180graus

- 04/04/2011 às 08h00

Sistemas de avaliação de desempenho no Brasil

Os jornais publicaram recentemente notícias, de profundidades variadas, sobre o conflito que se instaurou entre músicos e maestro na mais tradicional orquestra sinfônica do País. No epicentro, a decisão do regente de aplicar provas aos músicos como parte do que ele qualifica como esforço de melhoria contínua do nível artístico do conjunto.

Como toda crise, essa não foi provocada pelo fato que a fez eclodir. Existe um contexto favorável ao seu surgimento: dificuldade de obter fontes de financiamento para a manutenção de bons conjuntos, indefinições quanto ao papel do Estado na sustentação das orquestras, falta de apoio da maioria dos setores da sociedade, etc. Sobre esses aspectos bastante se escreveu nas últimas semanas.

Meu objetivo, aqui, é chamar a atenção para um aspecto da cultura organizacional brasileira, fundamental para o aperfeiçoamento da qualidade da gestão e que corre o risco de passar despercebido nesse episódio. Trata-se da dificuldade de estabelecer sistemas de avaliação de competência, desempenho ou mérito.

No meio acadêmico, no qual atuo, destaco dois episódios relativamente recentes. Um foi a iniciativa de instituir a avaliação de docentes na Universidade de São Paulo (USP). Vários professores vieram a público protestar contra a medida, sindicatos mobilizaram-se e os seus propositores foram apresentados das piores maneiras possíveis. Outro foi a introdução da avaliação dos egressos - primeiro, por meio do "Provão" e, atualmente, do Enade. A ambos se opuseram, entre outros, os estudantes, que chegaram a sabotar o exame. Até hoje, sob argumentos diversos, os egressos da USP e de universidades federais não se submetem a essa avaliação.

A professora Lívia Barbosa, no livro Igualdade à Brasileira, documenta como são recorrentes as tentativas de que o acesso a cargos e a progressão nas carreiras, no Brasil, se faça em função de mérito e competência, e como são igualmente repetidos os ataques a esse tipo de iniciativa e o seu fracasso. Ela chama a atenção para o fato de que a primeira Constituição brasileira, de 1824, já consignava que a admissão aos cargos públicos se faria sem outro critério que não o dos "talentos e virtudes" dos postulantes. A Constituição de 1891 reafirmou as condições de capacidade como critério de acesso. E as Cartas de 1937, 1946, 1967, 1969 e 1988 estabeleceram que o critério de admissão deve ser o concurso aberto. No entanto, os projetos para concursos públicos apresentados ao Congresso Nacional são, um a um, arquivados ou têm curta duração. O Departamento Administrativo do Serviço Público (Dasp), criado no governo Getúlio Vargas, que teve, entre outros, o papel de fiador da moderniza ção dos serviços públicos, foi sistematicamente proibido de realizar exames competitivos. A Constituição de 1988 foi acompanhada de manobra para conceder estabilidade aos funcionários não concursados à época. Recentemente, assistimos a embate no Congresso em que tabeliães defenderam seu direito de se manter à frente de cartórios em contraposição a profissionais concursados, em flagrante afronta ao que estabelece essa mesma Constituição.

Como ressalta Lívia, as pessoas dizem-se adeptas da meritocracia. Quase todas as ouvidas por ela concordaram que o desempenho deve ser o principal, se não o único critério de avaliação de funcionários. Mas, sob argumentos diversos, os que são diretamente envolvidos na implementação desse tipo de sistema terminam por ser contra. Rompimento da solidariedade entre os afetados, intensificação predatória da competição, ameaça às conquistas sociais, redução da qualidade produzida são alegações recorrentes.

Não é nosso propósito sustentar que a adoção de sistemas de avaliação de competência e desempenho tenha apenas aspectos positivos e quem se opõe a eles nunca tenha razão. Tampouco afirmar que aqueles que utilizam sistemas meritocráticos não cometem erros. Introduzir mudanças é projeto delicado. Precisa ser precedido e acompanhado por vários cuidados e técnicas. Mais básico e genérico é o que Kurt Lewin chamou, há mais de 50 anos, de descongelamento: a instalação, entre os afetados, da percepção dos benefícios, se não da inevitabilidade, da mudança.

