Sem spoiler, pode ler! · 29/06/2020 - 17h07 | Última atualização em 29/06/2020 - 18h52

Crítica | Terceira temporada de Dark veio para coroar como uma das melhores da atualidade


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Esta resenha crítica da terceira temporada de Dark foi escrita pelo Anderson Fernando e não contém spoiler.

 

    Reprodução/Netflix


 

A 3ª temporada de Dark veio pra coroar o seriado alemão como um dos melhores da atualidade. Sem fan service, ao longo da 3ª temporada quase todas as respostas deixadas em branco ao fim da 2ª temporada são respondidas, enquanto muitas outras são adicionadas e respondidas ao fim do seriado.

Como sabemos, ao fim do ep. 2.08, Jonas é salvo do Apocalipse por uma cópia idêntica de sua amada Martha, que, no entanto, faz questão de pontuar que ela não é quem ele pensa. A temporada então inicia com a viagem dos dois não apenas no tempo, mas a uma realidade/mundo paralelo. Nessa realidade alternativa, eles voltam exatamente a 4 de novembro de 2019 ainda em Winden, o dia do desaparecimento de Mikkel, entretanto, Jonas percebe que quase todos os personagens são os mesmos do mundo onde ele cresceu e tenta desesperadamente salvar, exceto por um, ele mesmo. Agora, além de viagens através do tempo também é possível a viagem por meio de realidades alternativas, mundos que se entrelaçam por meio de seus 2 heróis, Jonas e Martha.

Veja o infográfico feito pelo Anderson e postado no seu perfil dos personagens de Dark caso se perca no meio do caminho:

 

Essa realidade paralela tem outras características bem peculiares que nos leva a taxá-la como um mundo invertido. Além de uma Winden sem Jonas e sem o desaparecimento e a consequente viagem no tempo de Mikkel, tudo se apresenta de forma invertida da realidade que conhecíamos até então. A casa que Martha mora, que é a mesma de Jonas nas primeiras temporadas, tem a escada e a cozinha em posições invertidas, as chaminés da usina da cidade aparecem em lados opostos ao que conhecíamos e o mais intrigante, os ferimentos no rosto da viajante Martha mudam de lado conforme ela alterna entre os 2 mundos.

No entanto, uma Winden sem Jonas não está livre dos mesmos erros e lutas temporais da Winden que nosso primeiro protagonista é oriundo. Na ausência de um Jonas, Martha é o indivíduo que viajará através dos anos tentando encontrar o ponto original que causa tanta dor e sofrimento e que desemboca, por fim, no Apocalipse. Da mesma forma, como Jonas em algum ponto da sua jornada se torna Adam, Martha também será guiada à conversão em Eva, que como seu representante na outra realidade, quer que tudo aconteça como sempre aconteceu, tendo inclusive sua própria versão de Sic mundus. Nesse sentido, quando as versões idosas de Jonas e Martha se tornam, respectivamente, Adão e Eva, Dark dá aos dois personagens em seus respectivos mundos os mesmos papéis a desempenhar, porém intrinsecamente conectados da mesma forma que os personagens bíblicos.

Apesar de apresentar uma realidade alternativa (invertida) na 3a temporada, Dark nos mostra que as ações tomadas pelos personagens serão as mesmas, independentemente do mundo em que vivem, apenas não, necessariamente, ocorreram no mesmo tempo que na realidade que nos foi primeiramente apresentada. Além disso, percebemos que a luta que havia sido travada até a 2a temporada não era, necessariamente, uma luta entre Jonas e Claudia x Adam/Sic Mundus, mas sim uma luta do mundo invertido comandado por Eva versus o mundo comandado por Adam. É, na verdade, a luta pela existência de cada um desses dois mundos, pois segundo o conhecimento adquirido por cada um de seus líderes até então, era impossível a coexistência pacífica dos 2 mundos, sem que isso levasse ao Apocalipse em ambos. Dessa forma, um deveria ser derrotado, para que o outro alcance a existência sem dores. E esse embate fica evidente nessa temporada, além de clarear diversas ações passadas que foram fruto desse objetivo.

Outro ponto bastante claro na 3a temporada diz respeito ao porque de todas essas viagens no tempo. Noah e Adam sempre falavam em um paraíso que viria através das ações do Sic Mundus. E é nessa temporada que isso fica claramente explicado. Voltar no tempo surge de uma vontade quase descomunal do ser humano de não lidar com a dor da perda e os seus erros. O mundo ideal onde a qualquer erro ou dor o destino pudesse ser alterado e as dores e erros apagados. O paraíso nada mais seria então do que a ausência completa do sentido de existir, uma vez que o indivíduo naquele lugar não se permitiria vivenciar todas os sentimentos humanos em sua plenitude. Além de ser um ponto que atravessa toda a 3a temporada, é o ponto que, como vemos no final, gera o que Jonas, Adam, Claudia, Martha e Eva procuraram durante toda a sua existência, o nó original que cria tudo, os mundos paralelos e as viagens no tempo.

A 3ª temporada marca o fim de Dark e também não por acaso, o desfecho da trama da série passa pela busca de uma 3ª alternativa, pois tenta fugir da dualidade que nós seres humanos carregamos entranhados em nós mesmo, ou se é preto ou branco, bom ou mal, luz ou sombra. Ao longo das temporadas iniciais tem-se que Adam e o Sic Mundus são os vilões e que o nosso jovem herói Jonas deve derrotá-lo a todo custo. Mais uma vez ao longo da 3ª temporada isso cai por terra. Na luta incessante entre os 2 mundos, as ações dos grupos liderados por Adam e Eva, respectivamente, nos levam a questionar esse julgamento prévio. Não há mais como taxar as atitudes simplesmente como boas ou ruins. São dois grupos tentando a todo custo vencer uma guerra que garantirá a sobrevivência do seu mundo. Da mesma forma, buscando fugir dessa dualidade o desfecho da série leva a isso, por que temos que escolher entre uma realidade à outra? Por que não uma terceira alternativa?

O encerramento da trama temporal de Winden que encantou e intrigou o mundo não poderia ter acontecido em melhor estilo. A cada novo episódio as respostas que achávamos que eram respondidas eram colocados em xeque novamente por roteiro belissimamente escrito, bem amarrado e sem pontas soltas, no fim tudo fez sentido até quando parecia não fazer. Além das referências tanto filosóficas, que já perpassavam toda a série, há também várias referências cinematográficas ao longo da temporada, indo que vão de 12 macacos, a série, à Origem, por exemplo. Um belíssimo fim para essa jornada através do tempo.

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