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Risos. A piada do século! · 29/08/2016 - 08h28

Cinthia Lages registra queixa contra chargista do PI por conta de charge

Profissional invocou a Lei Maria da Penha para se dizer vítima. Vítima da atividade intelectual?


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Por Rômulo Rocha – De Brasília
* Posicionamento/Opinião

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_Fato é um perigoso precipício contra a liberdade de expressão num estado onde inúmeras autoridades pressionam para que notícias não sejam divulgadas...

_ “Enquanto o mais babaca dos talibãs não for capaz de compreender minha arte, eu me recuso a expressá-la, é isso?”, do então diretor do jornal semanal francês de charges satíricas Charlie Hebdo, assassinado com tiros de fuzil no início do ano de 2015 por fundamentalistas islâmicos.

- “Mesmo que vocês fossem mudos eu lhes cortaria a palavra, querem saber como farei isso? Pois bem, vou lhes cortar as mãos [...]”, postagem contra os membros mortos do Charlie Hebdo, feita no Instagram.

- É isso o que queremos, silenciar os chargistas do Piauí usando, aqui, o Estado para intimidá-los?

- Ou ainda, tal qual como o Charlie Hebdo: uns utilizam palavras. Outros utilizam armas. Uns utilizam charges. Outros o Estado. Então que tal o Estado vir abaixo? É com esse tom questionador que o Charlie se porta. Mas e daí?
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O EFEITO BORBOLETA
A jornalista Cinthia Lages, do Sistema Integrado Meio Norte de Comunicação, registrou Boletim de Ocorrência junto à Delegacia da Mulher contra o ex-chargista do Grupo de Comunicação Cidade Verde, Izânio, por conta de uma charge em que retrata o recebimento de dinheiro público pela profissional em questão. A charge foi retirada da então página do profissional no site do meio de comunicação - e até do Facebook -, à época, pouco depois de ser postada, mas foi repercutida pelo Blog Bastidores, do 180, ganhando ampla visibilidade. Problema? Fora ter sido sacada a mando de superiores, nenhum.

Tem-se aqui uma pessoa pública que recebeu dinheiro de um órgão público do governo do estado e que foi retratada em uma charge que reportava fatos de interesse do contribuinte. Fato. Humor. Nada mais. E só tolos atentam contra o humor. O ex-presidente Fernando Collor e sua então equipe de governo sabem bem disso quando dos tempos que antecederam seu impeachment. Sabem que ir contra o humor era um novelo maior de incômodos.

O problema é que a jornalista Cinthia Lages, munida de uma advogada, está tentando levar a questão para um outro lado: supostos ataques à sua imagem enquanto mulher, com base na Lei Maria da Penha, pelo fato de ser mulher. Durante a audiência preliminar na delegacia, teria sido relatado que Cinthia estaria sendo vilipendiada após a publicação e que Izânio não teria o direito de reportá-la daquela forma, mesmo sendo ela, reafirma-se, uma pessoa pública que recebeu dinheiro público, do governo estadual.

Ora, num estado em que inúmeras autoridades – e o Blog Bastidores sabe bem como é isso – pressionam para que matérias sejam retiradas do ar ou não sejam publicadas, em que a liberdade de expressão, que engloba a de imprensa, precisa ser diariamente reafirmada, mesmo com denúncias claras e irrefutáveis contra corruptos nos mais altos escalões da esfera administrativa estadual, tal comportamento vindo de uma jornalista soa como uma enorme aberração.

Narra a fonte que Cinthia Lages se fez de vítima na delegacia, e sugerem as intenções nesse primeiro momento que o desejo da profissional é que Izânio não a reporte mais de forma alguma, num clássico e temerário ato de censura. O que é pior é que a delegada Wilma Alves, que conduziria o caso, emitiu sinais de que o chargista teria cometido excessos.

Recentemente, o titular do Blog Bastidores, que também atua em prol do direito das mulheres, questionou, de forma veemente, uma senadora da República no caso envolvendo o espancamento da ex-esposa do vice-prefeito de Esperantina, porque a parlamentar silenciou diante do fato noticiado ao longo de duas semanas: um espancamento brutal [Entre o dever e o voto: senadora silencia sobre violência de vice contra a mulher], sendo Regina Sousa apoiadora do político em sua reeleição, mas antes de tudo uma integrante da Comissão Mista do Congresso Nacional de Combate à Violência Contra a Mulher, e atuante na causa.

