Segundo Epicovid-19-BR · 28/05/2020 - 11h25

Falta de testes e assintomáticos são 'calcanhar de Aquiles' do Brasil


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Pesquisadores da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), no Rio Grande do Sul, à frente do Epicovid19-BR, primeiro estudo nacional sobre o avanço do novo coronavírus, divulgaram os resultados da pesquisa "Covid-19: Várias epidemias em um país só" na última terça-feira (26). Com informações do R7.

Segundo pesquisadores, baixo índice de testagem prejudica controle da pandemia no país
Segundo pesquisadores, baixo índice de testagem prejudica controle da pandemia no país     Pixabay

O levantamento, feito com apoio do Ministério da Saúde, alertou para a subnotificação de casos no Brasil. Segundo o Epicovid19-BR, o estado de São Paulo, por exemplo, teria 380 mil pessoas com anticorpos para a doença, enquanto o governo estadual contabiliza cerca de 38 mil casos de acordo com os números mais recentes.

A primeira fase do Epicovid19-BR, realizada entre os dias 14 e 21 de maio, já apontava que o número de casos no país seria sete vezes maior do que os divulgados pelas autoridades. 

De acordo com Pedro Hallal, coordenador do Epicovid-19, "o grande calcanhar de Aquiles" no enfrentamento da epidemia no Brasil é a baixa testagem para a doença. "Comparado a outros países, ainda testamos muito pouco, e de forma seletiva, priorizando casos mais graves." 

No evento de divulgação da pesquisa, Fernando Barros, professor emérito da UFPel, afirmou que não é possível prever se o Brasil atingiu ou não o pico da curva de contágios, e chamou atenção para a subestimativa do transmissão por assintomáticos, ou seja, de pessoas que pegaram a covid-19, mas que não desenvolvem os sintomas, como febre e tosse. 

"Não conseguimos nenhuma informação de que tenhamos chegado a um ponto em que a curva de contágios fará uma inflexão. O impacto dos casos não estimados é o seguinte: se a pessoa não sabe que está doente, ela vai para as ruas e contaminará outras." 

"A fase mais contagiosa é a pré-sintomática, por isso a importância de se fazer muitos testes e isolar positivos", Fernando Barros, professor emérito da UFPel

Para Barros, o maior obstáculo do país para isolar os focos de contágio é a densidade demográfica. "Fazer isso é difícil em um país com mais de 200 milhões de pessoas durante a fase aguda da doença. Os países que conseguiram controlar melhor a epidemia, como Finlândia e Singapura, são evidentemente menores. No nosso caso, fica muito mais difícil isolar a infecção e abafar os focos"

De acordo com o Ministério da Saúde, 460.102 testes moleculares (RT-PCR) foram realizados até o momento, de um total de 24 milhões prometidos para este ano. Durante o mês de abril, um balanço do Our World Data colocava o Brasil em 60º lugar no ranking de testes por países. 

Como a estimativa é feita

Segundo os pesquisadores, a testagem usada no estudo — produzida pela fabricante Wondfo e doado ao Brasil pela Vale — possui probabilidade de falso negativo entre 14% a 15% e falso positivo de 0,2%. Os pesquisadores fizeram 25.025 entrevistas e testes para o coronavírus em 90 cidades. Em cada uma delas, pelo menos 200 pessoas foram testadas por sorteio para descobrir se têm anticorpos para o vírus.

A proporção de pessoas que têm ou já tiveram o coronavírus foi estimada em 1,4%. Levando em conta um cenário populacional de 209,5 milhões de habitantes, a probabilidade é de que mais de 2 milhões tenham contraído a doença.

Cidades mais afetadas

A pesquisa também apontou as regiões mais afetadas pela transmissão do coronavírus. As 15 cidades com maiores índices da doença incluem 11 da Região Norte, 2 do Nordeste (Fortaleza e Recife) e 2 do Sudeste (Rio de Janeiro e São Paulo). De acordo com Fernando Barros, a intensidade da transmissão em determinadas cidades é proporcional aos lugares onde o vírus chegou antes. 

"Rio de Janeiro, São Paulo, Fortaleza e Manaus foram grandes hubs de transmissão. Sabemos que houve pessoas contaminadas mais cedo." 

Em cidades como o Rio Grande do Sul, que já começa a relaxar medidas de distanciamento social, o alerta é para pessoas que têm contato com grupos de risco, podendo ocasionar um novo pico da pandemia. 


Fonte: R7

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