No caso em questão, a avaliação de desempenho na Orquestra Sinfônica Brasileira, não é possível saber a distância se esses cuidados foram tomados. Várias coisas, no entanto, parecem problemáticas. O maestro afirmou, em entrevista publicada no Estado (12/3), que "as provas, desde o início, são apenas um elemento, parte de um processo mais amplo. (...) As audições têm como objetivo identificar as deficiências e oferecer aos músicos um feedback, para que eles possam se aperfeiçoar, refinar sua arte". As avaliações teriam, portanto, um caráter formativo, e não excludente. Nada sugere, contudo, que a forma como os resultados das provas se integrarão ao processo de avaliação de desempenho esteja definido, claro e comunicado aos músicos. Tampouco em que situações desempenhos considerados ruins podem resultar em demissão, situação que parece assustar mais os músicos.

Nesta, como em outras situações semelhantes, creio que o caminho seria discutir os benefícios e problemas das avaliações, minimizar seus aspectos disfuncionais, admitir erros eventuais na condução do processo, lidar com receios reais e imaginados dos afetados e seguir adiante. As evidências de que as avaliações de desempenho e a meritocracia trazem benefícios muito superiores aos problemas que causam são muitas e generalizadas. A introdução desse tipo de sistema na administração pública e privada no Brasil trará benefícios à eficiência da máquina estatal, competitividade à empresa privada e avanço às instituições democráticas.

Ilan Avrichir - O Estado de S.PauloPROFESSOR, É DIRETOR NACIONAL DA GRADUAÇÃO EM ADMINISTRAÇÃO DA ESPM E-MAIL: IAVRICHIR@ESPM.BR

Fonte: O Estado De São Paulo

Publicado Por: Wilson Carvalho

Peça seu CPF na Nota e concorra a prêmios em dinheiro. Curta a página da Nota Piauiense e saiba mais!


18 Piauienses + Influentes de 2015
10 melhores piores prefeitos
unimed fev
Últimas Notícias
20h10 'Sanatório Geral' chega a 12ª edição com muita animação e alegria; fotos 20h03 Transmissão de zika por beijo não está comprovada, diz infectologista 19h57 Jornalista é assediada ao vivo em transmissão de TV na Alemanha 19h52 Vereador reage ao ter residência invadida e dois suspeitos morrem 19h45 Organização do Carnaval culpa produção de Luiz Caldas por atraso em Salvador 19h39 Ivete Sangalo promove diversidade e beijo gay em seu bloco em Salvador 19h35 Capa da Sexy revela preferências na cama: 'Gosto mais de ser dominada' 17h55 Carnaval mela-mela é só alegria em Miguel Leão 17h30 Capote da Madrugada mistura ritmo do frevo com a folia do Piauí. Fotos 15h23 Gabriel Levi e Forró Pura Raiação agitam o sábado em Água Branca 15h20 Corso de Água Branca reúne milhares de foliões na abertura do Carnaval da Magia 15h18 Continuação: Corso 2016 15h14 Motorista morre afogado após salvar jovem no rio Canindé 14h52 Moto é roubada no centro de Beneditinos nesta manhã de Sábado 14h40 Sarah Menezes vence japonesa pela primeira vez e leva bronze em Paris 14h28 Delegacia de Homicídios vai mudar para o Centro Administrativo 14h16 'Eles estavam era rindo', diz Baretta sobre menores que mataram militar 14h03 Secretaria de Assistência Social promove carnaval da terceira idade 13h55 'BBB16': Matheus é o novo Anjo e castiga Munik, Tamiel e Daniel com o Monstro 13h54 Bastidores: Taxistas também devem cobrar Ministério Público e a Justiça 13h50 Vende-se uma belíssima CHÁCARA com quatro equitares bem próximo a Simplício Mendes 13h47 'BBB16': Cacau e Matheus tomam banho juntos após ela acusar: 'Não me deseja' 13h42 Jogo entre os blocos marcou a abertura do carnaval 2016 em Campo Largo do Piaui 13h39 Saulo se recusa a cantar Metralhadora em trio: 'Todo mundo já toca' 12h42 Corso de Água Branca reúne milhares de foliões na abertura do Carnaval da Magia

Mais Lidas


    Enquete

    Você prefere...

    Total de Votos: 190

    Válida de 01/02/2016 a 08/02/2016

    180graus no Instagramno Instagram