Mas aqui, no caso envolvendo o chargista, é de uma irracionalidade tamanha confundir liberdade de expressão com atentado à dignidade da mulher. Segundo relatos, Cinthia teria alegado que depois da publicação da charge, até chamada para fazer programa foi. Fato a se confirmar. Mas que não implica em nada na conduta do chargista. Ele retratou uma situação somente, baseado em fatos, e com humor, embora ferino. Algo que as Cortes Superiores não condenam como excessos jornalísticos. É só ver a jurisprudência. Durante o 'encontro' na delegacia também teria ocorrido a citação de um termo publicado no Blog Bastidores quando o espaço jornalístico descreveu a charge - a divulgando-a. No ambiente policial teria sido exposto que a publicação afirmou que a apresentadora estava “animadinha” na retratação (VER AQUI). Pura atividade de interpretação de um desenho de imprensa feito em um determinado e correto contexto.

Sem falar que a delegada em questão, que estaria a apurar a existência de um crime fantasmagórico, porque não o há, ao que tudo indica, já se fez presente, em ao menos um programa apresentado pela jornalista que si diz atacada por ser mulher. Haveria, em tese, uma suspeição na condução dessa questionável investigação onde se põe, frise-se, em xeque, claramente, a liberdade de expressão. A ascensão da mulher ao mundo profissional, com cargos de visibilidade, algo que assim o deve ser, não pode, entretanto, privá-la de críticas fundamentadamente jornalísticas.

Porque se assim o fosse, não seria uma igualdade de gêneros, mas uma desigualdade de gêneros que já inicia viciosa. O que também é condenável. Acrescente-se que não se pode começar a ter medo de criticar mulheres públicas na imprensa sob pena de ter que ir depor na Delegacia da Mulher para se explicar. Isso é extremamente temerário e atenta contra a Constituição Federal, Carta Maior do ordenamento jurídico do País. Aparentemente estão querendo tornar a imprensa um caso de polícia. E o que é pior, vindo de uma jornalista, que não parece bem saber os reais limites de sua profissão e da função que ocupa.

CARLOS MORAIS JÁ ATENTOU CONTRA O BLOG BASTIDORES. PERDEU!

O Portal 180 já foi processado porque o titular do Blog Bastidores, em um texto publicado no ano de 2014, quando ainda somente prestava serviços esporádicos ao meio de comunicação em questão, direcionou críticas contra o apresentador Carlos Morais – eternizado como companheiro do polêmico apresentador Donizette Adalto. E o que se dizia? Se tecia críticas à forma como o profissional conduzia o programa Agora, da TV Meio Norte [Juiz nega liminar a Carlos Moraes e mantém matéria publicada pelo 180]. Um programa sem sal, chegou-se a insinuar na época.

Não satisfeito, Carlos Morais pleiteou junto à 7ª Vara Cível da Comarca de Teresina a retirada da publicação do ar e a condenação do portal. A então editora do 180, Apoliana Oliveira, foi parte no processo, acionada na petição inicial na ação movida pelo apresentador. Em sua decisão, o juiz Sebastião Firmino Lima Filho assinalou que “ao tratar dos direitos e garantias fundamentais, a Constituição Federal, em seu art. 5º, inciso X, preocupa-se em defender a honra e a imagem das pessoas. Por outro lado os incisos IV e IX da Carga Magna também elevou à condição de direitos e garantias fundamentais a “livre manifestação de pensamento” e “a liberdade de comunicação”.

E que “para a solução dos conflitos, impera, portanto, a técnica de ponderabilidade dos princípios em jogo, a fim de se efetivar a salvaguarda dos núcleos essenciais sem que haja o completo perecimento de um em face do outro”. “Cumpre sopesar, que as pessoas públicas estão sujeitas a críticas no desempenho de suas tarefas, e o requerente, por se tratar de homem público, deve suportar críticas e insinuações acima do que há de suportar aquele que não assume tais responsabilidades, pois o peso da vida pública impõe incessante análise do público e críticas da imprensa”, cravou o magistrado.

O juiz Sebastião Firmino Lima Filho sustentou ainda que “analisando a matéria jornalística em questão, que li com cuidado e cautela, verifico que não há nenhum dano à imagem e à honra do requerente, mas manifestação de opinião e críticas ao desempenho do requerente no seu trabalho televisivo, fato esse que deve ser suportado pelo requerente, face a sua vida pública e trabalho voltado para o público”.

