,assim como os analgésicos diminuem a resposta sexual.

Enfermeira ao serviço… ou não?

Eles são mais complexos do que se quis até agora que aparentassem. Quanto mais rápido reconhecermos isso, melhor será para a sua sexualidade. Isto porque, por vezes, consciente ou inconscientemente, as mulheres podem agravar a situação. “Há muitas disfunções sexuais que são perpetuadas por pressão das parceiras”, revela Vânia Beliz. Tende abstrair-se das perguntas constantes sobre o que o leva a evitar o contato sexual. São pois frequentemente causadas por insegurança da parte delas. “Não ter desejo não significa que não ame a sua parceira e que já não sinta vontade de estar com ela”, declara a psicóloga.

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