Após diversos anos trabalhando com medicamentos, percebo como é difícil a mudança da visão que os gestores possuem dos medicamentos.
Se pegarmos o contexto de como o medicamento adquiriu tamanha importância nas políticas públicas, pode ficar mais fácil entender a visão errônea destes gestores sobre tal insumo.
Vivemos há algumas décadas, um processo de medicamentalização tão intenso, que levou a maioria da população a pensar que uma consulta médica onde não haja a prescrição de um medicamento, poderia atestar a má qualidade desta consulta.
Durante anos, fomos orientados por artistas e esportista que emprestaram suas imagens e falas na TV, para orientar que este ou aquele medicamento deveria ser utilizado em determinada situação. Assim, era somente tomar tal medicamento e a dor sumia ou para gripe, era só tomar tal medicamento.
Desta forma, fomos absorvendo as informações de que medicamentos podem e devem ser utilizados a qualquer momento, basta que tivéssemos um sintoma que se encaixasse a indicação propagada pelo artista.
Esta lógica, acabou por “contaminar” o pensamento dos gestores, que subconscientemente passaram a associar a assistência farmacêutica a disponibilização de medicamentos em quantidades que a população buscasse, sem nunca pensar em uso racional.
Este pensamento e as ações dele decorrida, nos levaram a ser o país com maior índice de intoxicações por medicamentos. Não bastasse isto, poucos estados e municípios compram medicamentos balizados por um bom planejamento em que permita a disponibilização deste insumo no momento e em quantidades necessárias, sendo prática comum, a falta de medicamentos básicos e/ou o descarte de medicamentos por expiração do prazo de validade.
Ademais, além de compramos mal por ausência de uma programação, dispensamos pior ainda. Medicamento sem a orientação do uso é um passo para o surgimento de intoxicações. Em todo o mundo dito civilizado, o farmacêutico é um dos profissionais de saúde mais disponíveis e requisitados pela população e pela classe médica, aqui no Brasil, somente agora este profissional começa a ser reconhecido pela sua função de orientador do tratamento prescrito pelo médico, sendo profissional de saúde mais próximo da população.
Os gestores têm que mudar o pensamento e focar mais no planejamento e na dispensação, no que na simples aquisição, sob pena de continuarmos a não tratarmos os que necessitam e condená-los a viver com sequelas de doenças que poderiam ter sido tratadas e não foram, enquanto medicamentos são descartados no lixo por expirarem o prazo de validade.
Seremos condenados ainda, a exibirmos o título de campeões em intoxicações medicamentosas onde geralmente as principais vítimas são as crianças.
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