Ora, o que a jornalista Cinthia Lages, alvo da charge, não compreende, ou finge não compreender, é que o fato reportado na representação, um simples desenho artístico-jornalístico, com base em notícias publicadas pelo 180, estava a retratar uma mulher pública que recebeu dinheiro público de um governo, ao que se imagina, deveria ajudar a fiscalizar – salvo as preferências e escolhas profissionais de cada jornalista. Isso no Brasil.

Gritt Eggrichs, jornalista alemã, que veio ao Piauí entrevistar o titular do Blog Bastidores, inicio do ano, e o acompanhou em uma viagem de três dias a Camocim, no Ceará, onde se apurava o assassinado de um radialista com repercussão em âmbito nacional, relatou que é impensável na Alemanha um jornalista receber dinheiro de órgão público. Mas nos casos raros em que acontece, isso tem que ser explicitado. Como se vê mais uma vez, tem-se no Piauí uma inversão de valores, e o Estado, a exemplo do que sofre o blog em questão, pertencente ao 180, é usado não para apurar e coibir as reais dicotomias em sua essência, mas para vê-las mantidas em prol daqueles que supostamente se locupletam dele: o sistema. Afastando os caras 'maus'.

O mais aberrante ainda é que ao 180 foram reportados relatos de que Cinthia Lages está extremamente chateada, e teria chegado a choramingar na audiência com a delegada Wilma. E por quê? É que a retrataram como Marilyn Monroe, uma suposta "prostituta" de Hollywood, na visão da apresentadora. Cristo do Céu. Para o mundo porque haverá quem queira descer. Nam... Cíthia Lages estaria inconformada por que foi comparada à sensual Marilyn Monroe? Traz logo um copo d´água. É demais. Ah... então se ela tivesse sido retratada como a Madre Teresa de Calcutá, recebendo dinheiro público enquanto jornalista, podia? Mas aqui, sim, seria um demérito, não? Não contra ela, claro, mas contra a Santa Madre. Porém, ainda assim, seria pura liberdade de expressão. Que Estado - já carente de valores morais - se quer construir, realmente, procurando censurar seus profissionais de imprensa? É a pergunta que se faz. Nada contra a jornalista, mas contra o ato que está procurando perpetrar. E são pelos atos que somos vistos, julgados, rotulados, citados, representados, retratados, que passamos para a história. Ainda mais quando se é uma pessoa pública.

Também se levantou alegações de que a chateação deriva das cédulas retratadas, e que estariam ali em direção às partes íntimas de Cinthia Lages. Cinthia Lages não, um desenho. Mais uma bobagem. O jornal satírico francês Charlie Hebdo é ímpar em retratar seus homens e mulheres públicas de forma dura e criticamente mordaz.

O próprio presidente da França, François Hollande, quando veio a público que ele teria pulado a cerca e traído a ex-companheira, os chargistas daquela publicação o retrataram com o danadinho de fora. É polêmico? É. Mas é suportável. Lá também é polêmico, diga-se de passagem. Mas é visto como liberdade de expressão, passível de crítica, tudo bem. Mas tolerável. Ruim com a imprensa. Pior sem ela. Lá na França, a traição do presidente França foi noticiada pela revista Closer. O Piauí está a anos-luz de algo assim acontecer. É uma sociedade intolerante, radical, só não mata com fuzil, mas há integrantes que usam seu Estado, entre outros métodos, para censurar e aniquilar profissionais de imprensa. O reflexo disso é o baixo nível dos seus políticos, porque a imprensa não é autorizada a cobrá-los. E quem tenta fazer é reprimido, escanteado, espalham boatos, procuram nivelar por baixo. Mas não é por isso que não se vai querer romper tamanhas amarras.

UMA REVERÊNCIA AO 'PRESIDENTE' OU 'MEU, PRESIDENTE'
_François Hollande: presidente da França, com o suposto danadinho de fora...

“CARTA AOS ESCROQUES”
_ O efeito borboleta da liberdade de expressão

No manifesto póstumo de Charb, então diretor do jornal satírico francês Charlie Hebdo, fuzilado por extremistas islâmicos por conta de suas charges - jornal cuja sede foi visitada pelo titular do Blog Bastidores após o ato de terrorismo -, titulado na versão brasileira de “Carta aos Escroques da Islamofobia que fazem o jogo dos racistas”, ele é bem claro,