Música Piauiense · 28/11/2021 - 09h21

Resenha | Káfila – Necropolítica


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    Reprodução/Divulgação

 

O povo brasileiro passa pela fase mais negativa de sua existência se sujeitando ao pior governo de sua história. E isso é um exemplo claro da malignidade que o conceito da “necropolítica” vem sendo aplicado em nosso país. Para agravar a situação fomos acometidos por uma epidemia de caráter mundial, limitando no mínimo com isso as ações de protesto. Nessas circunstâncias, no meio musical, o punk rock sempre foi o bastião da sociedade oprimida com sua posição política bem definida. É um fato.

Este artigo foi escrito originalmente no blog Noise Land.

Mesmo sem poder contrapor, ir às ruas para protestar, organizar eventos; sobrou o verbo como arma mais contundente e isso pouquíssimos, até então, o souberam fazer com propriedade e qualidade. “Necropolítica”, o título do recente EP do veterano trio punk/hardcore piauiense Káfila, me impressionou bastante. A banda tem história para contar e referências de sobra – como indicador respeitável tá inclusa no rol dos bons sons punk/hardcore como Cólera, R.D.P., Pastel de Miolos, Karne Krua, Rotten Flies, etc.

 O discurso em forma de protesto contundente das faixas “O Palhaço”, com boas guitarras e o refrão grudento “O palhaço te enganou, otário!”, “Permanecer ou Não” e “Familicia” vão direto ao assunto apontando o dedo contra o fascismo miliciano assentado no Planalto; como todos nós gostaríamos de dizer e não tivemos capacidade. Completa o disco a nova versão para a sugestiva música “Sinto Muito”. Até agora meus ouvidos desconhecem outra banda ou artista que tenha sido tão visceral.

Além disso, o velho clichê se aplica fortemente aos três experientes músicos do quanto mais velho melhor. Pois é, ao longo de sua trajetória a sonoridade ficou mais apurada – embora não haja muita concessão no gênero musical – e uma produção muito bem ajustada nesse play, créditos para o Rubens Lerneh.  A participação dos conterrâneos punkster Jairo Mouzzez (Kandover), Heitor Matos (Cianeto HC) e Chakal Pedreira (Obtus) deram um “plus” nesse petardo de seis minutos. Para fechar, o EP inaugura o selo da banda e uma capa sensacional assinada por Assis Machado.

Segundo a filosofia oriental, o sofrimento e a mudança são partes do desenvolvimento do ser-humano para que se torne melhor, mas de forma alguma nos aconselha a ficar com os braços cruzados!

Um discaço! Altamente recomendado.

*Jesuíno André

**Jesuíno André é um dos idealizadores do podcast Meu Sons e um dos responsáveis pela criação do memorável fanzine Musicland. Produtor cultural da cena rock independente de João Pessoa – PB e um dos criadores do selo musical Musicland Records.

 

 

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